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As águas de meu pai, Rios e Ruas, Parque da Fonte e tantos parques, tantas fontes

Tata Amaral

25 agosto 2014 | 15:42

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Joaquim

Estávamos sentadas na beira da piscina pública de Serra Negra, minha mãe, eu e minha irmãzinha entre nós. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos. Me lembro bem de balançar as pernas na água, imitando minha mãe, e notar que minha irmã não alcançava a tona. Minha mãe apontou meu pai com o olhar: “Repara como ele nada! Não levanta uma gota d’água.” Olhei para ele. Vi sua figura deslizando pela raia da piscina e pela primeira vez admirei a elegância de meu pai.

Ele nos ensinou a nadar desde sempre. Mais tarde, pediu a um amigo que nos treinasse. Tínhamos aulas no Clube Paulistano. Mesmo no frio, nadávamos. Meu pai contava que, em Lins, meu avô ensinou a ele e a meus tios. Nadavam no rio, embora existam fotos deles numa piscina de algum clube da cidade.

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Joaquim (terceiro da esquerda para direita) na piscina

Parece que meu avô era fanático por natação e esportes e treinou todos os cinco filhos com mão de ferro. Por reação ou natureza, ao contrário, a mão do meu pai sempre foi carinhosa. Nos ensinava com doçura. E com doçura também, nos contou o caminho das águas. Contava que, pequeno, era obrigado a mergulhar no rio frio, muito cedo, antes do sol nascer. Tinha medo da água escura, de noite não via nada. Gostava de nadar durante o dia quando as águas ficavam menos turvas, ameaçadoras. Uma vez foi nadar no mar bravo, cheio de ondas. Decidiu ir até o mar aberto e descobriu que, passada a linha de arrebentação, tudo ficava calmo. Meu pai contava muitas histórias e nunca sabíamos quando ele as inventava e quando teriam acontecido de verdade. E se aconteceram de verdade, com quem terá sido? Não importa. Já dizia Aristoteles: “Não cabe ao poeta, dizer o que realmente aconteceu. Esta é tarefa para historiadores. Ao poeta cabe dizer o que poderia ter acontecido.”

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Joaquim na cachoeira

Tio Antônio me deu diversas fotos de meu pai, muitas delas perto de rios. Tenho a impressão de que ele sempre buscava um riozinho para estar próximo. Ou sempre se deixava fotografar perto de um rio.

Quando veio para São Paulo, encantou-se com a modernidade. Tio Jayme me disse que gostava de levar os irmãos mais novos a passear pelo Viaduto do Chá e subir no Martinelli.

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Joaquim (primeiro da direita para esquerda) no barco

Foi meu pai quem me contou que embaixo do Vale do Anhangabaú passa um rio, o rio Anhangabaú. Me ensinou a perceber a topografia, me mostrou o rio Tamanduateí lá do alto do Pateo do Colégio e me falou que São Paulo começou no triângulo contornado pelo Anhangabaú e Tamanduetí. Morávamos na rua Major Quedinho que fica no viaduto sobre a avenida Nove de Julho. Através de seus olhos, eu via nitidamente o trajeto do rio Saracura descendo a encosta na altura do MASP e correndo até o Anhangabaú. Foi meu pai quem me fez ouvir o barulho do rio Verde canalizado num bueiro na esquina da rua João Moura com Cardeal Arcoverde,  perto de onde era a casa da vovó. O bueiro está lá e o rio continua a correr, submerso. Podemos ouvi-lo até hoje.

Qual não foi minha grata surpresa quando conheci o “Rios e Ruas”. É um projeto organizado por Luiz Campos Jr. e José Bueno que realiza expedições pela cidade de São Paulo para descobrir os rios soterrados.

Imagina participar de uma destas expedições?  Nossa cidade é riquíssima em rios. Numa mesma quadra pode haver um ou mais cursos d’água canalizados, soterrados. Os edifícios os soterram mais ainda. Mas eles continuam lá.

Derrubamos as matas, massacramos as nascentes, soterramos os rios e os que ainda sobrevivem abertos, terminamos de poluir. Nunca hesitamos em construir  nas suas margens.  De uns anos para cá, criou-se uma lei que obriga a construção de garagens que afundam mais ainda os lençóis freáticos, banindo mais ainda as águas da nossa vida urbana.  Junte-se a isto a má administração das águas no estado de São Paulo e pronto: corremos o risco de ficar sem água numa das cidades mais hídricas do pedaço!

O tempo está seco e São Paulo já deixou de ser a “terra da garoa” há muito tempo. Mudamos o clima da cidade. Fizemos bem?

Torço para que compreendamos a importância dos rios urbanos e que criemos leis para preservar, recuperar e aumentar nossas áreas verdes. Torço para que aprendamos a identificar, trazer à tona e respeitar nossos rios submersos, que façamos leis para preservar os leitos e sobretudo as nascentes. Torço para que não permitamos mais edifícios em torno dos córregos e que estas águas possam ser de desfrute de todos, seja para uso, seja para deleite num parque ou numa fonte, por exemplo.

Abrir nossos rios ou pelo menos deixar o curso das águas pluviais correrem pela cidade a partir da sua topografia pode ser uma solução para que nosso cotidiano seja melhor. As empreiteiras podem ser convocadas para trabalhar num projeto para o bem comum, menos predatório.

Ganhar consciência da existência dos rios, que hoje jazem sobre as grandes avenidas, é mais que importante. É uma questão de sobrevivência. O “Rios e Ruas” está fazendo uma campanha para levar a “Mostra Rios e Ruas” para o Parque do Ibirapuera, onde milhares de pessoas terão acesso às pesquisas. Abaixo informações sobre a campanha para arrecadar fundos.

Planeta Sustentável – Rios e Ruas no Parque do Ibirapuera

Abaixo também, o link para o vídeo sobre o Parque da Fonte e a luta dos moradores para que o terreno não seja desapropriado e que se torne realmente um parque.

Parque da Fonte