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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
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Petuscos e tucaneiros

Categoria: Eleições 2010, Tragi-crônica

petuscos_tucaneiros

Muito se fala sobre o esvaziamento no debate político nesses últimos tempos. As razões variam, de acordo com o emissor. Uns acham que é resultado da falência de utopias e ideologias. Outros, fartos de tanta impunidade, apontam a total desesperança com a classe política. Num cenário que se vê mais semelhanças do que diferenças entre PT e PSDB, tudo se confunde na cabeça do chamado “eleitor médio” — ou do Homer Simpson brasileiro, se preferir. E lhe digo: todos estão cobertos de razão. Mas há um outro fator para o motim de novas ideias na política, que contribui para agravar ainda mais a situação. São os petuscos e tucaneiros. Outro dia, mencionei aqui a guerra suja na internet promovida por essas duas bizarras criaturas da nossa fauna política, mas não expliquei exatamente onde fui buscar tais alcunhas. Antes de tudo, é bom que se diga: eles são diferentes de petistas e tucanos. Mesmo que defendam os mesmos partidos, petistas e tucanos sabem que sempre vai haver críticas — e eles saberão absorvê-las. Saberão também ponderar o outro lado e buscar o contraditório com argumentos, se for o caso. Infelizmente, petistas e tucanos são minoria e, se suas argumentações já não encontravam muito eco na sociedade, na internet são vigiados de perto pelos patrulheiros.

É aí que entram os petuscos e os tucaneiros. Como bárbaros com tacape à mão, atacam absolutamente tudo uns nos outros de forma cega e apaixonada. Miram o outro lado da cerca e, quando encontram algo suspeito, tiram frases do contexto, demandam explicações urgentes e exigem punições severas. Agora, quando a bomba estoura em seus currais, fazem o contrário: saem na defesa aguerrida de seus corruptos, alegam o golpismo e a perseguição política, evocam o benefício da dúvida e a falta de provas. Isso, além de ser de um mau-caratismo sem par, escancara a mentalidade totalitária dessas pessoas. Vê-se ali fragmentos do que há de pior já experimentado pela história, com perdigotos de fascismo, de stalinismo e até de nazismo voando para todos os lados. São pitbulls sem focinheiras, mordendo e disseminando a raiva. Não aceitam opiniões contrárias, não aceitam nada que vá contra suas cartilhas partidárias. É a futebolização da política — no pior dos sentidos —, com torcidas organizadas montando bunkers de patrulhamento ideológico, cerceando opiniões dissonantes. Esse copy-paste que fiz aí na ilustração acima, espelhando os personagens, não é mera coincidência. Petuscos e tucaneiros (esses nomes tão indissociáveis entre si) são assim mesmo: idênticos. E se o troll é aquele covarde que fica valente quando escondido pelo anonimato da web, petuscos e tucaneiros ficam ainda mais destemidos quando encontram seus nichos da blogosfera, onde impera o pensamento de manada.

Já que o novo ópio do povo é a metáfora futebolística, deixem-me soltar a última aqui porque meu estoque de metáforas está se esgotando. Tentem imaginar o debate político como se fosse um estádio lotado. Agora imaginem que houve uma daquelas tradicionais pancadarias e só sobraram lá as torcidas organizadas, armadas de paus, pedras e bombas. Para dar uma voz política à imensa maioria que se recusa a participar da barbárie, só sobram eles: petuscos e tucaneiros. E o pior é que 2010 será a primeira eleição presidencial em que eles serão protagonistas, se aproveitando do vazio oferecido pelos candidatos. Certamente, esta será mais uma grande contribuição para que o Homer Simpson brasileiro fique ainda mais distante da política.

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13 Comentários Comente também
  1. Enviado por: Edu AZA Itu

    Parabéns!
    Sintetizou as coisas.
    Só discordo de uma coisa.
    Apesar dos pesares, eu acredito que o brasileiro médio, já deve estar um pouco acima de um Hommer Simpson… nem que seja só um pouco!
    Ótimas charges e textos!
    Abração

  2. Enviado por: Diogo Salles

    Edu, fui questionado sobre essa citação ao Homer Simpson por outras pessoas e aproveito para fazer essa ressalva dizendo que se trata de uma referência irônica ao William Bonner, que uma vez numa palestra disse que o telespectador médio do JN é o Homer Simpson, e era tendo isso em vista que ele fazia a edição do jornal.

    Obrigado pelos elogios.

    []s
    Diogo

  3. Enviado por: CaroL

    Parabéns pelo texto, Diogo Salles. Tenho sentido um desconforto imenso quando leio as matérias de política em diversos veículos da internet e leio os comentários que falam às vezes da “petralhada” e às vezes da “zelite paulista” – e estes são os apelidos mais light atribuídos a cada lado. Está muito difícil encontrar debates equilibrados, onde devem prevalecer divergências naturais de idéias, ao invés de uma pregação vazia, xingamentos e agressividade desnecessária. Chego ao ponto absurdo de pensar se, será que, de fato, o espaço de comentários é uma boa idéia? Mas depois fico com vergonha de meu próprio pensamento “mordaça” e antidemocrático. Sim, os comentários são uma boa idéia. Apesar de, muitas vezes, ou na maioria delas, mostrarem um cenário deprimente, esse cenário que mostram é a realidade das tropas fanáticas que se alinham de cada lado da guerra eleitoral e, queira ou não, o espaço está aberto a qualquer um. Se os ogros barulhentos dominam, é em parte por culpa dos silenciosos, nos quais, infelizmente, me incluo. Quando não estou completamente segura de minha própria argumentação, em geral prefiro me abster. Junto com tantos que querem saber mais sobre os projetos de cada candidato porque sentem que a informação real disponível fora do jogo publicitário e da pirotecnia eleitoral é insuficiente, uso essa insuficiência para justificar uma falta de engajamento e participação mais ativa. Acho que estamos deixando os fanáticos ganharem essa batalha por espaço, mas o pior é que não tenho ânimo para mudar minha própria atitude. Como vejo esses espaços hoje, creio que para entrar tenho de estar pronta para a “guerra”. Não estou.

  4. Enviado por: Diogo Salles

    Carol, se você tiver uma opinião, não se abstenha. Seus comentários sempre serão mais importantes do que o de qualquer petusco ou tucaneiro. Como eu disse, o estádio não pode ficar vazio, porque aí só sobra o preconceito e a intolerância dessa gente.

    O jeito é ignorá-los e falar diretamente apenas com quem está a fim de debater. Se alguém te atacar, desconsidere aquilo como “opinião”.

    Contamos com você!
    []s
    Diogo

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