Congresso nacional, uma charge atemporal
- 22 de maio de 2011|
- 6h00|
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Categoria: Politicalha, Tragi-crônica

Além da rima, o título desse texto traz um paradoxo, pois o tempo de duração de uma charge é curto, muito curto. Às vezes dura um pouco mais quando há um acontecimento de grande repercussão, mas geralmente o prazo não passa de um ou dois dias. Quando o desenho é atemporal — isto é, sem qualquer ligação com fatos jornalísticos do dia — ele é um cartum. Assim sendo, a linha divisória que separa as duas coisas é a linha do tempo. Amanhã, a charge de hoje já estará amarelada, como uma foto antiga. Já o cartum continua valendo, pois não pontua uma época específica. É sempre muito difícil fazer um desenho que sirva tanto como charge quanto como cartum. Mas teve um dia em que consegui fazer essa junção. Em fevereiro de 2008, o congresso empacava como sempre nas reformas e fiz essa charge que você vê aí. Só depois me dei conta de que ela era atemporal e poderia funcionar para qualquer dia e situação. Não por acaso, a charge acabou se tornando uma assinatura do meu trabalho.
Sempre que fazem pesquisas sobre a confiança e a satisfação do cidadão com as instituições, invariavelmente, o Corpo de Bombeiros aparece entre os primeiros. Enquanto isso, na zona do rebaixamento, estão sempre as assembléias e câmaras legislativas — sendo o congresso nacional o espelho dessa realidade. Um espelho que reflete, principalmente, a mentalidade do brasileiro médio: a de se dar bem a qualquer custo. E perde seu tempo quem acha que o congresso está preocupado em melhorar a sua imagem perante a sociedade. Às gargalhadas, eles acham tudo isso muito engraçado e nos chamam de otários na nossa cara. E quanto mais distantes eles estiverem de nós, melhor para eles, afinal, nós continuamos fazendo a nossa parte do trato, reelegendo-os. De toda a corrupção que encontramos nos três poderes, o legislativo é recordista absoluto. No executivo é fácil encontrar o foco da corrupção: está sempre no abuso de poder e nas indicações políticas que atendem ao fisiologismo partidário e às alianças feitas na penumbra. No judiciário, está enraizada nos meritíssimos que têm rabo preso com poderosos e transformam o país numa zona do meretrício. Apesar dos pesares (e eles são grande maioria), ainda se pode pinçar gente séria aqui e ali (uma meia dúzia, no máximo) que ao menos tenta fazer alguma coisa. No legislativo, nem isso, pois a corrupção está incrustada na própria natureza do cargo, onde impera a velha política da boquinha.
Cá entre nós, qual a motivação de uma turma que chega a Brasília para “trabalhar” na terça à tarde, bate o cartão na quarta e vai embora na quinta de manhã? Se você não nasceu ontem, já deve ter percebido que, no pouco tempo em que estão lá, os parlamentares gastam suas preciosas horas apenas procurando uma nova teta estatal para mamar. Só há um momento em que eles mostram notável dedicação: quando a pauta é aumento de salários, criação de novos cargos e novas burocracias. Aí o quórum chega a 100% e as votações são feitas a toque de caixa (com milhões de trocadilhos, por favor). Agora, quando temas sensíveis à sociedade são postos à mesa, nem as moscas aparecem no plenário. Por que você acha que as decisões sobre as células-tronco e os direitos civis dos casais homossexuais foram parar nas mãos do STF? Sim, porque o congresso nacional, além de indolente, covarde e corrupto, não tem competência, nem vontade, nem inteligência para julgar algo que não seja de seu próprio interesse. Ali o espírito de corpo é o espírito de porco. Meu preconceito em relação a políticos é apenas uma resposta natural a isso — e tenho visto que não estou sozinho. Dessa forma, podemos considerar que o menosprezo que os parlamentares sentem pela população é recíproco. De vez em quando, surgem tentativas tímidas de reaproximação — e todas elas partem do lado de cá, mas são ignoradas olimpicamente (vide Ficha Limpa). Agora chegamos a um ponto em que, se o congresso quiser dialogar com a sociedade civil, eles é quem devem dar o primeiro passo. Meu recado aos mais otimistas: esperem sentados.
A arquitetura pitoresca do Niemeyer certamente proporcionou um manancial de piadas. É daí que surgiu a charge, o avatar e até o nome deste blog. Faço o que posso para trazer as últimas da política de uma forma menos aborrecida, porque sei que é difícil deglutir tanta barbaridade todos os dias. Mas, apesar de nossa infindável capacidade de extrair o cômico do trágico, há algo de melancólico em tudo isso. Não, não estou propondo que o congresso seja extinto, proponho apenas que tenhamos um olho no deboche e o outro na crítica e na cobrança. E é bom começarmos logo, pois, enquanto rimos do nosso fracasso, deputados e senadores continuam gastando milhões dessa verba indenizatória que os leva à lua 86 vezes. Pense que, enquanto você conta seu dinheirinho suado no fim do mês, eles estão lá no Piantella tomando uísque 12 anos e aliciando prostitutas para fornicar com o dinheiro do erário. Se isso não nos revoltar nem um pouco, é porque nossa vocação para a miséria não é só material — é também intelectual e, principalmente, espiritual.
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Temos atualmente muitos congressistas, porque (numa acepção meramente etimológica) onde se tem um aglomerado de pessoas existe condição de “rolar” um “congresso”. Numa rodada de cerveja, por exemplo, um orador apaixonado por um tema pode improvisar um congresso.
O que já escasseia em nossos dias é a figura do parlamentar.
E é aí que o bicho pega.
Com a carapaça pra cima ou pra baixo, como no seu desenho neste post, cai muito bem a carapuça.
Ótimo!
Corretíssimo Diogo.
Também atemporal é consultar a atividade legislativa no site do congresso: http://www2.camara.gov.br/ . Existem coisas que realmente não mudam. Em vez da câmara de deputados votar projetos relevantes em assuntos que afetam a realidade nacional – como as células tronco ou reforma do Código Penal – discutem a institucionalização do dia do Saci Pererê ou dia oficial do Carnaval, além, obviamente, do aumento de seus salários ou de outros funcionários públicos.
Os congessista realmente estão numa posição muito cômoda. Não realizarão a reforma política, continuarão lutando pelo voto obrigatório e o ciclo continuará até que a população se mobilize.
Moro na Espanha e por aqui acontece um movimento “apolítico” (no sentido de desvinculação dos partidos A, B ou C) que exige uma reforma política. Como uma tendência atual, o movimento que se iniciou em redes sociais e lotou as praças das principais cidades espanholas 2 semanas antes das eleições regionais, e começou a se difundir pela Europa. Ouvi dizer de uma amiga que esteve no Porto e viu movimentações similares.
O que precisamos é dar o primeiro passo.
Esta é a nossa realidade.Não é de espantar o dinheiro que investem nas eleições.
Será que,pelo menos,no seio das nossas Forças Armadas ainda prevalece o patriotismo?
Sóbrio, até em boteco se encontra gente mais sóbria do que no parlamento. Só não peço para você se candidatar porque tenho pudor…
José Carlos, patriotismo é uma questão básica, mas aqui no Brasil ele é visto de uma forma tão primária e abrutalhada que nos leva a golpes de estado (como aconteceu com a própria ditadura militar).
Daniel, temos de fazer essa mudança, mas de dentro para fora e não tentando dialogar com essa gente. No próprio link da câmara que você mandou, tem um depoimento interessante do deputado Almeida Lima, pitbull do Renan Calheiros lá no PMDB:
“Aqui, nós só deliberamos de acordo com nossos interesses pessoais.”
Leia mais aqui:
http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/POLITICA/197915-DEPUTADO-DIZ-QUE-PARLAMENTARES-NAO-TEM-CONDICOES-DE-VOTAR-SISTEMA-ELEITORAL.html
abs
Diogo
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