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Sonia Racy

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‘É uma vergonha aumentar os preços nos restaurantes por causa da Copa’

23.junho.2014 | 1:00

 

Foto: Johnny Mazzilli

Francês radicado no Brasil, dono de sete ‘casas’ no Rio, chef diz acreditar no País, torcer por nossa seleção e compara a gastronomia brasileira às melhores do mundo. 

Claude Troisgros comemora, em 2014, 35 anos no Brasil. A celebração não poderia ser diferente: um jantar, com cardápio elaborado pela nova geração de chefs do Rio – entre eles seu filho Thomas. Com olhar de estrangeiro e morador de longa data da cidade maravilhosa – onde mantém sete restaurantes -, o francês é categórico: “Os brasileiros, ao mesmo tempo em que torcem pelo País, não acreditam nele”. Para o chef, este momento de “muita revolta” ficou ainda mais evidente com a Copa. “Rolou um pessimismo até o primeiro jogo. Ficou todo mundo falando que não ia dar certo. É exatamente o que acontece com a gastronomia.” Como assim? “Falam que aqui está caro, mas vão para NY e Paris, pagam o dobro e não reclamam”, diz, em resposta aos que criticam os preços salgados nos restaurantes do eixo Rio-São Paulo – embora não concorde com quem usa o Mundial como desculpa para deixar produtos e serviços mais caros no Brasil.

Naturalizado brasileiro, Claude vai às urnas em outubro, mas não revela seu candidato. Já quando o assunto é futebol, confessa: está torcendo pela seleção comandada por Felipão. Há nove anos no comando de programas de gastronomia na TV, o chef popstar inaugura, em setembro, nova versão do Que Marravilha!, no GNT. “Tenho que convencer um ‘chato’ a comer algo que não gosta. Um tremendo desafio”, brinca.

Claude recebeu a coluna para bate-papo no CT Trattorie, na Lagoa. Abaixo, os melhores momentos da conversa.

Na sua opinião, a gastronomia, no Brasil, ainda é muito restrita à elite?

Não. Era muito mais elitista antigamente. Quando cheguei aqui, a cozinha francesa só podia ser degustada por quem tinha poder aquisitivo e conhecimento para isso. Atualmente – graças à televisão – a gastronomia se popularizou muito. O poder aquisitivo do povo brasileiro também melhorou, a classe média, que, antigamente, não conseguia ir a restaurantes, agora consegue, se permite – nem que seja uma vez por ano.

Você observa isso nos seus restaurantes também?

Sim. O Olympe, meu restaurante francês aqui no Rio, tem 40 lugares e, praticamente todos os dias, cerca de 35 assentos estão reservados para aniversários, pedidos de casamento, esses eventos. Isso é um fato – a gastronomia brasileira se popularizou.

Mesmo com a popularização da gastronomia no País, os preços dos restaurantes de São Paulo e do Rio são considerados abusivos. Você concorda?

Na Europa também é. Acho que o Brasil está vivendo um momento de muita revolta. Os brasileiros, ao mesmo tempo em que torcem pelo País, não acreditam nele. A Copa do Mundo também tem esse pessimismo. Até o primeiro jogo rolar, ficou todo mundo falando que não ia dar certo. Acho que é exatamente o que acontece com a gastronomia. Falam que aqui está caro, mas vão para Nova York e Paris, pagam o dobro e não reclamam.

Acha que o nível da gastronomia brasileira melhorou?

Sim. Está até superando a gastronomia estrangeira, a técnica, criatividade, o produto. Então, qual é o problema de pagar o mesmo preço que se paga para comer fora aqui, se a qualidade é igual ou superior? Acho uma reclamação injusta. Mas que a pizza está cara, isso eu não tenho dúvidas. (risos).

O custo de vida no Rio de Janeiro está cada vez mais alto.

Subirem os preços das coisas por causa da Copa eu acho uma vergonha!

E por falar em Copa, afinal, você está torcendo pelo Brasil ou pela França?

Pelo Brasil.

Pensou em um menu diferente para receber os turistas que vem para o Rio na Copa?

Não. Tudo normal.

Tem muitos amigos franceses vindo para o Mundial?

Minha família, vários amigos. Vai ser um mês bom para nós.

Qual é a impressão deles do Brasil? Perguntam a você se devem vir ou não?

A maioria que vem já conhece o Brasil. Mas sinto que a propaganda lá fora está bem negativa. Mostra muita violência, desorganização. Você vê que realmente os aeroportos não estão bons, mas vamos deixar rolar, na África do Sul também não foi tão bom assim.

Com o clima dos protestos, já pensou em deixar o País?

Não, nunca. Acho que todos os países têm seus problemas. Eu adoro o Brasil, acredito e torço pelo País. Acredito que vamos resolver esses problemas. No entanto, não vai ser de um dia para o outro.

Você vota no Brasil? Pode revelar quem é seu candidato?

Voto, mas não vou contar em quem (risos). Só sei que ano que vem será bem difícil.

Como você mesmo falou, todos os países tem seus problemas. O que acha da xenofobia crescente no seu país de origem, a França?

Isso é um problema de muitos anos, que chegou no seu limite agora. De um lado, acho injusto, mas, de outro, acho que o país tem que torcer pelo país. É uma questão complicada, tem que acertar isso.

O que vai mudar na nova versão do seu programa no GNT?

O programa continua sendo como o Que Marravilha! Revanche, mas, agora, o desafio é fazer a “vítima” comer algo que não come de jeito nenhum.

Hoje em dia você se considera mais chef ou apresentador?

Chef – aliás cozinheiro, nem chef. Sou um apresentador de culinária.

Tem alguma coisa que você não come de jeito nenhum?

Não! Aliás, não sou muito chegado em sardinha. Não que eu não goste, adoro sardinha, mas passo mal com o óleo do peixe. Quando vou a Portugal, onde tem a melhor sardinha do mundo, começo a me empolgar e depois passo mal.

Sua especialidade é mesclar a técnica francesa com ingredientes brasileiros. Como foi o primeiro contato com os ingredientes daqui?

Foi quando eu cheguei no Brasil, em 1979. Essa é minha especialidade há 35 anos. Naquela época, o mercado brasileiro era muito tímido em termos de produto. Por necessidade, comecei a incorporar frutas brasileiras em minhas receitas francesas, principalmente o maracujá e a goiaba. Essa técnica cresceu muito, chegou a ser modismo. Esse estilo de cozinhar, hoje, é conhecido como cozinha Bossa Nova, mas na minha época era cozinha franco-brasileira, simplesmente.

É verdade que foi sem querer que veio parar no Brasil?

Depois que me mudei para cá, eu e meu pai ficamos sem nos falar por quase dez anos. Na época, tinha pedido ajuda financeira para ele, que se recusou a me ajudar, falou que meu lugar era lá na França, com ele, no restaurante da família. Depois, ele entendeu minha decisão e nos falamos muito. Se não fosse o Brasil, com certeza estaria em algum outro lugar que não fosse a França. Eu tenho sete restaurantes no Rio, mas não tenho nenhum sócio. Não consigo ter sócio, me irrita, gosto de resolver tudo sozinho.

Na sua opinião, quais são os melhores ingredientes da culinária brasileira?

Quando cheguei aqui, me apaixonei pelo maracujá e, depois, pela jabuticaba. Hoje, sou fã do aipim, que é um produto muito versátil. A verdade é que os chefs estrangeiros olham a gastronomia brasileira muito mais pela variedade de produtos do que pela técnica de cozinhar.

Qual é o prato brasileiro que você mais gosta?

Jabá com jerimum, que nada mais é que carne seca com abóbora. /SOFIA PATSCH.

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