Crônicas da (in)segurança pública – 1º tiro
- 5 de setembro de 2010|
- 6h00|
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Categoria: Tragi-crônica

Muito se discute sobre segurança pública nos dias de hoje. Para mim sempre foi a mesma ladainha de sempre, à qual procurei responder com o grau máximo de ceticismo. De um lado, a população assustada; de outro, os governantes completamente perdidos. E, no meio disso, os bandidos, rindo de tudo. Esse ano, porém, essa questão me bateu à porta de uma maneira um tanto brutal. Há cerca de 5 meses atrás, fui assaltado e passei por todo o ritual já conhecido: a humilhação, a sensação de impotência e o pânico de que eles fizessem algo com a minha mulher. Felizmente ficou tudo bem, no final. “Foram-se os anéis, ficam os dedos” — você não faz ideia de quantas vezes ouvi essa frase. Mas, depois do ocorrido, não fiquei procurando explicações sociológicas para justificar a violência. Tampouco saí por aí espalhando a “novidade” para todo mundo. Não contei a ninguém aqui na redação e procurei poupar minha família dos detalhes mais “picantes” (sinto muito por revelá-los só agora — e logo aqui).
Antes de prosseguir, quero fazer uma justiça quanto a esses crimes que vemos por aí, em que a vítima supostamente “reagiu” ao assalto. De certa forma foi o que aconteceu comigo. Quando vi os bandidos entrando, tive o reflexo de tentar fechar a porta na cara deles. Claro que não foi um ato pensado e eu jamais o repetiria, mas são nessas frações de segundo que as tragédias acontecem. Essa minha falta de hospitalidade deixou os assaltantes muito nervosos. Já estive sob a mira de uma arma algumas vezes na vida, mas, dessa vez, os olhos esbugalhados do bandido foram mais convincentes ao dizer que ele estava “com muita vontade de meter um tiro na minha cabeça” (até aquele barulhinho de destravar a arma ele usou, para dar mais realismo à “cena”). De marcas físicas, ficaram os galos na minha cabeça, depois da sequência de coronhadas que levei. Mas de todas as memórias, a mais forte foi uma frase de um dos bandidos: “vocês acham que estão seguros aqui? Quer segurança, vai morar na favela!”. Quando eu disse que a questão da segurança pública me chegou de maneira brutal, não me referia nem à violência em si, mas ao que vi depois, quando ingenuamente fui cumprir minhas obrigações de “cidadão”.
Óbvio que fiquei com raiva, como qualquer ser humano (quase) normal que sou (acho). Passadas as duas horas de terror, procurei colaborar com as “investigações” da polícia. Percebi que os bandidos tinham deixado vários rastros pela casa: bitucas de cigarro, latas de cerveja, etc. Imaginei a polícia colhendo as digitais e consultando seus arquivos para encontrar os suspeitos. Mas, no momento em que a “perícia” chegou em casa para colher as provas, logo percebi por que os bandidos não têm receio algum de deixar rastros. Era a coisa mais anti-CSI possível. O trabalho se resumiu basicamente em fotografar a porta pela qual eles entraram e os objetos por eles deixados. Ao final, na hora de recolhê-los, o “perito” os pegou com as mãos e perguntou: “você tem um saco plástico aí para eu pôr as provas?”.
A situação não melhorou nada quando cheguei à delegacia para registrar o Boletim de Ocorrência. Logo na entrada, vi uma máquina de escrever. Tive de revirar as minhas memórias mais inóspitas para lembrar quando foi a última vez que vi uma máquina de escrever na vida. Enfim, depois de um chá de cadeira, fui depor, mas o escrivão, em vez de se concentrar no meu depoimento, preferia ficar batendo boca com uma mulher bêbada que queria dar queixa do marido. Mais tarde, o delegado teve de intervir, pois ele não tinha feito o trabalho direito, esquecendo-se de vários procedimentos. Ficou muito claro que aquilo não resultaria em nada e ali mesmo eu entendi porque tanta gente nem se dá ao trabalho de registrar ocorrência. O descaso é absoluto e ver essa desoladora realidade doeu muito mais do que as coronhadas. O lado bom disso tudo é que agora me sinto muito mais experiente no assunto, principalmente quando vejo candidatos falando em “aumentar os investimentos em segurança pública”…
Leia a continuação do post:
Crônicas da (in)segurança pública – 2º tiro
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Caro Diogo, além da revolta que surge após lermos este relato, digo como amigo que agradeço muito aos céus por vocês terem ficado bem. Abraços!
Caro Diogo, Se eu fosse comentar os 35 assaltos que juntos, eu, meu pai, minha mae e minha irma ja passamos, teria que escrever um livro para conta-los…
A charge que ilustra este texto não poderia ser melhor. Estamos literalmente entre a cruz e a espada! Bandidos assumidos de um lado e disfarçados do outro (estou falando dos políticos). E no meio, a polícia.
A definição “anti-CSI” para descrever a polícia brasileira foi uma das mais precisas que já vi. Uma vez, ao ter o meu carro arrombado, ao prestar queixas, o policial que me atendeu esbravejou:
“Como é que tu deixa teu carro parado na Frei Caneca? E outra, deixa de ser burro e coloca uma película no te carro.”
Se a candidata Dilma já foi assaltante de bancos e nada lhe aconteceu e ainda é bajulada pelo Rei Lula, o que você quer que aconteça aos bandidos?
Nosso país é assim mesmo… Saúde, educação e segurança são só promessas em todas as campanhas que acompanho há 50 anos. Quer mais? É esperar para ver…
Olá amigo Diogo!
Eu sinto muito pelo assalto, porem eu não sei qual é o pior é ser asaltado por um momento ou ser furtado durante quatro anos porestes politicos desacreditados.
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