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Única mulher em equipe de 80 operários conta como foi participar da reforma do Maracanã

Seleção Universitária

segunda-feira 02/06/14

Aos 50 anos, Marlene Oliveira trabalhou como bombeiro hidráulico por um ano e meio no estádio   Lara Monsores – especial para O Estado de S. Paulo RIO DE JANEIRO – De segunda a sábado, Marlene Oliveira, 50, saía de casa, em Édson Passos, na Baixada Fluminense, às 3h40 da manhã, tomava o trem lotado [...]

Aos 50 anos, Marlene Oliveira trabalhou como bombeiro hidráulico por um ano e meio no estádio

Marlene Oliveira exibe com orgulho seu certificado do curso de bombeiro hidráulico (Lara Monsores/Seleção Universitária)

 

Lara Monsores – especial para O Estado de S. Paulo

RIO DE JANEIRO – De segunda a sábado, Marlene Oliveira, 50, saía de casa, em Édson Passos, na Baixada Fluminense, às 3h40 da manhã, tomava o trem lotado e desembarcava às 5h na estação Maracanã. Depois de trocar de roupa e tomar café, ela batia o ponto às 6h50 e dava início a mais um dia de trabalho no canteiro de obras do Estádio Mário Filho.

O expediente encerrava-se às 17h e Marlene retornava à casa no trem duas vezes mais lotado do que o primeiro. O ritual repetiu-se durante um ano e seis meses, tempo em que a operária trabalhou na função de bombeiro hidráulico na reforma do Maracanã para a Copa do Mundo. Marlene era a única mulher numa equipe que chegou a ter 80 homens.

“Minhas ferramentas eram o arco de serra e a chave de grifo. Pegava também uma talhadeira, marreta, enxada, tudo isso. O local onde a máquina não ia, a gente tinha que cavar, entrar lá no buraco e colocar a tubulação”, explica Marlene.

Essa foi a primeira vez que ela trabalhou em uma obra e o emprego não foi por acaso. Marlene concluiu apenas o ensino fundamental, já foi cozinheira de restaurante, trocadora de ônibus e acompanhante de idoso. Ela valoriza os estudos, diz que vai se formar um dia e exibe com orgulho os certificados dos cursos técnicos de bombeiro hidráulico e ladrilheiro. Foi graças a eles e ao conselho de um desconhecido em uma conversa informal no trem que ela chegou ao Maracanã.

“Estavam dando oportunidades para mulheres também”, relembra. “Já tinha andado a manhã inteira procurando alguma coisa e quando cheguei aqui [no estádio] não tinha nem dez centavos para comprar uma bala. Me apresentei, disse que queria trabalhar, mostrei meus diplomas dos cursos e, graças a Deus, consegui”, conta.

A satisfação ao falar da conquista do emprego depois de um ano sem trabalho é a mesma ao relembrar o dia da reinauguração do estádio, quando Marlene viu, enfim, o resultado de todo o suor deixado naquele campo. “A gente sentou na arquibancada e ficou só admirando. Estava tudo lindo, prontinho mesmo”, orgulha-se a operária que, depois da inauguração, voltou algumas vezes àquela arquibancada para ver o seu Vasco jogar.

E o Maracanã deu muito mais a essa mulher. O salário de pouco mais de R$ 1 mil aliviou as contas da família e ajudou na construção da casa do filho mais novo, Ângelo Bruno, 30, no quintal da casa da mãe. A filha mais velha, Sirlene, 34, mora em Campo Grande, zona oeste, e Marlene vive na baixada fluminense com o marido. “Ele é ajudante de caminhão na farmácia e eu estou fazendo de tudo para trazê-lo para obra também. Já ensinei a virar traços de massa, a assentar tijolo. Ele entende de elétrica e me ensina, às vezes. Mas, esse negócio de tomar choque, não é comigo, não”, brinca.

A mulher que ajudou a reformar uma das maiores casas do futebol brasileiro agora sonha em poder construir seu próprio lar. Quer uma casa melhor, maior, onde possa acolher todos os cinco netos. Para isso, conseguiu outro emprego e, em breve, estará de volta aos canteiros, com serras e enxadas em punho. “Eu amo obra. Não gosto de coisa leve. Agora vou fazer um curso de pedreiro. Já sei fazer, mas tenho que me aperfeiçoar.”