Coisas que só o Millôr viu
- 8 de agosto de 2010|
- 6h00|
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Categoria: Cultura, Tragi-crônica

Dos livros que ainda guardo, Millôr Fernandes é, de longe, o autor que mais ocupa a minha prateleira — e ela acaba de ganhar mais um item. O Mundo Visto Daqui (Desiderata, 2010, 224 págs.) reúne textos e desenhos publicados na imprensa entre 1980 e 1983. Como eu já desconfiava, o mundo visto de lá (da Praça General Osório, em Ipanema) não é tão róseo como muita gente quer (ou precisa) ver. E acredite: a burocracia, a violência, a corrupção e a bestialidade humana, vigentes em 1980, continuam intocadas em 2010. Em seu humor — ora agridoce, ora ácido —, Millôr tempera (às vezes apimenta) as palavras com metáforas e ironias e nada parece escapar de seu olhar mordaz. A sociedade, a censura, a publicidade, os economistas, os “psicanalhistas”, os políticos, a imprensa, o “socialismo de direita” — e todos os questionamentos são de uma atualidade assombrosa. Até com o politicamente correto, que ainda nem estava em voga, Millôr já parecia prenunciar o nosso atual “istatusquó”, onde as patrulhas nos vigiam diariamente.
A abertura política da época proporcionou um leque maior de piadas com poderosos, e foi a oportunidade perfeita para fustigar o então presidente João Batista Figueiredo (que, segundo Millôr, passou a ser chamado simplesmente de “João” depois que chegou ao poder). Com o regime militar já cambaleante, o Brasil renovava as suas utopias e se preparava para a luta democrática, que resultaria nas “Diretas Já”, quatro anos depois. Mas Millôr já desconfiava de toda aquela euforia e parecia antecipar seus desdobramentos (inclusive o ponto em que estamos hoje): “Ontem era fácil. Todos combatíamos o nazismo. Ou apoiávamos o Vietnã. Mas, hoje, quem é o inimigo comum? A direita malsã e selvagem? Mas não é ela que nos ‘salva’ do comunismo materialista e, pior!, dialético?”. Numa época em que o maniqueísmo (ou qualquer outro “ismo”) ainda explicava o mundo, Millôr descolava seu pensamento do da turma do Pasquim, negando a história (“nossa história é um istória”) e mostrando uma impressionante capacidade de antever todas as coisas que hoje nos parecem óbvias, mas que só ele enxergou na época.
São muitas as alcunhas que o “Guru do Méier” ganhou ao longo da sua estrada. Eu o chamei de “Gênio do Caos” há não muito tempo atrás. Em seu “sáite” ele se apresenta como um “escritor sem estilo”, mas no livro se define apenas como um cético: “é, um cético. Isso quer dizer um homem de profundas e variadas crenças que, porém, nunca estão colocadas numa sigla, numa fé institucionalizada e politizada, num grupo e, sobretudo, numa pessoa”.
Num momento em que se iniciam os debates eleitorais e despontam novos candidatos a salvador da pátria, ler Millôr vai te fazer desconfiar desses candidatos botocados e embalados para o consumo. Mais do que isso: vai te tirar de suas verdades absolutas e libertar seu pensamento. Se o Brasil precisa de mais ceticismo (e eu acredito que precisa), O Mundo Visto Daqui é leitura indispensável.

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Fala Diogão!!!
belo artigo cara!!! o Millor é foda!!! preciso comprar um desse também!! hehe
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