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Por um novo verão do amor

Carlos de Oliveira

segunda-feira 30/06/14 15:56

Entre os próximos dias 3 e 13, o quase sempre tranquilo Hyde Park, em Londres, vai tremer ao som do British Summer Time, festival que terá como atração principal Neil Young e o Crazy Horse, dispostos a reeditar, 47 anos depois, o verão do amor.

Lá se vão 47 anos desde que hordas de jovens hippies decretaram que aquele verão de 1967 seria da paz e do amor, movido a acordes distorcidos de guitarras lisérgicas. Seria também um verão marcado pela política, por um basta à segregação racial e à guerra do Vietnã que, na altura, matava garotos americanos ao vivo e em cores pela TV. Em meio a essa mescla de sons pesados, cabelos longos e palavras de ordem, o rock amadureceu, poupando aquela geração de harmonias previsíveis e de versos recheados de baby, baby.

Um exemplo: na cena musical de Los Angeles, Neil Young, um canadense temperamental e suscetível, seguiu as pegadas do Crazy Horse, uma banda que nunca desonrou seu nome nem sua índole. Pois Young e os cavalos loucos estão de volta. No próximo dia 12, eles serão a mais esperada atração do festival British Summer Time Hyde Park, em Londres. O verão do amor pode não estar de volta com a mística de 67, mas, com certeza, resiste firme em alguns de seus principais personagens.

Neil Young (dir.) e o Crazy Horse

Aos 69 anos e totalmente recuperado de um AVC sofrido em 2005, Neil Percival Young, nascido em Toronto, teve de passar por cirurgia para retirar um aneurisma. Seu talento, contudo, manteve-se intacto. Há dois anos, com o Crazy Horse, lançou o álbum Americana. Logo em seguida veio Psychedelic Pill. Apesar de manter carreira solo fecunda, Young sempre integrou bandas lendárias entre elas o Buffalo Sprinfield e cooperou com um dos primeiros power trios da história do rock, o Crosby, Stills and Nash, formado em 1968 por David Crosby (ex- Byrds), Stephen Stills (ex-Buffalo Springfield) e Graham Nash (ex-Hollies).

Para o show de verão no Hyde Park, a mesma guitarra distorcida. No programa do dia 12, além do Crazy Horse, Neil Young receberá convidados especiais no palco principal: The National, Tom Odell, Half Moon Run e Lucy Rose. No Barclaycard Theatre vão se apresentar Midlake, Caitlin Rose, Phosphorescent e Flyte. No Village Hall, os shows de Ethan Johns, Bruno Major e Webb Sisters. Finalmente, no Summer Stage, a vez de Jack Savoretti, To Kill a King e Hero Fisher.

De alguma forma, no Hyde Park, a rebeldia dos anos 60 estará de volta para matar as saudades de quem viveu (ou ouviu falar) a busca de estilos alternativos de vida, as utopias da contracultura, o movimento pelos direitos civis e a oposição às guerras. Esses valores, apesar de anunciados num verão longínquo, ainda estão aí para serem reafirmados neste e nos próximos verões.

Serviço

O festival será realizado entre os próximos dias 3 e 13, assim dividido:

Dias Atração
3 Arcade Fire
4 Black Sabbath
5 The Libertines
6 McBusted
10 Tim Minchin
12 Neil Young & Crazy Horse
13 Tom Jones, Boyzone, Little Mix and More
Os shows começam às 13h30.
Preço: £66,60.
Crianças com menos de 16 anos precisam estar acompanhadas de um adulto.
Para ingressos: http://www.axs.com/uk/series/335/barclaycard-presents-british-summer-time-hyde-park-tickets?skin=bst&aff=aegliveuk_bst_artist_131213

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Quase selvagens

Wild Tales, de Graham Nash

É impossível dissociar a figura de Neil Young das de David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash, que formaram um dos primeiros power trios do rock, ao lado do Cream. Crosby, Stills, Nash & Young produziram  obras primas que marcaram o fim dos anos 60 e início dos 70, estendendo-se até os 90. Talentos musicais raros, mas personalidades difíceis, irascíveis até, protagonizaram histórias que foram da alegria extrema aos mais devastadores efeitos das drogas. Alguns deles, Crosby especialmente, experimentaram o gosto amargo da degradação humana. Mas sobreviveram e a vida desse trio que, às vezes, virava quarteto, está nas 360 páginas de Wild Tales, escrito por Nash, com a autoridade de quem viu glórias e fracassos de dentro.

De leitura acessível (ainda não há uma versão em português), Nash imprime à narrativa um tom direto, coloquial, sem meias palavras. Descreve sua vida sem grandes perspectivas artísticas numa soturna Manchester, no norte da Inglaterra, onde integrou os Hollies, com relativo sucesso.

Durante uma excursão aos Estados Unidos, em Los Angeles o inglês de jeito provinciano deslumbrou-se com uma nova ordem que se desenhava no cenário musical norte-americano. Ficou amigo de Mamma Cass Elliot, na casa de quem conheceu David Crosby, insatisfeito com o rumo tomado pelos Byrds. Outro insatisfeito, este com o Buffalo Springfield, Stephen Stills aproximou-se aos poucos.

De volta à Inglaterra, os músicos da Califórnia permaneceram em sua cabeça até que um dia Nash decidiu que seu futuro estava mesmo do outro lado do Atlântico. Abandonou os Hollies. Nascia o Crosby, Stills & Nash e o álbum de mesmo nome, com as antológicas Suite Judy Blue Eyes e Wooden Ships. Em seguida, com a participação de Neil Young, veio o álbum Déjà Vu. O resto dessa história se desenrola entre extremos nos quais vale a pena mergulhar em Wild Tales.

 

Maturidade 

Croz, o novo álbum de David Crosby

E para provar que os ideais de paz e amor do verão de 1967 ainda estão presentes, vale a pena fazer uma menção ao novo álbum de David Crosby, intitulado Croz, seu apelido. Depois de 20 anos sem gravar, Crosby se impôs um desafio: cantar onze músicas inéditas e passar ao largo dos best of. O resultado é tocante. Aos 71 anos sua voz está límpida, com o vibrato que sempre a caracterizou. Com harmonias perfeitas, marca indelével do velho Crosby, Stills & Nash, Croz é um álbum para se ouvir sem sustos, com a certeza de que uma música será melhor do que a outra. Tudo fruto da maturidade.