Há 20 anos, o dia em que conheci Jimi Hendrix
- 5 de junho de 2011|
- 6h00|
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Categoria: Música, Tragi-crônica

Uma coisa que jamais esquecerei foi o dia em que vi e ouvi Jimi Hendrix pela primeira vez na vida. Aos 15 anos, em algum fim de semana chuvoso e sonolento de 1991, eu suplicava por algo mais interessante na TV (lembrando que, na época, não havia internet e a TV a cabo ainda era um sonho distante). Zapeando os poucos canais que me restavam, encontrei na Gazeta (acreditem!) um especial sobre o festival Monterey Pop de 1967. Eis que aparece um sujeito negro com roupa colorida fazendo ruídos estranhos na guitarra. Era microfonia apenas, mas ele conseguia, inexplicavelmente, transformá-la em algo interessante, muito além de um simples barulho. Usando a alavanca da guitarra para produzir o ruído (feedback), ele o sincronizava com o gestual de maneira quase metafísica. Esse cara é muito louco, pensei… Aí me levantei de um salto do sofá quando ele pôs a arena abaixo. Eu precisava entender aquilo. Era inacreditável.
Diz a lenda que naquela noite do festival, o The Who era a atração principal, mas escolheu entrar antes de Hendrix, pois Pete Townsend andava incomodado com o fato de ele copiar sua mania de quebrar a guitarra nos shows. Considerou que ele se apropriou de sua arte. Hendrix tinha um relativo sucesso na Inglaterra e já era bastante admirado (e invejado) no meio artístico, mas ainda era um desconhecido do grande público. Entrando depois, ele não causaria o mesmo impacto e seria visto apenas como um mero imitador, calculou Townsend. E assim foi feito. O The Who dá um grande espetáculo e, ao final, destrói seu equipamento. Naquela noite, a catarse seria dele.
Agora era a vez de Hendrix. Ele entra com um ataque de guitarras em “Killing Floor”, seguida de um desfile de hits de seu primeiro e recém lançado álbum Are You Experienced, recebendo boa resposta do público. Simpático, conversava com a plateia, enquanto afinava a guitarra entre uma música e outra. Parecia relaxado, lépido, senhor de si. De qualquer maneira, para Townsend, a situação parecia “controlada”. Mas aí veio a última música. Depois de todo o mise-en-scène com o feedback, ele emendou uma versão raivosa de “Wild Thing”. Através dos acordes simples e da letra quase ingênua da música, Hendrix mostrava ao mundo que uma guitarra não serve apenas para roçar acordes e que fazer um show não é apenas subir no palco e tocar. Ele improvisou, solou, se jogou no chão, tocou de costas. Não satisfeito, “sodomizou” a guitarra, violentando-a contra o amplificador. Depois jogou a guitarra no chão e “masturbou-a”, como se ela tivesse clitóris… Uma total profanação para os costumes daquela época. Mas ainda não tinha terminado.
Grand-finale: guitarra no chão, Hendrix se ajoelha e prepara uma espécie de culto. Esguicha fluido de isqueiro, dá-lhe um beijo de despedida e risca o fósforo. Genial. A guitarra ardendo em chamas, como que num ritual de sacrifício. O fogo e a destruição não era jogo de cena, querendo parecer cool para a câmera. Àquelas alturas, eu já tinha visto um monte de metaleiros posers na MTV, com cara de mau, destruindo seus equipamentos, mas já conseguia perceber o quanto aquilo era fake. Hendrix era o contrário. Não tinha como ser mais visceral e verdadeiro do que aquilo. Esse sim era o grande momento de catarse da noite. Atônito no backstage, Pete Townsend ainda ouve o deboche do baterista Keith Moon: “seu idiota, porque você não pensou nisso antes? Ele colocou fogo, fogo!”.
O impacto dessa performance foi tão demolidor, que pôde ser notado na plateia. A câmera flagrou pessoas chocadas com a fúria de Hendrix, o que só aumentou ainda mais o seu feito. Sim, o mundo se ajoelhou diante de Jimi Hendrix a partir daquele show. Um show que, definitivamente, mudou o curso da história do rock. Depois que mergulhei em sua discografia, passei a entender o significado do todo aquele mito que tinha se criado. Percebi como ele foi pioneiro em algumas coisas, inovador em outras, e genial sempre. Enfim, a partir daquele dia, entendi porque a guitarra — e o rock — se dividem em a.H. (antes de Hendrix) e d.H. (depois de Hendrix).
Para ir além
Ouça o Tungcast Jimi Hendrix
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Como é legal quando acontece esse tipo de coisa.. Quando lemos um autor importante pela 1 vez.. Escutamos um Hendrix.. A cabeca abrindo, recebendo aquela cultura… Mto bom mesmo. Lembro mto de algo parecido com o Bowie.
Pô, histórico, meu irmão até comprou o blu-ray desse show. Abçs.
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