Guerra de titãs no câmbio – e a proposta do Brasil
4 de outubro de 2011 | 19h51
Raquel Landim
O Senado americano aprovou na segunda-feira à noite por expressiva maioria – 79 votos a favor e 19 contra – um projeto de lei para punir a China por desvalorizar artificialmente o yuan. A medida permitirá aos EUA aplicar tarifas de importação adicionais a países cujas moedas sejam consideradas “desalinhadas” pelo Departamento do Tesouro. Não está explícito que o alvo é a China, mas os políticos americanos não disfarçam que o gigante asiático é o principal problema.
O projeto de lei ainda tem que ser votado pela Câmara dos Deputados e depende do aval da Casa Branca. Na Câmara, controlada pelos Republicanos, as chances de sucesso não são muito grandes. A Casa Branca também não vê o projeto com bons olhos, porque sabe da importância das relações com Pequim, não só econômicas, mas também políticas. São sinais de que dificilmente a medida vai ser efetivamente implementada. No ano passado, uma lei semelhante foi aprovada pela Câmara e depois abandonada.
Apesar de tudo isso, a movimentação dos políticos americanos enfureceu os chineses, que ameaçaram com uma “guerra comercial”. Três órgãos do governo chinês reagiram ferozmento por meio de comunicados oficiais: o Banco Central, o ministério das Relações Exteriores, e o ministério do Comércio. O BC chinês lembrou que o yuan vem se valorizando em relação ao dólar desde o início da crise; o ministério do Comércio afirmou que a medida não vai resolver a crise econômica dos Estados Unidos; e o ministério de Relações Exteriores acusou os EUA de não cumprirem as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC).
Por enquanto. O que os senadores americanos estão querendo é muito parecido com o que o Brasil propôs aos demais membros da OMC. Conforme relevou o Estado, administração Dilma Rousseff sugeriu o estabelecimento de um antidumping cambial – a aplicação de uma sobretaxa quando as moedas ultrapassarem uma banda definida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Matéria do colega Assis Moreira, do Valor, mostrou logo depois que a OMC, sempre refratária a tratar de câmbio, reconheceu em um documento que as oscilações de curto prazo das moedas afetam os fluxos internacionais de comércio.
Já comentamos a proposta brasileira aqui no blog. A preocupação do Brasil é legítima. Vários países estão muito temerosos em relação ao impacto das variações cambiais provocadas por movimentações atípicas dos governos para combater a crise que começou em 2008 – como os trilhões de dólares que os EUA derrubaram em sua economia para estimular o consumo ou a paridade entre yuan e dólar. O problema é de aplicação. Vai ser complicadíssimo o FMI estabelecer uma banda de flutuação das moedas.
A proposta brasileira, no entanto, tem o mérito de colocar a discussão em nível global, ao invés de tomar uma medida unilateral, como cogita o Congresso americano.
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