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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Trágico e Cômico
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O futebol mostra quem realmente somos

Categoria: Futebol, Tragi-crônica

Todas as discussões mais importantes aqui no Brasil são aquelas que preferimos não participar. Pra quê cutucar a ferida se grande parte do problema está em nós mesmos? Uma dessas discussões é sobre o futebol, mas pouca gente quer questionar o porque de o esporte bretão ter se tornado terreno fértil para as mentes mais áridas. Sempre com fintas desconcertantes, driblamos a bola para mostrar a nossa face mais sórdida — e não me refiro apenas à corrupção dos coronéis da bola. Falo de certas atitudes da torcida. Eu poderia citar nossa rivalidade contra os argentinos sendo usada como combustível para alimentar sentimentos xenófobos em relação aos hermanos. Mas fico com dois exemplos domésticos: o elitismo contra corintianos e a homofobia contra sãopaulinos. “Ah, é só piada”, dizem alguns, tentando fugir da questão, como sempre. Pode parecer falta de humor, mas se olharmos mais de perto, constatamos que perdeu-se completamente a noção de onde termina a brincadeira e onde começa o preconceito. Esse tipo de humor — gratuito e pouco inteligente — não passa de uma brincadeira tosca com estereótipos e em nada difere da infeliz piada de Danilo Gentilli com os judeus de Higienópolis ou de Rafinha Bastos com sua piada de estupro. Se por um lado a “piada” se traveste como uma inocente brincadeira, por outro lado, há uma inegável intenção de ofender — é é aí que o preconceito prospera, pois ele reflete (e se propaga) em seus interlocutores.

Esqueça o clichê “futebol é paixão”, pois é esse argumento obscurantista que sempre tiram da gaveta para justificar os comportamentos mais abomináveis dos torcedores (incluindo a violência nos estádios). Vejam bem, isso não tem nada a ver com o ato de proferir palavrões durante um jogo, pois estes são absolutamente necessários como força de expressão e ajudam liberar o ogro que existe em cada um de nós. Falo aqui das discussões pós-jogo, que sempre giram (ou deveriam girar) em torno das jogadas, dos gols, de quem ganhou o clássico, quem jogou melhor, se foi pênalti ou não, se foi impedimento ou não, se o juiz errou, etc… Sou totalmente favorável às brincadeiras e provocações quando um time perde um clássico e/ou leva de goleada, pois está aí todo o divertimento de uma rivalidade sadia. Mas se numa mesa redonda a intenção for apenas difamar torcedores adversários, onde é que fica o futebol nessa? O problema é que uma tentativa tola de ofensa não se restringe apenas a um comentário. Ele gera outros e outros, até não parar mais. Aí notamos que muitas pessoas não têm outras “opiniões” a oferecer além dessas em que assinam o recibo da idiotice e do preconceito. Minha conclusão, após muito observar, é que quem sempre apela para isso não está nem aí para futebol, não sabe quanto foi o jogo, não sabe nem quem joga. Discutir futebol com gente assim seria a mesma coisa que exigir argumentos adultos de uma criança chorona te chamando de “bobo, feio, chato, cara de mamão”.

Voltando aos dois exemplos propostos no início, cabe uma análise sobre a reação dos torcedores. De um lado, temos os corintianos. Alguns, curiosamente, se vangloriam quando são chamados de “bandidos” ou “marginais”. O sentimento — que deveria ser de repúdio — se torna uma virtude, já que vivemos no país da malandragem (no mau sentido) e reforça o orgulho “dos mano”. Outro rótulo atribuído aos corintianos é “favelado”, mas esse só envaidece o núcleo mais abastado da torcida, que tem vergonha de ter dinheiro num país como esse. Quanto aos corintianos pobres, pacíficos e honestos, a estes resta se conformar com o bullying elitista e aceitar a desigualdade (fazer o quê, né?). Já do outro lado, a recíproca se revela verdadeira, pois muitos sãopaulinos que se ofendem ao serem chamados de “bambis”, “gays” e “bichas”, vão à forra replicando a mesma homofobia. A partir daí se cristaliza o fato de que no futebol esse tipo de comportamento de alvinegros e tricolores não só é tolerado, como também é incentivado. E não adianta fugir: todas as torcidas padecem desse mal. Obviamente que o grito da violência e da intolerância não é surpresa para ninguém, principalmente quando vem das arquibancadas onde predomina a covardia e a truculência das “organizadas”. Irônico é ver gente que se diz “educada” e “civilizada” adotando o mesmo discurso fascista de um neandertal chefe de torcida. No que tange o homossexualismo, me parece aquela coisa típica de “macho-man” latino, sempre inseguro de sua própria masculinidade e precisando reafirmá-la ao mundo através da violência. Aliás, essa é uma boa hora para perguntar: não seria esse “macho-man” brigão dos estádios tão afetado quanto uma drag-queen mostrando suas partes pudentas numa parada gay? Mesmo que os signos estejam em campos diametralmente opostos, ambos “soltam a franga” e “extravasam” da maneira mais caricata, cada um à sua maneira… Ou não? (seja sincero!).

A situação fica ainda mais degradante quando vejo gente supostamente “progressista” que adora posar de defensora das minorias, mas que, na hora de discutir futebol, recita todos os mandamentos da cartilha do Jair Bolsonaro (só falta sair pela rua decepando orelhas). Vamos combinar uma coisa: não dá para defender os gays e sair do armário como homofóbico. Que assumam seus preconceitos de uma vez. Seria mais honesto, pelo menos. Aí está todo o cerne dessa discussão, que sempre preferimos deixar para a próxima temporada: o futebol serve para nos mostrar quem realmente somos. Claro que não estou querendo revogar o direito das pessoas de agirem como imbecis. Afinal, até mesmo o direito de ser preconceituoso, hipócrita e estupidamente reacionário está assegurado pela constituição. Tampouco estou propondo que as questões da bola devam ser todas intelectualmente elevadas. Proponho apenas que as rodas futebolísticas não saiam nas quatro linhas. “Quem tem mais títulos”, “quem é o líder do campeonato”… É esse tipo de small talk que estimula a rivalidade que nos agrega, por mais contraditório que isso pareça. Uma pena que os neandertais, os preconceituosos e os hipócritas estejam em ampla maioria e acabem estragando tudo. Pessoalmente, sinto vergonha alheia dessa gente toda. Prefiro continuar a ignorá-los, pois estou mais preocupado com uma coisa que considero mais importante, chamada futebol.

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26 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Paulo Roberto Stockler

    Totalmente ‘por aí’, Diogo!!

  2. Enviado por: Augusto Nobre

    Há muito tempo, futebol é coisa de bandido, jogador, torcedor, cartola, jornalista, etc.

  3. Enviado por: Claudio Soares

    Mais um politicamente correto! Chega, tá chato demais.
    O problema esta na sociedade como um todo. A violência ja começa em casa, nas escolas, nas ruas e até no trabalho. Dai a levar para o futebol…
    Mencionar o Gentilli e o Rafael Bastos, como ofença, por uma piada…
    Amigo, relaxe mais…

  4. Enviado por: del nero

    Povo sem educação e sem cultura da nisso. O que estava esperando ou se espera, que fiquem sentados como gente civilizada,NUNCA, são, sabem o que……..
    Isso tem grande culpa todos os governos presente, e passado.
    Prescisa dizer mais, acho que não.

    • Enviado por: Diogo Salles

      Caro Del Nero,

      Tem um pouco a ver com educação, mas, como citei no texto, também tem gente “educada” que age dessa forma. Portanto, é um problema cultural também, de costumes.

      abs
      Diogo

      • Enviado por: Humberto Pessoa

        Respeito e bom senso vem de berço.
        Educação do governo.
        Corretivos na falta de respeito, é com a “borracha”!

        Parabens pelo texto novamente!

  5. Enviado por: Diego Souza ( Deus é Conosco )

    Diogo de ante mão bom dia e boa semana para você!!

    Na verdade cara pelo pouco que li, a deturbação, vem não pelo esporte lógicamente mais pela má influência a qual ela esta sujeita não quanto ao esporte mais, quanto as pessoas que a destroem, marginalizando, o intuíto real de qualquiser meio a qual, pessoas de má indole, tem questão de efetuar…

    Bom Diogo, isso não estende ao futeboil, mais em outros meios também, a saber, televisão, música, educação atual brasileira, desenhos, e acima de tudo, o cristianismo, que graças ao Gentleman ” Edir macedo ”, pastor hoje é sinônimo de pilantra, enfim, por causa de um ( ou uns no caso a qual você abordou ).

    Politicamente correto, bom este meio também é marginalizado, por seu excesso a prática, afinal, tudo hoje, é cutucado, censurado, pelo politicamente correto, e por outros meios, questões, absurdamente gritantes, sequer entram na pátua do ” politicamente correto ”, ou seja tudo hoje diogo, é torto, e marginalizado, bem como a falsa política de ” sociedade ” com seu elitismo fédido e ignorânte…..

  6. Enviado por: claudio ribeiro

    que papo chato…

    mais uma da turma do politicamente correto !

    então vamos fazer o seguinte :

    voce também não desenha mais charges contra os politicos !

    toda vez que aparecer uma charge ironizando algum politico eu vou reclamar aqui !

    para com isso, meu ! acordou de tpm ?

  7. Enviado por: Diogo Salles

    Claudio Soares e Ribeiro,

    O problema do politicamente correto e do incorreto são os extremos. Ribeiro, você mencionou as minhas charges, mas quero que você diga uma charge em que ataquei o político pelo lado pessoal. Todas as críticas que faço aqui são políticas, é o que ele defendem e fazem com o dinheiro público e não o que ele são ou fazem na vida privada.

    Por exemplo: chamar o Lula de analfabeto, cachaceiro e etceteras é preconceito, mas minhas críticas a ele nunca foram essas, porque eu critico o Lula político, não o Lula pessoa.

    Sobre o futebol, reafirmo tudo o que eu disse: que as discussões e as brincadeiras fiquem no futebol – e que não sirvam para expiar preconceitos.

    Abraço
    Diogo

  8. Enviado por: claudio ribeiro

    desenhar o geraldo como picole de chuchu não é preconceito

    desenhar o lula orelhudo não é preconceito

    desenha o chaves orelhudo não é preconceito…

    então ta, mas mantenho minha posição…

  9. Enviado por: Diogo Salles

    Claudio, isso é caricatura. Não tem nada a ver uma coisa com outra.

  10. Enviado por: claudio ribeiro

    claro que tem…

    voce está ironizando uma pessoa, suas caracteristicas fisicas mais marcantes são exageradas com o intuito de ridiculariza-la…nada diferente de ironizar com o intuito de ridicularizar o sao paulino bambi ou o corintiano ladrao ou o palmeirense porco !

    essa historia de eu posso e os outros não podem é ridicula !

    voce também está sendo discriminatorio ao fazer isso !

    ou apenas a sua ironia e piada é a que vale ?

  11. Enviado por: claudio ribeiro

    licença poética só é boa nos nossos textos, nunca no dos outros ?

  12. Enviado por: claudio ribeiro

    ah, e por favor, retire as suásticas do desenho, pois voce pode estar incitando ao nazismo…

  13. Enviado por: yasmin

    Diogo,
    Brilhante texto. É preciso mais formadores de opinião dando luz a extremismos e comportamentos moralmente injustificáveis. Não se trata de ser politicamente correto, como alguns comentadores mencionam, trata-se de ser racional, razoável, de usar a lucidez. Valer-se de estereótipos ou arquétipos, de antemão, é preconceito. Existem comportamentos massificados que não são, nem de longe, estereótipos, pois não definem classe. É preciso discernir.
    Estereotipar pessoas de acordo com time defendido é tão brutal e fútil que nem de longe parece questionável. Há certa defesa da virilidade que entra em cena quando o assunto da pauta é futebol. Como se houvesse, de algum modo, alguma relação entre o time e a sexualidade. Figuras que se deixam ofender por uma discussão como essa, certamente, têm uma visão distorcida do que é torcer, talvez até, do que seja existir. Não há virilidade que justifique violência. Não há desumanidade maior que preconceito.

    Yasmin Merelim.

  14. Enviado por: Diogo Salles

    Claudio, recomendo que você releia o texto.

    Em momento algum eu proíbo os torcedores de chamarem adversários do que quiserem. Só falei que eu prefiro discutir futebol com quem discute futebol sem apelar para isso.

    Minha crítica foi aos que posam de defensores das minorias e criticam a violência nos estádios, mas ao mesmo tempo apelam para rótulos, preconceitos e insultos. Entenda: o problema não é politicamente incorreto, é a HIPOCRISIA.

    Quanto às caricaturas, é preciso enxergá-las como arte. Eu pratico essa arte e também sou admirador dela, tanto que coleciono caricaturas que fazem de mim, como você pode ver no avatar desse blog e nesse link:
    http://www.diogosalles.com.br/links.asp

    Abraços
    Diogo

  15. Enviado por: Francisco Del Rio

    Não há como discordar do texto. Muito boa também a observação de que, apesar de diametralmente opostos, o chefe de torcida truculento é como a drag queen soltando a franga em cima do trio elétrico. E a comparação entre o “elitismo” contra os corintianos, e a “homofobia” contra os são-paulinos também foi muito precisa. E a cada vez que vejo as brincadeiras de “time de viado” feita contra torcedores do São Paulo por pessoas que se dizem a favor dos direitos iguais para homossexuais, fico realmente confuso. Afinal, se a intenção de um torcedor rival ao chamar um são-paulino de “bambi” é ofender, então como ele pode ser alguém que respeita as diferenças? Enfim, ótimo texto, espero que gere bastante discussão.

  16. Enviado por: Alexandremk

    O que eu tenho a ver com isso? Não faço parte do rebanho neofascista.
    Sou brasileiro, mas não sou torcedor, aliás deixei de ser há muito tempo.
    Acho o torcedor um verdadeiro trouxa.
    O futebol perdeu o romantismo, tudo resume em dinheiro, vaidade e falsidade.
    O texto resume bem o processo de idiotização do brasileiro.

  17. Enviado por: Alexandremk

    O futebol produziu até um homicida machista.Quem não lembra do Bruno ex-goleiro do Flamengo?
    O título para mim é preconceituoso, dá impressão que todos os brasileiros são um bando de animais enfurecidos.

  18. Enviado por: Diogo Salles

    Yasmin e Francisco, obrigado. Parece que vocês entenderam o espírito.

    Alexandremk, tem muita gente tranquila que, quando entra numa torcida, se transforma num animal. A crítica é válida, sim, pois exclui todos os que se recusam a participar disso.

    Aproveitando o ensejo, vejam a nova campanha publicitária do Corinthians:
    http://blogs.estadao.com.br/bate-pronto/corinthians-provoca-rivais-com-sosias-de-kaka-e-neymar-em-propagandas/

    Achei ok, é uma provocação, mas sem apelações. É nesse tipo de brincadeira que as piadas deveriam ficar.

    abraços a todos
    Diogo

  19. Enviado por: Jonas Santos

    Fala Diogão,
    cara tem uma frase que você colocou aqui que pra mim resume o artigo,
    “perdeu-se completamente a noção de onde termina a brincadeira e onde começa o preconceito.” , é por essas e outras que não faço questão alguma de ir em estádios, a última vez q fui foi na libertadores de 2005 ou 2006 , não me lembro, São Paulo, e Rosário Central, e os programas sobre futebol hoje em dia atiçam os que tem a mente fraca, pois ajudam a gerar a violência para depois divulga-las em seus programas… é literalmente um “mata-mata”, como diriam alguns…

    abç

  20. Enviado por: Jonas Santos

    desculpem pelos erros de português.. rs

    • Enviado por: yasmin

      Esclarecendo: eu não tenho problemas com erros ortográficos. Mesmo trabalhando com língua, muitas vezes erro, e como erro. Eu usei da ironia. Não pensei que os comentadores pudessem estar falando a sério no post sobre o dia do orgulho hétero, apenas me aproveitei de um motivo fútil que incomodasse o comentador, tão fútil como a defesa do orgulho hétero. Não tenho qualquer preconceito linguístico, ao contrário, aprovo as variantes.

  21. Enviado por: yasmin merelim

    Esclarecendo: eu não tenho problemas com erros ortográficos. Mesmo trabalhando com língua, muitas vezes erro, e como erro. Eu usei da ironia. Não pensei que os comentadores pudessem estar falando a sério no post sobre o dia do orgulho hétero, apenas me aproveitei de um motivo fútil que incomodasse o comentador, tão fútil como a defesa do orgulho hétero.
    Não tenho qualquer preconceito linguístico, ao contrário, aprovo as variantes.

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