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O fator Yoko

Carlos de Oliveira

25 agosto 2014 | 08:39

No início deste ano, durante a cerimônia de entrega do prêmio Grammy, nos Estados Unidos, Paul McCartney deu um abraço amigo em Yoko Ono, ex-esposa de seu parceiro nos Beatles, John Lennon. Estava selado um processo de paz iniciado dois anos antes, quando Paul veio a público e admitiu que Yoko nada teve a ver com a separação da banda. Agradecida, Yoko Ono, hoje com 81 anos, deu sequência à sua carreira performática. Pôs o pé na estrada com sua Plastic Ono Band, criada por ela e John em 1970, e, com a corda toda, participa de festivais. Mas se Yoko não separou os Beatles, foi, durante um bom tempo, uma pedra nos sapatos de Paul, George e Ringo, como se verá adiante.

 

Os quatro beatles e Yoko durante as gravações de Let it Be: desinteresse e irritação.

Yoko Ono não sai de moda. Há pouco mais de um mês, jovial aos 81 anos, a artista plástica, cantora, performática e eterna esposa de John Lennon participou do festival de Glastonbury, na Inglaterra, com a Plastic Ono Band, fundada nos anos 70 com seu então marido. Foi uma apresentação inesquecível em todos os sentidos. Cheia de gás, Yoko dançou e gritou muito, ao som de uma guitarra enfurecida, mas, nem por isso, competente. A música chama-se Don’t Worry, Kyoko, difícil de ser definida por padrões, digamos, normais. O importante, porém, é que o vídeo de sua performance caiu na internet e já teve quase dois milhões de visualizações e comentários, nem todos muito simpáticos, para dizer o mínimo. Aqui e ali, a velha história: muito ressentimento de beatlemaníacos que ainda atribuem a ela a separação da banda. Veja e ouça, se conseguir, Yoko em Glastonbury:

Paul e Yoko: gentilezas durante a entrega do prêmio Grammy deste ano, nos Estados Unidos.

Apesar da ira ainda viva dos fãs, Paul McCcartney já havia afirmado publicamente que Yoko nada teve a ver com o  rompimento dos Beatles. Este ano, durante a cerimônia de entrega do Grammy, a confirmação: Paul e Ringo aplaudiram e abraçaram a ex-esposa de John. Jogar a culpa da separação da maior banda de rock de todos os tempos sobre os ombros aparentemente frágeis de Yoko Ono não seria justo. É certo que a morte prematura do empresário Brian Epstein deixou a banda desorientada e os quatro rapazes jamais se recuperaram desse golpe.

De alguma forma, somaram ao papel de músicos consagrados o de homens de negócios, coisa que jamais foram. Desavenças motivadas por inexperiências, egos inflados e interesses financeiros surgiram antes de Yoko.  Seja como for, o fato é que a chegada de Yoko Ono, numa certa tarde de primavera de 1968, aos estúdios da EMI, em Londres, onde os Beatles se preparavam para as gravações do Álbum Branco, foi uma espécie de começo do fim.

Os Beatles, recém-chegados da Índia, onde passaram algumas semanas no ashram, ou centro de treinamento, do Maharishi Maheshi Yogi, em Rishikesh, aos pés dos Himalaias, estavam diferentes. Por alguma razão, voltaram distantes, desinteressados. Não eram mais os rapazes alegres, bem-humorados e aprontões. No fundo, estavam decepcionados. A paz de espírito acenada pelo Maharishi e procurada pelos Beatles não existia.

Os Beatles, suas companheiras e o Maharishi Maheshi Yogi, guru indiano que prometia paz de espírito.

Decepção - O Maharishi, guru indiano que prometia o paraíso por meio da meditação transcendental, não era isso tudo. E mais: o fato de ter assediado a atriz Mia Farrow, outra iludida em seu ashram, foi a gota d’água para que todos retornassem a Londres irritados e separadamente. O Álbum Branco começaria no mais baixo astral possível, tanto que nem nome teve, apenas a palavra Beatles, em relevo, numa capa de cartão branco.

Em maio de 68, depois de se reunirem na casa de George Harrison, em Claremont Drive 16, Esher, Surrey, para compor algumas canções, os Beatles, finalmente foram para os estúdios em Abbey Road. Naquela tarde, John Lennon, de gênio sabidamente complicado, estava insuportável como nunca estivera antes. Iam gravar Revolution 1, a versão lenta da música.

Inquieto, Lennon aumentou tremendamente o volume de seu amplificador. Disse que queria um timbre distorcido, um som semelhante ao do Cream, lendário super trio formado pelo guitarrista Eric Clapton, pelo baixista Jack Bruce e pelo baterista Ginger Baker. Os técnicos do estúdio reprovaram a ideia, já que o alto volume estava invadindo os demais microfones e arruinando a gravação. Foi o bastante para que o beatle ficasse possesso e passasse a gritar all right descontroladamente ao final de cada take. Mas tudo iria ficar bem mais complicado na tarde seguinte.

Os Beatles e Yoko Ono, sombra de John Lennon.

“Essa é Yoko” - Apressado, quase correndo, John irrompeu pela porta da sala de controle do estúdio. Estava acompanhado de uma mulher miúda, de cabelo muito comprido, oriental, com uma câmera fotográfica a tiracolo. Deixou-a sentada ao lado do produtor George Martin e do engenheiro de som Geoff  Emerick. Sem dizer uma palavra, saiu correndo rumo ao estúdio. Minutos depois, voltou afobado e disse aos técnicos: “Essa é Yoko”.

A partir desse momento, nunca mais Yoko Ono deixaria de frequentar, sem exceções, todos os locais em que John estivesse, para profundo desagrado, desconforto e indisfarçável raiva dos demais beatles. Se John fosse ao banheiro, lá ia Yoko atrás. Acocorava-se junto à porta e ficava esperando ele sair. Cochichavam ao final de cada take.

Espanto 1 - Num belo dia, na sala de controle, todos ouviam um trecho de backing vocal feito por Paul McCartney. De repente, Lennon interrompe a audição, vira-se para Yoko e diz, sem censura: “Sabe, acho que você deveria fazer esse trecho”. Paul abandonou as gravações daquele dia. George e Ringo “trocaram olhares sinistros”, segundo recorda Emerick em seu livro Here, There and Everywhere, já citado e recomendado neste blog.  Indiferente, Lennon passou o fone de ouvido a Yoko, que deu um passo em direção ao microfone. Desolado, George Martin foi certeiro: “O que será que John está pensando?”

Espanto 2 – Diz a lenda que tudo pode ficar pior do que está. E ficou. Dias depois, novamente na sala de controle, todos ouviam a gravação de uma base de guitarra  feita por Lennon. Para espanto geral, o beatle perguntou a Yoko (e só a Yoko) o que ela estava achando. Emerick lembra-se da resposta: “Bem, está muito bom, mas eu acho que poderia ser tocada em um andamento mais rápido”. Ali estava a namorada de John, sem nenhuma formação musical, dando pitacos na música de quatro músicos escolados e de sucesso mundial. Novo ranger de dentes.

A gravação de Abbey Road foi bem mais tranquila, com Paul menos mandão e John mais camarada.

Espanto 3- Depois da tumultuada gravação do Álbum Branco, as sessões de Abbey Road foram uma espécie de refúgio tranquilo. Paul estava menos mandão. John, menos irritado e George Harrison bem mais seguro em relação às suas composições para o disco, Something e Here Comes the Sun. Tudo apontava para um jornada sem sustos. Só apontava.

Naquela manhã, preocupado, George Martin anunciou a todos que John e Yoko haviam sofrido um acidente de carro na Escócia. Nada de muito grave, mas ficariam de molho por pelo menos uma semana, tempo em que os três beatles na ativa gravaram Her Majesty, Golden Slambers, Carry that weight e iniciaram Maxwell’s Silver Hammer, mais tarde execrada por Lennon e Harrison. John e Yoko apareceram no estúdio no dia 9 de julho de 1969, cerca de dez dias depois do acidente.

Conversas amenas, curiosidade sobre o estado de saúde de ambos, tudo bem até que John disse: “No entanto, receio que a mãe não esteja muito bem”. Mãe era Yoko. A perplexidade só não foi maior porque de repente as portas do estúdio se abriram e quatro homens vestindo jalecos da Harrolds posicionaram uma cama, travesseiros e lençóis junto à mesa onde ficavam o chá e as torradas. Nessa cama Yoko ficou semanas, alternando camisolas finas e recebendo visitas, entre elas a de Linda Eastman, a futura senhora McCartney.

Imagem incomum: Yoko convalescente, deitada em cama instalada no estúdio de gravação, recebe visita de Linda Eastman.

The End - Depois de Abbey Road, pouca coisa restou aos Beatles, além de suas carreiras solo. O fim já anunciado chegou com a canção The End, que fecha Abbey Road.

John e Yoko casaram-se naquele mesmo ano de 1969. Tiveram um filho, o hoje músico Sean Lennon. Em Nova York, para onde se mudaram, engajaram-se na luta contra a guerra do Vietnã e pela paz mundial. Embora perseguido pelo governo Nixon, que queria deportá-lo, Lennon viveu com Yoko nos EUA até o dia 8 de dezembro de 1980, quando Mark Chapman o matou a tiros. Chapman está preso desde então e na semana passada teve negado seu pedido de liberdade provisória.

No início deste ano, 44 depois da separação dos Beatles, Paul e Yoko selaram a paz com um abraço durante a entrega do Grammy. Afinal, o tempo passa e cura feridas. Hoje, os Beatles e Yoko, cada um a seu modo, nunca estiveram tão na moda.