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Sonia Racy

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‘Quem vai olhar para Itaquera e para a zona leste quando a Copa acabar?’

30.junho.2014 | 1:02

Mônica de Carvalho (Foto: Silvana Garzaro/Estadão)

Para Mônica de Carvalho, socióloga da PUC-SP, não basta investir na região, é preciso saber o que os moradores querem. E cabe a eles pressionar o poder público por melhorias após o Mundial.

Como a Copa do Mundo mobiliza investimentos públicos e privados e de que forma eles interferem na reconfiguração das cidades-sede? É o que o Observatório das Metrópoles, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pretende responder com uma pesquisa que começou em 2011. “Não é um estudo específico sobre a Copa, o objetivo é descobrir como esse evento modifica ou não a forma de organização das cidades”, alerta a socióloga Mônica de Carvalho, da PUC – que, ao lado de Clarissa Gagliardi, pesquisadora da USP, coordena a pesquisa em São Paulo. “Queremos saber como esse impacto se dá no âmbito do desenvolvimento econômico; da moradia, mobilidade urbana e meio ambiente; do esporte e da segurança pública; e da governança urbana e metropolitana.”

Na capital paulista, porém, há uma peculiaridade: “Não se pode falar que São Paulo está recebendo a Copa, mas apenas um pedaço da cidade. E mais: um pedaço que raramente atraía dinheiro público e privado”. E mais: mesmo que não tenha sido intencional, a construção da Arena Corinthians em Itaquera acabou, segundo ela, se “encaixando em uma demanda de longo prazo da cidade”. “São Paulo estava engasgada há muitos anos, não tinha mais para onde crescer. A não que ser que fosse para a zona leste.”

Mas isso não quer dizer que a população da região será beneficiada. Mônica diz que, embora as obras do entorno do estádio estivessem previstas no Plano Diretor como uma reivindicação daqueles moradores, é preciso “desfocar o olhar da Copa” e prestar atenção naquilo que de fato importa. “Seguiremos com o grande paradoxo entre investimento e expulsão da população? Não podemos nos apegar à zona leste operária e pobre.”

A partir de agora, diz a socióloga, é preciso ir além e olhar para o que há de concreto: o investimento já foi para lá, mas o que ele significa, de fato, para a zona leste? “A Copa é um episódio que vai durar apenas um mês. Não me interessa se a obra do Itaquerão é faraônica ou não. O que quero saber é se aquelas pessoas que moram atrás do estádio terão boas condições para continuar morando ali e o que a Prefeitura e o governo do Estado vão fazer para isso? Terão o mesmo empenho que tiveram em relação à Copa?”

A seguir, os melhores trechos da conversa com a socióloga, na PUC, em São Paulo.

O que significa a Copa para a zona leste?

São Paulo tem uma peculiaridade na recepção da Copa: os investimentos, que até então estavam concentrados em determinada porção da cidade, foram redirecionados para uma região que raramente recebia dinheiro público e privado. O momento de inflexão acontece quando se desiste do Morumbi e se decide pela construção de um estádio em Itaquera. Além de toda aquela explicação do próprio mundo esportivo, esse movimento também está atrelado a uma questão política. É só analisarmos a disputa eleitoral dos últimos anos.

Como assim?

O eleitorado do Morumbi é do PSDB. Está consolidado, o partido já conquistou aquele espaço. Já em Itaquera, não há um voto tão consolidado, existem variações entre PT e PSDB. O que significa dizer que é uma área em disputa. Redirecionar os investimentos para esta região acrescenta ganhos eleitorais ao PT e ao PSDB. E quem capitanear os investimentos nesta região pode ganhar votos nas eleições.

Você acredita que foi, então, um movimento proposital?

Não. Claro que existe todo um jogo político, mas, na maioria das vezes, a intenção do autor não está tão evidente assim. Cabe ao pesquisador mostrar que, além da disputa na CBF, Itaquera é um território também em disputa e que isso pode acarretar ganhos eleitorais. Mas, para que esses ganhos se concretizem, é preciso questionar o que significa ter investimentos voltados para a região mais precária em termos de ocupação populacional e de renda da cidade. E também qual é o tipo de investimento proposto.

E se, de fato, esses investimentos têm a ver com a região.

Diferentemente do que aconteceu em outras cidades, em São Paulo não foram feitas grandes obras para receber a Copa, com exceção do estádio. As obras viárias já estavam previstas no Plano Diretor. E mais: elas foram reivindicadas pela população porque o plano foi construído de forma participativa. Mas a questão mais problemática aparece quando olhamos para esses investimentos e vemos, por exemplo, que a política de incentivos fiscais da Prefeitura para a região atrai empresas do setor terciário não avançado – como empresas de telemarketing. E a população está reivindicando mais do que telemarketing. Pedem, por exemplo, mais um campus da Unifesp – porque também está se instituindo uma espécie de arco universitário naquela região, um pedido da população desde o final da década de 1980. Tem a USP Leste, a Unifesp em Guarulhos e em Santos, a Universidade Federal do ABC, em Santo André.

Pode-se dizer que é um investimento para além da região?

Não podemos cravar, mas o que parece estar sendo construída ali é a definição do território da zona leste como um espaço central de fluxo de negócios da região metropolitana. Olhando todas as obras do entorno, como o Rodoanel, a ampliação da Tamoios, que liga a região ao litoral – onde está o pré-sal –, vemos um processo, capitaneado pelo poder público, de reconversão econômica da zona leste. Uma região, que tradicionalmente era industrial, ocupada por operários, sendo transformada em uma área de serviços.

E como a Copa entra nisso?

A Copa foi subordinada a um projeto mais amplo, que já estava lá no Plano Diretor – talvez não esse desenho todo, mas já existia um projeto de desenvolvimento para aquela área. Para quem vê de fora, a zona leste não tem o carimbo que nós, moradores de São Paulo, colocamos na região. As empresas enxergam ali um território disponível para receber investimentos e a Copa entra como uma grande vitrine desse imenso território livre. Mas o que significa esse desenvolvimento? É transformar a população da região em caseiras, em atendentes de telemarketing? Não! A zona leste tem que ser operária, industrial e viver um movimento pendular para sempre? Não!

Qual o caminho?

Abrir um amplo debate sobre qual tipo de desenvolvimento se quer para a zona leste para que todo esse processo não seja canalizado para os mesmos interesses de sempre. Não podemos nos apegar na zona leste operária, pobre e de movimento pendular. Temos de olhar para o concreto: o investimento foi para lá e o próximo passo é qualificá-lo.

Como isso pode ser feito?

Perguntando, primeiro, o que a população quer. É universidade? Se sim, como ela está inserida nesse desenvolvimento?Como ela está se mobilizando para qualificar aquelas pessoas para que elas se apropriem desse desenvolvimento? Tem gente da zona leste estudando nas universidades que ali estão instaladas? Eles sabem dos cursos? A qualificação da população importa.

Há o risco de essas pessoas serem expulsas de lá?

Qualquer investimento público ou privado valoriza a terra e é importante dizer que isso não tem nada a ver com a Copa, vem acontecendo desde a década de 1940. Ou seja, o buraco é muito mais fundo. Jogar para a Copa é obscurecer um problema clássico de toda a metrópole: o que se faz quando investimentos públicos e privados constituem mais valor à terra? O que se faz quando, ao construir um metrô em determinada região, a valorização é tamanha que expulsa exatamente a população que sempre reivindicou o metrô? Aqueles predinhos de 30 metros quadrados vão custar R$ 1 milhão e vai ser “in” estudante morar ali, a população pobre vai acabar saindo. Enquanto não se fizer uma discussão séria sobre a propriedade da terra, o problema não será resolvido. E agora há um agravante: a população não tem mais para onde ir porque São Paulo não tem mais para onde crescer. Essa população vai para fora da cidade – que vai se “higienizando”, expulsando todos os pobres. Há uma mudança do perfil demográfico.

É possível dizer, então, que a Copa foi ruim para a zona leste?

Como posso dizer que é ruim investir em uma região que sempre reivindicou investimento? O problema é o que esse investimento acarreta. Para que ele possa trazer outras coisas que não seja expulsar a população, gentrificação e etc, é preciso que as pessoas que vivem ali se apropriem dessa discussão e reivindiquem desenvolvimento para si. Não foi por acaso que o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) se mobilizou justamente agora e ocupou Itaquera com a Copa do Povo – é a disputa de território. Podemos falar que é oportunista, mas também é oportunista o governo usar a Copa para dar visibilidade a seus projetos. O bom ou ruim dependerá da força que a própria população da zona leste terá para fazer com que esse investimento se reverta para aquilo que ela realmente almeja.

Os moradores têm essa força?

Sim, mas temos que levar em consideração outra questão: será que, depois da Copa, essa população vai continuar usufruindo do lugar onde ela mora? E não estou falando do estádio. Porque aí seria mais uma incoerência: criticamos tanto a construção da arena e depois queremos que a população esteja nesse estádio? A crítica também tem que ter uma coerência. Se a obra é faraônica ou não, não me interessa. O que quero saber é se aquelas pessoas que moram atrás do estádio terão boas condições para continuar morando ali. E o que a Prefeitura e o governo do Estado vão fazer para isso? Que empenho eles vão ter? Terão o mesmo empenho que tiveram em relação à Copa? E aí entra a disputa política. Qual será o partido, o poder político, que terá condições de entender e visualizar que, tão importante quanto atender o Corinthians, é atender a população que mora ali? Por que a Copa é um episódio que vai durar um mês.

Quando acabar, a tendência é deixar de olhar para a região.

Exatamente. As pessoas só se preocuparam muito com Itaquera por causa da Copa. Vai passar. Não podemos negar que a Copa criou oportunidade de investimentos para quem vem de fora, para quem critica, para os movimentos sociais. Todo mundo usou a Copa porque é uma forma de dar visibilidade. Mas a questão é: o que vai acontecer com Itaquera quando a Copa acabar? Quem vai olhar para Itaquera quando a Copa acabar? E Itaquera, aqui, é a metonímia da zona leste. É por isso que costumo dizer que a questão não é a Copa, mas sim o peso que as pessoas estão dando para o Mundial. É legítimo discutir se deveríamos ou não ter recebido a Copa, mas não dá para transformar a Copa em causa. Ela não é responsável por tudo que acontece. Se seguíssemos esse raciocínio, poderíamos dizer que, daqui a um mês, quando a Copa acabar, tudo estará resolvido e o País estará bem. É uma armadilha atribuir à Copa a causalidade das coisas. A Copa não é causa de nada, ela entrou numa prática muito velha e conhecida.

Que prática?

A de que os eventos esportivos têm sido usados para consolidar investimentos e mudanças na forma de gerir a cidade. Muitos investimentos – difíceis de serem feitos em outras épocas – são alavancados quando surge um evento esportivo. É como se eles ganhassem uma espécie de consenso. O ícone dessa discussão é Barcelona, que passou por um processo de grande transformação por causa da Olimpíada de 1992. E isso não foi diferente no Brasil. /THAIS ARBEX

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