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Sonia Racy

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‘A política brasileira é analógica, e os jovens eleitores são digitais’

02.junho.2014 | 1:02

Renato Meirelles (Foto: Iara Morselli/Estadão)

Na eleição com mais jovens indo às urnas, Renato Meirelles, presidente do Data Popular, alerta: se a campanha não se aproximar das pessoas, País terá a maior abstenção da história.

Aos 36 anos, casado há três e “louco para ser pai”, Renato Meirelles é o rosto por trás do Data Popular, fundado em 2001. O publicitário dá voz e forma à chamada nova classe média – massa de 108 milhões de pessoas. Do estranhamento inicial do mercado, passando por “quatro anos de prejuízo”, o instituto de pesquisas consolidou-se como o retrato mais fiel dessa fatia da população para a iniciativa privada. O interesse é genuíno. Afinal, estamos falando de 54% dos brasileiros e um consumo anual de R$ 1 trilhão.

Mas, afinal, o que essas pessoas desejam? “Sonhar com tranquilidade”, responde Meirelles, sem pestanejar. Mais ainda quando se fala dos jovens. As eleições deste ano terão a maior parcela histórica de eleitores entre 18 e 30 anos: 42 milhões de pessoas – sendo 23 milhões da classe média. “Esse voto será preponderante”, diz o publicitário. O Data Popular, aliás, acaba de tabular a pesquisa A Relação dos Jovens com a Política – cujos dados, inéditos, foram antecipados à coluna.

Os números impressionam: 58% dos jovens acham que o Brasil seria melhor sem partidos. Por outro lado, acreditam no poder da urna – sete em cada dez jovens acham que seu voto pode mudar o País. Além disso, 81% consideram a política importante, mas somente 32% afirmam entender do assunto. Hora de mudar o discurso. “Os jovens da classe C são os novos formadores de opinião da classe média. Não há como discutir o processo eleitoral sem falar deles – que estão olhando para frente, não para trás”, decreta.

A seguir, os melhores momentos da conversa com Renato Meirelles, na sede do Data Popular, em São Paulo.

Quem é o jovem que vai para a rua protestar?

São dois jovens diferentes. Um vai para a rua porque está irritado com a democratização do consumo. A renda dos 25% mais ricos cresceu 12% em dez anos, enquanto a renda dos 25% mais pobres cresceu 45%. O mais rico não tem a sensação de que a vida melhorou tanto quanto o mais pobre. Os números são autoritários. Quase dois terços dos jovens que protestaram em junho estavam interessados no que vai ser o Brasil a partir de agora. Os estudos do Data Popular mostram que essa é uma eleição de futuro e não de legado. A discussão sobre quem controlou a inflação e quem distribuiu renda não vai pautar o processo eleitoral.

Bate com outra pesquisa de vocês, que diz que a vida melhorou só da porta para dentro.

O Brasil tem 42 milhões de eleitores jovens, entre 18 e 30 anos, em que o voto é obrigatório. É a maior parcela histórica do eleitorado brasileiro: 32%. O Brasil vive o auge do bônus demográfico – a maior concentração de pessoas em idade economicamente ativa. Nunca antes na história deste País tivemos tantos jovens votando. E qual a importância disso? Ele é mais escolarizado e conectado do que o pai. E o jovem da classe C – 55% desses 42 milhões de eleitores – contribui mais para a renda familiar. Não há como falar em discussão do processo eleitoral sem falar desse jovem.

Pode-se dizer, então, que o voto do jovem da classe C vai ser preponderante nesta eleição?

O voto da classe C é importante, mas ela é heterogênea. O voto do jovem da classe C vai ser preponderante. Dos jovens no Brasil, 81% consideram a política um assunto importante, mas só 32% afirmam entender de política. Ou seja, política é importante, mas não a entendo direito, porque não faz parte da minha vida. É uma sensação de que o que está aí não me representa. Por que a oposição não cresce com mais força? Porque, na sua forma de se comunicar e se relacionar com o jovem, ela representa a outra face da mesma moeda. E o problema está na moeda. A oposição não vem conseguindo se mostrar como alternativa para que a vida desse jovem melhore. Isso tem a ver com vocabulário, com linguagem, com a dificuldade que a política tradicional – esquerda e direita – tem em ouvir. É como se a política fosse analógica e o jovem fosse digital. Como o jovem entende o debate eleitoral? Mais do mesmo. Ele quer outra forma de fazer política. Isso tem a ver com o papel da internet, que muda o jogo.

Os candidatos estão preparados para fisgar esse eleitor?

Se você perguntar, todos respondem que estão superconectados, que têm estratégias para as redes sociais. Eles estão investindo, mas muita gente ainda pensa internet só pela guerrilha, para fazer o lado sujo da campanha, não para ter um conjunto de propostas participativas. Por que eles têm dificuldade? Isso é uma questão de engajamento, que é voluntário. Por mais que se tenha um exército de militantes profissionais na rede, isso não gera um engajamento natural. É um discurso feito por pessoas que não estão na rede. Basta ver fenômenos como TV Revolta e Dilma Bolada: eles entenderam a linguagem. Não adianta reproduzir na internet só o que sai na televisão. A televisão tem a função do recall, a internet tem a função de criar defensores da candidatura.

O maior desafio de Dilma é combater a insatisfação generalizada com a coisa pública?

Por estar na presidência, Dilma simboliza o maior político do Brasil. Parte tem a ver com a história que ela construiu em quatro anos, mas parte tem a ver por estar ocupando a presidência. E ponto. Quando analisamos o histórico das manifestações de junho, vemos que quem mais sofreu foram os prefeitos, que tinham acabado de ser eleitos. Por que o prefeito não fez uma boa gestão? Não era esse o ponto, é porque ele estava ocupando o cargo e a prefeitura, no limite, representa o quanto a política está descolada da vida das pessoas.

As manifestações vão dominar a pauta eleitoral?

Estamos pesquisando isso. Claro que haverá manifestações na Copa, isso acontece em qualquer lugar do mundo. A Copa é o pretexto para que o mau humor da sociedade se manifeste. Nas manifestações de junho e julho, as pessoas confundiram motivos para protestar com o pretexto. As razões eram as mais diversas. Com a repressão policial em São Paulo e no Rio, houve um motivo efetivo. A manifestação do passe livre dava um calendário e a Copa das Confederações dava data, local e garantia de cobertura de imprensa. Agora, o mau humor permanece, estamos num cenário parecido. A grande incógnita é o peso que as manifestações terão nas eleições. Se elas forem violentas, prejudicarão menos a situação e favorecerão menos a oposição. Agora, se forem alegres, com palavras de ordem nos estádios, caras-pintadas, em que se defenda o Brasil sem defender os governos, teremos o pior cenário para a situação e o melhor para a oposição.

A economia vai pesar na hora que o eleitor for às urnas?

Esta eleição é uma eleição de economia, mais do que qualquer outra. Só que é a economia do cotidiano, que faz diferença na vida das pessoas. Estranho muito quando os economistas das campanhas falam de economia sem levar isso em consideração. Acontece dos dois lados. Quem conseguir levar para o chão a discussão da economia vai ter sucesso na conquista do eleitorado.

O PT investiu no discurso do medo, como fez o PSDB no passado. Foi um tiro no pé?

A impressão que tenho é que só os intelectuais compreenderam o discurso do medo. Já para as classes C e D, o vídeo serviu para lembrar que a vida melhorou, não para despertar o medo de voltar a ser o que era antes. E isso deu impacto nas pesquisas de intenção de voto que vieram depois. O eleitorado não vai ser pautado pela chantagem – nem de um lado nem de outro. O eleitorado vai ser pautado por quem se mostrar capaz de fazer sua vida continuar melhorando. E negar que a vida das pessoas melhorou pode ser um tiro no pé da oposição também. O brasileiro está olhando para frente.

Os políticos estão preparados para, além de reformular seus discursos, modernizar também seus planos de governo?

Não sei. Acho que as manifestações de junho e julho serviram para que eles prestassem atenção nisso. Mas, depois, voltaram para o dia a dia. Se caírem de novo no dia a dia, teremos outros junhos e julhos. Nossa nova pesquisa diz que 58% dos jovens acham que o Brasil seria melhor sem partidos políticos. Isso mostra uma insatisfação grande. Só que esse cara acredita no poder do voto – sete em cada dez jovens acham que seu voto pode mudar o Brasil.

Não é uma discrepância?

A discrepância é com a organização dos partidos. Esse cara hoje se mobiliza mais por bandeiras e manifestações horizontais do que por manifestações verticais e orgânicas como partidos e sindicatos. Ele acha que o voto pode transformar porque acredita no seu poder de mudar as coisas. Os intelectuais de esquerda veem esse dado e dizem que eles defendem a ditadura. Não é o que as pessoas estão dizendo. Elas dizem: “Os partidos que estão aí não me representam”.

Já pensou em trabalhar para partidos políticos?

Nunca fiz campanha, mas também não posso dizer que não faria nem critico quem faça. Só acho que tem de ter cuidado. Eu me assusto quando solto uma pesquisa e há utilização partidária – de um lado ou de outro. No processo eleitoral, isso me deixa com receio de entrar no jogo.

Já sofreu algum tipo de pressão ou se sentiu ameaçado?

Toda vez que a gente solta pesquisas que tratam de grandes temas nacionais e serviços públicos. Isso só nos faz ser cada vez mais criteriosos. Por outro lado, sinto na oposição e na situação uma genuína vontade de nos ouvir. Isso me deixa otimista. Meu grande medo no processo eleitoral é que a gente caia na falsa discussão se o copo está meio cheio ou meio vazio e pare de olhar para o conteúdo do copo. E que o debate eleitoral emburreça uma discussão mais profunda sobre a realidade e o futuro do Brasil.

O povo não quer saber mais de troca de acusações.

Se a campanha for assim, teremos a maior abstenção da história. Se a discussão não for sobre a economia do cotidiano, a vida real das pessoas, e ficar numa acusação rasa e direta entre as candidaturas, teremos a maior abstenção da história.

O que a classe média quer?

Quer poder sonhar com tranquilidade, ter um nível de estabilidade que permita traçar planos para ir além. É esse o medo que ela tem hoje, o medo está nessa segurança de que ela vai poder continuar a realizar os sonhos. Parte considerável do mau humor da sociedade tem a ver com isso.

E o que mais pesa na hora da compra?

Depende da categoria. Cada vez mais, a classe média compra na relação custo-benefício. São as marcas em que ela confia. Nesse processo de alta inflacionária, está fazendo mais pesquisa de preço para não ter de abrir mão das marcas que conhece.

O preconceito diminuiu?

Vai diminuir por um motivo torto. Cada vez mais as pessoas estão saindo da classe C e indo para as classes A e B. São pessoas que têm bolso de classe A e B e cabeça e jeito de pensar de classe C.

Como você avalia seu trabalho à frente do Data Popular?

Costumo dizer que sou um angustiado estrutural (risos). Estou feliz por poder dar voz a um Brasil que não teve voz durante muito tempo. Mas ainda temos de avançar muito para diminuir o preconceito da elite em relação aos emergentes – não só de classe, mas os negros, os idosos, as mulheres. A classe C não existiria sem as mulheres, por exemplo. Mostrar as desigualdades do Brasil é uma coisa que me motiva. Sou apaixonado por gente. /MIRELLA D’ELIA

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