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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
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“Meu valor não está no meu peso”

Categoria: Vozes, Vozes dos transtornos alimentares

Este é o relato de Viviane (nome fictício) sobre seu transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), bem oportuno para refletirmos nesta semana em que reapareceram as modelos magérrimas na SPFW. 

O testemunho faz parte da seção Vozes (veja aqui como participar)

Venho de uma família de obesos mórbidos e depressivos. Minha mãe sempre manteve o peso: foi anoréxica durante a adolescência e bulímica a partir da idade adulta. Engravidou de mim, porque o efeito da pílula era anulado pelos laxantes que ela ingeria diariamente.

Durante minha adolescência, ela se tratava no HC e eu acompanhei todo o sofrimento dela e de tantas outras mulheres. Aí, passei a me preocupar com meu peso (embora estivesse normal na ocasião), e emagreci com uma dieta restritiva. Sentia-me mais amada assim. Esse foi o início de um ciclo que já dura anos.

No auge do TCAP (transtorno da compulsão alimentar periódica), seguia um limite de calorias e uma alimentação impecável perto de outras pessoas. Após o trabalho, comprava guloseimas (salgadinhos, chocolates, biscoitos recheados, etc.), entrava no carro e, no trajeto até em casa, mastigava até ficar com dor no maxilar. Comia 3000 calorias em uma hora. Tinha falta de ar se não seguisse esse ritual. Então, descartava as embalagens, entrava em casa e jantava normalmente com minha família, mas sofria com uma angústia cortante, uma sensação de impotência, nojo, vergonha, humilhação, fracasso, desespero e aflição. Ia dormir chorando quase todas as noites.

Por falta de coragem, nunca induzi o vômito nem tomei laxantes, mas confesso que ficava alegre com algum surto repentino de diarréia…

Em 2009, finalmente, percebi que esse comportamento não era natural. Além do efeito sanfona, eu vivia em função dos meus quilinhos a mais, ou melhor, eu deixava de viver por causa deles: deixava de sair, não queria rever amigos, fugia da minha família, me recusava a namorar, não comprava roupas. Então procurei ajuda. Comecei terapia e tratamento especializado.

Resgatei a noção de que meu valor não está no meu peso, minha auto-estima aumentou e voltei a sentir prazer com outras coisas além da comida. Estou medicada. A compulsão diminuiu e estou animada a voltar a praticar exercícios. Emagrecer não é mais prioridade. Estou feliz, confiante e tenho certeza de que, com fé em Deus, e com o tratamento, em breve estarei ainda melhor!

(Leia mais sobre TCAP no site na Unifesp)

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11 Comentários Comente também
  1. Enviado por: JR

    O outro extremo está sendo mostrado na SPFW 2010. Segundo relatos da imprensa, garotas no extremo da magreza, em situação de total absurdo e, ao que parece, ninguém tomada providência. O que têm esses estilistas e as agências de modelos para exigirem magrezas deploráveis em qualquer região pobre e flagelada! Minha compreensão não chega a tanto! e onde está o Estatuto da Criança e do Adolescente?

  2. Enviado por: Regina Valsani

    Lembro que no seu post sobre nutriç;ao e psiquiatria citei o fenômeno Twiggy Lawson dos anos 60, conhecida apenas como Twiggy, ícone da moda. Neste momento foi instituido definitivamente quanto mais magra mais amada.
    Repito este trecho:
    O fator midiático com certeza contribuiu para uma disseminação de transtornos alimentares.
    Não que não os houvesse, ele revelou algo que estava oculto.
    Acrescento agora:
    Deu-lhes glamour.
    Este tema é preocupante em uma sociedade extremamente preocupada com a aparência e ter.
    Cada vez mais vemos pessoas modificadas e sofridas para se identificarem com a foto da revista.

    Abraços Claudia e que possamos não só ouvir as Vozes mas também refletir sobre o que se passa em nossa sociedade.
    Quais são nossos reais valores?

  3. Enviado por: Robeto

    Este é um dos lados da amaldiçoada e ridícula cultura do culto ao corpo. Explico: h´alguns anos as mulheres eram vistas como bonitas com corpos esbeltos mas com “sustança” como dizia em tom de blague a rapaziada. Era a Globeleza, a moça da abertura do fantástico, a Leila Diniz, mais recentemente a Ju Paes. Enfim mulheres bonitas com peitos bonitos e bundas bem torneadas. Lembro-me de um domingo (uns 6 a 7 anos atrás) na feira do Jardim Botanico. Eu sempre comprava mangas rosa deliciosas na barraca do Roni e da sua irmã e enquanto escolhia minhas frutas ouvi a irmã do Roni chamando-lhe atenção para que atendesse a cliente à sua frente. Ele estava hipnotizado, nem balbuciar bom dia conseguia. Olhei então para o meu lado e vi Valeria Valenssa perguntando algo. E depois que ela se foi rimos muito da situação mas todos foram unanimes em dar um refresco ao Roni pois ela era realmente estonteante de beleza, charme e simpatia. Magra mas com curvas e lindamente saudável. O outro problema que vejo é o que chamo de a sindrme das mulheres Spartacus. Sim as tais mulheres gladiadores, que hoje abundam nas escolas de samba com rainhas, madrinhas etc. Tive aindanos anos oitenta uma experiencia desagradável com uma delas. Saimos para barra de guaratiba e fizemos um dia romantico como preparação para uma intimidade maior mas quando ficamos a sós no meu apartamento que pude abraçá-la e tocar seu corpo tive a sensação de estar em contato com uma estátua. Dura e friae quase mecânica nas ações das famosas preliminares que não o foram de mais nada pois foi-nos impossível ter intimidades sem sermos intimos. Sua couraça Reichiana impedia qualquer contato mais íntimo e ficamos por ali. São só dois lados da mesma moeda!!

  4. Enviado por: Robeto

    Só mais um pitaco,
    considero esse mundinho pobre, da tal moda, tão pernicioso à sociedade como quaisquer outros tipos de porcaria que são empurrados golea abaixo da população desatenta. São medicamentos(talvez seja melhor tachá-los logo de venenos) alardeados em propagandas criminosas. As comidas-lixo da mesma forma e os crimes mais comuns: luz fluorescente, tecidos sintéticos e os abusos com equipamentos de telecomunicações sem fio, mas estes são assuntos para outros fóruns.

  5. Enviado por: Camila

    Riquezas são diferenças!

  6. Enviado por: Ana Célia

    Claudia

    O tema é da maior importância e, no entanto poucas pessoas o comentaram, não sei qual o motivo, mas a compulsão alimentar parece não mobilizá-las já que todos comem e não consideram verdadeiramente a obesidade como doença (“gordo come de sem vergonha”) e a compulsão alimentar como algo sem gravidade. Parece que só é grave a compulsão a drogas ou álcool.

    A propósito do post sobre Transtorno Bipolar gostaria de comentar uma coisa: observei um preconceito aberto aos tratamentos psiquiátricos a ponto de um deles sugerir que ela procurasse um tratamento mais digno, como se fosse indigno procurar cura por meio de medicamentos.

    Por outro lado vi um preconceito não explícito à psicoterapia, pois dos 114 comentários só vi a palavra “terapia” em dois deles. Por isso sugiro o tema do preconceito à doença psíquica, ao medicamento psiquiátrico e à psicoterapia como pauta para um futuro post seu.

    Forte abraço

  7. Enviado por: Eli Barroso

    O contrário também pode acontecer ! Pessoas muito magras ficarem complexadas e isso estragar a vida delas.O melhor, na minha opinião, é se aceitar como se é…procurando melhorar de qualquer ponto de vista,físico ou intelectual.

  8. Enviado por: Isa

    Ótimo relato, muito interessante. Adorei o texto!!!

    Realmente essa é uma situação muito complicada e bastante presente. É isso que a mídia impõe à sociedade, e muitas vezes, essa ditadura da “beleza” está dentro de casa.
    Já vi uma criança, de apenas 4 anos de idade, falando para as amiguinhas que “mulher bonita tem que ser magra, bem magra”. Isso deve ser mudado. Todos cuidar, a princípio da saúde, garantindo, assim seu bem estar físico e mental.

    Ps: Cláudia, parabéns pelo blog. Me tornei uma leitora assídua.

    Grande abraço!

  9. Enviado por: Viviane

    Olá, Ana Célia!
    Obrigada pelo seu comentário. Na verdade, creio que poucas pessoas comentaram porque aqueles que possuem transtornos alimentares, raramente, assumem sua condição… anoréxicos, por exemplo, geralmente são pessoas que vivem em ambientes repressores e a anorexia é uma maneira de “controlar” suas próprias vidas. Imagina se uma pessoa que vive reprimida e que crê que “ficar sem comer” é uma forma de controle, vai confessar seu problema e renunciar ao “controle”… nunquinha! Anoréxicos são levados ao médico pela família e/ou amigos quando suas vidas já estão em risco e esta é uma doença cuja cura é dificílima exatamente em decorrência da resistência dos pacientes! E os bulímicos? Os bulímicos, na sua maioria, são pessoas carentes que necessitam de muita atenção (incoscientemente). Eles são comandados por sentimentos muito antangônicos… ao mesmo tempo em que desejam parar de vomitar, também desejam continuar emagrecendo. Bulímicos são muito rigorosos com eles mesmos. Sendo assim, quando é que uma pessoa carente assumirá um problema dessa natureza e se tratará, correndo o risco de deixar de chamar a atenção (inconscientemente)?! Ou ainda, correndo o risco de se tornar obeso? Já os compulsivos, ou ainda não notaram que o são ou também sentem vergonha de assumir!
    As demais pessoas estão muito entretidas com as revistas de dietas que prometem emagrecer “5 quilos em 1 semana” (exemplo) e coisas do tipo… ou com as fotos de modelos e atrizes modificadas por photoshop… enfim, vivendo no mundo da fantasia e fingindo que o tema não tem importância… afinal, comer nem é essencial… Eles desconhecem o índice de mortalidade de anoréxicos. Desconhecem que anoréxicos em isolamento (pq não podem queimar sequer 1 caloria), são capazes de se matar cortando os punhos com as lâmpadas do quarto, para não ter que comer… desconhecem que bulímicos perdem todos os dentes precocemente, tem sérios problemas gastrointestinais, renais, hepáticos, cirrose por excesso de laxante e fórmulas de emeagrecimentos e etc. Desconhecem que essas pessoas se tornam estéreis, desnutridas, apáticas (exceto as que colocam megahair, unhas postiças e e vivem maquiadas – e são tantas!!!). Desconhecem que compulsivos viram obesos, diabéticos, hipertensos, dependentes. Desconhecem que a obesidade (incluindo a infantil), é uma epidemia mundial e que os gastos do sistema de saúde privado e público, decorrentes dessa epidemia, são inimagináveis!
    Eu gostaria sim que minha “confissão” tivesse sido muito comentada, ainda mais em plena SPFW. E, embora não tenha sido, acredito que deve ter levado muitas pessoas à reflexão. Sendo assim, estou feliz! 1º porque eu já não estou mais “no mundo da fantasia” e 2º porque tenho certeza de que devo ter ajudado alguém. Nada é por acaso, certo?
    Beijos e obrigada novamente.

  10. Enviado por: Marcos CAlciolari

    olá claudia

    As pessoas estão perdendo a noção de valores, a educação que esta abandonada(pra não dizer outra coisa), esta formando cidadãos ignorantes, incapazes de dicernir sobre a verdade e mentira, certo ou errado, são incapazes de argumentar contra alguma coisa,e isso se reflete na vida das pessoas, a exclusão seja de brancos , pretos, pobres, ricos, gordos e magros é visível… quem não segue os padrões de beleza, ou em um carro novo não serve,,,, as pessoas que têm algum valor são as ricas, as magras, as belas… mesmo que o dinheiro seja sujo ou a linda menina seja mal caráter.. ela sim tem valor…pois ela segue os padrões…

    Temos que acreditar nas pessoas apensar dos pesares, temos queacreditar que ainda existe pessoas que valorizam as pessoas e seus sentimentos e qualidades…

    Esse problema é etrutural Claudia, e para se resolver deve-se descobrir o Brasil de novo…infelizmente a situação ainda vai piorar e muito…

  11. Enviado por: Ana Célia

    Viviane

    Foi um prazer ler e poder comentar a sua história. Vejo que você foi atrás de muita informação sobre transtornos alimentares, certamente a consciência é fundamental para a cura. Parabéns pela coragem, vá em frente.

    Beijos, carinho e toda a minha admiração

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