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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
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O Brasil precisa de uma terceira via

Categoria: Eleições 2010, Tragi-crônica

Todo mundo já sabia, mas Marina Silva confirmou oficialmente sua neutralidade nesse segundo turno. Ou, “independência”, como ela prefere dizer. Ela tinha 20 milhões de razões para fazer isso, pois tinha de respeitar os eleitores que apostaram no projeto da terceira via que ela propôs ao Brasil. Mesmo que a insatisfação com o “plebiscito” entre PT e PSDB não fosse nova, essa terceira via na política era uma utopia até pouco tempo atrás. Em 2006, Cristovam Buarque e Heloisa Helena tentaram captar esse espírito, mas falharam — ele porque não conseguia sair do tema “educação”, e ela porque sucumbiu diante de seus radicalismos. Em 2010, Marina Silva tinha a seu favor um temperamento mais amigável e uma agenda mais arejada. Mas uma terceira via não se constrói assim, da noite para o dia. O caminho era longo.

Votei nela, não nego. E esse foi voto de opinião, conquistado depois de muita análise. Marina tinha de me convencer. Critiquei-a quando achei necessário, principalmente em seus tropeços no início da campanha. Ninguém consegue se impor como terceira via com um discurso de “convergência” aos adversários (ora, se é para convergir, para quê se candidatar, não é mesmo?). Aos poucos ela foi fugindo do “samba de uma floresta só” e ampliou seu repertório político. Mas foi a guerra de foice entre petistas e tucanos que precipitou a chamada “onda verde”. Surfando na ressaca dos trololós e das tergiversações ideológicas de Serra e Dilma, Marina foi achando o tom certo para criticar ambos (sem deixar de reconhecer os acertos dos governos FHC e Lula) e colocando suas propostas com mais clareza. No todo, fez uma campanha muito mais limpa (e barata) e, principalmente, não tratou seus eleitores como idiotas, quando recusou entrar no vale-tudo eleitoral. Perdeu ganhando, como ela diz — e, com isso, conquistou o respeito até mesmo dos mais céticos.

O resultado está aí: 20% dos eleitores fizeram da utópica terceira via uma realidade e transformaram Marina numa nova esperança. Seu conservadorismo religioso — em contraste com suas visões políticas mais progressistas —, criaram um eleitorado bastante heterogêneo, que vai desde os evangélicos aos ambientalistas mais radicais. Mesmo se espalhando por todas as classes sociais, seu reinado foi absoluto em três camadas da sociedade civil: os estudantes (que, enfim, encontraram eco para as demandas do século 21), os artistas (que veem nela um exemplo de esforço intelectual e um modelo de educação e cultura para o país) e os desiludidos (fartos dos descalabros de PT e PSDB no poder).

Ao optar pela independência, Marina deixa aberto o caminho para 2014. Se souber fazer uma oposição crítica e, ao mesmo tempo, responsável ao próximo governo e construir melhor o argumento da sustentabilidade (que ainda é muito vago na cabeça do eleitor), ela se cacifa como uma das favoritas à disputa. Outro desafio é ela começar a procurar apoios desde já, pois seu calcanhar de Aquiles é a falta de uma base política mais sólida. Claro que a política precisa de mais outsiders, como Guilherme Leal e Ricardo Young, só que, se chegar ao poder, ela vai ter de se entender com o congresso. Mas, a meu ver, seu maior obstáculo será controlar a fome quase carnívora do PV por cargos. Para ficar num exemplo, vejam a como é esquizofrênica situação do partido aqui em São Paulo: integra a base da prefeitura (DEM), do governo do estado (PSDB) e do governo federal (PT). A verdade é que o PV é apenas um partido de secretarias de meio ambiente. Se quiser ser grande, vai ter de abandonar esse pragmatismo sustentável e tirar esse ranço de PMDB esverdeado.

Se Marina vai mesmo chegar com chances em 2014, só o tempo (e ela) vão dizer. Mas o fato é que o Brasil precisa de uma terceira via e o sinal vindo das urnas está dado. Chegou a hora de desconstruir essa hegemonia de PT e PSDB no poder, pois, como a própria Marina definiu, são eles os “fiadores do conservadorismo renitente”, que impedem o país de avançar.

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5 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Kent View

    E a agenda do meio-ambiente é a única que não pode ser camuflada por números, pois só depende de se enxergar o que está diante de nossos olhos e até no sentir da pele.
    Fica, portanto, muito longe dos números manipulados pelas duas forças que fingem uma contraposição que não existe.
    1)No PT – o forte deles é dizer que o feijão-com-arroz não falta mais.
    2)No PSDB – o forte deles é dizer aquilo que é óbvio mas que não convence por si só, ou seja, que Lula não faria um milésimo do que fez sem a anterior implementação do plano do real-FHC-Itamar (que fez com que os grandes caciques do PT adotassem secretamente o capitalismo de direita para suas economias pessoais, quando viram a economia de mercado funcionar ao contrário de suas teses ultrapassadas).

  2. Enviado por: Schlumbergera

    Vai ser difícil “desconstruir essa hegemonia de PT e PSDB” no poder pois eles tiveram o cuidado de anular todas as lideranças importantes e expressivas fora de São Paulo. A indicação da Dilma pode parecer um rompimento com essa ditadura paulista mas é ilusória pois a “mineira” está amarrada a Lula e ao núcleo paulista do PT. Enfim, como a esperança é a última que morre, quem sabe o destino não escolheu a verde Marina para liderar a recuperação da diversidade política em nosso país.

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