Vídeos inesquecíveis da política brasileira
- 5 de fevereiro de 2012|
- 6h00|
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Categoria: Politicalha, Tragi-crônica

Desde que o mundo é o que é, o cidadão sofre com a burrice, com a incompetência e com a falta de caráter de seus governantes. Se não podemos fazer nada diante do fato de que eles foram eleitos como um reflexo de nosso próprio torpor mental, pelo menos podemos nos vingar de nossa tragicomédia debochando deles. Dois vídeos que não me canso de ver — e, sempre que os vejo, rio como se tivesse vendo pela primeira vez — são esses que compartilho aqui com você, leitor. Preparem seus corações…
O primeiro é de nosso estimado ex-presidente (hoje senador) Fernando Collor. Numa entrevista de 1997, feita em seu nababesco exílio em Miami, ele se irrita com as perguntas da repórter Sônia Bridi sobre as investigações de corrupção em seu governo. Um festival de “pantomimas” e “patuscadas” de fazer corar até mesmo um Paulo Maluf. “Mas, minha filha… Filhotinha, você está desinformada!”, bradava o ex-presidente, em tom veemente, verborrágico, numa desesperada busca pelos seus “direitos de cidadão, de pessoa humana”. As únicas verdades que conseguimos arrancar de Collor até hoje vieram desses momentos de extrema indignação. E se a verdade é filha do tempo, como Collor diz, ela sempre acaba depondo contra ele. Não é à toa que ele continue tentando desesperadamente tirar esse vídeo do ar. Se ele não gosta do vídeo, é porque é bom, então vale sempre a pena ver mais uma vez…
O outro vídeo faz parte da promoção “veja 1 e ria de 2”. Num especial do Roda Viva, Heródoto Barbeiro falava dos mais célebres barracos que o programa já havia sediado. As duas estrelas aqui já estão mortas e enterradas e, se não deixam saudade por suas discutíveis biografias, nos deixaram esses dois momentos para relembrar. Questionado sobre seu espantoso avanço patrimonial depois de eleito governador, Orestes Quércia partiu para o ataque. À medida que a temperatura subia, os ataques iam descendo: “caluniador”, “mentiroso”, “malandro”, “safado”, “canalha”. Já Leonel Brizola não gostou de ser chamado de “El Ratón” (apelido supostamente dado por Fidel Castro). Embora tenha tentado mostrar calma (“não mexeu com o meu pulso!”), se destemperou (“você quis baixar o nível, me humilhar!”). Vejam só…
Por que, afinal, esses dois vídeos são inesquecíveis, se hoje temos muito mais recursos tecnológicos para vigiar e fiscalizar poderosos? Qualquer um pode trollar um governante pelo Twitter, ou manter um blog com críticas sobre o governo, ou colocar seu vídeo-denúncia no Youtube. Ora, esses vídeos retratam um tempo em que os políticos se permitiam ser um pouco mais francos do que são hoje, deixando escapar algumas de suas fraquezas e emoções. Eram tempos em que o marketing político ainda não tinha blindado, engessado e higienizado os políticos. A marquetagem política ofereceu aos nossos homens públicos sua técnica: tirou deles o pouco de autenticidade que ainda lhes restava, removeu seus temperamentos, suas personalidades, para vendê-los como um produto para o eleitor. Qualquer reação impulsiva é contida por uma turba de assessores e aspones, qualquer opinião mais controversa é logo abafada. Isso se reflete nos debates, cada vez mais assépticos, enfadonhos e ininteligíveis.
Collor, Quércia e Brizola são de um tempo em que não eram só as ideologias que eram mais claras. As inimizades e os confrontos também. O eleitor pelo menos tinha um lado para escolher, de acordo com suas visões políticas. Hoje, entre sorrisos e tapinhas nas costas, governo e oposição fecham seus acordos e se acomodam politicamente nos governos uns dos outros. No meio desse lodo de peemedebismo, a ironia é que quem briga por eles (e, ao mesmo tempo, por nada) é o eleitor. Vem daí esse novo provérbio, que andou circulando nas últimas eleições: “Nunca discuta com um amigo por causa de políticos. Depois eles se entendem e você perdeu o amigo.”
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