Estigma inabalável
- 8 de fevereiro de 2010
- 19h31
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- Por Claudia Belfort
Você acha que o preconceito contra as pessoas que se revelam portadoras de um distúrbio mental vem diminuindo? Pergunto sua percepção de um modo geral. A minha impressão, é só uma impressão, é que já se aceita falar sobre esses transtornos, mas quando nos referimos a alguém que sofre de depressão, esquizofrenia, TOC e afins o tom ainda é de um sussurro. Não é comum falar-se abertamente “João não bebe porque é bipolar” como se diz sem constrangimento que “Ana Lúcia não comerá o bolo porque tem diabetes”.
Trouxe o tema por conta de uma recente pesquisa feita nos Estados Unidos pelas universidades da Indiana e da Carolina do Norte sobre o estigma envolvendo os transtornos psíquicos. Nos EUA, a veiculação de medicamentos para distúrbios mentais, especialmente para depressão, é permitida desde 1997, por isso os sociólogos que lideraram a investigação supunham que a disseminação de informação, feita via os anúncios, ajudaria a população a deixar de ver doença mental como fraqueza moral ou motivo de vergonha para encará-la como algo que pode ser tratado. Mas, os pesquisadores chegaram à conclusão que nada mudou, o estigma continua inabalável mesmo diante de informações mais precisas sobre os distúrbios.
O problema, segundo os especialistas, é que esse tipo de reação negativa da sociedade afeta profundamente o modo como os pacientes e suas famílias tratam a questão, além de contribuir para que muitos portadores de distúrbios psíquicos temam procurar ajuda médica por medo de serem discriminados.
Ao ler sobre a pesquisa, lembrei do filme Amantes. O protagonista, Leonard (Joaquin Phoenix) é um bipolar que logo na primeira cena tenta se matar atirando-se de um píer em Brighton Beach. O filme é lindo. Além da história, me marcou muito o modo como a família, a namorada, o futuro sogro olhavam para Leonard. Sempre com um misto de pena e preocupação, às vezes até com um pouco de pânico. Perguntei a um amigo bipolar o que achou e ele me disse: é exatamente assim que me olham em casa.
*
As informações divulgadas neste blog não substituem aconselhamento profissional. Antes de tomar qualquer decisão, procure um médico.
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Gastava com mulheres, noitadas, comprava tudo…
- 5 de fevereiro de 2010
- 18h56
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- Por Claudia Belfort
Relato de Gildo sobre sua bipolaridade para a seção Vozes… (veja aqui como participar)
“Tenho transtorno bipolar afetivo desde 1995, que só foi diagnosticado em 2002. Passei por diversas crises. A primeira em 1995 quando destruí minha casa, subi na laje do meu sobrado quebrei a caixa d’água, fui parar no hospital. Fiquei um ano em stand bye. Nessa crise ouvia vozes dizendo que estava rico entre outras coisas.
A segunda crise aconteceu dois anos depois. Fui trabalhar, abandonei o carro em uma avenida. Peguei um taxi e fui à sede de um grande banco na Paulista. Consegui entrar e chegar até a sala do então presidente que me olhou com seus óculos fundo de garrafa sem entender nada. A segurança me abordou, queria saber como tinha entrado e o que queria, falei apenas que tinha um currículo verbal para entregar.
A terceira foi no ano 2000. Achei que a Globo queria me contratar, deixei o carro da minha esposa no estacionamento do aeroporto e com apenas o cartão do estacionamento consegui embarcar para o Rio. Chegando lá sem dinheiro e nem conhecidos peguei um taxi até o Projac, como não tinha dinheiro fomos até um shopping no Recreio dos Bandeirantes para tentar sacar dinheiro sem sucesso. O taxista acabou desistindo e me deixou lá. Passei a noite andando de lotação e quando o dia amanheceu estava em frente a uma loja de veículos onde entrei usando um nome que me veio na cabeça. O gerente percebeu minha confusão e conseguiu ligar para minha família em São Paulo, que me resgatou. Fiquei um mês internado no Bezerra de Menezes.
O último episódio foi em 2005. Parei de tomar os medicamentos e comecei a beber, gastar por conta até sujar meu nome. Gastava com mulheres, noitadas, comprava tudo o que gostava e não podia, desde carros até coisas que não tinham o menor sentido. Minha família achou melhor me internar, mas fugi depois de um mês.
Quando tive meu primeiro episódio já estava separado da minha primeira esposa. A segunda enfrentou três crises, sempre me apoiando, mas não resistiu e foi embora. Agora estou no meu terceiro relacionamento. Ela presenciou minha última crise me apoiou e me apoia até, também tenho um filho de 19 anos.
Depois da internação de 2005, passei por outros psiquiatras. Hoje estou estabilizado e trabalhando. Tomo 11 comprimidos por dia de diversos remédios (lítio, carbamazepina, depakene, haloperidol), a cada dois meses passo por uma consulta com psiquiátrica, não posso beber nada e nem tampouco me privar do sono.”
*****
A seção Vozes é um espaço para o leitor. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos, ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar
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Peço licença
- 5 de fevereiro de 2010
- 15h31
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- Por Claudia Belfort
Quero pedir licença para divulgar meu livro. É meio estranho falar disso, mas vamos lá.
Lancei esta semana Aqueronte, o rio dos infortúnios, editado pela Letras do Brasil. São contos que têm como pano de fundo a loucura. É ficção, nada tem de científico, nem de reportagem ou entrevistas. Parece óbvio dizer o que não é, mas já me perguntaram isso. O que procuro passar no livro é a dor, a agonia, a angústia de quem sofre de transtornos mentais, de quem está fora dos padrões de comportamento, de quem se depara com a morte eminente e até a loucura provocada por uma perda ou um desejar demasiado.
Não há glamour, não há personagens geniais. Há a dor de pessoas comuns em sofrimento psíquico. Por isso título. Aqueronte é o Rio dos Infortúnios na mitologia grega. Era por ele que o barqueiro Caronte levava as almas até a margem onde estava o porto de Hades, o submundo dos mortos, o inferno, guardado por Cérbero, o cão de três cabeças. Na Divina Comédia, de Dante Aliguieri, Aqueronte faz fronteira com o inferno, é o ante-inferno.
Nos contos, é o caminho de agonia que muitos portadores de distúrbios mentais, loucos sociais, seus amigos e familiares sofrem. Sofrem por não terem tratamento, sofrem por não serem compreendidos, sofrem por fazerem o outro sofrer, por não serem reconhecidos como um outro, por serem obrigados a se igualar para serem aceitos.
Escrevi Aqueronte antes de lançar este Blog. Foi ao escrever o livro que tive a ideia do Sinapses.
Ficha técnica
Aqueronte, o rio dos infortúnios
Na Livraria Cultura
Formato: 12 x 18,5 cm
Página: 160
Autor: Claudia Belfort
Ilustrações: Marcos Muller
ISBN: 978-85-61469-03-0
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Oléo de peixe pode evitar psicoses
- 4 de fevereiro de 2010
- 9h08
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- Por Claudia Belfort
Uma dose diária de 1,2g de óleo de peixe pode impedir o desenvolvimento de síndromes mentais, como esquizofrenia por exemplo, em pessoas com propensão para esse tipo de doenças, revelou estudo realizado por pesquisadores da Áustria, Austrália e Suíça e publicado nesta semana no Archives of General Psychiatry. “A descoberta de que o tratamento com uma substância natural pode prevenir, ou ao menos retardar, a aparição de comportamento psicótico nos dá esperança de que pode haver uma alternativa a drogas antipsicóticas”, afirma o estudo. O efeito positivo viria da gordura Ômega 3, presente no óleo de peixe, que produz efeitos benéficos e facilitaria a transmissão de sinais entre neurônios.
Os pesquisadores fizeram um teste duplo-cego em 81 pessoas propensas a desenvolverem uma psicose ou por um forte histórico familiar de esquizofrenia e doenças similares ou por já apresentarem leves sintomas da doença. Parte do grupo tomou o suplemento de óleo de peixe ao longo de 12 semanas, enquanto a outra metade tomou placebo. Os cientistas acompanharam o grupo por um ano para saber quantos desenvolveriam a doença. Duas pessoas do grupo de 41 (4,9%) que tomavam a cápsula de óleo de peixe desenvolveram comportamento psicótico, comparado a 11 de 40 (27,5%) no que recebia placebo.
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Abuso de álcool, internação e o diagnóstico: DDAH
- 1 de fevereiro de 2010
- 18h42
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- Por Claudia Belfort
Relato de Denise (nome fictício) sobreDDAH, desordem por déficit de atenção e hiperatividade, para a seção Vozes… (veja aqui como participar)
O distúrbio me faz ser uma pessoa impulsiva
Meu distúrbio foi “descoberto” na minha primeira internação, de num total de três, todas por abuso de álcool e drogas, que é uma das consequências do transtorno. Hoje aos 41 anos, faço tratamento ambulatorial na Unifesp com um psiquiatra que trata meu alcoolismo, além do abuso de substâncias ilícitas.
O DDAH, desordem por déficit de atenção e hiperatividade, é uma doença que interfere muito no dia a dia do paciente. Sou uma pessoa engraçada, adoro a vida, a noite, tomo minhas cervejas sem culpa, mas, no meu caso, o distúrbio me faz ser uma pessoa impulsiva, atrapalhada nos relacionamentos interpessoais, no trabalho, etc.
Também é intrínseco ao transtorno um problema puxar o outro, por exemplo: tenho insônia, tomo remédio para dormir e antidepressivo. Faço parte há cinco anos de um programa de redução de danos no Proad, programa de orientação e atendimento a dependentes da Unifesp, que tem entre seus criadores o Dr. Marcelo Niel, um excelente médico e para mim uma referência. Dentro dos princípios do programa, no caso dos pacientes que fazem abuso de álcool e maconha, por exemplo, fumar maconha seria “menos mau” que beber, que encher a cara, como se diz, e aliviaria a “fissura” para ingerir álcool. A maconha aqui é parte do programa de redução de danos.
Sim, a doença é alvo de preconceitos e onde mais percebo é no meu ambiente profissional – trabalho na área de restaurantes – quando alguém fica sabendo que sou portadora de DDAH e que tomo remédios. Já minha família, moro com minha mãe, não se interessa muito em conhecer o distúrbio e até hoje não sabe muito bem o que tenho.
Dizem que não é aconselhável sair falando por aí que se toma remédio para isso ou aquilo, acho pura hipocrisia, já que as pessoas se entopem de remédio sem prescrição médica.
Mas luto, adoro viver, estou prestes a entrar na faculdade, no curso de geografia. Vamos torcer. Quero fazer licenciatura para dar aulas, essa é a intenção pelo menos.
**********
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Resultados de longo prazo da terapia psicodinâmica
- 31 de janeiro de 2010
- 18h44
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- Por Claudia Belfort
A terapia psicodinâmica, que tem como base a auto-reflexão e o auto-exame, teve sua eficácia cientificamente comprovada para uma ampla gama de transtornos mentais, incluindo depressão, ansiedade, pânico e seus benefícios podem até crescer mesmo após o final do tratamento. De acordo com uma liderada por Jonathan Shedler, PhD, da Universidade de Colorado Denver School of Medicine, EUA, “a evidência científica atual mostra que a terapia psicodinâmica é altamente eficaz e os benefícios são pelo menos tão grandes como as de outras psicoterapias.”
Para chegar a essas conclusões, Shedler revisou estudos de terapia psicodinâmica, de outros tratamentos psicológicos e de medicamentos antidepressivos envolvendo 1431 pacientes. Ele mediu o que se chama em pesquisa psicológica “tamanho do efeito”. Por exemplo, um tamanho de efeito de 0,80 é tido como alto. A pesquisa de Shedler identificou que a terapia psicodinâmcia teve resultados positivos em 92% dos casos. A nota média em pacientes que fizeram terapia uma vez por semana durante um ano foi de 0,97. Já a análise em pacientes que haviam concluído o tratamento há nove meses ou mais foi 1,51, 50% mais alta.
A pesquisa está publicada na edição de fevereiro do jornal American Psychologist, da Associação Americana de Psicologia.
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Esquizofrênico é dado como “morto-vivo”
- 29 de janeiro de 2010
- 14h06
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- Por Claudia Belfort
Enviado pelo leitor Denny Yang – nome verdadeiro*. Seção Vozes (veja aqui como participar)
Como a esquizofrenia é misteriosa, quando o paciente vai a um psiquiatra, mais ou menos depois de dois meses de apresentar um comportamento estranho, e em seguida recebe o diagnóstico, seu círculo social não entende o que se passa. Começa a se desenhar um movimento que vou chamar de “negação de vida” do círculo social para o paciente.
Ele é visto como um quadro clínico. Chama-se “X”, mas na verdade ele não é mais “X”. As pessoas querem entendê-lo, mas é difícil entender o que está por dentro de seu nome. Ele virou um quadro de sintomas, que são “alucinações, sintomas positivos, negativos, paranóia, de perseguição, delírios, visões políticas ou alienígenas ou fantasmagóricas”. Ele virou essa frase dentro das aspas. Não é mais “X”, portanto, não tem mais personalidade. “X” é apenas uma roupa. Por dentro, está morto. Essa é sua nova imagem. E essa é a “negação de vida” que os meses seguintes, ou os anos seguintes, proporcionarão ao paciente.
Claro, isso tudo é em um plano, em uma parte, que varia entre as pessoas e certamente não vale para todas, para todos os círculos sociais ou para todos os familiares e amigos. Muitos não fazem o que chamei de “negação de vida”, por mais que tenham essa tendência instintiva, advinda provavelmente da cultura da sociedade em geral.
O paciente, ao receber esse tipo nova imagem, se assusta, e num plano de quase-paradoxo, pensa em sentidos metafísicos e/ou divinos para explicar o porquê de estar em tal situação absurda e aterrorizante, onde ele é o único que acredita em si mesmo, que acredita que por dentro não morreu, que quer viver, pois dentro de si jaz “vida”. Além de também não fazer a mínima ideia do que é esquizofrenia, um mistério mesmo para os médicos e cientistas e psicólogos.
No caso do esquizofrênico, ele é dado como “morto-vivo”, como “morto por dentro”, como “corpo sem alma”, ou “corpo sem luz”. Corpo sem vida. É coisificado, já que “coisa” não tem vida, é apenas corpo sem alma. Pensar em “prova divina”, “fé”, “inferno existencial”, por estar em situação tão absurda de “morto-vivo”, sentimentos naturais nesse pesadelo do diagnóstico, apenas fornece argumento ao movimento de “negação de vida”: “ah, ele pensa em Deus e o Diabo, ele pensa em inferno, por que?. Porque ele tem o sintoma-de-Schreber” (um exemplo esdrúxulo. Schreber é o caso clássico de Freud na esquizofrenia, no qual o paciente se sentia perseguido no plano divino).
Muitos lutaram contra essa “negação de vida”, filósofos, escritores, médicos, psiquiatras e psicólogos, pacientes de esquizofrenia, mas a superação desse movimento de “negação de vida” se dá aos poucos, e com muito sofrimento, principalmente do diagnosticado, ainda mais porque a doença continua sendo um mistério mesmo para os cientistas e médicos. A aquisição de respeito pela vida interior do paciente de esquizofrenia é uma luta gradual, e também tem o caráter de reaquisição do direito de ser respeitado como ser humano e com luz interior que todos os seres humanos têm ao nascer.
Aos poucos, e até devido ao surgimento de novas doenças mentais em maior quantidade da população, como depressão, síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo etc., esse movimento contra a “negação de vida” vai ganhando espaço, e mais pessoas conseguem respeitar e aceitar a vida mesmo dentro de pacientes “mentais”. E os pacientes precisam aceitar seu próprio diagnóstico, aceitar que a esquizofrenia, assim como a psicanálise, existe, está difundida e influencia a sociedade.
Torço para que a tendência seja não de a doença acabar, ou se extinguir, longe disso (sendo realista), torço para que os diagnosticados sejam vistos como pessoas com vida por dentro, com própria personalidade, e com, assim, “aceitação de vida” ao paciente, o que facilitará muito uma possível recuperação completa, assim como sua vida e de seus familiares.
“ Denny Yang, 31, é escritor e autor de “Isabelle”, e foi diagnosticado com esquizofrenia em 1999, tendo remissão total em 2005.”
A seção Vozes é um espaço para o leitor do Sinapses. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos, ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar
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Sibutramina, risco para o corpo e para a mente
- 26 de janeiro de 2010
- 13h01
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- Por Claudia Belfort
A sibutramina, um dos remédios para emagrecer mais vendidos no mundo, está proibida na Europa. Segundo a Agência Europeia de Medicamentos, que determinou a proibição na última segunda-feira, 25, o uso do remédio aumenta consideravelmente o risco do paciente sofrer derrame e enfarte. Nos Estados Unidos, a Agência e Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) também alertou para os riscos de enfarte e derrame em pessoas que sofrem de problemas cardíacos. Lá a droga não foi vetada, mas o órgão pediu ao laboratório Abbot, fabricante do medicamento emagrecedor, que intensifique o alerta sobre os riscos do uso da sibutramina por pacientes com problemas cardíacos.
Em nota, o Laboratório Abbott defendeu segurança da substância e destacou que ” desde o seu lançamento no Brasil, em 1997, não foi reportado nenhum caso de efeito colateral grave associado à sibutramina” e que a droga ” deve ser administrada com cautela aos pacientes com histórico de hipertensão e não deve ser recomendada àqueles que tenham hipertensão não-controlada ou mal controlada.
Numa primeira leitura pode até parecer que o uso da sibutramina nada tem a ver com transtornos psíquicos. Mas uma olhada na lista de contra-indicações aparecem pessoas com antecedentes de transtornos alimentares, como bulimia e anorexia, além de a quem tem pressão alta, problemas hepáticos e cardíacos. Segundo a psiquiatra Aline valente Chaves, assistente do ambulatório de residência do Hospital das Clínicas de São Paulo, FMUSP, o uso de medicamentos para emagrecer pode tanto desencadear um transtorno psíquico em alguém com predisposição para tal quanto piorar um quadro já existente. “É verdade que no caso da sibutramina o risco é menor que no das anfetaminas, mas não significa que ele não exista. Aline explica que em situações em que o paciente de um distúrbio mental ganha muito peso, alguns profissionais até prescrevem a substância, mas, frisa, com muita parcimônia. “Eu nunca indiquei”. De acordo com a médica, “no caso dos pacientes bipolares, por exemplo, a sibutramina pode atuar como um desestabilizador do humor.”
Ainda em 2002, o Setor de farmacovigilância do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) informou em um alerta terapêutico ter recebido 29 notificações de eventos adversos relacionados a sibutramina. Em 11 deles, os pacientes manifestaram alterações psiquiátricas. A conclusão do CVS foi de reação adversa provavelmente relacionada ao medicamento. O órgão também alertou para o fato de haver poucos trabalhos sobre os efeitos da sibutramina como desencadeadora de transtornos psiquiátricos em indivíduos sadios ou como fator de agravamento desses transtornos em pacientes já diagnosticados como portadores de distúrbios psiquiátricos.
Entre as reações identificadas no alerta do CVS estão: sensação de morte iminente, depressão, ansiedade, agressividade, exaltação do humor, pensamento acelerado, comportamento de risco, agitação, confusão, inquietação, hipomania, alucinações. Distúrbio de conduta: irresponsabilidade, agressividade, irritabilidade, redução do senso crítico. Ansiedade excessiva,sensação de aperto no peito, dificuldade de raciocínio e ansiedade com irritabilidade.
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Jazz: loucura e criatividade
- 24 de janeiro de 2010
- 22h56
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- Por Claudia Belfort
Miles Davis tinha alucinações e delírios paranóicos, abusava de drogas (álcool, barbitúricos, heroína e cocaína), teve diversos relacionamentos sexuais, alguns deles simultaneamente, gostava de participar de orgias e praticar voyerismo. Ele, Chet Baker e Scott La Faro eram loucos por emoções fortes e adoravam carros velozes. Theolonious Monk também usava diferentes tipos de drogas, passava dias sem dormir andando de um lado para outro aparentemente sem reconhecer ninguém. Bud Powell foi diagnosticado como esquizofrênico, sofreu diversas internações em hospitais psiquiátricos, uma delas por dez meses. Charles Mingus e Oscar Pettiford eram irascíveis e megalomaníacos. Mingus ainda apresentava traços de paranóia. Paul Desmond e Bill Evans tinham baixa auto-estima, remorsos, sentimentos de culpa e uma visão pessimista do mundo. Desmond sofria de alcoolismo, Evans era dependente de cocaína. Todos eles foram músicos geniais do período clássico do jazz moderno americano (1945 – 1960) e sofriam de algum tipo de transtorno psíquico.

Miles Davis – foto: Anton Corbijn (Groninger Museum)
As informações são de uma pesquisa publicada no British Journal of Psichiatry e indicada via twitter pelo psiquiatra Daniel Barros . Bom, a publicação é de 2003, mas como os dois temas, jazz e transtornos mentais, não têm data (além do fato que adoro jazz) resolvi trazê-la aqui. A investigação foi conduzida por Geoffrey I. Mills, doutor em psicologia e pesquisador da Universidade Manchester, na Inglaterra, que pretendia estudar a incidência de distúrbios mentais num grupo de jazzistas americanos. Mills usou como ponto de partida outras pesquisas que relacionavam criatividade a transtornos afetivos e até apontavam a possibilidade de uma psicopatologia atuar como elemento vital do processo criativo.
O alvo de Mills foram 40 grandes músicos de jazz, de quem ele analisou dados biográficos coletados em revistas e livros para buscar de evidências de psicopatologias que se encaixassem nos critérios do DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais , publicado pela Associação Psiquiátrica Americana). Os resultados (veja abaixo), segundo o autor, são similares aos já identificados em pesquisas semelhantes feitas em grupos que atuam em profissões artísticas ou criativas e tendem a confirmar, ainda de acordo com Mills, a conexão entre transtornos de humor e pessoas criativas.
Dos 40 músicos de jazz pesquisados:
10% (4) tinham histórico de transtornos psiquiátricos na família
17,5% (7) tiveram infância instável ou infeliz
52,5% (21) foram viciados em heroína durante algum periodo da vida.
27,5 (11) eram dependentes de álcool e 15% (6) abusavam de álcool
8% (3) eram dependentes de cocaína
8% (3) tinham transtornos psicóticos
28,5% (11) tinham transtornos de humor
5% (2) apresentavam transtorno de ansiedade
17,5% (7) tinham tendências de busca de sensação como desinibição, busca por emoções fortes e aventuras, relacionados ao transtorno de personalidade borderline.
2 cometeram suicídio (J.J. Johnson e Frank Rosolino)
Para mim, com transtornos ou sem, são todos geniais.
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“Meu valor não está no meu peso”
- 21 de janeiro de 2010
- 18h40
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- Por Claudia Belfort
Este é o relato de Viviane (nome fictício) sobre seu transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), bem oportuno para refletirmos nesta semana em que reapareceram as modelos magérrimas na SPFW.
O testemunho faz parte da seção Vozes (veja aqui como participar)
Venho de uma família de obesos mórbidos e depressivos. Minha mãe sempre manteve o peso: foi anoréxica durante a adolescência e bulímica a partir da idade adulta. Engravidou de mim, porque o efeito da pílula era anulado pelos laxantes que ela ingeria diariamente.
Durante minha adolescência, ela se tratava no HC e eu acompanhei todo o sofrimento dela e de tantas outras mulheres. Aí, passei a me preocupar com meu peso (embora estivesse normal na ocasião), e emagreci com uma dieta restritiva. Sentia-me mais amada assim. Esse foi o início de um ciclo que já dura anos.
No auge do TCAP (transtorno da compulsão alimentar periódica), seguia um limite de calorias e uma alimentação impecável perto de outras pessoas. Após o trabalho, comprava guloseimas (salgadinhos, chocolates, biscoitos recheados, etc.), entrava no carro e, no trajeto até em casa, mastigava até ficar com dor no maxilar. Comia 3000 calorias em uma hora. Tinha falta de ar se não seguisse esse ritual. Então, descartava as embalagens, entrava em casa e jantava normalmente com minha família, mas sofria com uma angústia cortante, uma sensação de impotência, nojo, vergonha, humilhação, fracasso, desespero e aflição. Ia dormir chorando quase todas as noites.
Por falta de coragem, nunca induzi o vômito nem tomei laxantes, mas confesso que ficava alegre com algum surto repentino de diarréia…
Em 2009, finalmente, percebi que esse comportamento não era natural. Além do efeito sanfona, eu vivia em função dos meus quilinhos a mais, ou melhor, eu deixava de viver por causa deles: deixava de sair, não queria rever amigos, fugia da minha família, me recusava a namorar, não comprava roupas. Então procurei ajuda. Comecei terapia e tratamento especializado.
Resgatei a noção de que meu valor não está no meu peso, minha auto-estima aumentou e voltei a sentir prazer com outras coisas além da comida. Estou medicada. A compulsão diminuiu e estou animada a voltar a praticar exercícios. Emagrecer não é mais prioridade. Estou feliz, confiante e tenho certeza de que, com fé em Deus, e com o tratamento, em breve estarei ainda melhor!
(Leia mais sobre TCAP no site na Unifesp)
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