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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Trágico e Cômico
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Passeando no Aerolula

Lula tinha prometido que, se Dilma fosse uma boa menina na campanha, ele levava ela para passear de Aerolula. Está certo que o Serra foi um menino muito mal-criado e acabou ajudando no trabalho da Dilma, mas promessa é promessa, não é? O negócio é deixar o abacaxi para o Palocci e todo o pessoal que coordenou a campanha, afinal, eram eles que iam lá limpar quando alguém fazia alguma caca na campanha…

Obrigado, Weslian Roriz

Na tragi-crônica da semana passada, exalei todo o meu pessimismo ao escrever sobre a campanha eleitoral de 2010. Foi deprimente perceber que o futuro do nosso país continuará nas mãos de petuscos e tucaneiros. Só não perdi completamente as minhas esperanças no ser humano porque essa mulher — essa santa — desceu à terra para me salvar. Obrigado, Weslian Roriz! Os brasilienses que me perdoem, mas foi só com a chegada dela que eu pude sorrir de novo. Sua candidatura foi o encontro da tragédia do nosso sistema eleitoral com a comédia pastelão (tudo isso, sem efeitos especiais — e nem colaterais, já que ela não corria o risco de vencer).

Aliando o mais refinado humor a um texto rebuscado (quase ensaístico), Weslian inaugurou uma nova escola de pensamento, mostrando uma erudição que colocou o meio acadêmico em águas nunca dantes navegadas. Intelectuais de todo o país já dissecam sua prosa e filólogos se debruçam sobre sua obra. “Se eu eleita for” e “vou dizer uma coisa ao senhor” são as novas pedras fundamentais, que iluminaram o debate político. Weslian levou minha imaginação às alturas, devo confessar. A inquietude tomou conta. Fiquei procurando formas de ser mais engraçado, mais sagaz do que ela. Tive até um sonho onde ela perguntava ao seu adversário: “queria saber do senhor, doutor Agnelo… o que o senhor achou da novela hoje?”. A Weslian é tão boa, tão assustadoramente boa, que deixo de ser chargista nessas horas… perto dela, sinto-me um cabotino, uma farsa (acho que estou em crise).

Com sua presença imponente, Weslian inibiu seus adversários políticos nos debates. Estarrecido, vi um Agnelo Queiroz obsequioso, trêmulo e errático, se encolhendo do outro lado do estúdio. “Acho que informaram mal a senhora… com todo o respeito”, balbuciou. Mas, nessas horas, Weslian soube ser magnânima (ou vidente, vai saber) ao chamá-lo de “governador”. Nem Enéas, nem Jânio Quadros, nem Plinio Arruda… nenhum candidato até hoje conseguiu ser mais espirituoso, mais folclórico do que a Weslian. O Tiririca? Coitado, não chega nem aos pés. Além de ter assessores e roteiristas, Tiririca se esconde atrás de um personagem. O humor da Weslian não é ensaiado. É tudo na base do improviso, verdadeiro, quase involuntário. Desistam, humoristas do Brasil. Não tem como competir com isso. Eu já tentei e, humildemente, reconheço minha derrota.

Dona Weslian, vou dizer uma coisa para a senhora: espero um dia receber um convite para aprender um pouco mais com a senhora. Quem sabe eu consiga absorver um pouco da sua genialidade, da sua sofisticação… Quem sabe possamos tomar um café e, quiçá, eu tenha o prazer de provar seus deliciosos quitutes. Me disponho até a assistir a novela com a senhora depois… Mas, por favor, não me deixe assim! Aguardo ansioso pelo convite… Se eu eleito for pela senhora, claro. Enquanto isso, fiquemos com um resumo do melhor do pensamento wesliano:

“Eu sou uma pessoa severamente… com essas coisas (…) Eu quero defender toda aquela corrupção”

“Vamos implantar a saúde do servidor público”

“Nós vamos intensificar o combate, não seria o combate… de tudo aquilo que o senhor perguntou para mim… Eu gostaria de dar uma resposta para o senhor muito franca… que eu gostaria de repetir pra mim qual foi mesmo a pergunta que o senhor fez”

“Isso é prioridade do nosso governo: nós somos contra o aborto e a favor da vida”

“As pessoas não vão ter só desemprego… é, falta de emprego, mas nós vamos dar capacitação… isso nós vamos dar também”

“Fique seguro que eu, como uma pessoa que sei como é as pessoas, que eu ando pela cidade, eu sei muito bem o que preciso para uma cidade de conforto nos transportes”

“Então, se aconteceu, o senhor fez. Agora, não sabemos o que vai acontecer depois disso que já foi feito”

“A coisa melhor que tem é a gente não ter nada o que acusar… a gente, lógico”

“Então eu vou fazer o governo de uma mulher pequena, mas grande o governo… se deus quiser!”

Ensinando a falar o futebolês

Pergunta do momento: será que o Lula está preparado para largar o osso? Não sei, não, mas acho que ele pode dar uma de Neymar e se recusar a sair — pelo menos no que se refere (já estou treinando o meu “dilmês” também) às metáforas futebolísticas. Como a placa da substituição já vai subir, Lula já começa a treinar Dilma para encarar mesas redondas. O treinamento já começou num CT improvisado no quintal do palácio do planalto. Entre outras coisas, Lula ensina Dilma as escalações de todos times, a classificação do campeonato, quem são os artilheiros, etc. Esperamos que a Dilma esteja logo em forma… e que o Lula não peça desconto do tempo regulamentar.

Agora é Dilma


Ah, o que não é uma ressaca eleitoral… A turma do Serra declarando “luto oficial”, dizendo que está de malas prontas para sair do país. Do outro lado, a turma da Dilma mandando chupar isso e aquilo. Quanta bobagem. Tucaneiros não sabem perder e petuscos não sabem ganhar. Ou seja, nenhuma surpresa.

Mas, como eu havia previsto na última tragi-crônica, o problema maior foi o que essa campanha representou para o Brasil. Os sintomas já começaram a se manifestar, através do surto preconceituoso e do ranço separatista entre sulistas e nordestinos. (Esqueceram de avisar a esses cretinos que a Dilma ganharia mesmo sem os votos do Nordeste).

Falando da Dilma, parabenizo-a pela eleição. Espero que cumpra suas promessas e faça um bom governo. Do lado de cá, continuo na mesma toada: sigue habiendo gobierno, yo todavía soy contra. Em outras palavras, as charges continuam (e o ceticismo também). Ao contrário do que muita gente pensa, chargistas não torcem contra o país, para que fique mais fácil “chargear” o caos. Faça ela (ou não) um bom governo, as charges estarão lá — e a nossa tragédia continuará sendo uma comédia.

Eleições 2010: ódio, preconceito e revanchismo

Quando os amigos deixam de jantar com os amigos (por causa da ideologia),
é porque o país está maduro para a carnificina.”
– Nelson Rodrigues

É hoje. Chega ao fim o castigo eleitoral a que fomos submetidos nos últimos meses. A frase do Nelson Rodrigues pode até soar um tanto apocalíptica, mas nessa eleição presidencial de 2010 ela não ficou muito distante da realidade. Especialmente no segundo turno, onde os dois candidatos e seus militantes (em estranha simbiose) deixaram de lado suas máscaras e mostraram quem realmente são. Não quero parecer exagerado, mas vejo essa campanha entrando para os autos como uma das piores da história, num retrocesso que nos levou de volta à sujeira de 1989… Ou bem antes, já que o aborto virou o tema central da disputa política, bispos viraram cabos eleitorais e até o papa deu seu pitaco. Algo realmente não anda bem no país — principalmente num estado que, ao se dizer “laico”, passa recibo de hipócrita.

Vejo como é decidida a maioria dos votos no Brasil através do mapa político-eleitoral. O PSDB é forte no Sul e no Sudeste porque privilegia políticas na infra-estrutura (que são as maiores demandas dessas regiões), mas é fraco em políticas sociais — logo tem alcance muito pequeno no Norte e Nordeste. Por outro lado, o PT é forte no Norte e Nordeste porque privilegia políticas sociais, mas não olha a infra-estrutura como deveria — logo, não desfruta da mesma popularidade no Sul e Sudeste. E numa democracia, cada um vota como quiser. Não se pode julgar as pessoas pela maneira como votam. Eu, por exemplo, anulei o voto nesse segundo turno. Podem gritar à vontade, mas tenho cá minhas razões para isso: primeiro, porque não acredito em “menos pior”, e segundo, porque a repulsa que sinto pelo “plebiscito” tucano-petista é letal. Agora, vejam a ironia: não tentei converter as pessoas à minha descrença, mas fui bastante patrulhado por boa parte das pessoas que já sabiam da nulidade do meu voto. Mesmo discordando, posso sinceramente compreender as razões para as pessoas preferirem Serra ou Dilma. Agora, quando vejo o vale-tudo dos candidatos se empregnando nas pessoas, é por que as duas campanhas conseguiram tirar o pior de cada eleitor brasileiro. Sentimentos dos mais abjetos — que estavam trancados no fundo do armário — foram despertados nessas eleições. Os argumentos que ouvi de ambos os “lados” são de uma fragilidade e venalidade assombrosas: “temos de tirá-los do poder, senão a democracia estará ameaçada!”, ou “não podemos deixá-los voltar ao poder, senão eles venderão todo o nosso patrimônio!”. Realmente, o período eleitoral é extremamente tóxico para os neurônios. É como se cada brasileiro fumasse sua pedra de crack e fosse participar da “festa da democracia”, impondo aos outros as suas concepções políticas a fórceps.

Às vezes não sei que país é esse. Queria muito acreditar nessa ascensão social que estamos vivendo, mas ainda vejo o velho ranço da luta de classes, onde “ricos” e “pobres” são inimigos mortais e precisam se odiar. Queria muito acreditar nesse país que se diz miscigenado, mas ainda é escancaradamente racista. Queria muito acreditar nesse país cordial e hospitaleiro, mas ainda vejo muito rancor, arrogância, mágoa e sentimento de vingança em muita gente. Enfim, queria apenas acreditar que o país fosse simplesmente verde e amarelo, mas só vejo a guerra entre “azuis” e “vermelhos”. Preconceito, ódio, revanchismo, generalizações, reducionismos e tudo o que há de pior para se construir uma nação. Estas foram as marcas das eleições de 2010 — e, não se engane, elas vão deixar cicatrizes. Continuamos simplificando questões da maior complexidade, como educação e saúde, ao mesmo passo que continuamos complicando questões banais, como o simples cumprimento das leis ou a separação entre o que é público e o que é privado. Não, esse não é o meu país. A essas alturas, a única coisa que eu gostaria de ver é que, depois dessas eleições, o Brasil se olhasse no espelho e fizesse uma autocrítica. Se conseguisse fazer isso, certamente, não iria gostar nem um pouco da imagem refletida. E isso já seria um grande passo para que em 2014 as coisas fossem diferentes.