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Sinapses

29.janeiro.2010 14:06:18

Esquizofrênico é dado como “morto-vivo”

Enviado pelo leitor Denny Yang – nome verdadeiro*. Seção Vozes  (veja aqui como participar)

Como a esquizofrenia é misteriosa, quando o paciente vai a um psiquiatra, mais ou menos depois de dois meses de apresentar um comportamento estranho, e em seguida recebe o diagnóstico, seu círculo social não entende o que se passa. Começa a se desenhar um movimento que vou chamar de “negação de vida” do círculo social para o paciente.

Ele é visto como um quadro clínico. Chama-se “X”, mas na verdade ele não é mais “X”. As pessoas querem entendê-lo, mas é difícil entender o que está por dentro de seu nome. Ele virou um quadro de sintomas, que são “alucinações, sintomas positivos, negativos, paranóia, de perseguição, delírios, visões políticas ou alienígenas ou fantasmagóricas”. Ele virou essa frase dentro das aspas. Não é mais “X”, portanto, não tem mais personalidade. “X” é apenas uma roupa. Por dentro, está morto. Essa é sua nova imagem. E essa é a “negação de vida” que os meses seguintes, ou os anos seguintes, proporcionarão ao paciente.

Claro, isso tudo é em um plano, em uma parte, que varia entre as pessoas e certamente não vale para todas, para todos os círculos sociais ou para todos os familiares e amigos. Muitos não fazem o que chamei de “negação de vida”, por mais que tenham essa tendência instintiva, advinda provavelmente da cultura da sociedade em geral.

O paciente, ao receber esse tipo nova imagem, se assusta, e num plano de quase-paradoxo, pensa em sentidos metafísicos e/ou divinos para explicar o porquê de estar em tal situação absurda e aterrorizante, onde ele é o único que acredita em si mesmo, que acredita que por dentro não morreu, que quer viver, pois dentro de si jaz “vida”. Além de também não fazer a mínima ideia do que é esquizofrenia, um mistério mesmo para os médicos e cientistas e psicólogos.

No caso do esquizofrênico, ele é dado como “morto-vivo”, como “morto por dentro”, como “corpo sem alma”, ou “corpo sem luz”. Corpo sem vida. É coisificado, já que “coisa” não tem vida, é apenas corpo sem alma. Pensar em “prova divina”, “fé”, “inferno existencial”, por estar em situação tão absurda de “morto-vivo”, sentimentos naturais nesse pesadelo do diagnóstico, apenas fornece argumento ao movimento de “negação de vida”: “ah, ele pensa em Deus e o Diabo, ele pensa em inferno, por que?. Porque ele tem o sintoma-de-Schreber” (um exemplo esdrúxulo. Schreber é o caso clássico de Freud na esquizofrenia, no qual o paciente se sentia perseguido no plano divino).

Muitos lutaram contra essa “negação de vida”, filósofos, escritores, médicos, psiquiatras e psicólogos, pacientes de esquizofrenia, mas a superação desse movimento de “negação de vida” se dá aos poucos, e com muito sofrimento, principalmente do diagnosticado, ainda mais porque a doença continua sendo um mistério mesmo para os cientistas e médicos. A aquisição de respeito pela vida interior do paciente de esquizofrenia é uma luta gradual, e também tem o caráter de reaquisição do direito de ser respeitado como ser humano e com luz interior que todos os seres humanos têm ao nascer.

Aos poucos, e até devido ao surgimento de novas doenças mentais em maior quantidade da população, como depressão, síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo etc., esse movimento contra a “negação de vida” vai ganhando espaço, e mais pessoas conseguem respeitar e aceitar a vida mesmo dentro de pacientes “mentais”. E os pacientes precisam aceitar seu próprio diagnóstico, aceitar que a esquizofrenia, assim como a psicanálise, existe, está difundida e influencia a sociedade.

Torço para que a tendência seja não de a doença acabar, ou se extinguir, longe disso (sendo realista), torço para que os diagnosticados sejam vistos como pessoas com vida por dentro, com própria personalidade, e com, assim, “aceitação de vida” ao paciente, o que facilitará muito uma possível recuperação completa, assim como sua vida e de seus familiares.

 “ Denny Yang, 31, é escritor e autor de “Isabelle”, e foi diagnosticado com esquizofrenia em 1999, tendo remissão total em 2005.”

 A seção Vozes é um espaço para o leitor do Sinapses. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais  possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos,  ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar

Comentários (17)| Comente!

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17 Comentários Comente também
  • 29/01/2010 - 14:19
    Enviado por: cprada

    lindo e emocionante relato…
    Denny, do fundo do meu coração: tb torço pela diversidade e pelo respeito!
    Loucura é padronizar, uniformizar, definir e por aí vai…
    Boa sorte nessa caminhada! Um gde abço!

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  • 29/01/2010 - 18:26
    Enviado por: Sergio

    Nossa.
    Com este relato é claro o que se passa na cabeca de uma pessoa diagnosticada como doente mental.
    Abraços.

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  • 29/01/2010 - 19:39
    Enviado por: lucas

    Há esquizofrênicos que se apavoram com o que fazem nas suas “ausências”. Se tornam religiosos e/ou proferem mantras em voz alta p/evitar o “outro” que se apossa de seu corpo e faz coisas que desconhece.
    Ficam acordados p/evitar o “outro”. Sob este enfoque íntimo ele se dá como morto-vivo, mas não por causa das demais pessoas que desconhecem o que se passa com eles ou o que sentem.
    Raramente as pessoas ao redor a tratam como um “não ser”. Podem a tratar como alguém diferente, inconstante, esquisito, mas ALGUÉM.

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  • 29/01/2010 - 19:58
    Enviado por: Carlos Ferreita

    Estou Pasmo!

    Tenho um irmão que tem esquizofrenia e esse relato me fez abrir um grande caminho de esperança,Pra lidar com essa situação.

    abraços

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  • 29/01/2010 - 20:05
    Enviado por: Francisco Ortiz

    “Vozes” é um nome infeliz para a seções deste blog… Porque não “relatos” ou “vivências” “experiências” sei lá…?

    Aliás eu também evitaria o uso da palavra “seções” que soa como sessão ;)

    Ficam aí duas sugestões pentelhas.

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  • 29/01/2010 - 22:19
    Enviado por: roberta mattos

    Estranho relato; pra mim, fico tentando visualizar a pessoa; sei lá.
    Boa sorte.

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  • 30/01/2010 - 05:35
    Enviado por: Eli Barroso

    Impressionante o grito de amor pela vida do escritor que sofreu de esquizofrenia. Como soube encontrar seu lugar e ao se respeitar pedir que os ditos ‘normais’ o respeitem ! É de arrepiar,no quarto parágrafo do texto já fiquei com o coração na mão.Mas é doença terrível,os próprios psyquiatras dizem que não tem cura,então como foi possível no caso dele haver remissão ? Se é doença misteriosa, o que os tratamentos com remédios podem fazer ?As vezes a confundem com depressão,transtorno bipolar… como chegam ao diagnóstico de esquizofrenia ?Soube também que há vários tipos,inclusive um que não leva a alucinações nem delírios.Deve ser esta mais fácil de curar.Para mim, o que me parece é que o doente não é um morto-vivo mas alguém que apareceu no planeta sem saber de onde veio nem o que faz aqui.Um extraterrestre,em suma.Consegue estudar, trabalhar,levar uma vida normal? O pior deve ser para a família,imagine os distúrbios que provoca em casa e o que faz todos se isolarem dele para não chegarem à loucura também.Tema sério,este.

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  • 30/01/2010 - 05:38
    Enviado por: Eli Barroso

    Claudia,o acesso ao seu blog está com defeito,aparecem links inevitavelmente quando se escreve COM depois de ponto,o que é isso?Fale com seu webmaster,ok?

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  • 30/01/2010 - 08:47
    Enviado por: Alex

    Sei não… acho que esse cara é doido!

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  • 30/01/2010 - 09:34
    Enviado por: Roberto Tamashiro

    Sou esquizofrenico estabilizado, acredito que os disturbios mentais sao mutaçoes para preparar para o que esta por vir. Isto e (2012).

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  • 30/01/2010 - 09:47
    Enviado por: Atma Hari

    Caro Denny,

    Percebo que a luta descrita em destacar a pessoa que está atrás de um rótulo/doença ainda é uma constante tanto socialmente quanto no meio dos agentes de saúde. Há urgência na aceleração da conscientização de que as diferenças são inerentes da humanidade e nestas habitam a diversidade e criatividade. Não é romantização do sofrimento. Mas, uma tentativa do exercício da tolerância, tão difícil na sociedade capitalista/consumista. Que você, um belo ser humano, consiga, através de sua história, ser um contribuinte ativo neste processo. BRINDEMOS A ALIANÇA COM A SAÚDE E A VIDA PARA TODOS.

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  • 30/01/2010 - 10:54
    Enviado por: bruno manso

    ‘assim com a psicanálise’ parece colocar a psicanálise tão ‘marginalizada’ quanto a ‘loucura’ dele. Estereotipia ou ignorância mesmo. Diagnóstico diferencial… sempre uma grande questão. Fico imaginando na china quantos não estão nessa condição psiquiátrica. Remissão total dos sintomas? quem sabe uma anomalia da doença nunca antes relatada? concordo com Sr.Tamashiro, prognóstico pessímo o do Yang.

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  • 30/01/2010 - 11:16
    Enviado por: jaqueline

    TENHO UMA IRMA QUE TEM ESQUIZOFRENIA ,MAS ESTA SENDO MUITO DIFICIL ,ELA ESTA INTERNADA EM UM HOSPITAL,EMAGRECEU MUTO (REJEITOU POR UNS MESES A ALIMENTAÇAO,AGORA O QUE COME NAO PARA NO ESTOMAGO .

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  • 30/01/2010 - 15:31
    Enviado por: Amanda Lins

    Essa máteria me faz refletir…. será que posso ter problemas mentais? Pois, faz aprox. três meses que sempre tenho pesadelos, muitas vezes grito e choro. As vezes eu acordo durante a noite transtornada! Outras vezes acordo no outro dia e não lembro de nada, as vezes acordo triste sem saber o motivo, apenas com uma vaga lembrança do sonho.

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  • 01/02/2010 - 10:08
    Enviado por: Isa

    Emocionante o relato de Denny Yang, como também, de coragem e muita personalidade.

    Muito expressivo…

    Grande abraço!

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  • 02/02/2010 - 21:42
    Enviado por: Laura

    Boa Noite, tenho uma amiga que tem esquizofrenia, é muito difícil lidar com as crises dela. Sinceramente não sei como agir. Conheço ela ha uns 4 anos, sempre apresentou alguns indícios, porém de uns anos para cá piorou. Ela não consegue lidar com isso. Atualmente elá é depressiva e tem mania de perseguição, além de fantasiar várias histórias e conspirações.
    Pior de tudo que ela chegou contando uma história que tentou se matar e que foi parar no hospital (não sei se é verdade ou é ilusao dela).

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    Quem Faz

    Claudia Belfort

    Claudia Belfort é jornalista, pernambucana, ex-editora-chefe de conteúdos digitais do Estadão. É autora de Aqueronte, o rio dos infortúnios e inferniza a vida dos vizinhos diariamente tentando tocar sax.

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