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Sonia Racy

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“Sou da paz, mas tenho voz. Paz sem voz, para mim, é medo”

27.janeiro.2014 | 1:00

Foto: Denise Andrade/Estadão

“Vou te bater como homem. Tu tá zoando o barraco da tua mãe.” O soco de seu Dark doeu mais no orgulho do que no rosto de Marcelo Maldonado Gomes Peixoto. Ele tinha 15 anos e conta que “o esculacho do pai” o botou “no prumo”.

Hoje, aos 46, quatro filhos no currículo, Marcelo D2 está em paz – “mas não na pasmaceira”, logo adverte, com forte sotaque do subúrbio carioca. O músico, sempre à procura da batida perfeita, continua pilhado, cheio de ideias e tirando onda.

Em tempos de Cracolândia, Uruguai e Nova York nas manchetes, o maconheiro assumido – que, em 1997, foi preso, em Brasília, acusado de fazer apologia às drogas durante um show do Planet Hemp – tem certeza de que a cannabis acabará legalizada também no Brasil (“não é mais questão de ‘se’, mas de ‘quando’”).

Em meio às obras da nova casa de espetáculos paulistana Audio Club – onde ele se apresenta dias 31 e 1º e grava o primeiro DVD ao vivo de sua carreira solo –, o rapper falou com a coluna sobre o que mudou nesses 20 anos de carreira, a boa vida em família e a falta que sente do eterno amigo Skunk, vitimado pela Aids antes de ver o sucesso do Planet Hemp.

Como vai ser o show, o que você está planejando?

Eu queria ter uma experiência de pop art. Tenho visto algumas coisas acontecendo, principalmente com grafite, com arte de rua… Visitei, recentemente, uma exposição no Moca, em L.A., que tinha um monte de obras de Basquiat, Andy Warhol, osgêmeos. E vi como aquela estética está integrada ao nosso dia a dia. Aquele bonequinho amarelo (marca registrada da dupla osgêmeos), por exemplo, já virou amigo da gente (risos). E eu queria trazer esse universo para o show.

Você bolou uma rádio para receber os músicos que vão abrir o espetáculo?

Acho que vai ser legal. É um palco alternativo, onde vou receber vários amigos. Essa rádio será um outro show, que, por sua vez, vai abrir o meu show. Já estão confirmados Rappin’ Hood, Haikaiss, Start e Akira Presidente.

E vai ter muita zoação, do jeito que você gosta?

Sempre, né? (risos) Brincadeiras de quermesse, enquanto o sonzão rola no palco da rádio. Vai ter o Jogue o Baseado na Boca do D2, por exemplo. Sabe aquela brincadeira da bola na boca do palhaço? Pois é… Vai ter também o Martelo do D2, com a minha discografia, desde Usuário até Nada Pode Me Parar. E mais fliperama, pinball e uma loja.

Desistiu da pista de skate?

Não, vai ter a pista. Com skatistas profissionais. Mas quem quiser levar skate também vai poder se apresentar.

Você vai andar um pouquinho?

Não dá mais pra mim, não, rapá! (risos) Tenho cabeça de skatista, mas joelho de vovozinho… E quanto mais velho você fica, mais duro o chão se torna. Aos 15 anos, tu cai e levanta, é rapidinho; com 25, tu cai (ele faz uma pequena pausa) e levanta; aos 35, tu cai (faz uma pausa demorada) e levanta; e aos 45, tu só cai. (risos)

Nesses 20 anos de carreira, o que mudou no Marcelo D2?

Há 20 anos eu era um moleque, né? Agora tenho família, sou um cara mais maduro… quer dizer, minha mulher não acha! Mas, falando sério, minha visão da música mudou, o entusiasmo da juventude se transformou em paixão de verdade. Adoro trabalhar com gente que tem ideias novas, com os meus amigos, gente em quem eu confio e de quem eu sou fã. Outra coisa que mudou é que, antes, eu odiava tudo e todos; agora, sou odeio tudo.

Essa raiva vinha de onde?

Acho que era um fervor juvenil, mesmo. Antigamente, pra tu ter uma ideia, eu não gostava de nenhuma banda. Falava: “Ah, Legião Urbana é um saco!”. Hoje, eu falo: “Legião Urbana? É, tá bom, beleza…”. Mas, como eu ia dizendo, o cenário mudou muito nesses 20 anos. Quando eu comecei, em 1994, não existia internet, né, cara? O cenário musical, hoje, é basicamente virtual, porque a vida está muito virtual também.

Nossa geração viu nascimento e morte do CD…

Pois é, olha que loucura! O primeiro disco do Planet Hemp foi lançado em vinil. E a gente pensou: “Se der certo, vamos fazer uma versão em CD”. Porque, naquela época, só artista de primeira linha tinha dinheiro para o digital. Quando a gente viu o Usuário em CD, falou: “Caraca, mermão!” (risos) Hoje não existe mais CD e a gente continua aí, na luta. O lance mais complicado é que essas revoluções mudam também a maneira de você ouvir e definir a própria música.

E como você se define?

Pô, aí é difícil. Eu cresci ouvindo samba em casa, passei pelo hardcore na minha época de skate e, assim que montei o Planet Hemp, me apaixonei pelo jazz, por incrível que pareça. Ouvia direto. E também muito rap, claro; e reggae pra caramba. Cara, foram tantas influências musicais… é muito complicado. Quando eu vou ao samba, os caras me chamam de rapper; quando vou ao rap, me chamam de sambista. O porteiro do meu prédio acha que eu sou roqueiro… Sei lá. Pode me chamar de qualquer coisa que tá bom. Quer dizer, só não chama de filho da puta porque eu não gosto. (risos)

É essa carga de influências que explica o fato de você preferir álbuns mais conceituais?

Ah, eu gosto. Nada Pode Me Parar, por exemplo, é um agradecimento à cultura hip hop, que mudou a minha vida, me deu autoestima, me fez conhecer o mundo. “Eu já caí no chão, só que me levantei / Eu faço o meu sistema, eu dito a minha lei! / Nada pode me parar.” Isso é do Thaíde & DJ Hum e eu tinha escrito na parede do meu quarto, era um mantra. Quando pensei em fazer o CD, liguei para o Thaíde e pedi permissão pra usar o verso como título. Ele falou: “Vai lá, beleza!” Sabe como é rapper, né? Pedi com respeito. Se não peço, de repente o cara manda me matar… (risos) Melhor garantir.

Em 2014 completam-se 20 anos da morte do Skunk. Sente muita falta dele?

Eu acabei vivendo o sonho do cara, né? Essa amizade foi muito importante. A gente foi amigo só dois anos, mas é incrível como ele ainda está presente na minha vida. Às vezes, eu sonho com o Skunk e acordo com aquela sensação de que preciso ligar pra ele… Caraca! Tudo que a gente viveu naqueles dois anos eu trago comigo até hoje. Talvez a paz que eu carregue agora tenha sido obra dele também. Porque eu era briguento demais, andava armado, tudo pra mim era na base da porrada. Quando fui morar no Catete, na zona sul, foi ele que me chamou e disse: “Mermão, aqui tu não pode agir dessa forma. Tem de segurar a onda, senão tu vai preso!” Foi o Skunk que me mostrou o caminho da paz, nunca vou me esquecer dele.

Hoje você e a família estão morando na Gávea, né?

Cara, eu já morei no Rio de Janeiro inteiro. Hoje tô na Gávea, que é um bairro muito bacana, até pela simplicidade. Dia desses, um camarada meu, de Ipanema, apareceu por lá e ficou pasmo quando viu uma padaria. Porque, não sei se tu sabe, mas, em Ipanema, Leblon, esses lugares, não existe mais padaria. Só boutique do pão. (Marcelo faz biquinho) É um tal de la pain de la pou, le papain de não sei quê. (risos) Padoca mesmo não tem. O lugar é legal pra caramba, é vida de bairro, uma coisa que eu adoro, porque me criei no subúrbio, onde todo mundo se conhece. Foi minha mulher que achou o lugar, a gente ia muito ao Baixo Gávea para beber e percebeu que era um bairro família. Ao lado de Santa Teresa, é o grande reduto dos artistas, né? Artista de verdade… não BBB, essas coisas, porque esses moram lá na Barra. Tem muito artista plástico, músico, chef de cozinha, roteirista, fotógrafo, jornalista. Percebi que queria criar meus filhos num ambiente assim.

O Rio de Janeiro está melhor?

Dos anos 90 para cá melhorou, sim. Naquela época a barra era muito pesada. Continua sendo uma cidade violenta pra caralho, você passeia pelos lugares e vê fuzil em tudo que é canto, parece até coisa normal. Mas melhorou, sim. Antes era impossível, não dava para andar na rua. Quer dizer, eu andava porque era jovem e fazia parte daquele meio, né? Mas era difícil. Acho que as pessoas meio que abraçaram a ideia da Cidade Maravilhosa, que deve ser usufruída, e estão tentando dar uma arrumada. O problema é que ainda tem corrupção demais, muita impunidade. Impunidade é o grande problema do Brasil, cara.

Como é o Marcelo D2 em casa, com a família?

Pô, eu encho muito o saco dos meus filhos, sou muito pilhado. Eles dizem que eu sou irritante. Mas eu sou é provocativo, curto aguçar a mente deles. Quando vamos ao cinema, na saída eu sempre pergunto o que acharam do filme. E não aceito resposta do tipo “foi legal”, não. Tem de falar direito, quero saber a opinião mesmo. Também dou muito valor a ficar em casa, com a família, chamar os amigos, fazer um churrasco. Gosto de receber gente em casa… coisa de cervejeiro, né? (risos) Outra coisa que eu faço muito é jogar videogame com eles. Sou viciado em Fifa Soccer. Aliás, não tem pra ninguém. Por isso a Fifa me chamou para ser embaixador da versão 2014 do jogo (que tem uma música de D2, Você Diz Que o Amor Não Dói, na trilha sonora). Cheguei no campeonato, aqui em SP, e ganhei de todo mundo, esculachei, tirei a maior onda. Agora, quero jogar com o Neymar…

Ele é fera também…

Pois é, uns amigos em comum já me preveniram. Disseram que ele vai me quebrar. Mas perder dele tudo bem, que é craque. O que não pode é perder para otário…

Você é um pai liberal?

Em que sentido? Pô, meu filho mais velho fuma maconha. Tem 22 anos. Se eu fumo também, porque ele ia fumar escondido?

Em relação à maconha, acha que o exemplo de Uruguai e Nova York, que legalizaram para fins medicinais, pode ser aplicado no Brasil?

A legalização é uma tendência mundial. Não é mais questão de “se” vai legalizar, mas de “quando” vai legalizar. Só que, primeiro, os EUA vão ter de fazer isso… Só depois a gente vai falar sobre o assunto. Até porque esse negócio de “fins medicinais”, sabe como é, né? Basta falar que você tem glaucoma, insônia. Pô, eu tenho insônia! Verdade! E sempre pensei que era por causa da maconha! (risos) Um problema aqui no Brasil é que a gente tem muitos ‘países’dentro de um mesmo país. Vamos ter de tomar cuidado com isso. Por exemplo, como é que você legaliza a maconha em São Paulo, no Rio e também no Amapá ou no Acre? Acho que, no Acre, seria mais fácil, porque está cheio de índio por lá e é uma coisa quase cultural para eles. O importante, na minha opinião, é detonar o tráfico. Não que o fim do tráfico vá acabar com a violência. A violência é uma questão inerente à cidade grande, independe das drogas.

Teu pai também era liberal?

Muito.

Mas, quando você tinha 15 anos, ele te esculachou, te deu porrada.

Foi a única vez, ele disse que não estava me batendo como pai, mas como homem – me botou no prumo.

E o que você tinha aprontado para merecer aquilo?

Não posso falar no jornal, não, cara. Senão, vou preso! (risos) Mas foi uma merda muito grande. Tu não tem noção. Meu pai não me batia, não. Foi só essa vez.

/DANIEL JAPIASSU

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