Estado.com.br
Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Trágico e Cômico
Seções
Arquivos
Tamanho do Texto

SWU e a insustentável imundície do ser humano

Categoria: Música, Tragi-crônica

É regra do mercado que os festivais de hoje unam música e entretenimento, para se adaptar à grande dispersão que tomou conta do mercado musical. Mas além dessa combinação, o SWU oferece também uma bandeira para levantar: a sustentabilidade, essa palavra que todo mundo fala, mas que ninguém sabe direito o que significa. Da inocência e precariedade vistas na primeira edição do festival em 2010 em Itu (SP), pouca coisa restou. Paulínia se firmou como pólo cultural e abrigou o festival, que cresceu de forma considerável não apenas em infra-estrutura, mas em importância. Além dos shows, tivemos tendas, palestras, camping e outros assessórios inteligentemente empacotados pela logomarca sustentável. Mas o fator climático interferiu mais uma vez. Se o frio castigou o público no ano passado, este ano foi a chuva, que não deu trégua. A lama até deu um charme woodstockiano ao festival, mas ainda não é possível saber como os resultados de tanta sujeira serão colhidos e reutilizados no futuro. Esperamos que o público entenda melhor a mensagem em edições futuras, pois a imagem que ficou do final dessa edição parecia saída do documentário Lixo Extraordinário. Se por um lado, o SWU soube atrair figuras importantes para explicar a sustentabilidade ao público (como Neil Young, Daryl Hannah, Bob Geldof e Marina Silva), por outro, as atrações musicais não necessariamente acompanharam essa verve. Para dar um flagrante desse exemplo, as atrações do palco principal na primeira noite mais pareciam um dia ruim do Rock in Rio. Em compensação, as duas noites seguintes mostraram uma boa diversidade musical, atraindo gostos variados. Então, pelo bem da música, vamos nos ater a algumas das principais atrações de domingo e segunda.

Duran Duran: de volta à estrada com o novo álbum All You Need is Now, a banda inglesa veio com seu eletro-pop dançante, para animar a noite mais diversificada do festival. Unindo hits infalíveis dos anos 80 com material mais recente, mostraram a mesma competência de sempre e poucas surpresas, assim como tinha sido em 2008, em sua última passagem pelo Brasil. Música pop: esse é o negócio do Duran Duran — e eles não brincam em serviço, tanto que é deles o melhor videoclipe do ano. A estética pode ser exagerada, os timbres podem soar retrô demais, mas por trás de todos os excessos há boa música, coisa que passa longe dos marqueteiros do Black Eyed Peas e do falso-polemista Kanye West.

Peter Gabriel: um dos poucos artistas que vieram ao Brasil para unir música e ativismo político, Gabriel veio acompanhado da New Blood Orchestra, que apresentou ótimos arranjos para seu repertório. Mesmo tendo mostrado “Red Rain” e “Mercy Street”, músicas de seu mais importante trabalho (So, de 1986), ele não poderia ter prescindido de hits como “Sledgehammer” e “Shock the Monkey”. Entre uma música e outra, Gabriel se comunicava com o público em português, devidamente ensaiado e lido num papel, e citou a primavera árabe antes de emendar “Biko”. Mas o momento mais emocionante foi a magnífica versão de “Solsbury Hill”. O problema foi a temperatura, que esteve morna em boa parte da apresentação, o que tornou o show melhor para quem viu pela TV do que para quem esteve lá.

Lynyrd Skynyrd: essa foi uma das grandes sacadas do festival, resgatando uma banda que sempre foi muito popular no Brasil, mas que nunca havia pisado aqui. Com seu hard rock com pitadas de blues, country e um carregado sotaque sulista, o Skynyrd agitou o público com clássicos como “Simple Man”, “That Smell”, “Sweet Home Alabama” até o final incendiário com “Freebird”. A nota triste foi a ostentação da polêmica bandeira dos estados confederados da América. Tudo bem que a banda queira preservar suas raízes, mas poderiam manifestar isso de outras formas e deixar essa bandeira para trás, uma vez que traz conotações racistas e escravagistas — uma antítese de tudo o que os novos tempos demandam.

Faith No More: com um setlist semelhante ao que apresentaram aqui em 2009, o FNM dessa vez resolveu exagerar no visual. Inspirado em rituais de umbanda, o palco coberto por panos brancos trazia arranjos de flores, e toda a banda vestida de branco. O cenário estava propício para Mike Patton explodir em seus surtos psicóticos e desfilar seu longo repertório de palavrões. Mais do que um grande cantor, é um grande entertainer. É aquele tipo de artista iconoclasta, que provoca o público, que deixa todo mundo aturdido, se perguntando “o que será que ele vai fazer agora?”. Patton tem uma longa relação com o Brasil (até time de futebol ele tem). Entre os seus amigos brasileiros convidados a subir ao palco, estavam o “traficante de livros” de Pernambuco para declamar poesias de botequim e, mais tarde, o coro infantil de Heliópolis para cantar junto. Mais tarde, a insanidade seguiu, quando ele roubou a câmera do cinegrafista e depois partiu para o corpo a corpo com o público, para desespero dos seguranças. É esse fator imprevisível de seu vocalista que faz o show do FNM sempre interessante, deixando uma tensão constante no ar. Mas se no palco, eles sobram, no estúdio eles ainda estão devendo um disco de inéditas, já que o último foi lançado no longínquo ano de 1997.

Alice In Chains: Dezoito anos depois de sua única passagem pelo Brasil (Hollywood Rock 1993), o Alice In Chains se retirou para um inverno que parecia não ter fim. Após sucessivas tragédias dentro da banda, muita coisa ficou guardada no porão. O grito de libertação saiu com o excelente álbum Black Gives Way to Blue (2009). Tanta espera fez com que a banda fosse uma das atrações mais aguardadas desse SWU. Restava saber como o público iria lidar com a ausência de Layne Staley. Por enquanto, o novo vocalista (também guitarrista) William DuVall divide opiniões. Com um timbre parecido — mas sem imitar seu antecessor —, ele se impõe de uma forma diferente no palco. Fisicamente parecido com Lenny Kravitz, ele reproduz os agudos com fidelidade, olha o público nos olhos e desafia-o a cantar junto. Mas, qualquer que tenha sido sua opinião sobre DuVall, o guardião da sonoridade da banda é (sempre foi) Jerry Cantrell, que continua mostrando porque é um dos melhores guitarristas de sua geração. Os fãs não se decepcionaram e puderam finalmente berrar os refrões de “Them Bones”, “Dam That River”, “We Die Young”, “No Excuses”, “Would?” e “Man In The Box”.


aviso 1: dessa vez vou ficar devendo comentários sobre Chris Cornell, Primus, Sonic Youth, Stone Temple Pilots e Megadeth, mas reconheço a importância de todos, ok?
aviso 2: Dia 13/12/11 teremos um podcast especial sobre os acontecimentos musicais de 2011 no Tungcast — e entre eles estarão obviamente o SWU e o Rock in Rio. Não percam!

3 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Flats em São Paulo

    Isso que é feio!

  2. Enviado por: kcal gomes

    Se vc vier um dia a Recife posso te levar p vc ouvir poesias de verdade. Idiota! Att, Kcal Gomes
    Poeta e traficante de livros do Recife.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*


Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>