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Você praça eu acho graça você prédio eu acho tédio

Tata Amaral

19 agosto 2014 | 10:14

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quadrinha de Dafne Sampaio

 

 

“Você praça eu acho graça. Você prédio eu acho tédio”é  a quadrinha do Dafne Sampaio, poesia na rua carimbada nas paredes e tapumes das obras dos prédios. As obras da destruição de uma camada importante da nossa cidade, agora descartada. A quadrinha é um manifesto lindo na desleal luta dos moradores paulistas contra a especulação imobiliária e a verticalização absurda.

A especulação imobiliária não é privilégio de São Paulo. Nem do Brasil. É um mal contemporâneo. Recentemente assisti a um filme palestino/israelense, “Five Broken Cameras”.

Five Broken Cameras

O nome do filme se deve ao fato do diretor ter usado 5 câmeras e vários anos para realizar o filme sobre a ocupação israelense em sua vila e a luta da população contra os bloqueios e barricadas que os impedem de ir e vir de suas casas até suas plantações, seis campos de oliva ancestrais. Esta luta se tornou símbolo mundial da resistência civil palestina. As câmeras do cineasta foram destruídas pelas balas do exército israelense e uma destas câmeras, salvou-lhe a vida pois o tiro foi em direção a sua cabeça. O movimento revelado no filme é claro: no primeiro movimento, vem o exército, ocupa as terras e lavouras dos palestinos, constrói as barreiras, impõe o bloqueio. No segundo movimento, vêm as empreiteiras com suas máquinas arrancando as oliveiras e demais lavouras, terraplanando a história, a tradição e tudo mais. No terceiro movimento, as construções, os empreendimentos. No quarto movimento, os colonos. Quanto dinheiro deve andar correndo por ali!

Até mesmo em cidades históricas da Europa, a especulação assola. A diferença é que lá existem regras de ocupação e construção há anos. Do contrário, imagino que algum especulador já deva ter pensado em construir um empreendimento de alto luxo na esplanada da Torre Eiffel.

É. A fome de dinheiro não tem fim. É um saco sem fundo. Sei por alto que, em Nova Iorque, houve uma resistência importante nos anos 70 que impediu o SoHo de vir abaixo.

Gostaria que acontecesse o mesmo com vários bairros em São Paulo. A Vila Madalena, por exemplo: por que os empreiteiros não ganham seu rico dinheirinho com coisas úteis, como por exemplo, embutir fios de eletricidade e cabo, refazer calçadas, reabrir rios? Por que não deixam nossa história, nossa memória, nossa tradição, nossas casas em paz e encontram outras soluções  de moradia a não ser este edifícios horrorosos, autoritários, elitistas?

O que se vê, são edifícios enormes construídos em ruazinhas que não vão conseguir dar vazão ao trânsito, a construção desorganizada em morros, aniquilando a topografia de São Paulo que é linda.

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Prédio em construção na rua Fidalga

E os rios? Nem se fala? Na Vila passa o Rio Verde, canalizado, evidentemente. Nem por isto os empreendimentos se constrangem. Ao contrário, afundam-nos mais ainda.

Estas construções são tão autoritárias que não levam em consideração a escala: colam suas paredes monstruosas nas casinhas, não permitem recuo e nem são amigáveis à rua. Uma única construção pode lançar sombra em mais de dois quarteirões. E pensar que no Japão há regras sobre o direito ao sol. As novas construções deixam espaços exíguos entre suas paredes e a das casas.

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Rua Fidalga esquina com rua Wisard – edifício ainda em fase de construção

Na Vila Madalena, a “moda” das empreiteiras é comprar terrenos em “L” e envolver as casinhas sufocando-as.

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Rua Simpatia na Vila Madalena

Realmente, eis porque o nome disto é “especulação imobiliária”: o especulador não tem preocupação com o entorno, com a cidade, com a população. Esta atitude me faz lembrar daquela aula de história quando conhecemos o comportamento extrativista dos portugueses na época da colônia no Brasil: vinham para cá para extrair o máximo de riqueza (pau-brasil, ouro e tudo mais) sem deixar nada além de filhos nas barrigas da índias. Assim são os especuladores: sugam o possível da cidade e não deixam nada. O nome disto devia ser “predadorismo imobiliário”.

Mais do que tédio, o trabalho destas incorporadores e empreiteiras me dá dor no coração.

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Casa cercada por prédios na Vila Madalena

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Demolição