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Não foi só por Justiça. Mas por honra, amor e verdade. A história de César e Daniel

Bruno Paes Manso

segunda-feira 30/06/14


Uma amiga me disse certa vez que, para ela, felicidade era ser enterrada pelos filhos quando morrer. Acho que o conceito também serve para mim e para muita gente. A tristeza incomensurável da família que perdeu seu filho de 20 anos acompanha todos os instantes do documentário Quando eu me Chamar Saudade, de Renan Xavier, Lailson Nascimento e Daniel Santos.

Na cena inicial, eu tive que dar uma pausa no vídeo para retomar o fôlego. Graça, mãe de César, morto em julho de 2012, se lembrava da última vez em que o viu com vida. César estava mais bonito do que nunca, tinha algo especial e diferente, que ela não consegue explicar. Talvez especial fosse sua lembrança, o último flash da memória de alguém amado visceralmente, visto instantes antes de sair de casa na noite de sua morte.

A morte de Cesar e de Ricardo ocorreu há exatos dois anos, em 1º de julho de 2012, quando os dois voltavam em uma moto depois de retocarem suas tatuagens na casa de um primo. No caminho, eles se depararam com policiais que os confundiram com traficantes. Foi chamado reforço e os dois acabaram executados. Seria mais um entre tantos casos em que as vítimas são apontadas como culpadas, antes do inquérito ser arquivado como resistência seguida de morte. Nesses casos, além da desgraça da morte de um filho, outro assassinato ocorre: o da honra dos familiares, acusados de colocarem um bandido no mundo.

Só que dessa vez havia um tal de Daniel Eustáquio, pai de César, herói anônimo da cidade. Em nenhum momento ele acreditou na versão oficial. Lembrou do nascimento de César, da educação que o filho recebeu, de seu jeito, rotina e amizades. Estava convicto de que a acusação era falsa e foi visitar a cena do crime poucas horas depois. “O senhor é o pai do meliante?”, ouviu ao chegar. Viu o teatro sendo montado pelos policiais. Identificou as falhas e contradições. Começava sua luta para provar a inocência de César e Ricardo e a culpa dos policiais envolvidos na ação.

Começaram os piores 27 dias de sua vida. Não houve tempo para o luto. Desacreditado pelas autoridades, caçoado quando afirmava a inocência dos garotos, foi colhendo provas e testemunhos. Um deles está no documentário e é surpreendente. Trata-se de um suspeito que acompanhava os policiais na hora da perseguição.

Era um usuário de drogas que viu toda a perseguição. Quando soube que os jovens mortos estavam sendo acusados injustamente, decidiu revelar a farsa. Mesmo sabendo que colocava sua vida em risco. O documentário mostra a saga do pai na busca pelas provas. Investigadores do DHPP se sensibilizaram com a persistência de Daniel e passaram a lhe dar ouvidos. Em agosto de 2012, os cinco policiais foram presos e atualmente aguardam julgamento.

Mesmo tendo sido bem sucedido no processo, Daniel às vezes parece ter dificuldades em segurar a barra. Escreve com frequência em memória de seu filho no facebook, cuja página permanece ativa. Ele também tatuou o rosto de César no braço e o chama de herói por não ter sucumbido à violência. Foi vítima da violência, mas nunca a usou, diz Daniel, com o orgulho de quem se tornou um pacifista convicto, militando e sofrendo quase solitariamente sempre que vê alguém sendo vítima dâs autoridades.

Imagem de Cesar no facebook de Daniel Eustáquio

Quando eu o entrevistei, há dois anos, escrevi o texto em prantos. Também fiquei muito emocionado vendo o filme, numa das histórias que mais me marcaram como repórter. Na reunião de pauta da Ponte, na semana passada, meu parceiro no coletivo, André Caramante, também teve que engolir a seco ao falar dos posts em que Daniel lamentava as saudades que sentia do filho. Foram segundos de um silêncio comovente.

Dois anos depois, que a história de amor e de dignidade da família de César e de Ricardo nos ajudem a refletir melhor e a lutar para trazer mais paz para nossa cidade. Que surjam mais heróis como Daniel Eustáquio para lutar pela paz. Em vez de falsos heróis truculentos, como alguns policiais de histórias em quadrinhos, que parecem crer na falácia de que a guerra contra bandidos pode nos chegar a uma sociedade mais justa.