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Sonia Racy

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‘O juiz é o eterno bode expiatório, um sujeito que não tem amigos’

09.junho.2014 | 1:00

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Árbitro da final da Copa de 1982, ele fala sobre os 50 anos dedicados ao apito, sua torcida pela seleção, o uso da tecnologia, Armando Marques e as mudanças no jogo.

Primeiro árbitro sul-americano a apitar uma final de Copa, Arnaldo Cezar Coelho vai torcer, claro, pela seleção neste Mundial. Mas também pelo árbitro Sandro Meira Ricci, único brasileiro no torneio – “espero que ele faça um belíssimo trabalho, mas não quero vê-lo na final, não”, brinca.

Com meio século dedicado ao futebol (25 anos nos campos pelo mundo afora e os últimos 25 como comentarista da Rede Globo), Arnaldo conta que só pendurou o apito quando percebeu que a arbitragem começava a interferir em seu trabalho. “Aqui no Brasil, é muito difícil um juiz sobreviver sem uma segunda fonte de renda”, explica.

Aos 71 anos, ex-dono da corretora Liquidez – que ele vendeu para o grupo britânico BGC, em 2009 –, o agora corretor autônomo de investimentos tem vida pra lá de agitada: visita clientes o dia inteiro e ainda arranja tempo para participar dos principais jogos do Brasileirão. E está escalado para acompanhar a Copa de ponta a ponta.

Pouco antes de voltar para o Rio, onde mora, após mais um Bem, Amigos!, programa do SporTV capitaneado por Galvão Bueno, ele conversou com a coluna no hotel Hyatt sobre os tempos de garoto em Copacabana, o Mundial de 1982 e a solidão do homem de preto. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Jogava bola quando garoto?
Quando tinha uns 15, 16 anos, na praia de Copacabana – nasci no bairro –, os garotos iam pegar jacaré e jogar bola na areia. Não havia o Aterro do Flamengo, a avenida tinha só duas pistas. Costumava jogar e apitar. Ninguém queria ser juiz.

Medo?
Claro. Naquela época, quando um time não gostava de alguma marcação, tirava o apito do juiz na marra. E, no fim do jogo, era comum o pessoal que estava assistindo, sentado na amurada do calçadão, descer para bater no árbitro. Foi por isso que eu aprendi a nadar bem (risos).

Para escapar?
Para esfriar a cabeça e para fugir da surra. Quando o jogo ia acabando, eu já me posicionava junto da água… Aos 17 anos, já apitava na liga de futebol de praia, um negócio importante.

Daí foi para os campos?
Muitos juízes profissionais viviam pela praia e me viam apitar. Este ano eu completo 50 anos dedicados ao futebol: 25 como juiz e 25 como comentarista de arbitragem na Globo. Dos 25 anos apitando, 21 como árbitro da Fifa. Apitei cinco Mundiais: três sub-21 e dois profissionais. Em 1978, fui árbitro reserva na final da Copa.

Foi um aprendizado para o Mundial da Espanha, em 1982?
A final de 78 foi apitada por um italiano, Sergio Gonella. Aquilo me deu uma experiência danada. Tanto que, em 1982, fui chamado outra vez e apitei um jogo difícil, Alemanha e Inglaterra, pela segunda fase da Copa. A Fifa gostou do meu trabalho e acabei fazendo a final entre Itália e Alemanha.

A derrota do Brasil acabou sendo boa pra você.
O sucesso de um árbitro em um Mundial depende do insucesso da seleção de seu país, né? Como o Brasil perdeu para a Itália, naquele jogo fatídico em que o Paolo Rossi fez três gols, tive a oportunidade de apitar a final.

Nesta Copa, vai torcer pelo árbitro brasileiro Sandro Meira Ricci ou pela seleção?
Vou torcer para ele fazer ótimos jogos… mas quero ver o Brasil campeão.

Você foi o primeiro sul-americano a apitar uma final de Copa.
Fui uma espécie de precursor, porque, até então, só os europeus apitavam finais. E quatro anos depois, na Copa de 1986, outro brasileiro, Romualdo Arppi Filho, apitou a final, entre Argentina e Alemanha.

É verdade que torceu para o Cabrini perder o pênalti, no primeiro tempo da final de 1982?
Verdade, sim. Porque eu marquei o pênalti com convicção, mas, depois, pensei: “Será que ficou claro pra todo mundo? E se o jogo terminar 1 a 0? Vai virar uma polêmica!”. Quando ele perdeu, fiquei aliviado. Dizem que apitar final de Copa é prêmio, mas, se você apitar bem, não fez mais do que a obrigação. Agora, se errar…

Você apitou Olimpíada também, né, Arnaldo?
A de 1976, em Montreal, e a de 1988, em Seul. A primeira fez parte da minha evolução na carreira de árbitro; a segunda, porque a Fifa queria que eu me tornasse uma referência para os jovens árbitros. Como já havia apitado uma final de Copa, ou seja, não havia mais degrau na carreira para eu subir, a federação passou a me levar para competições preparatórias.

Juiz que apitou final de Copa tem fã que nem jogador?
Pior que tem. Ano passado, fui fazer uma palestra para os árbitros da Copa das Confederações. E um colombiano veio e segurou o meu braço. Perguntei o que ele estava fazendo. Ele respondeu: “Para pegar os seus fluidos!” (risos)

Quando você apitava, quem eram os seus ídolos?
Eu imitava o Armando Marques. Ele tinha características que nenhum outro árbitro tinha na época: corria o campo todo, apitava em cima do lance. A maioria era barriguda, apitava de longe. Na Copa de 1974, fui para a Alemanha no staff do Carlinhos Niemeyer, que fazia o Canal 100. Eu carregava as malas com as câmeras. Foi o primeiro Mundial a que assisti in loco. E o Armando Marques apitou. Ele usava um uniforme todo preto, era árbitro de praia também. Tinha um Mustang vermelho.

Você era fã do Armando por causa do Mustang?
Também. Tanto que comprei um azul (risos), de segunda mão. Para ficar bem parecido. Voltando ao jogo, eu ia ver o Armando apitar e copiava as coisas que me agradavam. Por exemplo, quando ele dava gol, corria para o centro de campo. Não deixava os jogadores ficarem na dúvida sobre as marcações, entende? Tinha muita personalidade.

Ele ficou mais famoso pelo episódio do erro na contagem dos pênaltis na final do Paulista de 1973, entre Santos e Portuguesa.
Também dizem que expulsou erradamente o Pelé em diversos jogos. Você tem de levar em conta que ele apitava cerca de 60, 70 partidas por ano. É muito jogo. Um dia o cara não está bem e acontece alguma coisa fora do padrão. É que nem goleiro. Não importa o quanto esteja pegando, todo mundo só se lembra dos frangos.

Hoje em dia, quem você considera um grande juiz?
O Pedro Proença, de Portugal, que estará na Copa. Ele é muito tranquilo, tem vocação, passa despercebido pelo jogo. Aliás, essa é uma qualidade importantíssima para ser um bom árbitro. Atualmente, a gente vê muito juiz que se preocupa mais com a forma física, porque o jogo ficou mais rápido, mais dinâmico. Os caras parecem máquinas. Primeiro mostram que sabem correr, depois aprendem a apitar. Isso nem sempre dá certo. Na época em que eu apitava, corria, em média, uns 5 quilômetros por jogo. Hoje, o árbitro corre de 12 a 13 quilômetros.

As mudanças nas regras agilizaram o jogo, né?
Muito. Antes, o zagueiro podia recuar a bola para o goleiro quando a jogada estava apertada, e o goleiro podia pegá-la com as mãos, bater a bola no chão quantas vezes quisesse. Hoje não. Outra coisa: quando eu apitava, havia apenas uma bola em campo. E outra, reserva, que ficava no vestiário do juiz. Se a bola caísse no fosso do Maracanã, por exemplo, um sujeito tinha de ir lá pescá-la, com uma vara. Demorava uma vida para o jogo recomeçar. Agora são várias bolas, o jogo não para.

Gostou da adição de dois assistentes que ficam atrás dos gols durante os jogos?
Não. Aliás, eu chamo esses assistentes de vigias.

Por quê?
Eu morava em uma rua que tinha um vigia noturno. Um dia, ele ligou para o meu apartamento e avisou: “Seu Arnaldo, acabaram de roubar o seu carro na porta do prédio!”. E eu: “Mas você não fez nada?”. E ele: “Mas eu só vigio!” (risos) Em campo, é a mesma coisa: eles ficam atrás do gol e não veem nada.

É a favor da tecnologia?
Depende. A das câmeras que indicam se a bola entrou, sim, porque o juiz recebe o sinal no relógio de pulso e é algo bastante rápido. Até hoje há dúvidas, por exemplo, no terceiro gol inglês na Copa de 1966, na final contra a Alemanha. E houve aquele erro crasso em outro Alemanha x Inglaterra, na Copa de 2010, só que em favor da Alemanha. A regra é clara: para ser gol, a bola tem de ultrapassar inteiramente a linha.

E as câmeras, mais atrapalham do que ajudam?
Quando eu apitava, havia, em média, seis câmeras transmitindo a partida. Hoje, são 34 – chega a 39 em alguns jogos do Brasil. Há lances de impedimento, por exemplo, que são dificílimos. Em casa, o torcedor vai ver que o bandeirinha errou. Imagina se todo lance duvidoso suscitasse um pedido de revisão! Todo mundo erra dentro de campo, atacantes, zagueiros, goleiros. Mas parece que os juízes são os eternos bodes expiatórios. Tem alguma lógica, porque a profissão de árbitro de futebol é muito solitária, mesmo. O árbitro é um sujeito que não tem amigos (risos). /DANIEL JAPIASSU

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