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Sonia Racy

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‘Não tem sentido fazer programa de humor sem refletir a realidade’

07.julho.2014 | 1:00

Foto: TV Globo/João Cotta

Idealizador do Tá no Ar, que mudou o jeito de fazer rir na Globo, humorista diz que piada tem que ter precisão cirúrgica: “Sem a fórmula certa, melhor não ir ao ar”.

Futebol e humor caminham lado a lado. Um exemplo disso é Marcius Melhem, 42 anos, flamenguista roxo, ator e humorista da TV Globo há 11 e comentarista convidado no Central da Copa. Fanático por futebol, ele comemorou a vitória do Brasil sobre a Colômbia, sexta-feira: “A seleção fez sua melhor partida até agora. Jogou com autoridade de quem manda no pedaço, organizado, equilibrado. ‘Simbora’ para Belo Horizonte na terça!”, declarou à coluna, logo após a partida em que a seleção brasileira derrotou os colombianos por 2 a 1, em Fortaleza.

Nascido em Nilópolis, na Baixada Fluminense, Melhem disse sempre ter “botado fé” no sucesso do Mundial no Brasil. “Não compartilhei em nada do sentimento ‘não vai ter Copa’. Sou apaixonado pelo evento. Os problemas do Brasil sempre existiram e continuarão existindo.” Entretanto, não poupou críticas à classe política – “em geral, fraca e, em boa parte dos casos, mal-intencionada”. Ele avaliou que o País está indo bem no teste dos grandes eventos – o que não significa que esteja totalmente preparado para sediar a Olimpíada de 2016. “A Copa é um evento de um único esporte, jogado por 32 times espalhados pelo País. Já na Olimpíada, o número de delegações será muito maior, assim como as modalidades esportivas, todas concentradas em uma só cidade, o Rio. Eu acho muito complicado.”

No campo do humor, os desafios são outros. Para Melhem, dois fatores funcionam como “quebra-molas” para seu trabalho: o próprio perfil da sociedade – que, para ele, “encaretou” – e a classificação indicativa na TV. É na telinha, aliás, que ele prepara, ao lado de Marcelo Adnet, Mauricio Farias e Danton Melo, a segunda temporada do bem sucedido Tá no Ar: a TV na TV – que aposta na crítica à TV dentro da própria TV –, com estreia prevista para o primeiro trimestre de 2015. Tamanho foi o sucesso e a aceitação do programa pelo público, que ele foi convidado a fazer parte da reformulação do Zorra Total. “Vou ajudar a escrever o roteiro do programa. Estou muito feliz, foi onde comecei”.

Confira, a seguir, os melhores momentos da conversa.

Ao contrário do que muitos achavam, não houve caos no Brasil com a Copa. O País está pronto para a Olimpíada?

O Brasil está passando com louvor no teste da Copa, mas não significa que esteja 100% preparado para a Olimpíada. A Copa é um evento de um único esporte, jogado por 32 times espalhados pelo País. Já na Olimpíada, o número de delegações será muito maior, assim como as modalidades esportivas, concentradas numa cidade, o Rio. Complicado.

Você engrossou o coro do “não vai ter Copa”?

Não compartilhei desse sentimento. Sou fanático pela Copa. Os problemas do Brasil sempre existiram e vão continuar existindo depois do Mundial. Estou vivendo a Copa, mas não gosto desse Brasil que temos hoje. Estamos longe de ser organizados, civilizados, as pessoas têm acesso ao mínimo de serviços. É um País que não faz jus a seu povo. Acho a classe política brasileira, em geral, fraca e, em boa parte dos casos, mal-intencionada.

O Tá no Ar inovou o humor da TV Globo, fazendo piada da própria televisão. Como foi quebrar esse paradigma?

Na verdade, essa barreira existia mais na cabeça das pessoas do que na realidade. O que posso dizer é que o DNA desse programa era mexer com a televisão. E mexer com a televisão significa mexer com a concorrência, a própria Globo, os anunciantes. É um terreno complicado. Quando o conceito foi vendido para a emissora, nós tivemos todo o apoio. Eles só ficaram preocupados em saber se o programa era bom, engraçado, bem conceituado, se tinha um pensamento atrás dele, um porquê fazer isso tudo. Esclarecemos essas dúvidas e as portas só foram se abrindo. Falam muito desses paradigmas da Globo, do que era proibido. Eu não sei o que era proibido porque, a partir do momento em que eu quis fazer esse programa, eu fiz. Estou há 11 anos na emissora e nunca me senti com uma espada na cabeça em nenhum programa que fiz.

Muitos programas de humor são difíceis de emplacar. Na própria Globo, muitos não vingaram. Esse novo modelo de humor chegou para mudar isso?

Não gosto de fazer comparações com outros programas. O que posso dizer é que o que estamos fazendo é exatamente o que queríamos fazer. Acho que a vantagem do Tá no Ar é acompanhar o tempo em que vivemos. Conseguimos trazer para o programa essa fragmentação do ato de assistir televisão. Quando pensamos no formato – crítica da TV dentro da própria TV – sabíamos que ia colar com o público. Como, de fato, aconteceu.

Pode-se dizer que o humor crítico é uma tendência.

Não tem mais sentido fazer um programa de humor que não reflita o que a gente vive. Não adianta mais apostar no fantasioso, não cola. É preciso apostar no mundo real e trabalhar um diálogo com ele.

Como começou sua parceria com o Marcelo Adnet?

Trabalho com o Adnet há 11 anos. Quando tive a ideia do Tá no Ar, que era falar sobre o universo da televisão, imediatamente pensei nele, por causa de seu repertório, pelo tipo de humor que faz, a musicalidade dele. Achei que ia cair como uma luva nesse programa, como acabou, de fato, caindo. Chamei o Adnet para conversarmos junto com Mauricio Farias (diretor na Globo). Nós três formamos o tripé do programa. Já no primeiro minuto, começamos a construir e trabalhar nos textos, conceituar o programa em clima de absoluto diálogo franco e harmonioso.

Como montaram o elenco?

Queríamos um perfil de elenco que, de alguma forma, embarcasse muito mais nos personagens do que nas personas. A ideia era que o público acreditasse que aquela situação era de verdade. Por esse motivo, buscamos atores não tão conhecidos do grande público. Fomos garimpando esses atores nos teatros, ficávamos olhando, namorando de longe, e só depois chamávamos.

O que estão planejando para a segunda temporada?

Estamos escrevendo os textos da segunda temporada, vamos começar a gravar em outubro para estrear no primeiro trimestre do ano que vem.

Com a internet e o politicamente correto em voga, está mais difícil fazer humor?

Tem dois fatores que hoje são quebra-molas na hora de fazer humor. O primeiro: a sociedade deu uma encaretada absurda, as pessoas estão rindo muito pouco de si mesmas, estão muito à flor da pele, perderam a capacidade de brincar, de rir do próprio universo. Considero isso um sintoma de atraso. A segunda coisa que atrapalha muito, no caso da TV aberta, é a classificação indicativa. Isso não afeta nosso programa porque nosso horário é de madrugada. Você me pergunta sobre as barreiras da Globo e vou te falar que é muito mais difícil lidar com essa coisa de classificação indicativa. É um grupo de pessoas que julga o que é inadequado ou não para a sociedade. Só que essas pessoas não participam desse diálogo com a sociedade, não têm nenhuma representatividade, nem nenhuma autoridade para isso. Ficam sentados lá, decidindo o que vai passar às 3 da tarde, às 7 da noite. Não estou falando em nome da TV Globo, estou falando em meu nome mesmo. Acho um absurdo.

Você pensa duas vezes antes de criar uma piada?

Eu penso um milhão de vezes. Porque piada é uma coisa pensada. Ela tem que ter cirurgicamente um objetivo, nesse objetivo. Tem que divertir, porque não basta ser só uma grosseria, um ataque, tem que estar recheada de humor, do contrário não faz o menor sentido.

Você já se auto-censurou?

Não! Para mim não existe autocensura, existe, sim, bom senso. Se você não encontra a fórmula certa da piada ir ao ar, é melhor não fazer a piada. Agora, nós estamos escrevendo a segunda temporada do programa e existem questões que, até agora, não conseguimos abordar, porque ainda não achamos a forma ideal. O Chico Anysio tinha uma frase maravilhosa sobre isso: “O humor não é resposta para nada, mas ele tem obrigação de levantar as perguntas”.

Um caso polêmico foi a piada que o Rafinha Bastos fez com o filho da Wanessa Camargo. Qual sua opinião sobre o episódio?

Sinceramente, não quero comentar e nem julgar um colega.

O Porta dos Fundos está migrando para a televisão. Você acha que, na TV, eles vão conseguir fazer o mesmo sucesso que fazem na web?

Todos ali têm um enorme talento para se adaptar a qualquer formato. Todos já trabalharam em televisão, aberta e fechada. Eles são absolutamente inteligentes, talentosos e cuidam muito bem do negócio deles para dar um passo errado.

O humor no Brasil ainda sofre preconceito?

Não. Acho que é um dos países que mais tem programas, peças e filmes de humor. É humor para todo o lado. No entanto, acho que o preconceito vem muito mais da crítica – que é chamada de inteligente– do que do próprio público, que nos consome loucamente. Uma parte desses chamados formadores de opinião ainda acha que para falar sério tem que ser sério. Não entendem o potencial que o humor tem para fazer críticas.

Continua a dupla com o Leandro Hassum?

Essa dupla é eterna. Fazemos shows esporadicamente e dia 25 de dezembro vamos lançar Os Caras de Pau, O Filme nos cinemas.

Você se formou em Jornalismo pela PUC do Rio, mas chegou a trabalhar no mercado financeiro. Por quê?

Minha história é muito longa. Trabalhei durante 15 anos no mercado financeiro. Entrei no jornalismo em 1990. Na faculdade, comecei a estagiar numa empresa chamada PMA, que divulgava informações da bolsa em tempo real já naquela época. Peguei a fase das primeiras informações em tempo real do mercado financeiro, formação das agências de notícias, a época pré-internet. O que me encantava era a possibilidade de um jornalismo em tempo real. Tive minha própria agência de notícias, depois virei sócio da PMA. Em 2006, vendi minha parte e saí do mercado.

Foi quando você começou a fazer humor?

O humor sempre veio em paralelo, mas, em 2006, a televisão começou a me sugar mais. Estava fazendo sucesso com o Leandro na TV e no teatro e resolvi me dedicar 100% a isso. Comecei a fazer jornalismo em 1990 e teatro em 1991. Sinto saudade do jornalismo até hoje.

E quais são seus próximos projetos?

Fui chamado, junto com meu colega de Tá no Ar, Mauricio Farias para ajudar a reformular o Zorra Total. Vou ajudar no roteiro e ele, na direção.

Como você se sente voltando para o Zorra Total, agora como roteirista?

Estou super feliz, foi onde comecei, há 11 anos. Estou reencontrando muitos amigos queridos da época que fazia o programa. É um elenco incrível com muito potencial. /SOFIA PATSCH

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