Uma pequena placa de bronze na calçada da Rua Porto Seguro, bairro da Ponte Pequena, marca o ponto atingido por uma inundação há 81 anos. Na inscrição, que fica em frente ao número 56, uma frase: “Nível da enchente de 1929″.
Considerada uma das maiores cheias já sofridas por São Paulo, a enchente de 1929 ocorreu durante as chuvas de verão, numa época em que as águas do Rio Tietê não fluíam de maneira eficaz pelo Rio Pinheiros.

A já extinta Light & Power – empresa canadense responsável pela formação da Represa de Guarapiranga e a distribuição de energia elétrica, entre outras atuações – conseguiu uma concessão do Governo Federal para canalizar, retificar e inverter o curso do Rio Pinheiros, em 1927.
Nesse acordo também estava previsto que a Light & Power poderia demarcar os terrenos que fossem atingidos pelas próximas cheias na cidade. Esses trechos passariam a ser propriedade da empresa.
Dois anos depois, em 1929, a Rua Porto Seguro ficou debaixo d’água e em sua calçada foi inserida a placa da fotografia acima. Ela permanece intacta até hoje e pertence ao Inventário de Obras de Arte em Logradouros Públicos da Cidade de São Paulo, mantido pelo Departamento do Patrimônio Histórico.
Wanise Martinez
Difícil falar sobre enchentes e não lembrar do Jardim Romano. Localizada no extremo da zona leste de São Paulo, a região foi uma das mais castigada pelas águas no último verão. Tornou-se símbolo de uma temporada de chuvas que em três meses deixou pelo menos 78 mortos na Grande São Paulo.
Entre o dezembro de 2009 e março deste ano, 3 mil famílias do Jardim Romano tiveram de deixar suas casas. Sob protestos, moradores se locomoviam com ajuda de botes dos bombeiros. Em fevereiro, a Prefeitura decretou estado de calamidade pública e demoliu 139 residências.
Para que a tragédia não se repita na próxima estação, a Prefeitura firmou em julho um contrato sem licitação de R$ 70,5 milhões com a empreiteira Queiroz Galvão. O convênio com o governo do Estado para as obras incluem a construção de um dique às margens do Rio Tietê e de um piscinão.
É o maior valor para um único contrato emergencial assinado pelo governo municipal. Com receio de novo desgaste perante a opinião pública, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) vem pedindo a mobilização de seu secretariado para evitar que imagens de bairros da zona leste inundados e de famílias desabrigadas voltem a ocupar espaço na mídia, segundo apurou a reportagem do Estado. No último verão, o prefeito foi alvo de críticas por causa dos cortes de 20% na verba reservada no ano passado para os serviços de varrição e coleta de lixo.
Cinco meses depois da tragédia, centenas moradores que perderam suas casas continuavam desabrigados. Em 8 de setembro, o pesadelo voltou a assustar – bastaram algumas horas de chuva fraca.
Gabriel Pinheiro
O primeiro registro fotográfico de uma enchente na cidade de São Paulo data de 1862 e foi feito pelo carioca Militão Augusto de Azevedo. Marcada pela simplicidade rural, a imagem retrata o antigo Caminho do Brás que, na época, era cortado pela Ponte do Carmo, Ponte do Meio e Ponte do Ferrão, terminando na Ladeira do Carmo.
Foto: Militão Augusto de Azevedo/Divulgação
Toda essa região sofria com os alagamentos sempre que chuvas mais fortes enchiam o rio Tamanduateí, ao fundo, e este não tinha para onde escoar. Muito anos depois, tanto o caminho quanto a ladeira se tornariam a Avenida Rangel Pestana.
Curiosidade histórica: Quarenta anos antes, em 25 de agosto de 1822, o Príncipe Regente D. Pedro fez sua entrada solene na cidade de São Paulo pelo Caminho do Brás. Felizmente, ele não presenciou nenhuma inundação e, treze dias depois, declarou a Independência do Brasil.
Para saber mais: Mostra ‘Inundações em São Paulo’, no espaço expositivo da Galeria Olido. Avenida São João, 473, 1º andar. De terça a domingo, das 13h às 20h. Até 3/10. Grátis.
Wanise Martinez
2011
2010