1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Esquizofrênico é dado como “morto-vivo”

Claudia Belfort

29 janeiro 2010 | 14:06

Enviado pelo leitor Denny Yang – nome verdadeiro*. Seção Vozes  (veja aqui como participar)

Como a esquizofrenia é misteriosa, quando o paciente vai a um psiquiatra, mais ou menos depois de dois meses de apresentar um comportamento estranho, e em seguida recebe o diagnóstico, seu círculo social não entende o que se passa. Começa a se desenhar um movimento que vou chamar de “negação de vida” do círculo social para o paciente.

Ele é visto como um quadro clínico. Chama-se “X”, mas na verdade ele não é mais “X”. As pessoas querem entendê-lo, mas é difícil entender o que está por dentro de seu nome. Ele virou um quadro de sintomas, que são “alucinações, sintomas positivos, negativos, paranóia, de perseguição, delírios, visões políticas ou alienígenas ou fantasmagóricas”. Ele virou essa frase dentro das aspas. Não é mais “X”, portanto, não tem mais personalidade. “X” é apenas uma roupa. Por dentro, está morto. Essa é sua nova imagem. E essa é a “negação de vida” que os meses seguintes, ou os anos seguintes, proporcionarão ao paciente.

Claro, isso tudo é em um plano, em uma parte, que varia entre as pessoas e certamente não vale para todas, para todos os círculos sociais ou para todos os familiares e amigos. Muitos não fazem o que chamei de “negação de vida”, por mais que tenham essa tendência instintiva, advinda provavelmente da cultura da sociedade em geral.

O paciente, ao receber esse tipo nova imagem, se assusta, e num plano de quase-paradoxo, pensa em sentidos metafísicos e/ou divinos para explicar o porquê de estar em tal situação absurda e aterrorizante, onde ele é o único que acredita em si mesmo, que acredita que por dentro não morreu, que quer viver, pois dentro de si jaz “vida”. Além de também não fazer a mínima ideia do que é esquizofrenia, um mistério mesmo para os médicos e cientistas e psicólogos.

No caso do esquizofrênico, ele é dado como “morto-vivo”, como “morto por dentro”, como “corpo sem alma”, ou “corpo sem luz”. Corpo sem vida. É coisificado, já que “coisa” não tem vida, é apenas corpo sem alma. Pensar em “prova divina”, “fé”, “inferno existencial”, por estar em situação tão absurda de “morto-vivo”, sentimentos naturais nesse pesadelo do diagnóstico, apenas fornece argumento ao movimento de “negação de vida”: “ah, ele pensa em Deus e o Diabo, ele pensa em inferno, por que?. Porque ele tem o sintoma-de-Schreber” (um exemplo esdrúxulo. Schreber é o caso clássico de Freud na esquizofrenia, no qual o paciente se sentia perseguido no plano divino).

Muitos lutaram contra essa “negação de vida”, filósofos, escritores, médicos, psiquiatras e psicólogos, pacientes de esquizofrenia, mas a superação desse movimento de “negação de vida” se dá aos poucos, e com muito sofrimento, principalmente do diagnosticado, ainda mais porque a doença continua sendo um mistério mesmo para os cientistas e médicos. A aquisição de respeito pela vida interior do paciente de esquizofrenia é uma luta gradual, e também tem o caráter de reaquisição do direito de ser respeitado como ser humano e com luz interior que todos os seres humanos têm ao nascer.

Aos poucos, e até devido ao surgimento de novas doenças mentais em maior quantidade da população, como depressão, síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo etc., esse movimento contra a “negação de vida” vai ganhando espaço, e mais pessoas conseguem respeitar e aceitar a vida mesmo dentro de pacientes “mentais”. E os pacientes precisam aceitar seu próprio diagnóstico, aceitar que a esquizofrenia, assim como a psicanálise, existe, está difundida e influencia a sociedade.

Torço para que a tendência seja não de a doença acabar, ou se extinguir, longe disso (sendo realista), torço para que os diagnosticados sejam vistos como pessoas com vida por dentro, com própria personalidade, e com, assim, “aceitação de vida” ao paciente, o que facilitará muito uma possível recuperação completa, assim como sua vida e de seus familiares.

 “ Denny Yang, 31, é escritor e autor de “Isabelle”, e foi diagnosticado com esquizofrenia em 1999, tendo remissão total em 2005.”

 A seção Vozes é um espaço para o leitor do Sinapses. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais  possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos,  ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar