Conexão África do sul (parte 4): Nelson Mandela
- 11 de julho de 2010|
- 6h00|
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Categoria: Copa 2010, Cultura, Tragi-crônica
Hoje é o dia da decisão da Copa do Mundo 2010, portanto, um bom dia para fazer a nossa última conexão com a África do Sul. E nessa data tão especial, eu não poderia falar de outra pessoa senão Nelson Mandela — pois, sem ele, não haveria Copa na África. Mesmo que os problemas raciais no país ainda saltem aos olhos, Mandela evitou o mal maior (e não há como apagar décadas de um regime como o apartheid em cinco ou dez anos). No livro Os Caminhos de Mandela, Richard Stengel mergulha fundo na complexidade do homem que é frio e duro com familiares e amigos mais próximos e, ao mesmo tempo, afável com seus adversários mais ferrenhos. Ao investigar essas contradições, cada capítulo do livro vai delineando o pensamento e os valores cunhados pelo grande líder sul-africano. “Tenha um princípio essencial — todo o resto é tática”, ele prega. Seu princípio era exatamente um: direitos iguais para todos, independente de raça, classe ou gênero. Para enfrentar o apartheid, ele precisou de muita coragem. Mas “a coragem não é a ausência de medo”, ele explica — e sim, a dissimulação da própria coragem. Em outras palavras, se você fingir que é corajoso, você se torna corajoso.
“Mantenha seus rivais por perto” é outra lição preciosa, mostrando como Mandela se aproximou de seus maiores adversários dentro do seu partido, o CNA. Chris Hani e Bantu Holomisa representavam a ala “jovem” e radical do partido, que defendia a luta armada — e Mandela sabia que tinha de trazê-los para o seu lado. Assim, ele neutralizou o avanço do braço armado do CNA e conduziu o país para a primeira eleição democrática da história da África do Sul. “Seja ponderado” mostrava como Mandela tinha grande capacidade de visualizar todas as possibilidades e consequências antes de tomar qualquer decisão. Em 1993, meses antes das eleições, a ameaça de guerra civil assolava o país. Chris Hani ganhava popularidade e encaminhava o país para o confronto, até o dia que foi assassinado por um imigrante polonês. Antes de ir à TV se pronunciar, Mandela sabia que qualquer passo em falso seria o fim, mas felizmente soube encontrar uma resposta ponderada, que ajudou na retomada do processo democrático.
Mas suas decisões não podiam ser solitárias, pois o objetivo maior pode morrer se o líder não permite que outros liderem junto, tornando-os parte do processo. Em vez de se lançar à frente e dizer “sigam-me”, ele ouvia, ponderava e então criava o consenso (geralmente em torno da sua visão). É o conceito de “liderar na retaguarda”, pois é por intermédio da capacitação dos outros que se partilha a própria liderança. O que não significava que ele abdicava de “liderar na frente”. Foi o que fez ao decidir negociar secretamente com o governo em 1985, quando ainda estava preso. Depois de décadas de conflito, ele estava convencido de que o CNA não conseguiria derrubar o governo e que o partido não abriria mão da luta — e ele sabia que esse consenso era absolutamente vital para se chegar à democracia. Depois de muito pensar, resolveu tomar a frente e iniciar por conta própria as negociações com o presidente P. W. Botha de dentro da prisão. Um processo lento e árduo, que durou quase uma década e que, se fosse mal conduzido, poderia transformá-lo num pária para seu próprio povo e precipitar a guerra civil.
Mandela sempre manteve boas relações com seus opositores mais virulentos. “Ver o que há de bom nos outros” é saber que ninguém é puramente bom ou puramente mau. A maior diferença entre as pessoas, ele explica, é que uns trabalham pelo senso comum, outros agem por interesse próprio. “Conheça seu inimigo” traz, entre outros relatos, a forma como ele estudou e compreendeu a cultura bôer para negociar com o presidente Botha, argumentando que existia um paralelo entre a luta dos bôeres contra o imperialismo britânico e a dos negros contra o apartheid. Ou depois, quando, já presidente, abraçou o time de rúgbi e o transformou em assunto de estado. As lições se seguem por todos os capítulos e, ao final, a sensação é de se tratar de um manual de auto-ajuda para líderes. Num momento em que a Copa se encerra e a campanha eleitoral por aqui se inicia, Os Caminhos de Mandela te levam para uma direção diametralmente oposta à dos nossos políticos tupiniquins. Parece quase uma obra de ficção quando olhamos para a política no Brasil. E depois dessa leitura, compreendi porque Mandela vê o modelo ocidental de liderança como “bastião da ambição pessoal”.
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