Estado.com.br
Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Trágico e Cômico
Seções
Arquivos
Tamanho do Texto

Especial RUSH (fase 5): Culto à personalidade

Vapor Trails (2002)
Após a volta de Peart, o Rush renascia das cinzas em 2001 e eles finalmente se reuniam para gravar. Mas precisavam de mais tempo para “desenferrujar” e o processo todo acabou se arrastando por 14 meses. Como era muita coisa guardada nos porões, as emoções ficaram à flor da pele e a banda se mostrava mais pesada do que nunca. Disposta a resgatar aquele velho Rush do início, procuraram uma nova abordagem para essa retomada da banda, depois de tanto tempo longe da estrada. A produção (que ficou a cargo de Paul Northfield) foi discutível do ponto de vista técnico e Alex Lifeson fez uma opção arriscada ao decidir não solar em nenhuma música. Mesmo com as coisas meio fora dos eixos, Vapor Trails foi o momento mais crucial do Rush desde Caress of Steel. E foi o momento em que, finalmente eles decidiram visitar lugares que nunca haviam estado antes — escolhendo o Brasil para celebrar essa volta com o registro ao vivo Rush in Rio.

Snakes and Arrows (2007)
Depois do álbum-tributo Feedback e a turnê R30 em 2004, celebrando seus 30 anos de estrada, era hora do Rush voltar ao estúdio para um novo álbum de inéditas. Snakes and Arrows é a volta daquele grande Rush que eles haviam deixado para trás em Test for Echo — e com um passo à frente. Mais temas instrumentais, mais “climas” e variações rítmicas, mais instrumentos e timbres exóticos, uma banda mais coesa… E solos, muitos solos de Alex Lifeson.

Em sua quinta fase, o Rush ganhou ares de “banda cult”, reforçados ainda mais pelo novo documentário Beyond the Lighted Stage, onde músicos do mais alto calibre aplaudem a ousadia artística do trio, que nunca deu bola para altas vendagens ou para o jogo das gravadoras. Ou, nas palavras de Geddy Lee, o Rush não faz parte do “mainstream” — o Rush criou seu próprio “stream”.

Mais uma vez o trio canadense quer sair de sua zona de conforto e, para isso, voltará ao estúdio após a turnê Time Machine, para finalizar o novo álbum, que já tem título: Clockwork Angels. A julgar pelas duas músicas já compostas (que estão no setlist da atual turnê), Snakes and Arrows parece ter deixado uma boa pista para o que virá no novo disco. “BU2B” é um rock direto, com guitarras ásperas e alterações bruscas de velocidade. Já “Caravan” traz aquela construção elíptica, típica do som do Rush, com a bateria de Peart intermediando o diálogo de guitarra e baixo com as melodias vocais e refrão.

Veja também
Rush: quando o rock vira religião
Mais Especial RUSH
Ouça o Tungcast Rush

Beyond the Lighted Stage
Caderno 2Rush, muito além do palco

Especial RUSH (fase 4): Maturidade musical

Presto (1989)
A nova fase da carreira do Rush não se daria de forma tão contundente como foi das outras vezes. Aos poucos os teclados começavam a ir para o segundo plano, abrindo caminho para o formato guitarra-baixo-bateria voltar ao front. Para dar uma nova cara à banda, outro produtor foi chamado. Rupert Hine entrou com banda em estúdio, mas não conseguiu captar essa essência. Sua produção é discreta, por vezes burocrática. Não houve uma “ruptura” sonora com o álbum anterior. As guitarras se mostram tímidas, sem distorção ou agressividade — ainda resquício do trabalho deixado em Hold Your Fire. O disco tem bons momentos, como “Chain Lightning”, “The Pass” e “War Paint”, mostra um lado funky com “Scars”, mas é em “Show Don’t Tell” que eles deixam a pista para o tipo de som que buscariam dali por diante: um som mais simples e direto.

Roll the Bones (1991)
Com Rupert Hine mais entrosado com a banda, eles se mostram mais soltos no trabalho seguinte. Dessa vez, o som se equilibra entre diversas vertentes. O ataque sonoro de “Dreamline” abre alas, dando passagem para a balada “Bravado” e abrindo para novas experimentações, como no rap da faixa-título. Uma boa surpresa foi que, depois de dez anos, uma nova tradição se reiniciava nesse álbum: a volta das músicas instrumentais, com a suingada “Where’s My Thing?”. Em Roll the Bones, o senso de humor aparece mais nas letras e mostra uma banda mais madura, que não precisa se levar tão a sério. Apesar da economia de teclados no disco, o resultado ainda soava pop em alguns momentos. A faixa-título apareceu bastante na programação da MTV e não só foi bem recebida pelos fãs, mas também rendeu uma nova horda de Rush-maníacos aqui no Brasil.

Counterparts (1993)
Finalmente Alex Lifeson perdeu o medo (ou a paciência) e bateu de frente com Geddy Lee: dessa vez ele não queria teclados no disco. Essa atitude rendeu muitas discussões entre os músicos e Peter Collins, que voltou a produzir a banda. Geddy Lee chegou a afirmar que, quando chegava ao estúdio com seus teclados para ensaiar, recebia olhares fulminantes do guitarrista. De alguma forma, esse clima tenso se refletiu no resultado final, onde Lifeson se mostrou disposto a tomar à frente e colocar sua guitarra em destaque. Para isso, optou por riffs mais simples e timbres mais pesados (até “sujos” em alguns momentos), como ficou evidente em “Stick it Out”, “Cut to the Chase” e “Double Agent”. Mesmo assim, as baladas “Nobody’s Hero” e “The Speed of Love” e o clima pop de “Cold Fire” serviram de contraponto para o disco que rompia definitivamente com aquele Rush dos anos 80.

Test for Echo (1996)
Dispostos a se desafiar mais uma vez, resolveram mudar totalmente a dinâmica nas gravações. Dessa vez, Peart traria as letras prontas para Geddy e Alex comporem a música em cima. O próprio Peart já havia se reinventado na bateria, quando foi participar do tributo a Buddy Rich e resolveu tomar aulas com Freddy Gruber. Como resultado, Test for Echo se tornou a volta do grande Rush de quinze anos atrás, que se desafiava com um trabalho forte e coezo. A faixa-título abre caminho para uma sequência de músicas marcantes como “Driven”, “Half the Word” e “Time and Motion”, equilibrando o repertório com a balada “Resist”, com o clima pop de “Totem” e com a densidade da instrumental “Limbo”. Na turnê, eles iniciaram os shows de 3 horas de duração, sem banda de abertura. E, ao final da Test for Echo Tour, a tragédia pessoal de Neil Peart colocaria o Rush em período de hibernação pelos anos seguintes.

Veja também
Rush: quando o rock vira religião
Mais Especial RUSH
Ouça o Tungcast Rush

Beyond the Lighted Stage
Caderno 2Rush, muito além do palco

Especial RUSH (fase 3): Teclados, samplers e new wave

Signals (1982)
Depois do enorme sucesso de Moving Pictures, o Rush começou a resvalar no mainstream. E para continuar a conquistar mais fãs, bastava repetir a fórmula e se jogar na MTV. Não foi o que eles fizeram. Mais uma vez, em uma reviravolta inesperada até pelos fãs, eles mergulharam de vez nos teclados, dando início à fase mais polêmica da banda (para a qual os fãs mais xiitas ainda torcem o nariz). “Subdivisions”, além de ser uma das primeiras músicas que Geddy Lee compôs nos teclados, foi o primeiro single do disco e se tornou muito popular entre os fãs “nerds” da banda. As experimentações com outros estilos continuam e “New World Man” é mais uma investida pelo reggae. Com letras falando basicamente da forma como homem se relaciona com as novas tecnologias, Signals é o primeiro passo sério da banda em direção os teclados — que, ora dominam completamente o som (“The Weapon”), ora dialogam com a guitarra (“The Analog Kid”).

Grace Under Pressure (1984)
Segundo Geddy Lee, este é um dos álbuns mais difíceis que o Rush já gravou — ao lado de Hemispheres — e também um dos que o deixou mais insatisfeito. O produtor Terry Brown tinha sido demitido, por não concordar com os caminhos que começaram a ser desenhados em Signals. Steve Lillywhite (U2) tinha acertado a produção, mas na última hora pulou fora para trabalhar com o Simple Minds. De uma hora para a outra o Rush se viu num processo caótico: ao mesmo tempo em que gravava o álbum no estúdio, procurava um novo produtor. Assim, a produção do álbum acabou ficando dividida entre a própria banda e o engenheiro de som Peter Henderson. O resultado, que tinha tudo para ser o pior possível, tornou-se num dos álbuns mais cruciais e subestimados da carreira da banda — destaque para “Distant Early Warning”, “The Body Electric” e “Red Lenses”. Anos depois, Geddy “se reconciliou” com Grace Under Pressure e reconheceu que sua má impressão do álbum estava muito mais ligada ao período difícil que eles viviam.

Power Windows (1985)
Finalmente de produtor novo (Peter Collins), o Rush entrava de cabeça nos teclados, para desespero de Alex Lifeson, que encontrou dificuldade para encaixar sua guitarra no novo som da banda. Definido pela revista Rolling Stone como “o elo perdido entre o Yes e o Sex Pistols”, Power Windows não é só o disco em que eles mais abusaram dos teclados, mas também dos samplers e bateria eletrônica (emulando sons que em nada pareciam com bateria). Os temas das letras se tornam mais políticos, como “Manhattan Project” e “The Big Money” — esta última, uma crítica mordaz ao capitalismo selvagem e à corrupção resultantes do poder e do dinheiro. O álbum é polêmico até entre os membros da banda. Neil Peart considera um dos seus preferidos, enquanto que Alex Lifeson confessa não morrer de amores por ele.

Hold Your Fire (1987)
Considerado por muitos o melhor álbum da fase hi-tech da banda, Hold Your Fire é também o mais pop de toda a sua discografia. Os teclados ainda continuam predominantes, mas dessa vez foram usados de forma mais equilibrada, para se encaixar nas melodias e se ajustar às guitarras. “Force Ten” abre o disco com pegada rock, mas flerta com o pop, que aparece mesmo em “Time Stand Still”, “Lock and Key” e “Mission”. Durante os anos 80, o público do Rush se diversificou. Alguns fãs mais xiitas abandonaram o barco (inconformados com tantos teclados), mas as mulheres se tornaram presença mais constante nos shows do Rush (e se você ainda está tentando convencer sua namorada a gostar da banda, Hold Your Fire pode ser a sua última tentativa). Mais uma vez, eles chegavam à saturação da fórmula e era hora de buscar novos caminhos.

Veja também
Rush: quando o rock vira religião
Mais Especial RUSH
Ouça o Tungcast Rush

Beyond the Lighted Stage
Caderno 2Rush, muito além do palco

Especial RUSH (fase 2): Moving Pictures

Moving Pictures (1981)

Considerado o magnum opus do trio canadense, esse álbum não é apenas o tema da turnê Time Machine, que chega essa semana ao Brasil. Sumidade entre os fãs, Moving Pictures é um marco na história do prog-rock e merece audição do início ao fim. Os flertes com os teclados já davam indícios para onde o Rush levaria seu som nos anos seguintes. O resultado é um disco mais solto e variado — sem tantas preocupações estilísticas e virtuosísticas —, e soa poderoso até hoje. É o Rush no ponto mais alto que uma banda pode atingir do ponto de vista criativo, constituindo-se na ponte mais bem pavimentada entre o progressivo dos anos 70 com o synth-rock dos anos 80. Dividindo as duas décadas não só na carreira da banda, mas no rock como um todo, captou exatamente esse período de transição por qual passava a indústria fonográfica, com a chegada do videoclipe e da MTV. E eles souberam tirar o máximo desse partido artístico, combinando rocks vigorosos com melodias mais pop, sem que se perdesse completamente a veia progressiva. Nos shows da atual turnê, o álbum é apresentado na íntegra (logo após o primeiro intervalo) e as músicas são tocadas pela ordem do disco, listada abaixo.

Tom Sawyer
Maior clássico da banda, adorado por todos os fãs de rock. O próprio Neil Peart afirmou ter sido um desafio tocá-lo ao vivo por trinta anos, sem nunca ter se cansado dele. Ironicamente, o álbum ganhou popularidade no Brasil quando a música foi usada na vinheta de introdução do seriado do McGyver, fato que deixou a banda desconcertada ao ouvi-lo.

Red Barchetta
Com atmosfera cinematográfica e variações rítmicas, essa música mostra como a banda valorizava cada vez mais o processo de composição. Com as quebras de tempo de Peart, os arpejos de Lifeson e baixo pulsante de Lee, se transformou numa espécie de “clássico esquecido” que, volta e meia, é executado ao vivo.

YYZ
Peça instrumental acelerada, virtuosa e tecnicamente irrepreensível, se tornou uma assinatura da banda. Sua pirotecnia sonora é o tour-de-force da banda ao vivo, levando o público — composto em grande parte por músicos aspirantes — ao delírio.

Limelight
A letra diz muito sobre o que é o Rush, tanto que foi dela que saiu o nome do novo documentário Beyond the Lighted Stage. Esse clássico jamais saiu do setlist nas turnês e é o momento em que a banda encontra o seu lado mais pop, sabendo dosá-lo com o rock.

The Camera Eye
Uma das músicas mais aguardadas desta turnê, já que eles resolveram trazê-la ao palco só agora, depois de anos de insistência dos fãs. Com mais de dez minutos de duração, traz os últimos resíduos do rock progressivo da banda, cheia de variações e climas.

Witch Hunt
É o momento sombrio do disco, parte da “trilogia do medo”, criada por Peart para abordar o lado B do ser humano. Esporadicamente aparece nos setlists e funciona no palco, com o timbre sinistro da guitarra de Alex em contraponto com os teclados.

Vital Signs
Após o flerte com o reggae em “The Spirit of Radio”, dessa vez o reggae é a base principal da composição. Uma das primeiras incursões do Rush pelo new wave. Outra que raramente é tocada ao vivo, reaparece para esta turnê.

_______________________________________________________________________________________

Veja também
Rush: quando o rock vira religião
Mais Especial RUSH
Ouça o Tungcast Rush

Beyond the Lighted Stage
Caderno 2Rush, muito além do palco

Especial RUSH (fase 2): Raízes do metal progressivo

A Farewell to Kings (1977)

Após o sucesso de 2112, o Rush ganha sua eterna liberdade artística junto à gravadora (que nunca mais os incomodaria dali por diante). Farewell to Kings é resultado direto dessa liberdade. Tem-se aqui o início da fase mais megalomaníaca da banda, disposta a levar seu virtuosismo às últimas consequências. Faixas mais intricadas como “Xanadu” e “Cygnus X-1” dão o tom do álbum, que ainda traz uma faixa que se tornou um dos maiores clássicos do Rush (até hoje tocada em shows): “Closer to the Heart”. Inicia-se nesse álbum também o uso de sintetizadores, que agora são parte obrigatória do som. Acionados pelas pedaleiras de Lee e Lifeson, essas nuances fazem um contraponto sonoro e tornam a execução das músicas um desafio ainda maior nos palcos.

Hemispheres (1978)

Continuando a saga deixada em aberto no disco anterior, “Cygnus X-1: Book II – Hemispheres” chega para mostrar uma banda no ápice de seu virtuosismo, perfeccionismo e megalomania. No próprio encarte, a epopeia instrumental “La Villa Strangiato” aparece como “um exercício de auto-indulgência”. Com uma introdução de violão flamenco e passagens complicadíssimas, se tornou objeto de culto de roqueiros ao redor do mundo. “The Trees” e “Circumstances” completam o álbum com uma pegada mais direta de hard rock, mas o resultado final, além de ter exigido muito de seus integrantes, deixou a banda preocupada quanto aos rumos que tomariam. A partir dali, eles decidiram que a fórmula estava saturada e que era a hora de mudar a rota.

Permanent Waves (1980)

Disposto a renovar seu som para a década que se iniciava, o Rush entra em sua melhor fase. Buscando uma distância gradativa do rock progressivo, eles abandonam as longas suítes com temáticas sci-fi e fincam o pé mais na realidade terreste. Dispostos a mesclar estilos musicais diversos (alguns até improváveis), eles começam a incorporar alguns fragmentos de reggae, ska e até de new wave no som (segundo Peart, influência do The Police e do Ultravox). “The Spirit of Radio” se torna uma dos maiores clássicos da banda (para muitos, o maior) e traz essa diversidade, com peso, melodia, riff e uma reviravolta no final. “Freewill” se torna outra faixa bastante representativa desse período e “Natural Science” é o elemento progressivo que restou da fase anterior.

Veja também
Rush: quando o rock vira religião
Mais Especial RUSH
Ouça o Tungcast Rush

Beyond the Lighted Stage
Caderno 2Rush, muito além do palco