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Bruno Paes Manso

 

Creio que os bons policiais militares (talvez a maioria) ficaram envergonhados e agora vão encher o blog com duras críticas contra os colegas responsáveis pela gravação e divulgação da cena de três jovens agonizando dentro de um carro depois de uma perseguição policial. Também imagino que esses PMs irão nos comentários elogiar a imprensa por alertar o Comando Geral da PM e a Secretaria de Segurança do ocorrido, ajudando assim a corporação a identificar e a punir os desviantes.

Na tarde de ontem, coube aos repórteres independentes André Caramante e Laura Capriglione noticiarem via redes sociais o vídeo em que admiradores da truculência da PM haviam postado numa página do facebook chamada Polícia do Estado de São Paulo. Como informou Caramante, os responsáveis pela publicação do vídeo afirmam que o caso aconteceu dia 8 de abril, na Vila Curuçá, na zona leste de São Paulo. Dos três baleados pelos PMs, dois estavam hospitalizados e um morreu. O vídeo, postado na terça-feira, dia 14, foi removido depois do começo da repercussão.

É especialmente triste o momento em que um dos baleados diz “meus filhos” e uma voz ao fundo responde “vai demorar aí, cara…?. É pra morrer”.

Nessa página não oficial da Polícia, com mais de 20 mil curtidas, o vídeo foi compartilhado mais de 700 vezes, com uma série de comentários desumanos, para não dizer doentios, dando risada das cenas (há, há, há/ rsrsrs), chamando os mortos de bandidos e festejando a atitude dos PMs. Na parte inferior da tela, aparece a bota e a calça do cinegrafista com a cor do uniforme da polícia. A imagem do fiat preto também mostra, aparentemente, o reflexo da filmagem sendo feita por um policial. A corregedoria da PM afirma que vai investigar a autoria das imagens.

Não é a primeira vez, nem será a última, que integrantes da corporação vão se envolver em deprimentes cenas de barbárie. Em novembro de 2012, às vésperas de assumir o comando geral da PM, o coronel Benedito Meira gentilmente me recebeu no Palácio dos Bandeirantes. Era a primeira entrevista que ele dava depois de indicado ao cargo, no auge da crise de segurança daquele ano. Parte da conversa foi sobre os Admiradores da Rota, página da internet que espalhava imagens de caveira e defendia a morte de bandidos, ao mesmo tempo em que detalhava as ocorrências policiais da tropa, indicando que eram alguns de seus integrantes os responsáveis pela apologia ao crime.

Na conversa, Meira disse que não mais admitiria nas páginas do facebook policiais incitando a violência e associando a caveira à imagem da PM. Na minha frente, eu via a fala de um coronel que estava sendo sincero e que acreditava naquilo que falava. Mas restava combinar com a tropa. Meira dava ordem ao vento. Hoje ele falou duramente sobre o caso e disse que afastou os policiais que estavam na ocorrência do dia 8.

Situação parecida de desmando ocorreu no começo do ano, tema do post de estreia deste blog. Depois da morte de um policial em Sapopemba, em dezembro, PMs passaram a ameaçar a população do bairro para descobrir o nome do autor do atentado. Com medo, a população pediu ajuda da Secretaria da Segurança e do Comando Geral, realizando duas audiências públicas. As autoridades se compromissaram em dar segurança a eles. Mesmo assim, poucos dias depois, carros descaracterizados mataram três pessoas. Apesar do desafio feito pelos assassinos ao Governo de São Paulo, ontem, como informou a repórter Lúcia Rodrigues, nenhum oficial da PM compareceu à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa para debater o caso.

Aproveito para levantar a pergunta: se as ordens do comandante geral são recorrentemente desobedecidas, a gestão militar da polícia é de fato a mais apropriada para manter a disciplina e ordem da corporação? Últimas perguntas, sobre a foto acima, com policiais militares perfilados em frente a barracos de alvenaria, que está na capa da página não oficial da polícia do Estado de São Paulo. Eu estou exagerando ou foto revela o preconceito de alguns integrantes da corporação contra moradores pobres da periferia? Eu estou forçando a barra ou a imagem parece simbolizar que os policiais estão armados para nos proteger dos moradores de casas daquele tipo?

Boas perguntas para serem debatidas. Ontem, recebi um convite da Diretoria de Polícia Comunitária e Direitos Humanos da PM para participar de uma reunião onde seria pedido financiamento para a realização de estudos sobre a corporação. Infelizmente eu não pude ir. Mas volto a me colocar a disposição (mais para ouvir do que falar) em um eventual debate democrático sobre reformas nas polícias e desmilitarização.

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Desembargadores são pessoas de carne e osso, com sangue correndo nas veias, assim como eu e você, caro leitor. Mas parece que alguns se transformam em estátuas de mármore quando vestem a toga, observando o mundo de uma posição superior, em cima do pedestal, como se não fizessem parte da confusão aqui da terra. É o caso de alguns dos profissionais que trabalham no Tribunal de Justiça do Pará. A insensibilidade da Justiça no Estado arrasta desnecessariamente o sofrimento da família das fotos acima que já carrega uma cruz pesada faz mais de 20 anos. Desde quando Stephany, hoje com 21 anos, a filha mais nova entre os três irmãos, tinha 10 meses. Marcelo era um menino de 5 anos e Gustavo, de 3.

No final de março, os desembargadores paraenses tiveram a chance de solucionar um dos mais graves erros da justiça brasileira, mas preferiram lavar as mãos. A desculpa para se omitirem foram filigranas processuais. Mantiveram presos os médicos Césio (o pai das fotos acima), de 56 anos, e Anísio, de 72, condenados em 2003 pelo sequestro e morte de crianças em Altamira (três morreram e duas sobreviveram). Acusados de emascularem as crianças depois de mortas, usando os órgãos sexuais em rituais satânicos, foram presos diversas vezes. A última prisão ocorreu em 2009 e até hoje eles permanecem encarcerados, como havia contado neste blog.

A punição seria mais do que justa. Só que desde 2004 se sabe que eles não cometeram o crime. Naquele ano, um mecânico chamado Chagas, ex aventureiro em Serra Pelada, confessou a morte de 42 crianças, 12 delas em Altamira e 30 no Maranhão. Tratava-se de um serial killer, que apontou os locais dos crimes, onde estavam alguns corpos e os detalhes dos assassinatos, com detalhes que revelaram seu perfil obsessivo com traços de um psicopata. A defesa dos médicos pediu a revisão criminal e a anulação do julgamento, já que o novo réu confesso contara tudo à polícia.

Era de se imaginar desembargadores envergonhados, homens e mulheres apressados em desfazer o mal entendido, em pedir perdão à família que pagou um preço incalculável por causa da incompetência dos servidores públicos. Só que veio a decisão dos homens de pedra, que se agarraram em leis menores para insistir em seus graves erros, sem perder a pose de que agiam como cumpridores de sua nobre tarefa. Os desembargadores alegaram que seria preciso que Chagas, o serial killer, prestasse depoimento em juízo para rever a decisão de 11 anos atrás. Não bastava o que ele falou diante da polícia, em entrevista filmada com a presença de peritos. Era preciso que ele falasse diante de um juiz.

Eu não sou nenhum expert em direito, mas tenho um mínimo de bom senso e noção do que é justo e injusto. A primeira coisa que me vem à cabeça nesse caso é a discussão feita por Hannah Arendt para a revista New Yorker no julgamento do nazista Eichmann em Jerusalém sobre a banalidade do mal. Durante o Júri de Eichmann, a filósofa percebeu que ele, ao contrário do que ela imaginava, não mandava os judeus para o extermínio nos campos de concentração por ser um carrasco genocida. Mas por se tratar de um burocrata, ciente de seus pequenos deveres cotidianos. Escapava da cabeça obtusa de Eichmann toda a discussão moral a respeito da crueldade que ele estava praticando. O burocrata se sentia satisfeito e se enxergava como um homem zeloso e de bem por obedecer as ordens de seus superiores.

A banalidade do mal surge na sala do tribunal paraense na pena dos desembargadores. Em vez de tomarem uma decisão com base na moral, seguem a correção fria e estúpida das normas processuais, como se cumprir esses procedimentos fosse um fim em si mesmo ao invés de um meio para se fazer Justiça.  Juízes que, em vez de decidirem olhando para a vida real e para o desespero de pessoas de carne e osso, se apequenam dentro de seu mundo protegido por uma bolha de plástico.

Alda Fávero, a mãe das crianças e mulher de Césio, afirma que hoje já não acredita mais na Justiça dos homens. Evangélicos, eles se mantém unidos porque ainda acreditam na Justiça Divina, segundo Alda me explicou. Stefany, no entanto, a filha mais nova, ainda não desistiu dos juízes e dos tribunais. Depois de acompanhar e viver o drama junto com o pai, passou a estudar direito na Universidade Federal do Espírito Santo. Leu o processo, foi visitá-lo em março na prisão em Belém, depois de cinco anos sem vê-lo. A defesa recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Apesar de ainda ser estudante, Stefany debateu os caminhos jurídicos a serem trilhados.

A resposta agora está nas mãos do STJ. Ainda há chances de redenção para a Justiça do Pará e do Brasil. Será que os juízes dos tribunais superiores são pessoas que se importam com o destino de inocentes que já sofrem há mais de 20 anos com os erros da Justiça? Um ano a mais um ano a menos, quanto tempo o pesadelo dessa família ainda vai durar? Não sei por quê, mas às vezes eu tenho a impressão de que o futuro do Brasil depende de pequenos casos como este, o retrato mais verdadeiro do caráter da sociedade em que vivemos.

 

A família criou uma página no facebook para angariar apoio: chama Césio Brandão e Anísio Ferreira – Queremos Justiça!

 

 

 

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Existem momentos que não podemos deixar passar por serem raros. A nota oficial que a PM enviou ontem ao UOL em resposta a críticas à corporação (veja a íntegra abaixo) é um deles. Eu respeito o conteúdo do texto por me parecer sincero, fugir ao discurso burocrático e pro forma, funcionando como uma espécie de desabafo. Também vi como desabafo o texto agressivo que um capitão da PM me escreveu (ver acima), sujeito com quem sempre tive relações cordiais, sobre post de duas semanas atrás. O oficial é um dos comandantes do setor de imprensa da corporação. Eu apaguei o nome dele porque não pedi autorização prévia, apesar de ele ter publicado no meu Facebook.

Dito isso, acho o conteúdo um pouco assustador e ao mesmo tempo revelador de um dos principais defeitos dos policiais militares. O corporativismo atávico, que leva muitos de seus oficiais a fecharem os olhos diante de problemas estruturais históricos. Aqueles que criticam e tentam mostrar essas falhas são acusados de inimigos. Veja só o argumento. O fato de eu apontar e discutir ações truculentas praticadas por policiais desviantes contra cidadãos me transforma em um “socialista”, defensor de “Cuba e Coreia do Norte”, um “intelectual orgânico” ou um “idiota útil” a serviço daqueles que querem implementar a revolução comunista gramsciana no Brasil.

Já a nota oficial coloca a PM no papel de vítima injustiçada, o que de certa forma permite tapar os ouvidos para os que a criticam. O título “A PM e o Zepelim?” é, na verdade, uma referência à música de Chico Buarque sobre as pedras atiradas pela população contra a Geni. Apesar de eu ter gostado da ousadia e da licença poética do oficial-escritor ao escrever a nota, acho uma postura imatura, típica de crianças que querem continuar desobedecendo.

Humildemente, eu sempre acreditei que ao apontar os desvios da PM estivesse de alguma forma ajudando a corporação a se renovar e a se fortalecer. Numa democracia capitalista a polícia tem obrigação de prestar contas aos cidadãos que pagam impostos e a financiam, certo? Também achava que, como jornalista, quando dou voz àqueles que sofrem violência policial, eu deveria ser visto como um parceiro na tarefa de melhorar a Polícia Militar. Nunca me vi como um revolucionário em potencial por causa disso.

Ao longo de minha trajetória, entre outros temas, eu tenho apontado como principal defeito da PM o alto número de homicídios oficiais (resistências seguidas de morte) e extraoficiais (feitos por grupos de extermínio) praticados principalmente contra a população mais pobre e moradora dos bairros da periferia. Além desses homicídios, outra prática recorrente com a qual os jornalistas se deparam diariamente são os falsos testemunhos e armações de cenas feitos para acobertar as investigações desses crimes.

Entre tantas histórias, cito um caso recente e emblemático. A do jovem de Limeira que passou por uma longa revista feita por policiais da Força Tática, foi algemado com as mãos para trás em uma viatura e morreu poucos minutos depois com um tiro na cabeça. Os policiais afirmaram que ele havia cometido suicídio, algo que o delegado e o perito confirmaram. Só depois que publiquei a história, a PM e o IC começaram a se movimentar para rever possíveis erros (ainda aguardo o resultado).

Apesar de eu bater com insistência nessa tecla, isso não significa que eu não veja méritos na corporação. A competência da PM para gerir 100 mil homens sempre me deixou admirado, assim como são incontáveis pessoas altamente idealistas que encontro na instituição e que a renovam. Mas há um problema, e talvez seja pessoal. Na minha carreira, não há nada que me cause mais revolta do que ouvir uma família que perdeu o filho ser depois ameaçada pelos policiais que o mataram. É quando o peso do mundo pode esmagar, quando essas pessoas viram insetos, quando qualquer vestígio de justiça desaparece.

Eu sei. Vão me dizer que eu não penso naqueles que morrem por assalto. Claro que penso. Eu morro de medo de ser assaltado. Mas aí existe todo um sistema para lidar com o problema. Por mais ineficiente que seja, o Estado tem a obrigação de pegar e punir o criminoso. Não é o caso das famílias abusadas pelos policiais. Elas estão sozinhas, contra o mundo e uma corporação poderosa. Meu apoio como jornalista, na absoluta maioria das vezes, de nada adianta. Mas eu não tenho dúvida que é do lado dessa família que eu sempre estarei, por menos que isso signifique.

Continuando, se eu garanto que não sou um comunista e que não quero a revolução, creio na necessidade de reformas, essas sim urgentes. Acredito que o artigo 144 da Constituição, que define a organização das polícias no Brasil, é arcaico, cria um sistema de segurança pública ineficiente e que por isso contribui para o aumento dos crimes no Brasil. E os problemas são cotidianos, relatados inclusive por policiais militares com quem sempre conversei. E qual seria o cerne da questão? É algo que quero desenvolver um pouco melhor no blog e como pesquisador no Núcleo de Estudos da Violência da USP.

Eu não creio que a violência policial seja fundamentalmente uma cultura herdada da Ditadura Militar. A maioria dos policiais era criança na época, como eles sempre afirmam. A prática do extermínio por maus policiais militares me parece, acima de tudo, decorrência do conflito e desconfiança existente com os policiais civis, responsáveis pelo trabalho de investigação judiciária. De que adianta ao PM arriscar a vida para prender um criminoso se depois vai entrega-lo ao policial civil que vai achacar o culpado e coloca-lo na rua mediante a uma dada quantia? Reclamação que eu cansei de ouvir dos policiais militares. Levar para à delegacia por que? Claro que não é assim que pensa a absoluta maioria dos PMs. Mas a parcela que extermina suspeitos é suficiente para causar enorme estrago em nossa democracia.

Acredito, portanto, na necessidade de mudança dessa estrutura. É algo consensual. Precisamos de uma polícia que cumpra o ciclo completo. Uma reforma que garanta a existência de uma corporação que faça do policiamento ostensivo às investigações. Com a separação das tarefas, sem as reformas, o que continuaremos vendo é o desvio de maus policiais que assumem o papel de justiceiros, prendendo, julgando e exterminado os suspeitos. A minoria, claro. Mas uma minoria barulhenta e perniciosa. Que faz o ciclo completo com as próprias mãos.

Finalmente, para encerrar, no final do ano passado, quando estive falando com policiais militares em um seminário sobre os protestos de junho, eles disseram que este ano haveria um debate sobre a desmilitarização da PM. Eu entendi na época que tinha sido convidado, postura, aliás, que me pareceu altamente positiva e democrática. Se o convite e os planos permanecerem de pé, podem contar comigo no debate.

ÍNTEGRA DA NOTA DA PM AO UOL

A PM e o Zepelim?

Mais uma vez, somos questionados por um órgão de imprensa sobre o nosso modelo de polícia, o militar. O ponto de início da matéria a ser construída obedece a alguns entendimentos já pacíficos por parte da reportagem e subsidiados pela opinião de “especialistas”. Vejamos:

A Polícia Militar trata parte da população brasileira como potencial inimigo;

O sistema de segurança pública é o mesmo da ditadura, guiado pela Lei de Segurança Nacional;

A ditadura ainda está na cabeça dos governantes e principalmente das polícias;

A PM que está aí atira para matar. Ela está servindo a outros interesses.

Como diria o colunista Reinaldo Azevedo, este é mesmo “o ano de satanização dos militares”.

É triste ver como a desinformação parece habitar algumas mentes neste nosso Brasil de tantos Brasis. Pior: é mais triste ver como alguns sentimentos se tentam materializar, migrando da quimera à teoria; daí à crença; por fim, daí à “verdade”.

Ninguém deveria se ocupar do julgamento do pretérito, especialmente com os olhos do presente, mas não é o que ocorre neste país… Conseguimos anistiar pessoas, mas não conseguimos libertar o passado, que parece um espírito confuso, agarrando-se a um corpo jacente.

Falar em inimigos, em Lei de Segurança Nacional, que a PM atira para matar, se não fosse terrível, seria cômico, porque denota, sim, a construção de um pensamento que se pretende coletivo, a partir de pessoas que se sentem intelectuais.

Seria mais simples pensar o mundo a partir de fatos, mas alguns propagadores de opinião preferem as ideologias, o partidarismo e, até, o oportunismo.

Na maioria das vezes, as polícias militares se desviam do posicionamento político (na essência da palavra); nossos contumazes detratores, não. E essa desigualdade se reflete no açoite cotidiano à categoria que se imbui de receber sobre si todos os pecados do mundo.

Talvez seja oportuno então alertarmos a sociedade quanto ao Brasil que alguns sonham construir, numa versão romântica, e bastante suspeita.

Antes disso, porém, talvez devêssemos informar que, desde 1997, a Polícia Militar de São Paulo se estrutura a partir de conceitos de polícia comunitária.

Pode-se mencionar também que o Método Giraldi de Tiro Defensivo para a Preservação da Vida, criado por um oficial da PM paulista e nela desenvolvido, é recomendado pela Cruz Vermelha Internacional como efetivamente aplicável ao treinamento das polícias.

Nosso Programa Estadual de Resistência às Drogas (Proerd), em vinte anos de atividade, já formou mais de sete milhões de crianças, ensinando-lhes caminhos seguros para fugir ao contato com esse mal que assombra nossa sociedade. Isso significa dizer que já educamos um número de jovens que representa 16% dos 43 milhões de paulistas, segundo estimativa do IBGE para o ano de 2013.

E não seria demais também lembrar que, no ano passado, atendemos 2.450.098 ocorrências, prendemos 183.952 pessoas, apreendemos mais de 80 toneladas de drogas, 13.828 armas de fogo em poder de criminosos, prestamos 2.506.664 atendimentos sociais e resgatamos 619.231 pessoas.

Seria tudo isso fruto de nossa vocação para enxergar a população como inimiga? Seria a ditadura que ainda está em nossa cabeça? A influência da Lei de Segurança Nacional? Ou ainda nossa compulsão de atirar para matar?!

Em que mundo esses “especialistas” fundamentam suas teorias?

Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião. Por fim, ruindo estruturas estatais, as instituições democráticas. Assim é o discurso desses chamados “intelectuais orgânicos”, como costumam se denominar, em consonância com as ideias revolucionárias do italiano Antonio Gramsci, que ecoaram pelo mundo a partir da década de 1930.

Tão assombrosa quanto esse discurso anacrônico, ou mais, é a teorização formulada por quem, em vez de servir a uma instituição, prefere servir-se dela, desqualificando-a, conspurcando-a. Nesse caso, o problema talvez não esteja na ideologia, mas na conveniência da oportunidade de mercado.

No presente momento em que diversos grupos supostamente democráticos fazem coro para desmilitarizar a nossa polícia, vemos pessoas que aqui passaram a maior parte de sua vida se colocando como arautos das mudanças que urgem. Esse tipo de voz ecoa muito mais pelo inusitado do que pela qualidade de seus argumentos pseudocientíficos. É a chamada crítica à moda Brás Cubas. Saca-se alguém de um determinado meio e essa pessoa recebe chancela de legitimidade por falar de algo que, em tese, conhece por vivência.

É inadmissível que um profissional, que deveria ter compromisso com a verdade, pois assim assumiu em juramento, falar em premiações, medalhas a policiais que matam, como se isso fosse uma prática corrente, cultural. Somos a instituição que mais depura seu público interno, sujeita a regulamentos, códigos rígidos de conduta e com uma corregedoria implacável contra agressores de policiais e contra policiais bandidos. Exoneramos centenas. Só em 2013, foram 349. Como dizer que toleramos o erro? Onde está a responsabilidade no que é dito.

Enfim, parece ser oportuno criticar um modelo de polícia que suporta o tempo e as circunstâncias adversas. Temos história, uma cultura, valores morais, coisa rara nos dias de hoje.

Critica-se, mas, no momento da agrura, sabemos qual é a última instância salvadora, quem pode nos socorrer: “o policial ditador, que nos vê como inimigos, que age conforme a L.S.N., que atira para matar…”. É como soava no refrão de Chico Buarque: “… Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir…”. Vem o sufoco, a salvação; passa o sufoco, torna-se ao linchamento. Será que a sociedade prescinde um dia de nós? Uma manhã? Uma hora?

Ainda somos uma democracia, é bom que nos lembremos sempre disso. Se um dia tivermos de mudar nosso modelo, que seja pelo desejo do povo, não de “especialistas”.

Centro de Comunicação Social da Polícia Militar de São Paulo

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Nos anos 1960 e 1970, os roqueiros viraram representantes daqueles que mergulham a fundo em sua arte, a ponto de pagarem com a própria vida. Se tornaram espécies de heróis de uma geração, mártires da contracultura que formaram o chamado Clube dos 27, integrado por ídolos mortos nessa idade, como Jimi Hendrix (1970), Janis Joplin (1970), Jim Morrison (1971), e depois Kurt Cobain (1994) e Amy Winehouse (2011). No Brasil, Cazuza e Renato Russo, mortos em decorrência da aids, também ganharam o status de ídolos imortais e românticos inveterados.

A morte de Lucas Lima  (3º na 1ª fila na galeria de fotos), aos 18 anos, linchado na madrugada de sábado em um baile funk, merece ser analisada também pela imagem que passou a representar para a sua geração. Não foi por acaso que ele integra uma lista de outros astros e celebridades da periferia que morreram jovens. Também não é à toa que essa lista de finados periféricos não para de crescer.

Lucas não era um artista, mas poderia ser chamado de um web celebrity ou de um agitador cultural. Tinha 60 mil seguidores no facebook, a maioria meninas bonitas de sua faixa etária. Era amigo de DJs de funk ostentação, dava conselhos em sua timeline e ficou conhecido na cidade como uma das lideranças dos chamados rolezinhos, fenômeno que Caetano Veloso definiu precisamente como algo que simboliza a “sociedade em movimento”. Lucas parecia festejado na web pela sua atitude e carisma virtual, o que me parece algo realmente novo (para não dizer estranho e assim revelar meu lado tiozinho).

O suposto motivo do conflito fatal foi um inocente galanteio a uma mulher que “já tinha dono”. É a mesma justificativa para o assassinato de Mc Daleste (o 2º da 1ª fila galeria de fotos), baleado em cima do palco em julho passado. Ouvir isso me incomoda. É como se eles tivessem culpa do crime do qual foram vítimas. O absurdo é a persistência dessa cultural surreal que legitima entre homens jovens das periferias certas ações violentas. Trata-se de uma visão de mundo altamente machista, fomentada nas prisões, onde certos desvios de proceder justificariam a punição com a vida. O talarico, aquele que cobiça a mulher do próximo, estaria dentro dessas categorias odiadas.

É como se as mulheres andassem com um carimbo na testa e fossem propriedades dos homens locais. Estes, claro, podem pular de galho em galho, desde que respeitem aquela que já tem seu dono. O feminismo precisa urgentemente levantar as bandeiras pelas bandas de lá.

Mas muito provavelmente foi a inveja que matou o garoto. Imagina o burburinho que a presença de Lucas causava em um baile funk. Sua timelime mostra que era comum belas meninas pedirem fotos com ele. Lucas e Daleste representavam outro tipo de masculinidade, relacionado a uma estética e comportamento alternativos, desassociado da violência, que deve ter despertado muita inveja. Depois que o primeiro soco o atingiu, outros homens invejosos e covardes partiram para cima dele. E o lincharam. Triste. Lamentável.

Os casos dos demais DJs de funk mortos se enquadram em outra categoria de assassinatos. Não são brigas de jovens se digladiando no próprio ambiente, mas conflitos entre representantes de classes diferentes. Em abril de 2010, dois suspeitos de moto mataram MC Felipe Boladão (o 1º da 1ª fila), quando ele se preparava para pegar um carro na Baixada e fazer um baile funk na cidade de Guarulhos. Um ano depois, MC Duda do Marapé (o 1º da 3ª fila) foi morto com nove tiros ao lado da rodoviária de Santos, local barra-pesada da cidade. Mais uma vez, homens armados passaram de moto e atiraram.

MC Primo (o 1º da 2ª fila) morreu em abril do ano passado em São Vicente. Dez dias depois, o MC Careca (o 3º da 2ª fila), foi morto a tiros no conjunto habitacional Dale Coutinho, em Santos, em frente ao salão de cabeleireiro do qual era sócio. Assim como Daleste, todos tinham menos de 30 anos. Em nenhum dos casos, os autores do crime foram descobertos. Nos anos desses assassinatos, a Baixada Santista havia se tornado cenário de disputas entre criminosos e policiais militares integrantes de grupos de extermínio. A suspeita, nunca confirmada, era de que policiais poderiam estar por trás dos crimes contra os músicos.

O único assassino punido foi o assassino do rapper Sabotage (2º da ª fila), morto no auge da carreira e da criatividade em 2003, crime que abalou a cena do hip-hop em São Paulo. O culpado foi um desafeto da época em que o rapper vendia drogas no Canão, condenado a 14 anos. A inveja, nesse caso, também foi a motivação principal, claro.

Essa mudança no cenário de ídolos significa alguma coisa? Eu acredito que sim e que reforça algo que eu já suspeito faz tempo. O rock, naturalmente, que explodiu e revolucionou nos anos 1960, provoca hoje a quem? A ninguém. O Lolapalloza, festival de rock ocorrido nesse fim de semana, foi mostra isso. Reuniu 130 mil jovens, cobrando preço para gente diferenciada, atraindo a ‘beautiful people’ que foi ver e ser vista. Claro que tinha bandas e músicas boas. Mas 40 anos depois de Woodstock, essa cena envelheceu e virou mainstream.

Não é o caso do pancadão, que ainda me incomoda e que me provoca. É o que eu, como pai, prefiro que meu filho evite. Ao contrário da estética coxipster (mistura de coxinha com hipster) do Lolapalooza eu até seria capaz de incentivar. O rock é a arte conservadora, não a que coloca a sociedade em movimento por confrontar. Essas partem das periferias. É lá onde a juventude parece ter mais sede de mudanças e de transformação. O mundo para eles é muito mais injusto e suas revoluções estão sendo feitas pela cultura. É tudo verdadeiro e por isso eles colocam a própria vida em jogo, se for preciso, para se expressar.

Para encerrar o post, vídeo do Mc Zóio de Gato (8º), morto em um acidente de carro aos 16 anos em 2009, quando voltava de um show na zona sul. Usava pandeiro em certas músicas, o que lembrava as emboladas. Na era pré-redes sociais e funk ostentação, tinha  milhões e milhões de pageviwes em seus clipes, sendo um completo desconhecido nas regiões centrais de São Paulo. Adoro essa música em que ele fala da mãe, o que me lembra o post que escrevi sobre a morte de Claudia. Mas MC Zóio de Gato cantava também proibidões, que ficavam muito estranhos na voz de uma criança.

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O dia 31 de março, aniversário do Golpe Militar de 1964, deixou muitas perguntas na cabeça da gente. Falou-se, com toda a razão, da violência de Estado praticada no passado. Mas a vida segue e sempre é bom buscar saber como caminham as polícias no regime democrático brasileiro. As instituições já conseguem controlar os abusos e  desvios de poder na Democracia? Quem acompanha o cotidiano da segurança pública mais de perto, sabe que a resposta é não.

Dados inéditos obtidos pelo blog ajudam a respaldar essa impressão. Os números apontam que, entre janeiro de 2011 e julho de 2013, as forças de segurança paulistas (policiais civis, militares, agentes penitenciários e outros) foram acusadas de praticar 1.280 casos de tortura, maus tratos, lesão corporal, constrangimento ilegal e abuso de autoridade. São casos que despertam pouco interesse da Justiça.

A informação é do sistema de informação do Ministério e foi enviada em outubro à Humans Right Watch, entidade que finaliza pesquisa sobre a tortura no Brasil. Foram contados os boletins de ocorrência para denunciar crimes das forças de segurança relacionados a tortura. Desses 1.280 registros, só em 190 houve pessoas denunciadas à Justiça, que rejeitou 26 das denúncias. Foram ainda arquivadas 1.090 ocorrências, sendo que a Justiça não solicitou desarquivamento em nenhum dos casos, ação prevista no artigo 28 do Código de Processo Penal.

Os dados de agressões certamente estão bem subestimados porque não são todos que têm coragem de denunciar às polícias os abusos cometidos por alguns de seus próprios integrantes.

Em cerca de 20 anos em campo como repórter, ouvindo relatos sobre violência, colhi algumas impressões sobre o quadro da tortura em São Paulo em conversas com vítimas e com policiais civis e militares. De forma geral, diferentemente do que ocorria durante o Regime Militar, a tortura atualmente não aparece mais como um dos principais meios para se obter informações estratégicas. Os choques e as pancadas foram decisivos para o então delegado Sérgio Paranhos Fleury, junto com policiais militares e integrantes das Forças Armadas, desarticular grupos guerrilheiros e liderar investigações que resultaram nas prisões de Marighela e Carlos Lamarca.

Só que a tortura não é mais uma ferramenta para investigar, como nos Anos de Chumbo. Relatos e observações de cenas mostram que os maus policiais civis não estão mais necessariamente atrás de arrancar informações à força, mas de achacar os suspeitos. Por isso, a tortura não é tão necessária. A pessoa é detida pela Polícia Militar, que a leva à delegacia. Caso encontre delegados e investigadores de má-fé (serão exceções? não sei responder), paga para não ser preso. Mais por esse motivo, e não tanto pelo fortalecimento das instituições de controle, as torturas ensinadas por Fleury foram colocadas de lado.

As torturas e maus tratos no cotidiano atual, por seu lado, atualmente funcionam mais como uma espécie de lição dolorosa a se dar ao criminoso, em que se mistura sadismo e desejo de punição. Já que os policiais civis provavelmente irão soltar o acusado depois de negociação envolvendo grana, o mau policial militar vai achar melhor dar uma surra ou apagar o suspeito antes disso. E assim fazer sua própria justiça.

Há torturas conhecidas e praticadas na captura dos suspeitos. Na tortura chamada micro-ondas, por exemplo, o suspeito fica horas e horas esquentando dentro do camburão. Também é comum algemar o suspeito e correr em ziguezague, para que ele se machuque no caminho. Dentro do camburão (todo camburão tem um pouco de navio negreiro, para citar novamente a sábia letra da música do Rappa).

À pessoa que apanha, assim como aos familiares e amigos daqueles que são executados por policiais, restam poucas esperanças de que a Justiça dê alguma resposta. Em 05 de agosto de 2009, por exemplo, Edson Gomes foi morto por dois policiais da Rota na zona norte de São Paulo. O jovem de 20 anos morreu com três tiros, dados em cima de duas tatuagens que ele tinha, uma de palhaço e outra de Chuck. Ambas as tatuagens significam no universo criminal “matadores de polícia”. Outros quatro jovens estavam no carro com Edson. Os policiais presentes na viatura se contradisseram.

Um Inquérito Policial Militar foi aberto e enviado para a Justiça comum. O promotor pediu exame de balística da munição no corpo da vítima. Isso ocorreu em maio de 2010. A partir disso, ninguém mais se manifestou. As roupas de Edson e a viatura não foram periciadas. Não foram ouvidas testemunhas, apesar do crime ocorrido ao meio dia. Havia 18 tiros no carro dos jovens. Os policiais não foram sequer investigados pela suspeita de crime. Já os quatro jovens que estavam dentro do carro baleado foram todos condenados, a penas que variaram de 4 a 7 anos.

É possível que os PMs da Rota sejam inocentes? Claro que sim. Mas o sistema de Justiça nunca nos permitirá saber. E, assim, novos casos de tortura continuarão acontecendo. Assim como novos homicídios. Dentro da nossa bolha de plástico, continuaremos indiferentes. Até um conhecido nosso ser afetado. Parece que só dessa maneira as paredes da nossa bolha é rompida.

Segue abaixo o vídeo da Favela Naval (o som de fundo é do Mano Chao), em Diadema, de 1997. O escândalo quase provocou o fim da PM, com o governo de SP levando um projeto de lei que propunha a desmilitarização. O vídeo amador foi o instrumento de pressão. As câmeras de celular de hoje parecem ajudar mais a coibir os abusos do que a própria corregedoria da instituição.

 

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Há notícias que preferimos manter nas sombras, esquecidas em algum canto escuro da cabeça. É como se, distante das nossas consciências, o problema milagrosamente deixasse de existir. Essas realidades desagradáveis para a maioria, no entanto, devem ser abordadas e são a matéria-prima deste blog. Aqui sentamos todos no divã porque acreditamos que o jornalismo precisa sobreviver justamente para encarar essas verdades inconvenientes. Buscar informações sobre nós mesmos nos ajuda a desfazer os estereótipos e o senso-comum que nos cegam e nos embrutecem.

Dentro desse espírito, em 20 anos de jornalismo e mais de 10 anos lidando com o tema da segurança pública, creio que poucos assuntos são tão impopulares como o das prisões e do sistema penitenciário. Falar de preso ou do sistema só excepcionalmente, quando cabeças de presos são cortadas, como ocorreu em Pedrinhas, ou em megarrebeliões, com as do Primeiro Comando da Capital em 2001 e 2006. Nem mesmo a greve serviu para tentarmos voltar os holofotes para dentro das celas.

Atualmente, em São Paulo, são mais de 206 mil pessoas em um sistema com 120 mil vagas. Faltam 85 mil vagas no sistema paulista, a assistência médica é praticamente inexistente, o trabalho diário dos agentes penitenciários é insalubre, há um intenso mercado de drogas nas prisões do Estado. As prisões se fortalecem no Brasil como escritórios do narcotráfico. É de lá que o tráfico se organiza por todo o Brasil, onde foram feitos os contatos para todo o Brasil.

Foi a partir causa do desinteresse da população que o Primeiro Comando da Capital (PCC) cresceu diante de nossos olhos míopes, sem que fôssemos capazes de distinguir até onde ia a realidade e começava o mito. As autoridades passaram a jogar com a ignorância e o descaso da população sobre o tema. Hora, segundo os políticos, a facção foi dominada e não representa mais perigo. Depois, normalmente em períodos pré-eleitorais, a facção ameaça grandes atentados contra um Governo que afirma nada temer.

Vemos o assunto passivamente, sem interesse, como se tivéssemos preguiça de exercer a crítica. É fundamental compreender, contudo, que quando mandamos os acusados às prisões, não os enviamos para um mundo paralelo, que não exerce influência sobre o universo de onde vieram. As prisões e o mundo exterior estão cada vez mais intrincados. O que produzimos em nosso sistema carcerário está diretamente relacionado com o que ocorre do lado de fora. Considerados os parentes dos presos, gravita entre o sistema carcerário paulista cerca de 1 milhão de pessoas, população semelhante à da cidade Campinas, uma das maiores do Estado.

Existe todo um mundo novo a ser compreendido, já que a população carcerária cresceu 770% nos últimos 20 anos em São Paulo. Na pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas com 750 presos paulistas, divulgada na semana passada, 48,3% dos que estão na prisão disseram que tiveram em casa um parente preso. O que isso significa? É como se as visitas e as conversas sobre o sistema carcerário na família tornassem, de alguma maneira, para as crianças que as ouvem e acompanham, o destino na detenção algo mais aceitável? Mais do que respostas, perguntas, perguntas e mais perguntas.

Fato é que o sistema penitenciário deve ser investigado. Os muros devem ficar transparente e devemos saber tudo o que se passa lá dentro. O que de fato é o PCC? Algum político é capaz de definir a facção? Quem toma conta das prisões? O PCC acabou de fato com o crack lá dentro? Qual o papel das drogas no dia a dia das cadeias? Quais os esquemas nos fornecimentos de suprimentos e reformas dos presídios, se é que existem? Quem ganha com esse descalabro? Por que gastamos mais de 2 mil por mês com presos, nesse sistema vergonhoso? Para onde vai o dinheiro?

O objetivo inicial deste post é começar a jogar luz sobre o sistema carcerário para torna-lo mais compreensível. As rebeliões do PCC deram as desculpas que as autoridades estaduais precisavam para restringir as visitas às prisões. Os políticos não se sentem na obrigação de prestar contas. Atualmente, integrantes da Pastoral Carcerária, do Conselho Penitenciário e da Defensoria Pública são dos poucos a entrar no sistema para saber o que se passa lá dentro. Mas eles são pressionados a não tornarem públicas essas informações. Nem os agentes penitenciários, que temem punição.

O blog conseguiu fotos inéditas que ajudam a mostrar a realidade do sistema. Essas imagens são do começo do ano, tiradas antes da greve dos agentes penitenciários. Em um Centro de Detenção Provisória de São Paulo, uma cela feita para 12 pessoas estava com 62 presos. No geral, esses locais têm três vezes mais gente do que vagas. Nesse CDP, por exemplo, para cerca de 800 presos, estavam  cerca de 2.200. Em meados de 2012, um preso morreu depois de ser atingido do alto por outro preso que dormia na rede. A proporção em cada uma delas é ainda maior porque os faxinas, presos que ficam responsáveis pelas tarefas do dia a dia do presídio, ficam em celas relativamente vazias. Os faxinas têm benefícios no sistema, ao mesmo tempo em que assumem duras responsabilidades diante dos presos e funcionários dos presídios.

 

Os furos nas paredes acabam danificando a estrutura do prédio. Esses buracos, contudo, são a  única alternativa para que os presos possam colocar a rede e consigam dormir todos na mesma cela. Eles furam a parede também para colocar as comidas que os familiares levam para complementar a marmita fornecida internamente. É a forma de evitarem os insetos andando pelo chão, que infestam a cela.

 

Essa é uma das hipóteses para explicar as doenças de pele. Segundo visitantes das prisões, as moléstias de tipos diferentes atingem 90% dos presos. A foto com suspeita de trombose é de um jovem de 19 anos.

Na pesquisa da FGV, 59%% dos presos disseram que não recebem atenção médica quando estão doentes. É a proporção mais baixa entre todos os países latino-americanos estudados (Chile, Argentina, México, El Salvador e Peru). Claro que muitos comentaristas, sem um pingo de criatividade, vão dizer que eles merecem, vão me atacar, etc. Nada de novo. Mas pensem. Pensem. Pensem. Contem até dez. Fechem os olhos. Agora pensem de novo. Busquem raciocinar o seguinte. A discussão não é se os presos merecem ou não sofrer. Compreendam. Pensem no mundo que está sendo criado. Já percebeu que, essa sua raiva que o cega, pode fazer com que o maior prejudicado seja você e seus descendentes?

 

 

 

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Momentos de improviso criam uma aula dinâmica. Alunos envolvidos, perguntas e respostas. Não é fácil tirar da cartola um bom argumento para convencer uma audiência de jovens extremamente críticos. Não há tanto tempo para elucubrar. De repente, no debate, uma palavra errada, carregada de significados negativos, acumulados ao longo de 400 anos de história de escravidão e preconceito no Brasil, é lançada pelo professor aos seus alunos:…”macacada”….

A aula Regionalização do Espaço Mundial estava sendo dada na última terça-feira (18/03)  pelo professor André Martin, chefe do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. A discussão era sobre a legitimidade da presença das tropas brasileiras no Haiti e o professor argumentava em defesa da posição do Brasil. Nesse momento, surgem duas versões para os diálogos travados em sala. Segundo os estudantes, que publicaram uma nota na página do Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu no Facebook, Martin disse: “Se o exército brasileiro não estiver lá (no Haiti), quem vai por ordem na macacada?”

Ainda segundo os estudantes, um aluno interrompeu o professor e o questionou sobre o termo. Martin tentou se justificar dizendo que era o imperialismo norte-americano quem dizia isso. Ainda na versão dos estudantes, a justificativa não funcionou e o professor disse que “antigamente o termo ‘macacada’ era comum para designar o “povão”. Há também alunos que contestam essa versão, negada pelo professor.

Segundo Martin, a frase que ele disse foi outra. O professor afirma que usou o termo macacada entre aspas. A frase na íntegra teria sido a seguinte: “E se as tropas brasileiras não estivessem no Haiti? Eles iriam se pegar e aí o imperialismo norte-americano diria: ‘nós temos que intervir para por ordem nessa macacada’”.

Os dias que se seguiram foram tensos, com articulação dos alunos e acusações a Martin nas redes sociais. A porta da sala do professor na FFLCH foi pichada com o termo “racista otário”. Colegas do departamento saíram em defesa de Martin. Professores e alunos soltaram notas (ver a íntegra abaixo), que valem muito a pena serem lidas. Mas o diálogo ainda está truncado, compreensivelmente com mágoas de ambos os lados.

Pontos importantes foram levantados por ambos. Afinal, dois pesos pesados estão travando o debate: de um lado, Martin, com 38 anos de magistério, professor livre docente desde 2007 e chefe de departamento. Tem uma trajetória vinculada a ideias progressistas e uma carreira sem máculas. Ele mesmo afirma na nota: “Poderia um estudante liberal me acusar de marxista ultrapassado, mas me chamarem de racista? É insano.” Na discussão que propôs na carta aos alunos, Martin apontou a ameaça a reputações proporcionada hoje pela internet; o risco do patrulhamento ideológica feito pela ditadura do politicamente correto; a armadilha que a discussão em torno do termo raça e racismo levanta; a má vontade dos alunos com ele, que é visto como chefe, cargo que intrinsicamente teria uma carga negativa.

De outro lado, estão alguns dos alunos mais politizados do Brasil, que estudam na faculdade que pode ser apontada como berço dos movimentos sociais de junho. Vem de lá desde os integrantes do MPL, do grupo Somos Jovens, e até black blocks, para citar alguns. Na FFLCH, assim como em todas as faculdades da USP, os negros são minoria.  Como podem os brancos de classe média, como eu e a maioria dos alunos de lá, minimizar o grau da ofensa que a palavra dita em sala de aula carrega? É isso que o movimento dos alunos, de alguma forma, está tentando passar. A FFLCH, aliás, é o local onde esses movimentos negros estão mais se articulando ativamente e se fortalecendo.

Os alunos também levantaram outros temas importantes. Será que certas associações feitas com o povo negro já não são hoje a tal ponto enraizadas e normatizadas que surgem de repente na boca de um professor, sem que ele perceba, dentro da sala de aula? Associações que, conforme argumentam os estudantes, são “à primeira vista inofensivas, mas que vêm historicamente acorrentadas a uma estrutura hierárquica de classe e raça que se mantém até hoje”.

Em vez de respostas, surgem perguntas, perguntas e mais perguntas que fazemos às nossas consciências. Sem dúvida, o debate é provocador e pode ajudar a avançar nas discussões sobre preconceito e racismo em São Paulo e no Brasil. Desde que se tenha cuidado com injustiças a serem cometidas contra pessoas abertas ao diálogo, dispostas a se desculpar e a reconhecer o erro. O que se trata de uma postura grandiosa. Uma minoria que vem por séculos sofrendo injustiças, certamente vai tomar cuidado para não usar a mesma arma. Foram essas as principais lições de dois dos maiores líderes mundiais do século XX, Martin Luther King e Nelson Mandela.

Torcemos para um desfecho em que todos saiam ganhando, para que as mágoas sejam superadas. Parece que, nesse caso, estudantes e professor podem seguir juntos. O professor sugeriu uma mesa-redonda sobre “Brasilidade, Africanidade e preconceito racial no Brasil?” Os alunos concordaram com a proposta. Mas também querem uma retratação pública do professor e pretendem aprofundar o debate sobre o ocorrido . Dizem aguardar o agendamento conjunto do evento. Novidades, aviso pelo blog.

Abaixo, segue a íntegra das cartas de André Martin e dos alunos da Geografia.

CARTA ABERTA AOS ESTUDANTES DO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA FFLCH-USP
Queridos alunos, Negros, brancos e de todas as cores
Estupefato diante da repercussão causada a partir de um pequeno incidente em sala de aula, ocorrido na turma da noite da disciplina Regionalização do Espaço Mundial, na última terça-feira, vejo-me consternado, na obrigação de esclarecer a todos o que realmente aconteceu. E vamos direto aos fatos.
Eu nunca disse a frase que está circulando por aí nas redes sociais. E veja, estão me acusando não apenas de haver pronunciado uma suposta frase racista, mas pessoas que não me conhecem, estão escrevendo que eu sempre fui racista. É estarrecedor. A frase literal que pronunciei foi a seguinte: “E se as tropas brasileiras não estivessem no Haiti? Eles iriam se pegar e aí o imperialismo norte-americano diria: “nós temos que intervir para por ordem nessa macacada”. Que tirem os leitores, suas próprias conclusões. Poderia um estudante liberal me acusar de marxista ultrapassado, mas me chamarem de racista? É insano. Não sei com que interesses políticos estão tentando criar um factóide, se aproveitando do fato de que, por ora, ocupo o cargo de Chefe do Departamento de Geografia. Menciono este aspecto porque não foi casual ressaltarem esta condição, que para mim é passageira, mas que para se criar uma imagem desfavorável a meu respeito, e atingir por extensão toda a USP, vem bem a calhar. Ora, colocada a questão nos termos dos meus detratores eu começo perdendo de goleada: de um lado um aluno negro, pobre e indefeso. De outro o poderoso homem branco, professor e ainda por cima, Chefe. Quem vai ficar do meu lado, ainda mais que o meio utilizado para me difamar são as redes sociais, que eu não freqüento? Só que eles se esqueceram de uma coisa: eu ainda não entrei em campo, não comecei a jogar, não fui ouvido.
Quem está portanto na condição de vítima de calúnia, difamação e preconceito sou eu, aliás de quatro preconceitos bem caracterizados, a saber:
1-) Se saiu no facebook, então é verdade, aconteceu mesmo. Ora, quem está replicando o que leu, acha que a realidade está na rede e não na sala de aula. Por que não procurar os alunos que assistiram a aula para apurar a verdade? É lamentável como esta ferramenta vem sendo utilizada para aniquilar o debate público de idéias. A discussão nunca é publica, e nunca se dá em torno de idéias. É bem mais fácil, e divertido talvez, neste multiplicador de fofocas eletrônico, esculhambar a pessoa.escolhida como oponente.
2-) O aluno tem sempre razão. Este é outro mantra típico da pedagogia pós-moderna dominante. Sempre fui extremamente aberto com meus alunos, tenho 38 anos de magistério e nunca me aconteceu nenhum incidente em sala de aula. Respeito a opinião de todos, mas procuro externar a minha, sem receio do patrulhismo ideógico do “políticamente correto”, que também está amplamente disseminado. Essa visão nasceu na escola privada como extensão da idéia de que “o freguês tem sempre razão”.
, 3-) Não existem negros racistas, ou em outra versão, todo branco, é, no fundo, racista. Esta já é uma posição mais perigosa, que alguns setores do movimento negro brasileiro infelizmente importaram, acríticamente, dos Estados Unidos. Ela se baseia na teoria do “Black Atlantic” onde as identidades não se dão pelo território, nacionalidade, ou classe social, mas sim pela raça, ou outra característica étnica. Desse modo mesmo que involuntáriamente, quem compartilha dessa visão termina reabilitando um conceito já amplamente desacreditado pela ciência, ao mesmo tempo em que não percebe estar fazendo o jogo do imperialismo, ao procurar dividir a nação brasileira entre brancos e negros, de forma análoga ao que estão tentando fazer na porta de entrada do Heartland, ao colocar ucranianos contra russos, mesmo que isto ponha em risco a paz mundial.
4-) Toda autoridade constituída é ilegítima e portanto tem de ser contestada. É a tal coisa do “Chefe”. Se a pessoa ocupa algum cargo, possui algum poder, então essa pessoa não deve ser lá flor que se cheire. Por princípio, deve ser autoritária, ou então corrupta, se não as duas coisas. Ora, eu estava na sala de aula na condição de professor, não de Chefe.Jamais utilizei meu cargo como argumento de autoridade, aliás, mesmo como professor nunca agí dessa maneira E vale registrar: levei a aula até o fim, normalmente. Apenas um aluno que se sentiu ofendido, retirou-se, e não vários, como se espalhou, mentirosamente. Uma pergunta inocente: se tivesse de fato proclamado uma sentença racista, será que não seria a classe toda, ou uma imensa maioria dela que se revoltaria contra mim, e não um pequeno grupo? ,
Para terminar quero dizer que não tenho nenhum problema em pedir desculpas pessoalmente, ao aluno que se sentiu ofendido, pois jamais tive qualquer intenção de fazê-lo
Espero honestamente que este episódio infeliz, sirva ao menos como pretexto para que coloquemos o debate acerca das sobrevivências do preconceito racial no Brasil, num novo patamar. Que tal organizarmos uma mesa-redonda sobre “Brasilidade, Africanidade e preconceito racial no Brasil?” Podem contar com o apoio do Chefe do Departamento de Geografia para tanto.
Respeitosamente André Martin

 

NOTA DOS ESTUDANTES – REGIONALIZAÇÃO DO ESPAÇO MUNDIAL NOTURNO 2014: AOS ESTUDANTES, PROFESSORES E FUNCIONÁRIOS DO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA FFLCH-USP.
Diante da falsa polêmica que se ergueu nas redes sociais sobre o dito ou o não dito na aula de Regionalização do Espaço Mundial na última terça-feira (18/03/2014); diante do falso debate sobre o Professor André Martin ser ou não racista; e dian.te dos métodos hostis de repúdio contra o Professor (pichação e escracho) nós, alunas e alunos que estávamos presentes no momento do incidente, viemos a público:
I. Esclarecer o que realmente aconteceu: Questionado sobre a legitimidade e beneficência da presença e atuação das tropas do exército brasileiro no Haiti, o Professor André Martin deixou claro: “Se o exército brasileiro não estiver lá [no Haiti], quem vai por ordem na macacada?”. Nesse momento, indignado, um aluno interrompeu o Professor para atentá-lo para a gravidade do termo “macacada”, empregado da forma como foi. Ao invés de simplesmente reconhecer sua sentença que foi racista e se retratar pelo equívoco, o Professor tentou se justificar dizendo que era o imperialismo norte-americano quem diz isso e, diante do insucesso da sua justificativa, disse que antigamente, em sua época, o termo “macacada” era comum para designar o “povão”.
II.  Apontar que o enfoque e objetivo da questão não é estigmatizar um Professor ou Chefe de Departamento, e sim colocar em debate o racismo materializado estruturalmente e institucionalmente em nossa sociedade e Universidade: Para além do termo “macacada”, uma série de afirmações proferidas pelo Professor André (entre elas a de que “O Brasil não é racista”), analisadas em seu conjunto, nos faz pensar no quão enraizadas e normatizadas estão certas associações feitas com o povo negro, como “macacada” ou “denegrir a imagem de”, à primeira vista inofensivas, mas que vem historicamente acorrentadas a uma estrutura hierárquica de classe e raça que se mantém até hoje. Ademais, respondendo a pergunta “se tivesse de fato proclamado uma sentença racista, será que não seria a classe toda, ou uma imensa maioria dela que se revoltaria contra mim, e não um pequeno grupo?“: Não importa se uma minoria ou maioria saiu da sala, mesmo porque sabemos que os negros são minoria nesta Universidade. É um absurdo tentar “provar” se a sentença foi ou não racista quantificando-se o número de alunos que se retiraram ou não da sala, já que outros alunos que também se sentiram ofendidos permaneceram na sala para dar continuidade a problematização.
III. Propor um debate e aprofundar a questão: As palavras e os conceitos colocados da maneira que foram, despolitizam o debate e banalizam a questão racial no Brasil, até mesmo porque é esperado que a comunidade acadêmica, principalmente os professores, superem o senso comum e se atentem com termos e conceitos proferidos em sala de aula. Assim, a proposta, inclusive sugerida pelo Professor em seu e-mail, é a de ceder a sua próxima aula para um debate profícuo que supere a margem do superficial, a ser acordada entre os alunos e o Professor. E, por fim,
IV. Exigir uma retratação pública e não individual do Professor André Martin: Ao contrário do que o Professor reiterou em seu e-mail, não se trata de uma ofensa particular de um aluno que se indignou e se retirou da sala, pois o racismo e indignação não é algo personificado e sim estrutural e institucionalizado. Entretanto, é importante ressaltar que a indignação de um aluno é uma manifestação social e coletiva de um setor, um conjunto de estudantes. Por isso, não se trata de um pedido de desculpas por um mal entendido como reitera o Professor: “Não tenho nenhum problema em pedir desculpas pessoalmente, ao aluno que se senti ofendido, pois jamais tive qualquer intenção de fazê-lo”, e sim do reconhecimento e retratação do ato racista que, justamente por passar como inofensiva, mantém a estrutura racista velada e incontestável na sociedade.
Nós, estudantes do período noturno da disciplina de Regionalização do Espaço Mundial (1º semestre de 2014), nos reunimos em sala, nesta terça-feira (25/04/2014) em horário de aula, com o objetivo de esclarecer e aprofundar seriamente o debate sobre o caso ocorrido durante nossa aula anterior (18/03/2014). Esta reunião foi presenciada por dois representantes/delegados do CEGE (Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu), e por alguns ex-alunos e amigos do Professor André Martin. Após discussão entre a sala, onde as alunas e alunos presentes no momento do fato tiveram a oportunidade de expor seus diversos pontos de vista, decidimos por consenso, ou seja, sem nenhuma manifestação contrária, publicar esta nota de esclarecimento sobre o ocorrido.
Assinam: Estudantes do período noturno da disciplina de Regionalização do Espaço Mundial (1º semestre de 2014). Departamento de Geografia da FFLCH/USP – 25/03/2014

 

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Era quinta-feira, dia 6 de março, quando Luan, de 16 anos, acordou na casa da avó, em São Mateus, na zona leste de São Paulo. Já era quase hora do almoço e ele foi direto para o bar, sem dar muita satisfação. Sentou-se na calçada e recebeu uma ligação no celular. Era um amigo, que o chamava para juntos realizarem um roubo de carga com outros dois colegas.

Os quatro seguiram dentro de um Corsa verde e atacaram um caminhão Mercedes, vindo de Pernambuco. Armados, dois renderam o motorista, ordenando que ele puxasse o freio de mão. Piloto e copiloto foram levados para dentro do Corsa, onde ficariam em companhia dos outros dois assaltantes. Seriam liberados depois que o caminhão estivesse fora do alcance do rastreador.

Enquanto Luan e o amigo dirigiam o caminhão em direção ao Rodoanel, contudo, foram vistos por policiais militares, que perseguiram os ladrões. Percebendo que não conseguiriam escapar, Luan e o amigo pararam o caminhão antes de serem alcançados e saíram correndo a pé. Luan foi para o mercadinho do pai, na Aevnida Somos Todos Iguais. Uma testemunha deu a dica para o policial, que correu com mais cinco colegas para pegarem o garoto no mercadinho.

Até aqui, tudo corria bem e poderia se encerrar como um caso bem sucedido de ação policial. Mas não. Estamos falando das forças de segurança pública de São Paulo. Nesse  momento é bom abrir um parêntese. Não devemos nunca subestimar a capacidade desses agentes de tomarem decisões erradas.

No mundo ideal, a prisão do ladrão de caminhão seria estratégica para as investigações. Depois que fosse preso, ele poderia ser interrogado para apontar parceiros, receptadores, financiadores e até mesmo dar o nome de policiais que fizessem parte da quadrilha. Escutas telefônicas poderiam ser pedidas na Justiça. Novos nomes apareceriam, assim como conexões inesperadas. Os cruzamentos seriam feitos. Em questão de meses, a rede de distribuição e receptação de mercadorias roubadas, que demanda milhares de assaltos nas ruas, poderia ser desmontada.

Trabalhando assim, com pessoal articulado, agindo de forma inteligente, a polícia reduziria as taxas de roubo. É assim que funciona. Assistam seriados criminais norte-americanos*. Vejam que não estou inventando. O extermínio do suspeito, pelo contrário, algo tão brasileiro, serviria apenas para saciar o desejo de sangue de policiais e cidadãos com nostalgia dos tempos selvagens da pré-história. Mas ok. Podem me xingar. Escrevam seus comentários. Digam que eu defendo bandidos e blá, blá, blá. Enquanto isso, com a violência policial que vocês aplaudem, os roubos não param de crescer. Em fevereiro, na capital, o crescimento das taxas de roubo foi de 47%. Pelo nono mês seguido. Fecha parêntese e voltemos à perseguição.

O pai de Luan, dono do mercado, e uma funcionária estavam na cena do crime. São eles que narraram o fato descrito em documento da Ouvidoria de Polícia. Dentro do mercado, Luan levantou a camisa e gritou “estou desarmado”, correndo para o fundo. Os policiais deram um tiro em sua direção. Em seguida, pai e funcionária foram expulsos do mercado e as portas de ferro foram abaixadas. Mais dois tiros. Segundo testemunhas, os policiais ainda esperaram 40 minutos antes de socorrerem, eles próprios, o jovem para o Pronto Socorro.  Luan morreu com três tiros.

No Boletim de Ocorrência, os policiais afirmaram que revidaram a um disparo dado por Luan. Um revólver 38, com numeração raspada, foi apresentado na delegacia.

A população se revoltou no dia 8 de março. Bloquearam uma grande Avenida da zona leste, colocaram fogo em pneus, imagens que apareceram à noite na televisão. Pelas notícias, foi impossível saber de todos os capítulos daquela novela real. Que não vai parar de se repetir até que encaremos de vez a necessidade de repensarmos o modelo policial que prova a cada dia que está esgotado e que demanda reformas urgentes.

* Ok. Fui massacrado pela frase sobre os seriados criminais norte-americanos e por isso não vou tirá-la. Algumas críticas foram bem-humoradas. Mas acreditem. Filmes como Law & Order, CSI e Breaking Bad, por exemplo, para quem não acompanha a polícia no dia a dia, são didáticos e ajudam a explicar como funciona uma investigação policial. Ah, claro, e depois assistam Polícia 24 horas, na TV brasileira, o fino da bossa, programa que deve ser o preferido de muitos comentaristas.

 

 

 

 

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No começo, parecia um pesadelo, um filme de terror que havia se tornado realidade para assombrar a população de Altamira, no Pará. Entre 1989 e 1993, 15 meninos de 8 a 14 anos começaram a desaparecer misteriosamente. Os corpos eram encontrados emasculados, o que deixou a população local em pânico. Um garoto saiu de casa levar a marmita para o pai. Sumiu. Outro brincava perto de uma caixa d’ água. Nunca mais foi visto. Depois, se descobriria que 42 crianças morreram da mesma forma (12 em Altamira e 30 no Maranhão).

Com a polícia pressionada para oferecer respostas, mas sem capacidade técnica para investigar, os bodes expiatórios começaram a aparecer, numa espécie de reedição das Bruxas de Salém, só que em região amazônica três séculos depois.

Os principais suspeitos foram apontados como participantes de uma seita chamada Lineamento Universal Superior (Lus) , fundada na Argentina em 1984 e estabelecida em Altamira. Entre as crenças, seus integrantes achavam que seriam salvos do apocalipse por discos voadores. O que poderia ser considerado apenas uma excentricidade inofensiva e fora de moda, passou a ser descrito como um ritual demoníaco movido a sangue de crianças. Entre os acusados, estavam um médico forasteiro, outro espírita, a vidente líder da seita, um ambientalista que se assumira gay e o funcionário de uma fazenda.

O médico Anísio fazia consultas clínicas e espíritas. Religioso, tinha dado o nome de seu primogênito de Alan Kardec, em homenagem ao fundador do espiritismo. Césio foi o outro médico acusado. Evangélico, o forasteiro havia se mudado do Espírito Santo para o Pará depois que passou em um concurso público para administrar um dos principais hospitais de Altamira. Quando chegou, comprou briga com a Igreja ao exigir diagnóstico de doentes que receberiam os remédios doados pela instituição. Ambos foram condenados a 56 anos. Valentina, a dona da seita, era mulher ruiva, casada com um argentino, que vestia capas pretas em seus rituais. Acabou inocentada por falta de provas.

Já Amailton era filho de um “coronel” da cidade, dono de terras e com rivalidades políticas profundas com um “coronel” vizinho. Apesar de vir de família paraense tradicional, o filho tinha outra cabeça. Havia se engajado em debates ambientalistas no Alto Xingu e era também gay assumido, o que provocava olhares desconfiados na cidade. Souza, funcionário da fazenda da família de Amailton, também foi envolvido. Quando morreu, anos depois, tinha ainda o maxilar deslocado pelas torturas que disse ter sofrido para confessar o crime que ele e a trupe não cometeram. Foi Souza quem amarrou a história dos personagens à seita satânica que matava crianças, depois das seguidas surras que levou dos policiais. Morreu de câncer na língua e teve tempo de pedir perdão aos médicos que acusou.

O absurdo dessas injustiças só não passaria despercebido porque, meses depois da condenação da maioria do grupo na Justiça do Pará, em 2003, um serial killer chamado Chagas iniciou a confissão de seus crimes. O jovem que foi garimpeiro em Serra Pelada aos 16 anos para depois se tornar mecânico, assumiu 42 mortes, apontando os lugares onde escondeu os corpos e os detalhes do ritual. As crianças eram escolhidas em dupla e atraídas para mata. Depois, estranguladas, mortas e emasculadas. O sangue era  retirado e ele fazia diversos furos no corpo delas. Os órgãos sexuais cortados eram colocados sobre uma cruz desenhada no chão. A complexidade fo ritual foi se ampliando aos poucos. Três corpos foram encontrados na sala de sua casa com piso de terra.

O caso mostra como o Brasil ainda caminha na idade da pedra das investigações policiais. A criminóloga e escritora Ilana Casoy, que passou a assessorar a defesa dos médicos no caso, aponta um erro conceitual básico na investigação. Nos homicídios comuns, os investigadores partem da motivação dos criminosos para chegar à autoria dos homicídios. Deve-se saber por que o criminoso matou e a quem interessava a morte. A situação é totalmente diferente no caso de investigações dos homicídios em série praticados. Como no caso de Chagas, é praticado por pessoas normalmente com transtorno de personalidade, desejo de dominação, incapazes de se imaginar no lugar daquele que faz sofrer. O psicopata não precisa de um motivo para matar, já que age a partir de um escuro e desconhecido abismo interior que impulsiona suas ações. Essa é a principal características de crimes como esse.

Chagas, por exemplo, tinha manias obsessivas que resultavam em rituais que viram sua assinatura na cena do crime, praticados periodicamente. Na investigação de crimes como esse, o objetivo deve ser a identificação de rituais, pistas na cena do crime, as características das vítimas preferenciais, o modus operandi, local de abordagem, trajetória que identifique possível moradia do criminoso etc. Tudo o que a polícia brasileira não fez e segue incapaz de fazer. Algo que pode ser visto em ótimas séries americanas como Dexter, CSI e Law & Order.

As confissões de Chagas começaram em 2004 e as provas foram acumuladas contra ele. Só assim foram se desfazendo os rastros de injustiças que o crime deixou pelo caminho. No Maranhão, foram 22 pessoas processadas e 14 presas injustamente. O Estado do Maranhão, contudo, vinha sendo pressionado pelas Organizações dos Estados Americanos (OEA) pela falta de respostas e conseguiu avançar rapidamente quando Chagas começou a confessar. Desfez seus erros e, atualmente, ninguém está sendo preso ou processado por um crime praticado por Chagas.

No caso do Pará, porém, a situação é diferente. Na época da confissão, o crime já havia sido julgado e os bodes expiatórios, encontrados. A revisão da sentença ainda não ocorreu. Os dois médicos seguem presos em Altamira.

Entre idas e vindas nas prisões, desde 2003, faz cinco anos que os dois estão presos ininterruptamente.  Hoje, finalmente, a Justiça do Pará deve começar a rever seus erros gigantes. Finalmente a sessão no Tribunal de Justiça deve marcar um novo julgamento para o caso, quando a confissão do serial killer completa dez anos. A decisão deveria ter sido tomada na semana passada, mas a relatora não compareceu porque tinha outro compromisso. Espera-se que hoje ela não falte. Nos últimos cinco anos, os dois filhos de Anísio só faltaram em dois fins de semana de visita a prisão. Alan Kardec recusou promoções na empresa em que trabalha para não sair de perto do pai. Já os filhos de Césio não veem o pai faz cinco anos. O que o Estado deve fazer para se desculpar? Creio que nada seria suficiente para apagar tamanho erro. Mas um bom começo seria acelerar a correção.

São 11h30 horas da manhã, duas horas depois do primeiro post. Recebi a informação que a revisão criminal não foi aceita. Os acusados queriam um novo Júri. Afinal, um outro assassino confessou o crime pelo qual eles foram condenados. Mas não. O Tribunal parece comprometido com o erro e os médicos seguirão presos. Depois da publicação do acórdão, caberá recurso. O caso pode ir à Brasília. Ainda é preciso definir a estratégia da defesa. Senhores e senhoras, apresento a Justiça brasileira.

 

 

 

 

 

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Acompanhado apenas da mãe, a cena do enterro solitário do jovem Sandro Barbosa do Nascimento, morto aos 22 anos em junho do ano 2000 no Rio de Janeiro, sempre foi uma das que mais me emocionou no documentário Ônibus 174 de José Padilha. A cena puxa na memória as inúmeras histórias de mulheres pobres que cansei de encontrar como jornalista. Nos mais de dez anos de reportagens, formei a convicção de que as mães formam uma instituição política sagrada em São Paulo e no Brasil. Se não fosse por elas, creio que tudo já teria degringolado.

Dona Maria eu conheci em um cemitério do Embu em 2003. Ela trabalhava como cozinheira e me foi apresentada por Marcelinho, ex-traficante de drogas que havia se tornado evangélico depois de sobreviver a doze tiros. Quando a conheci, Dona Maria tinha acabado de perder um filho assassinado. Ela retirou a identidade do garoto de dentro do bolso, que passou a carregar diariamente, como se o documento a mantivesse mais perto dele. Perdi meu filho, mas o Marcelinho me ajudou a evitar que meu outro filho também fosse morto, ela me contou.

Quando o caçula de dona Maria foi morto, seu filho mais velho testemunhou a cena e jurou vingança. Iria assassinar o autor do crime, que morava no mesmo bairro. Em sua sabedoria de mãe, dona Maria sabia que a vingança provocaria novas mortes. Seu filho mais velho, inevitavelmente, acabaria morto também. Foi então que lançou mão de seus argumentos. Prometeu ao filho que Deus converteria o assassino, assim como havia convertido Marcelinho. Deu certo e assim ela evitou novas mortes.

Conheci outras mães como ela, que nunca desistem e nunca esquecem. A mãe de Caíque, sumido há dois anos depois de entrar em uma viatura em Guarulhos, mudou-se para o interior de São Paulo depois que passou a ser ameaçada. Antes, circulou por vários pontos de desovas a procura do corpo do filho. Mas não encontrou. Pensa até hoje em suicídio.

Débora Silva, depois de perder o filho em maio de 2006 em Santos, assassinado por policiais, lutou para provar que os PMs mataram um trabalhador inocente, junto com outras mães que fundaram o Mães de Maio em defesa da memória dos garotos mortos. Tornou-se uma das organizações mais combativas contra a violência policial. Também me lembro do impacto que senti ao ouvir a voz firme da mãe e professora que testemunhou uma execução dentro de um cemitério em Ferraz de Vasconcelos e ligou para o 190 da Polícia. A gravação chegou em minhas mãos em sigilo. Ouvi aquela mulher e desabei.

O policial autor do crime veio na direção dela para pressiona-la a desistir de denunciar ao 190. Mas aquela senhora não se intimidou, convicta de que estava fazendo a coisa certa. Meses depois, no júri popular, o homicida foi inocentado.

Conversei com uma mãe que gastava R$ 300 por mês para enviar comidas, material de limpeza, papel higiênico ao filho preso, já que o fornecido pelo Estado não era suficiente. Lamentavam os erros de seu rebento, que havia cansado de avisar. Mas não o abandonava e não queria que ele tivesse que se submeter a favores do Partido. Por isso tinha que trabalhar dobrado. Outra mãe me contou que viu o filho ser assassinado e depois foi esbofeteada pelo policial. Devia “aprender a não por vagabundo no mundo”. Sim, eu já ouvi isso. Outra mãe levou seu bebê de quatro meses para denunciar abusos policiais em uma audiência pública e depois ouviu de um soldado: “você já viu como é o caixão de um bebê?”

São essas mães que lotam os ônibus e enchem a fila dos presídios, programadas geneticamente para nunca abandonar. A mãe que não desiste de procurar o filho desaparecido inspirou Chico Buarque a compor uma das mais tristes canções brasileiras, em homenagem à eterna busca de Zuzu Angel por seu filho assassinado e jogado na escuridão do fundo do mar durante a Ditadura Militar. Já disse a alguns garotos do hip hop que essa música poderia ser regravada, com outro ritmo e base, porque a tragédia dos desaparecidos continuam a se repetir aos montes na democracia.

Esse amor a toda prova serve também para dissuadir os filhos de entrarem para o crime.  “Não quero fazer a minha mãe sofrer”, foi uma frase que cansei de ouvir de jovens que se negaram a optar pela carreira criminal. Ao mesmo tempo, quando essas mulheres são presas, normalmente para ajudar o filho ou marido no tráfico de drogas, acabam abandonadas à própria sorte. Padecem sozinhas. A frequência das visitas em presídios femininos é mínima. Sozinhas na cela, tenho certeza que pensam em suas famílias. Prontas para perdoar.

Foram as mães que criaram associações para acompanhar o abuso no tratamento dado a menores infratores. Organizaram movimentos contra a carestia nos anos 1980, os clubes das Mães. Participam ativamente de conselhos comunitários, se articulam nas discussões políticas dos bairros, lotam as salas de espera dos hospitais acompanhando parentes. São as empregadas que cuidam de nossos filhos. As mulheres de uniforme que limpam o banheiro da empresa em que trabalhamos. As senhoras que vendem bolo desde a madrugada na porta dos metrôs. Eu as vejo passar aos montes pelas ruas de São Paulo, com seus cabelos arrumados, suas roupas baratas mas delicadas, com as unhas pintadas, brincos para enfeitar, cheirosas. Peço em silêncio que Deus as proteja. Mas não apenas por elas, mas também por mim, por toda a sociedade.

As mães são a rocha onde nos fincamos, nossa terra, nossa mátria, a mais sólida de todas as instituições, que se legitima pelo amor que pode nos oferecer. É sempre imensa e a chance de uma delas ter vivido uma história de coragem que poderia inspirar livros. Claro que eu escrevo tudo isso por um motivo.

Claudia, arrastada no porta mala depois de morrer com um tiro, era mãe de quatro filhos. Ajudava a cuidar de outros quatro sobrinhos. Os policiais que a carregaram talvez não saibam. Creio que não. Mas eles mexeram com um assunto sagrado. Devem ser condenados  e talvez depois aguardem o recurso em liberdade, como é comum acontecer. Mas não pode ser só isso. Se existe Justiça Divina, que eles carreguem nos ombros por toda a eternidade o peso das toneladas e toneladas de sofrimento que causaram.

Abaixo, a mais poderosa de todas as canções do Rappa. Fundo musical para pensarmos sobre o mundo em que vivemos.

 

 

Para aqueles que pediram, segue a música Angélica, de Chico Buarque, em homenagem a Zuzu Angel

 

 

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Bruno Paes Manso

    Formado em economia (USP) e jornalismo (PUC-SP), trabalhou por dez anos como repórter no jornal O Estado de S. Paulo. Também atuou na Revista Veja, Folha da Tarde e Folha de S. Paulo. Atualmente faz pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da USP. Concluiu o mestrado e doutorado no departamento de ciências políticas da Universidade de São Paulo, onde pesquisou o crescimento e a queda dos homicídios em São Paulo. É autor do livro O Homem X - Uma reportagem sobre a alma do assassino em SP, que ganhou o Premio Vladimir Herzog de melhor livro reportagem de 2006.

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