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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
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A cultura do consenso agora está online (e ela ainda vai te pegar)

Categoria: Cultura, Humor, Tragi-crônica

Reza a crença popular que a ignorância é uma das maiores mazelas de nossa sociedade. Mas, por outro lado, a ignorância é direito adquirido do cidadão dentro de um estado democrático. Se ele quiser lavar as mãos diante de toda a miséria, a corrupção e a violência em que vivemos, ele tem esse direito. Da mesma forma que, se o cidadão quiser ignorar reality shows, novelas, celebridades e hits popularescos, ele também estará exercendo esse mesmo direito. Porém, tenho notado uma nova geração de ideólogos de Twitter construindo um novo consenso que diz que quem despreza essas coisas, é porque tem ojeriza a tudo o que é popular e, por isso, está sendo elitista, mal-humorado e preconceituoso. Uma tese facilmente derrubada pelo fato de que existe uma enorme distância entre o popular e o popularesco, e também entre o noticioso e o sensacionalista. E é até engraçado, mas esse mesmo pessoal se defendia antigamente dizendo que era apenas uma questão de gosto e que cada um tem o seu. Gosto não se discute, mas todo gosto é discutível, como diria meu amigo Guilherme Pontes. Não se trata de estética, mas do que cada um considera relevante. O conflito de opiniões é sempre saudável, mas, pelo jeito, o brasileiro ainda vai continuar fugindo do conflito por muito tempo. É mais fácil concordar com tudo e ser a favor de todos. Acontece que, se quisermos nossa total liberdade, precisamos começar a exercê-la. Eu não abro mão do direito de ignorar o que não considero importante, elogiar o que gosto e criticar o que não gosto. E não tenho medo de cara feia.

Antigamente, quem queria evitar, por exemplo, o delírio febril dos noveleiros, tinha de fugir dos tediosos debates sobre toda aquela gente que nem sequer existia. Mas, felizmente, o tempo passou e tudo isso acabou. A internet pulverizou o consumo de cultura, criando nichos, agregando pessoas em torno de interesses comuns. Agora nós podemos escolher que tipo de informação queremos consumir, quais blogs queremos ler, quais links iremos tuitar, quais vídeos iremos curtir e quais fotos iremos compartilhar nas redes sociais. Da mesma forma que podemos jogar na lata do lixo tudo aquilo que não consideramos relevante. Adeus, novelas, programas policialescos, reality shows e programas de auditório. A internet chegou para nos libertar dessa opressão, dessa “cultura do consenso”, tão bem descrita por André Forastieri ainda na pré-história da internet. Quando a internet se emancipou e deslanchou, um mundo de possibilidades se abriu na nossa frente. Um mundo onde cada um pode fazer suas escolhas e todos podem conviver felizes e em total harmonia, certo? Bem, mais ou menos…

Numa troca de e-mails com amigos, percebi que esse “novo mundo” ainda precisa de alguns ajustes. Fiquei só observando os e-mails, sem responder a nenhuma mensagem. Primeiro um puxou o assunto do suposto estupro no BBB. Os primeiros pontos de interrogação apareceram. As coisas só pioraram quando outro tentou enfatizar o episódio: “todo mundo só fala nisso, menos a Luiza, que está no Canadá.” Pronto, ninguém entendeu mais nada. Até que todos os links fossem expostos e toda a informação fosse contextualizada e absorvida, já tinham se passado mais de meia hora. Ou seja, se essas informações não eram relevantes para alguns, se tornaram relevantes para todos.

Mas sou brasileiro, e não desisto diante de uma tentativa frustrada. Fui ver uma outra lista de e-mails, que debatia assuntos que estão repercutindo fora do Brasil. Teria sido um sucesso se a música do Michel Teló não tivesse estourado mundialmente e se aquele reality show “Mulheres Ricas” não tivesse virado notícia no The Guardian. Adoraria não saber que a música do Michel Teló é o que estamos exportando atualmente para o mundo musical e me angustia perceber que não posso achá-la estúpida, porque serei patrulhado pelos “falsos ecléticos”. Adoraria acreditar também nas delícias do mundo “emergente”, dos “BRICs”. Mas o que fica é só o novo-riquismo e a ostentação dessa elite tacanha e alienada, que passa o dia tomando champanhe em taça de ouro e alimentando seus “pets” com filé mignon. Não sou saudosista, mas senti falta do dia em que o estereótipo da cultura brasileira era limitada a futebol, samba e mulata. Era um reducionismo, claro, mas pelo menos era mais simpático. Bons tempos…

José Saramago disse que uma boa coisa que a ignorância tem é defender-nos dos falsos saberes. Mas minha proposta de defender-me dos falsos saberes caiu por terra. Gostaria muito de poder exibir a minha completa ignorância frente ao BBB, Michel Teló, Luiza do Canadá e Mulheres Ricas, mas, infelizmente, não foi possível. Fui sugado pela nova cultura do consenso, que agora está online, me alimentando dessas platitudes em tempo real. Aceitei minha condição e agora sou um novo homem, pronto para abraçar o novo consenso. Então, se me dão licença, vou lá dar uma espiadinha na “nave-mãe” do BBB tomando meu champanhe ao som de Michel Teló, enquanto a Luiza não volta do Canadá, ok? Helloo…

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8 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Francisco Prado

    Esse texto me lembrou uma professora de sociologia que disse que boa parte dos nossos problemas e da nossa acomodação se deve à nossa educação, no sentido que, diferentemente do que acontece nos países vizinhos aqui da América (onde a tradição do livro é forte), nós fomos, bem, “aculturados” pela televisão.

    Esticando um pouco isso, acho que, em detrimento do debate que a leitura nos traz, nós, “atelevisionados”, ficamos nesse pensamento de massa, no consenso. Como disse um comentarista uma vez, nós saímos da frente da TV para ir para a internet falar sobre… TV.

    Enfim, acho que me compliquei mais do que me expliquei, mas é isso. Abs

  2. Enviado por: americo ney

    diogo,
    resistir eh preciso, “non passaram!!!!!!!”
    salutos

  3. Enviado por: Santos

    O pior – sim, pior – é que cada vez que escrevemos algo espinafrando o BBB ou combatendo o monstro da burrice geral tão bem criado, alimentado e manipulado pela televisão, estamos dando preciosos pontos para o ibope do BBB. É como dizia aquele rock do Erasmo: ‘falem bem ou mal mas falem de mim’

    Isso é bom ou ruim?

    É bom porque serve para separar o joio do trigo. E é ruim ao mostrar que o joio ganha de lavada no país de 180 milhões de zumbis televisivos. Um fardo muito pesado para os 20 milhões restantes que insistem em acreditar que algum dia um milagre vai fazer isso aqui dar certo. A julgar pelos últimos lugares em qualquer ranking de educação, só um ateu ainda acredita nisso.

    Como diria um Karl Marx revisitado, ‘a televisão é o ópio do povo’. Diria que é o crak eletrônico com imagem e som. Uma droga tão poderosa que simplesmente não podemos acabar com ela sem antes acabar com os viciados.

  4. Enviado por: Clau Soares

    Parabéns pelo texto.
    Ótima reflexão.
    A internet não é mais refúgio, transformou-se em mais um veículo de massa.

  5. Enviado por: Daniel

    Você só foi obrigado a saber de todos esses assuntos porque eles foram relevantes para as pessoas a sua volta e ainda bem, senão como saber o que lhe é relevante ou não.
    Pode ser que você odeie BBB, mas é relevante demonstrar a grande parte de nossa sociedade machista que alguém abusa de uma pessoa inconsciente é tão estuprador como aquele que usa de violência.
    Pode ser que você ache irrelevante que Luia voltou do Canadá, mas pode ser interessante o mecanismo que faz que algo vire um meme, sucessos fabricados, 15 minutos de fama.
    Pode ser que você abomine Michel Teló, mas é impressionante o fato de uma música sem qualquer novidade em termos de ritmo, harmonia, arranjo e composição, cuja maior lampejo de criatividade é uma letrinha e uma coreografia que instiga os adolescentes e seus hormônios em ebulição possa se tornar um sucesso mundial em países que o idioma sequer lembra o português.
    Pode ser que você tenha profunda ojeriza ao comportamento fútil dessa “Mulheres Ricas” mas o programa é a desigualdade social escancarada na tela da TV, basta 05 minutos de programa para alguém com consciência se revoltar contra tudo que aí está.

    Pode ser também que você não ache nada disso relevante ou importante para sua vida, mas ainda assim é importante conhecer antes de pode dispensar.
    Seu colega de Estado Alexandre postou algumas coisas bem recentes sobre esse assunto:

    http://blogs.estadao.com.br/alexandre-matias/2012/01/15/a-rede-social-do-google-e-o-proprio-google/

  6. Enviado por: Diogo Salles

    Daniel,

    Sobre o BBB: http://blogs.estadao.com.br/tragico-e-comico/2012/01/18/estupro-no-bbb-consagra-o-quanto-pior-melhor/

    Sobre a Luíza: é um fato importante dentro de um universo bastante limitado (Twitter e João Pessoa). Será muito estranho se a Luiza ganhar manchete de todos os jornais e os casos de corrupção desaparerem dos noticiários. Existem coisas que afetam a toda a população, existem coisas que são relevantes a apenas um grupo.

    Sobre o Teló: não haveria todo esse sucesso se o Cristiano Ronaldo não tivesse dançado a música e o vídeo não tivesse estourado no Youtube. Seria mais um “on hit wonder” de verão.

    Sobre o Mulheres Ricas: é improvável que o público assista ao programa com o olhar crítico que você sugere. Algumas pessoas veem por mera curiosidade, outras porque querem ter o dinheiro dessas peruas para poder fazer igual a elas.

    abs
    Diogo

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