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Um mergulho no som dos Beatles

Carlos de Oliveira

07 julho 2014 | 06:57

Oito anos depois de lançado nos Estados Unidos, chegou agora ao Brasil o livro “Here, There and Everywhere – Minha vida gravando os Beatles”, do engenheiro de som da banda, Geoff Emerick. Trata-se de uma viagem pelos estúdios da EMI, na Abbey Road, onde os Beatles exploraram toda a sua criatividade.

Livro de Geoff Emerick conta a história das gravações dos Beatles

A ideia nasceu numa noite, em meados de janeiro de 1967. Os quatro beatles chegaram um tanto alterados e empolgados aos estúdios da EMI, em Abbey Road, em Londres, ansiosos para mostrar a novidade a George Martin, o mágico produtor de seus discos. Pouco antes, os rapazes haviam se encontrado na casa de Paul McCartney, em Saint John’s Wood, onde John Lennon deu ao grupo as linhas gerais de uma nova canção. Seu clima parecia semelhante ao de Strawberry fields forever, recentemente finalizada. Pouco depois, já no estúdio 2 da EMI, John começou a dedilhar seu violão Gibson J-160 e a cantar baixinho. Paul perseguiu a melodia em um piano de cauda Steinway. Modestamente, Ringo Starr passou a tamborilar um bongô e George Harrison, meio sem ter o que fazer, chacoalhava um par de maracas. Aos poucos – e com previsão de muito trabalho duro pela frente – nascia In the life of, nome provisório do que viria a ser A day in the life. Nascia também o mais espetacular álbum dos Beatles, o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

A gênese da gravação dessa e de muitas outras músicas que compõem a discografia dos Beatles é revelada por Geoff Emerick, o engenheiro de som da banda de Liverpool, em seu livro Here, There and Everywhere – Minha Vida Gravando os Beatles. A obra,  publicada originalmente nos Estados Unidos em 2006, só chegou ao Brasil no início deste ano, com posfácio de Elvis Costello. E é muito bem-vinda.

Em 1966, com 19 para 20 anos, Emerick foi convocado por George Martin para cuidar das gravações de Revolver, disco que marcaria o início da fase mais experimental dos  Beatles, depois de algumas ousadias em Rubber Soul.  Competente, provocou uma revolução técnica nos conservadores métodos de trabalho da EMI. Para desespero de seus proprietários, ele levou os microfones para bem perto dos auto falantes dos amplificadores, “rachando” seu som. Introduziu distorções, câmaras de eco e operou milagres com gravadores que, na época, tinham apenas quatro canais. Fez tudo para viabilizar tecnicamente os delírios sonoros que os quatro músicos impunham a George Martin.

Emerick, entre George Martin (esq.) e Ringo Starr, recebe um de seus quatro prêmios Grammy

O começo foi difícil, quase um terror. Paul tinha formação musical mais refinada e sabia exatamente o que queria para as músicas de sua autoria. Tímpanos aqui, metais ali, cordas acolá. John era intuitivo e vago. Não tinha a habilidade de Paul para expressar suas ideias. Por isso, lembra Emerick, ele pedia coisas como “me dê a sensação de James Dean pilotando sua moto em uma estrada”. Em Tomorrow never knows, última faixa de Revolver, John quis que sua voz soasse como “o Dalai Lama cantando no alto de uma montanha”. A resposta de George Martin a esse quase disparate: “Tenho certeza de que Geoff e eu conseguiremos fazer isso”. A reação de Emerick : “Olhei pela sala, em pânico”.  Resultado: quem quiser saber como é o Dalai Lama cantando no alto de uma montanha basta pôr Tomorrow never knows para tocar, de preferência em vinil. Lennon conseguiu o que queria.

Sensível e consciente do momento histórico que vivia, Emerick expõe como lidava com os desafios técnicos, sem perder a oportunidade de revelar as idiossincrasias de cada beatle, a cáustica concorrência entre Lennon e McCartney, o distanciamento de Ringo e Harrison e o fim triste da banda, em 1970, recheado de vendetas e mesquinharias por fama e dinheiro.

Emerick atualmente: depois dos Beatles continuou a trabalhar com Paul McCartney

Emerick foi um engenheiro de carreira na EMI, em Londres, onde começou em 1962. Após o fim dos Beatles, continuou a trabalhar com Paul, além de Elvis Costello, Jeff Beck e Art Grafunkel. Ganhou quatro prêmios Grammy. Vale a pena mergulhar no som e na cabeça dos Beatles, um grupo que se dissolveu há 44 anos, mas que até hoje não saiu das paradas de sucessos musicais e comerciais.

 

Serviço

Here, There and Everywhere – Minha Vida Gravando os Beatles

Editora Novo Século

478 páginas

Preço R$ 40

 

 

Um deus cansado

 

Clapton nos anos 60: “Deus”

Clapton hoje: cansado

Aos 69 anos, Eric Clapton anunciou à Rolling Stone americana  que no ano que vem deixará de se apresentar ao vivo. Um dos maiores guitarristas de todos os tempos, com presença marcante no rock e, sobretudo, no blues, Clapton disse que está cansado das turnês e dos aeroportos, onde é frequentemente barrado nos detectores de metais (“me esqueço de tirar o cinto ou as moedas do bolso”). Revelou também que sua saúde não anda lá muito boa.

Com sérios problemas de audição, provocados pelo alto volume que por anos e anos saiu de seus amplificadores, Clapton tem se queixado sobretudo de “dores estranhas” que o impediriam de tocar sua guitarra como antes. Há poucos dias interrompeu um concerto em Glasgow, na Escócia, oficialmente por problemas técnicos no equipamento de som. Idolatrado, na década de 60 jovens ingleses escreviam Clapton is God (Clapton é Deus) em paredes de Londres. Já bem perto dos 70 anos, o músico disse que manterá sua carreira, mas apenas em estúdios e em novas gravações.