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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Trágico e Cômico
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E-mails sobre cidadania, ação política e ação social (parte 1)

Categoria: Cultura, Tragi-crônica

Uma das grandes maravilhas (e tragédias) da internet foi nos colocar em contato direto com os leitores. Se muita gente se aproveita desse expediente para xingar, ainda é possível encontrar leitores capazes de produzir boas discussões. São receptores, mas também emissores, ao construir argumentos contrários, que elevam o debate. Foi o caso de Fernando Braga Franco Talarico, professor e mestre em história social pela FFLCH (USP). Por e-mail, ele discordou elegantemente de uma coluna que escrevi há dois anos no Digestivo Cultural, sobre uma tese (nada acadêmica, é verdade) que propus à sociedade: Solidariedade é ação social. Se tiver curiosidade (e fôlego) para ler sobre o assunto, vai lá no Digestivo e depois volte aqui, para ler a réplica (bastante acadêmica, é verdade) do professor.

Prezado Diogo Salles,
Cidadania é o mesmo que política. Consiste em participar dos rumos da cidade em caráter decisório. A cidadania contemporânea, não por acaso, surgiu a partir de revoluções: para ampliar a todos os direitos e os deveres. As revoluções contemporâneas criaram a cidadania (igualdade política em direitos e deveres) e, por isso, foram declarados os princípios que, mais tarde, foram adotados pela ONU: igualdade, liberdade e solidariedade. Claro que tais revoluções terminaram por não cumprir seus propósitos originais, e por isso ficaram conhecidas como “revoluções burguesas”, ou liberais: porque levaram os donos do capital ao comando político, enquanto aos trabalhadores restava uma nova forma de exclusão. A vitória liberal, ao fim dos processos revolucionários, recriará uma nova forma de desigualdade em direitos e deveres; os demais revolucionários, entretanto, seguirão a reivindicar os princípios originais (razão pela qual avançaram os projetos políticos socialistas).
Por conta do avanço socialista, o próprio mundo capitalista e liberal precisou ampliar, graças ao Estado de Bem-Estar social, a igualdade em direitos e deveres, por meio de tributação, que assegurasse serviços públicos de qualidade; por isso é que a qualidade de vida ampliou-se, bem como os direitos sociais, no chamado Primeiro Mundo. Graças à política. Com o fim da Guerra Fria, entretanto, retorna o liberalismo como concepção política de mundo, segundo a qual o Primeiro Setor (o Estado) exime-se de deveres sociais, o Segundo Setor (as empresas, ou “pessoas jurídicas”) passa a servir exclusivamente ao Estado e exime-se de impostos ou deveres tributários, e sobre o Terceiro Setor (a sociedade civil, composta por “pessoas físicas”), incide, com exclusividade, os deveres tributários, mas a quem se negam os direitos políticos. Caberá a esse setor a atuação no sentido de promover o bem-estar social, já que tal esfera não é mais da alçada política, e sim dever de ordem pessoal, individual (campo da ética ou da moralidade particular). Assim sendo, a ideia de solidariedade, na visão liberal de mundo, dissocia-se da política, ou cidadania, e pressupõe doações e trabalho voluntário de quem já cumpre com deveres tributários. Desse modo, recria-se a pobreza e a exclusão, graças à propaganda liberal (sutil e intensa) de que o Estado deve ser mínimo, e de que as pessoas não devem se preocupar com política, mas sim com solidariedade (termo cuja conotação ganha um novo sentido de altruísmo, mas de caráter apolítico). É assim que se generaliza-se a ideia de que a política não é, por si, potente para resolver os problemas humanos.
Em resumo, a defesa da solidariedade (em termos apolíticos), promovida exclusivamente por deveres morais-individuais (e não por deveres do Estado e do Mercado) desfigura o sentido forte de “cidadania”; isto é, desfigura a função de deveres tributários e direitos políticos nos termos da igualdade de todos no acesso ao bem coletivo. Vitória do Mercado, derrota do bem-estar social. Isso não ocorreria sem o menosprezo da política pela sociedade civil e sem o avanço absoluto do Terceiro Setor, que legitimam, com maior ou menor consciência, a irresponsabilidade social do Estado e do Mercado.
Discordo, portanto, de sua tese fundamental, mas discordo muito respeitosamente, porque admiro sua preocupação com a harmonia e o bem-estar públicos. Concordo com seu desprezo crítico pelos que comandam o Estado e a política, mas discordo da identificação imediata de Estado com política institucional, porque a esfera pública pode e deve ir além de tais esferas. Proponho que a atuação da sociedade civil na direção do bem-estar social se aproprie da esfera pública, em vez de reforçar o papel mínimo do Estado. Proponho, em suma, a politização da ação social. Seja pelo caminho do voto, seja por sua anarquista recusa, penso que há muitas formas de politização, e penso, sobretudo que a despolitização pode ser perigosa, pode acarretar, involuntariamente, o aumento da pobreza, pelo paradoxo indesejável de combatê-la.
Abraços fraternais (ou solidários), e vida longa ao debate.
Fernando Braga Franco Talarico


E abaixo segue a minha resposta (também enviada por e-mail).

Caro Fernando, obrigado pelo e-mail.
Eu não prego a despolitização, mas sim a despartidarização da política na sociedade. A campanha presidencial de 2010 mostrou o quanto essa mentalidade sectária é nociva para as questões mais relevantes no país. Aqui, debatem-se cargos, partilha-se o poder e distribuem-se verbas à exaustão, mas ignora-se a saúde e a educação. Se para participar do processo político o cidadão precisa aderir à guerra suja de “vermelhos” contra “azuis”, restam apenas as livres iniciativas àquelas pessoas que querem de fato mudar algo no Brasil (sem exigir nada em troca, vale lembrar). E se nos movemos para mudar essa realidade e ajudar as pessoas, isso já é, por si só, não apenas um gesto humanitário, mas também um gesto político (sem tintas partidárias). Muito ao contrário das ONGs de fachada, que querem votos em troca de medidas paternalistas e assistencialistas — o que termina por perpetuar não apenas a pobreza do povo, mas também os coronéis no poder. Embora muita gente confunda minha visão com anarquismo (ou niilismo), isso é, na verdade, uma posição de cidadania. Acredito que cada um pode contribuir muito mais pondo a mão na massa e ajudando como pode (muitas vezes sem precisar tirar um tostão do bolso), do que montando palanques para reproduzir chavões da cartilha do partido. Na minha visão, quem faz ação social, faz muito mais do que qualquer militante de qualquer partido, porque visa o bem comum, enquanto que a militância visa apenas a interesses do partido e, não raro, interesses pessoais.
Um forte abraço
Diogo

* continue lendo a segunda parte aqui

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4 Comentários Comente também
  1. Enviado por: osvaldo

    É uma vergonha o que passa com o Estado de direito, a Educação em miséria, saúde esperando a eutanásia, segurança publica é mentira pura e por ai vai a desordem administrativa enquanto isso os nossos representantes no Congresso Nacional derrama maldade de todo o tipo contra os indefesos pobre mortais, veja o que fizeram com os aposentados e pensionistas e tome salário mínimo a CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA não é respeitada a todo instante rasga-se o manto sagrado com falação absurda, da nojo acompanhar votação no Congresso Nacional, é parlamentar de todo tipo e os mais perverso são os da base do governo, mente despudoradamente, e na hora de por o seu voto se esconde das câmeras da TV e fogem como diabo foge da cruz ao debater com algum Jornalista ou pessoa do povo, esses canalhas não tem alma e sim assombração, o MENSALÃO esta pra ser escancarado só que existe uma corrente contra apuração, se estivessimos em Pais sério esses caras já estariam atras das grades, é roubalheira de topo tipo e mais mentira de toda qualidade, o povo é bom pagador é só por na sua conta que ele paga, na hora de aumentar o salário do parlementar é questão de minutos agora na hora do salário do trabalhador é disviu de conduta pra ninguém botar defeito. A mídia esta cansada de tanta trapalhada quando se liga a TV lá vem porrada em cima do trabalhador, observe temos na Presidencia da República uma ex-guerrilheira, cassada, espancada, deportada do Pais esses mesmos individuos que praticaram crime de lesa direito estão questionando a validade da Portaria 1104/GM3/64, ato editado em pleno regime revolucionário (DITADURA MILITAR)que expurgou/excluiu ao arrepio da Lei soldados e sargentos da FAB, negam despudoramente que os atingidos foram licenciados administrativamente, esquecem que existe na Comissão de Anistia/MJ a Súmula Administrativa 2002.007.003/CA que considera atraves de vasto estudo ser ” A Portaria 1104/GM3/64, Ato de Execeção de de exclusividade de natureza política”, mesmo asssim órgãos do Governo investe contra aqueles que deram sua contribuição a Patria e como recompensa a maldade e o desprezo, no Governo de FHC a Anistia era respeitada no Governo passado e atual travasse uma batalha nos bastidores para desanistiar e jogar na vala comum os anistiados e anistiando, que vergonha pra uma Nação que tenta passar a limpo toda a sujeira plantada no dia 31 de março de 1964, quando o Pais foi tomada pelas força das armas do militares o destino de Nação, e para confirmar que a Portaria 1104/GM3/64 é Ato de Execeção ele foi editado no dia 12 de outubro de 1964, em plena vigencia da DITADURA MILITAR.

  2. Enviado por: osvaldo

    Em complemento a materia acima esta com a responsabilidade nas maõs o Deputado Federal/BA Artur Maia em apreciar e apresentar relatório a respeito de anistiado/anistiando da FAB, ademais, é valido frisar que a luta vem de a muito tempo e não poderia deixar de denunciar um determinado “ACERTO” firmado entre ex-cabos da FAB insistindo em exclusividade apenas para sua classe desmerecendo e prejudicando outras tambem envolvidas no assunto, (soldado, taifeiro e sargento)a Portaria 1104/GM3/64 editada em pleno regime revolucionário (DITADURA MILITAR)quando a Pais foi sacudido pelas tropas das FFAA impedindo a progressão desses militares permanecessem na atividade e por presunção de serem COMUNISTAS os que ingressa-sem após o ATO editado, assim esta posto, órgãos do Governo promovem uma verdadeira desarrumação equivocada na interpretação da Lei, na Legislatura passada a CEANIST da Câmara dos Deputados sob a Presidência do Deputado Federal Daniel Almeida/PCdo B/BA apresentou relatório a respeito do assunto ocorre que esse mesmo grupo ( Ex-Cabos)promoveu uma vasta manobra/artifícios afim de retirar direitos dos ex-soldados da FAB também inclusos na mesma Portaria, esconde propositadamente a existência de ex-soldados da FAB anistiado pela mesma Portaria 1104/64, na comissão de anistia/MJ; no determinado “ACERTO” se tem noticia que primeiro eles (ex-cabos)posterior os demais e se preciso batesse na porta da JUSTIÇA, este abuso vem de encontro com os princípios da segurança jurídica constitucional do Pais, ademais, em momento algum a portaria declarada não consta ter exclusividade ela foi consideração pela Comissão de Anistia/MJ ser Ato de Exceção de Exclusividade de Natureza Política, com a segurança deste comento é só ter acesso no Portal da ASANE organização criada para defender interesses e a palavra de ordem é “nós cabos”. Nesta mesma legislatura foi apresentada na Câmara dos Deputados o PL 7216 pelo Deputado Federal Mauricio Rands/PT/PE relatoria da matéria o Deputado Federal/DEM/BA Claudio Cajado, acompanhando o raciocínio dos que interpretavam a Lei “erroneamente” com exclusividade, as Praças da FAB (soldado, taifeiro e sargento)atingidos por este Ato infame (Portaria 1104/GM3/64)não aceita e repudia tal procedimento, quando tentam lhes retirar direitos pautado na Legislação Federal, estaremos disponibilizando informações confiáveis sobre o assunto. . att. gilson madureira, preciano reis, j.raimundo e outros

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