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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Trágico e Cômico
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U2 no Brasil e Bono all over the place

Categoria: Música, Tragi-crônica

Nessa semana, a discussão ficou em torno de um assunto — e um assunto só: U2. Não fui ao show dessa vez. Já tinha ido uma vez em 1998 e duas em 2006. Minha política de shows mudou de uns tempos para cá, consistindo em 1) priorizar shows que ainda não fui e 2) evitar tumulto para conseguir ingressos. Ironicamente, foi com o caos dos shows do próprio U2 em 2006 que me fizeram rever conceitos. Além de toda a safadeza tipicamente brasileira com essa mamata de “meia-entrada”, acho que os públicos de shows no Brasil são tratados como se fossem animais enjaulados (debati esse assunto mais a fundo nesse podcast aqui, para quem quiser entender melhor). Podem dizer que é mau humor (até é um pouco, reconheço), mas a verdade é que já conheço o U2 muito bem. E se não pude ver o show, pude ao menos ouvi-lo ao vivo pelo rádio/web, na transmissão da última apresentação aqui em São Paulo.

Pode-se gostar ou não da banda, mas o fato é que ela possui qualidades inquestionáveis. A maior delas: fazer grandes músicas e saber colocá-las num grande show. Mesmo que o rock’n'roll fique diluído pelo gigantesco aracnídeo que dá sustentação ao palco da turnê 360º, é inegável como espetáculo. O repertório mostra escolhas muito inteligentes, com músicas que “crescem” no palco, como “Elevation”, “Misterious Ways”, “Vertigo” e “Until the End of the World” — e traz surpresas, como o trecho de “Rejoice” (do obscuro disco October, de 1981), e uma arriscada versão dance de “I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight”. Poderiam ir além e incluir mais músicas do antológico The Unforgettable Fire (1984), do gospel-bluesy Rattle and Hum (1988) e do subestimado Pop (1997) no setlist. Mas eles preferem continuar reféns das obviedades, como “With Or Without You” (que foi exaurida pelo mainstream) e “Beautiful Day”, que é aquele hit mezzo pop descartável, mezzo coxinha, a la Coldplay.

Mas o pior foi ouvir “Zooropa” (celebrando o pior momento da carreira deles) e “Miss Sarajevo”, uma chatice auto-indulgente de Bono Vox. Isso sem falar no dueto com Seu Jorge, que me constrangeu de uma forma que não consigo traduzir em palavras. Parece mesmo impossível ser rock’n’roll quando se é tão mainstream. Mas todos esses tropeços são compensados pelos grandes clássicos, como “I Will Follow”, “Pride” e “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, que levantam o público e o faz cantar junto. E digam o que quiser, mas não tem como não se emocionar com “Where the Streets Have No Name” e “Sunday Bloody Sunday” (não quero parecer exagerado, mas esta é uma das músicas mais importantes da minha vida). Do último (e ótimo) disco, “Magnificent” é talvez uma das melhores músicas que eles fizeram nessa década e “Moment of Surrender” se mostrou perfeita para encerrar um show.

Tivesse o U2 parado por aí, já estaria excelente. Mas não parou, porque Bono não resiste aos excessos do showbizz. É uma grande pessoa, não se pode negar. Bem diferente desses roqueiros bufões, alienados e drogados, ele se mostra preocupado com as causas humanitárias e todas as barbaridades que acontecem no mundo. O problema é que ele não consegue separar o cantor do ativista. Não estou falando da aparição no CQC ou do karaokê com o Ronaldo Fenômeno (isso não tem como evitar). Falo de seu lado político, midiático e megalomaníaco. Os nomes das crianças mortas em Realengo no telão do show bastava, mas Bono consegue exceder até mesmo o excesso, criando uma agenda de chefe de estado. É um tal de ir para Brasília encontrar a Dilma, depois ir a São Paulo discutir economia com Guido Mantega, depois ir a São Bernardo falar com Lula sobre a fome na África. Claro que é legal ver Bono “in love” com o Brasil, mas ele é muito “all over the funckin’ place”, deu pra entender? Pior: não satisfeito em fazer política, acaba fazendo realpolitik também. Isso precisa parar, senão daqui a pouco ele está abraçando o Sarney para garantir a “governabilidade”…

O ego do Bono às vezes parece fugir do controle. Está certo: ele é o carisma, o frontman do U2, mas acho que falta — inclusive à grande parte da crítica — reconhecer que, sem o The Edge, essa banda simplesmente não existe. Às vezes tenho a impressão de que se The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. não fossem tão pé no chão (dentro do possível) para segurá-lo, essa banda já tinha acabado há uns vinte anos. Acho que Bono poderia fazer como Paul McCartney: veio pra cá, fez, aconteceu, causou o maior barulho, mas sem cometer esses excessos. Por sinal, Macca estará de volta ao Brasil em breve. Pena que Paul Hewson não estará aqui para aprender um pouco com Sir Paul.

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7 Comentários Comente também
  1. Enviado por: PattyBraga

    “…Bono consegue exceder até mesmo o excesso,…”

    Melhor definição, impossível, Diogo!!
    Eu AMO o U2, mas também acho o Bono um tanto quanto “too much” nessa papagaiada de ativista salvador do mundo.
    Bjs!

  2. Enviado por: Zé Eduardo

    Por essas e outras atitudes deixei de gostar de U2. Até o album Rattle and Hum era ótimo, depois desandou. Tudo é megalomaníaco, do Bono a estrutura do show. A maioria que conheço que foi ao show saiu falando do palco e da iluminação. E a musica? Acho que ficou perdida atras do ego de Bono e suas superproduções….

  3. Enviado por: Diego Souza

    Olha diogo se sabe qual o mal dos artistas num todo, e que eles pensam que a palavra deles, vale mais do que os milhões que aqui vivem, tem pessoas que se aproveitam da fama, para ” argumentar melhorias ” com o governo local, ou seja, tirando o bono vox, a shakira uma semanas atrás, falou com a dilma para pririzar as crianças de 6 a 10 anos quanto a questão da educação, ou seja algo tão óbivio, que entra por um opuvido e sai pelo outro, sinto – me um nada quanto a esta questão, quer dizer que se fosse eu ou você não ia surtir efetito uma questão, agora porque é o bono vox, ou qualquer zé gargalo de ouro, ai sim tem efeito….

    Esse é o mal do nosso mundo diogo, as palavras mais valiosas, são aquelas, de que possuem de maior cirfão em sua conta bancária, ou a qual aparece como mais um rostinho bonitinho na televisão…..

    • Enviado por: Diego Souza

      Além do que só para encrementar, a solução dos problemas do mundo não está naquele um ou outro, nem no Bono Vox, nem no que canta interpreta ou se faz de ” artista”, mais de quem tem peito de ferro para assusmir a fronte da nação, propondo uma reforma urgente nas leis nossas que diga-se de passagem, é para suiço ver…….

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