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Rotina de Estudante

Nessas últimas semana recebi alguns comentários que falavam sobre a relação entre universidade e a sociedade. Eu fiz um breve comentário sobre isso anteriormente, mas vou comentar um pouco mais agora. A universidade foi fundada em um tripé de educação-pesquisa-extensão. A pesquisa é feita pelos professores, nós pós-graduandos e pelos pós-doutores; a educação é praticada pelos professores e se baseia em formar pessoas altamente especializadas nos cursos de graduação. E a extensão é a interface entre o conhecimento de ponta e a população em geral.

Programas de extensão existem em todas as unidades e são uma atividade importante dos institutos de pesquisa. A extensão é feita de diversas maneiras, apresentando a pesquisa para alunos do ensino médio, mantendo museus, oferecendo cursos a comunidade (externa e idosos) e cursos de atualização para professores do ensino médio.

Aqui no IQ os recursos disponíveis para programas de extensão são poucos quando comparado aos projetos aprovados para pesquisa. Esse fato mostra o enfoque que o governo e a USP tem quando destinam a verba. No Brasil, somado ao pouco investimento temos um baixo interesse da população nesses temas, o que acaba apiando a política de não-investimento (já que não existe interesse).

Nós temos alguns professores que trabalham com softwares de ensino e produziram livros nacionais para a graduação (os softwares são livres, e os livros mais baratos que semelhantes de autoria internacional). Existem também cursos para alunos da graduação e pós voltados para aprofundar os conhecimentos em bioquímica e química e uso de equipamentos de ponta. Existem palestras semanais sobre assuntos diversos feitas por professores convidados (tanto brasileiros quanto extrangeiros) e em algumas épocas são feitos eventos especiais que contam com a presença de palestrantes ilustres, como alguns ganhadores do Prêmio Nobel.

Por último, existem eventos voltados para o ensino médio, como o Química em Ação (grupo que ensina química em escolas públicas misturando experimentos e teatro) e programas de apresentação do IQ como o IQ Portas Abertas.

Todos esses programas são gratuitos e divulgados no site do IQ, alguns no site da USP. Por último, gostaria de resaltar que a maior parte da pesquisa feita no mundo é chamada de ciência básica, ou seja, sem pretensões de aplicação. E uma parte usa esse conhecimento gerado pela ciência básica para produzir equipamentos ou aplicá-los como remédios ou outras funções, e uma não vive sem a outra.

Portanto, por mais que todo pesquisador deva à sociedade (já que é financiado por ela) todos devem entender a importância de cada parte da ciência, e que a pesquisa não serve, somente, para resolver problemas – mas muitas vezes serve para criar conhecimento, puro e simples.

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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22.fevereiro.2012 22:50:26

Empresas e pesquisa

A relação entre empresas e centros de pesquisa no Brasil ainda é muito incipiente. Isso se deve a diversos fatores, como falta de capacitação dos formandos, falta de incentivo governamental e falta de vontade das universidades. A USP tem trabalhado no sentido de melhorar a relação com as companhias e fazer com que elas invistam em pesquisa aqui, mas isso ainda rende poucos frutos.

As áreas de engenharia e medicina atraem mais interesse das empresas e, muitas vezes, também têm professores que passaram por empresas. Desse modo é mais fácil o contato e a evolução dos investimentos nos laboratórios por companhias privadas. Entretanto, a indústria de biotecnologia, para citar um exemplo, investe pouco em nossos centros de pesquisa.

O IQ tem tentando melhorar essa relação criando o primeiro mestrado profissional da USP. Isso permitirá que pessoas já alocadas em empresas façam um mestrado que mescla uma parte de administração privada com desenvolvimento de conhecimento de ponta. As empresas bancam a bolsa e parte do trabalho do aluno, e o IQ fornece aulas e o ambiente para que se desenvolva a pesquisa desejada pela empresa.

Além disso, alguns laboratórios conseguiram fechar parcerias com empresas para estudar compostos ou soluções para problemas específicos. Nesse caso um técnico (em geral um aluno com mestrado ou doutorado) é pago pela empresa para tentar desenvolver um composto que poderá se desenvolver em um produto ou patente. O problema, neste caso, é que o salário pago chega a ser menor do que uma bolsa de doutorado, dificultando a vida daqueles que gostam da pesquisa mas não gostariam de seguir a carreira docente.

Essa novas iniciativas que começam a aparecer no Brasil já são bem estruturadas no exterior e permitem que alunos de pós tenham mais possibilidades de carreiras que somente a docência. Atualmente os pós-graduandos brasileiros concorrem com igualdade com os estrangeiros por vagas na pesquisa em indústria. Isso indica que só falta um bom incentivo para que as companhias montem no Brasil unidades de pesquisas e que possam surgir aqui empresas inovadoras de biotecnologia, como ocorre no exterior.

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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Escrever um trabalho científico é ter o cuidado de explicar e expor os seus dados e conclusões da maneira mais clara e menos pessoal possível. Para isso, a maior parte das pessoas passa muito tempo lendo e fazendo um levantamento de tudo que já foi feito e das conclusões sólidas, e das falhas que devem ser comentadas e questionadas.

Isso consome tempo. Fazer isso significa que você se importa com os seus irmãos cientistas e com os trabalhos que eles fizeram. Ao escrever o seu trabalho, você baseia as suas afirmações nos trabalhos que eles publicaram. Esse modelo é base da ciência e deveria torná-la menos suscetível a falhas, pois toda afirmação teria por base conclusões sólidas.

Infelizmente, existem grupos que não se importam com isso. Eles simplesmente ignoram todos os trabalhos anteriores que os contradizem. E fazem afirmações baseadas em meias-verdades ou mesmo em nada. Me revolta o fato de pessoas assim conseguirem passar pelos revisores, enquanto os que fazem certo e mostram todos os lados da história tem tanta dificuldade em publicar.

Mas a vantagem da ciência é que, como você se baseia em outros trabalhos para seguir em frente, se você fizer afirmações infundadas ou abusar das suas conclusões, ninguém conseguirá repetir o que você fez, e com tempo você cairá no esquecimento pois ninguém falará do seu trabalho. No fim, a ciência se auto-corrige – pode levar tempo, mas acontece!

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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Trabalhar com DNA e RNA é ter fé. Você faz um monte de reações, segue diversos passos e etapas e nunca vê com o que trabalha. Essa é a visão de alguém que não gosta de biologia molecular (vulgo eu!) e que, além de aprender a cultivar e manter uma colônia do C. elegans, tem de aprender a modificá-lo. O que implica aprender biologia molecular.

O feitiço acabou virando contra o feitiçeiro: eu sempre fiz piada dos meus amigos que trabalham com biologia molecular e agora tenho que aprender todas as técnicas básicas para poder modificar o C. elegans para ter o modelo ideal. Parece que estou de volta ao vestibular, tenho que estudar matérias que não gosto para poder ter conhecimento suficiente para ter sucesso na prova.

Agora tenho que aprender a usar uma série de técnicas que não me interessam muito para ter um currículo bom e conseguir fazer um trabalho bom para ser publicado. Para, no futuro, conseguir conhecer e ser bom o suficiente para passar em outra prova, dessa vez o concurso para professor universitário.

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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Faz uma semana que estou nos EUA e a primeira impressão que tive foi muito boa. O pessoal do novo laboratório é muito simpático e e os meus orientadores aqui estão bem dispostos a me ensinar todas as novas técnicas que posso aprender e levar de volta para o Brasil.

Estar em novo laboratório nos faz sentir falta das pessoas do dia a dia e é um pouco estranho ter de me apresentar para todos como a pessoa nova que não sabe nada. Estive no mesmo laboratório na USP por 7 anos, o que me faz o segundo mais velho. Me tornei uma das referências sobre as técnicas. Aqui eu sou um iniciante, e tenho de aprender praticamente tudo do zero.

Não é ruim. É até uma sensação boa voltar ao aprendizado e aprender um monte de coisas todos os dias, mas é estranho a falta de referência. Estou tentando recuperar o ritmo, então eu li um livro e estou na metade do segundo, e ainda não sei tudo! É impressionante o número de técnicas e detalhes que temos de aprender para usar um novo modelo, mas é fascinante ao mesmo tempo.

Eu sei que vou ter muito trabalho aqui, mas vejo cada vez mais que será um período onde aprenderei muito e isso me deixa muito feliz!

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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Olá a todos,

Sou o Bruno Queliconi, alunos de doutorado no departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP. Gosto de ciência desde criança, mas isso só ficou claro para mim após a coordenadora da escola onde fiz o ensino médio comentar, certa vez: “Nossa, impressionante como seus olhos brilham ao falar de biologia!”. Essa simples frase me fez perceber o quanto eu gostava de biologia e principalmente de descobrir coisas novas e fazer perguntas sem respostas!

Essa sensação se reforçou após eu participar da Olimpíada Brasileira de Química, que me deixou determinado a trabalhar nas duas áreas. Depois de uma certa indecisão sobre qual carreira seguir, prestei vestibular para Biologia na Fuvest já decidido em ser cientista e professor universitário (eu gosto tanto de dar aulas sobre temas desafiadores quanto de estudá-los).

Já no primeiro ano da faculdade, assuntos como longevidade e morte celular me despertavam um enorme interesse, o que me levou a um tema obscuro para muitos – radicais livres. Entrei pelo programa de iniciação científica no laboratório da professora Alicia Kowaltowski e gostei tanto dos radicais livres que os pesquiso até hoje, depois de seis anos.

Depois da graduação, continuei meus estudos na pós. Estou envolvido com uma série de novos e excitantes projetos, que me levaram a trabalhar com diversas pessoas e entrar na representação discente da pós-graduação na USP. Espero que meus esforços me levem a conseguir ser um bom professor universitário e um grande pesquisador!

Aqui no Rotina de Estudante, vou contar um pouco do meu dia a dia e falar das preocupações de um pós-graduando em Ciências Biológicas. Vou tentar mostrar os prazeres e os infortúnios que existem na pesquisa e na pós-graduação, no Brasil e no mundo.

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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