Desde julho do ano passado, vocês acompanharam aqui no blog minha árdua luta por uma vaga na universidade pública. Escrevi sobre minhas dificuldades, ânseios, e, também, manifestei minha revolta como ex-aluna de escola pública.
O ano de 2010 foi de intensa luta. Tive de estudar muito para recuperar a enorme defasagem. E, como vestibular é algo relativamente novo para mim, é mais do que compreensível que eu ficasse insegura na hora da prova. E foi essa insegurança que me distanciou da minha tão merecida vaga. Por falta de 4 pontinhos não passei na 1a fase da Unicamp. Infelizmente, não tive o prazer de escrever um post falando da minha aprovação.
Agora que o fantasma da desaprovação já foi embora, reergo a cabeça e continuo estudando. Como já sei o que é estudar por conta própria, decidi esse ano optar por algo novo: Um cursinho comunitário. O mais legal é saber que, apesar das dificuldades, muitos estudantes daqui sonham grande: Querem ser médicos, engenheiros, cientistas. E, assistir aos esforços dos colegas, – que alguns teimam em chamar de “concorrentes”, – tem sido muito inspirador para mim.
Gostaria de agradecer à equipe do Estadão.Edu, pela oportunidade de ouro que me deram ao conceder um espaço no blog. Agradeço também aos leitores e aos que comentaram nos posts. Foi muito bom conhecer opiniões diversas.
Espero que quem me acompanhou aqui, torne, um dia, a ler meus textos novamente. O tema “educação” sempre estará ligado a minha vida.
Até a próxima!
Bianca estuda por conta própria para entrar em Letras
A rotina de estudos recomeçou nesta semana. Sinto, pela segunda vez, o peso da obrigação e a vontade de estudar tudo de uma só vez.
Optei este ano por uma jornada dupla de estudo: além das quatro horas de aula do cursinho, cumpro mais seis horas por conta própria. Isso porque o cursinho que frequento é comunitário, e pode sofrer com a falta de professores em certas disciplinas.
Apesar da dupla desaprovação na Fuvest e na Unicamp, estou otimista este ano. Percebi que o meu esforço ano passado foi importante, tanto que pegarei “mais leve” com as matérias de humanas. A sacada agora é atingir um nível intermediário nas exatas, principalmente em matemática.
Não quero ficar alienada ao estudo como fiquei no ano passado, deixando de fazer o que eu gosto. O conhecimento institucionalizado cobrado nos vestibulares só serve pra uma coisa: passar no exame. Tentarei, ao máximo, sair desse ciclo limitado de conteúdo.
Há muitas outras coisas para aprender do que sonha o nosso vão vestibular.
Bianca estuda por conta própria para entrar em LetrasComo se não bastassem os inúmeros casos de fraude no vestibular, há também uma leva de candidatos que querem tirar proveito de ações afirmativas sem ter o direito a elas.
Essa semana, o 1º colocado em Medicina na UFRN teve sua vaga anulada por um “erro” na declaração de escolaridade. O “quase bixo”, que concluiu o ensino médio em escola privada, usou de uma artimanha muito malandra: vendo que não conseguia ser aprovado no concorrido curso, decidiu prestar a prova do EJA (Educação para jovens e adultos) para ganhar a bonificação social.
O rapaz discorda da decisão da universidade pois, segundo ele, mesmo sem a bonificação, seria aprovado no vestibular. Pelo visto, ele não entendeu o recado. O problema aqui não deve-se à pontuação que o candidato teve na prova, mas sim, o ato criminoso que praticara, passando na frente daqueles que estudaram e lutaram por uma boa colocação honestamente.
O caso só ganhou destaque na mídia por envolver o 1ºcolocado em Medicina. Imaginem o que acontece por aí, em outros cursos e em outras instituições, que também aderem às ações afirmativas.
Não é de graça que costumam afirmar que a corrupção já atingiu a toda sociedade. Inclusive os estudantes.
Bianca estudou por conta própria para entrar em Letras
E após muito tempo de dedicação, sai o resultado: não passei no vestibular. Pois é, o meu nome não estava na lista. Agora, é aturar a cara de piedade de alguns e comentários do tipo “você é muito jovem, e vestibular tem todo ano”.
Quando escolhi batalhar por uma vaga na universidade pública, sabia que não seria fácil. Paradoxalmente, o ex-aluno de escola pública não é aquele que desfruta da universidade pública. E o governo parece incentivar isso, criando programas de bolsa e financiamento em faculdades particulares. Mas felizmente – ou não, para alguns – tenho uma ideia na cabeça que ninguém me tira.
Como já disse aqui várias vezes, continuarei estudando por conta própria. Pode parecer estranho, mas conquistei muito sem depender academicamente de alguém. Escrever razoavelmente bem é uma delas.
Não me vitimizo e nem culpo o “sistema” pela minha defasagem intelectual, isso não me conforta. Só espero que as pessoas não mais me olhem com cara de piedade, pois não sou uma coitada que não passou no vestibular. A vida continua, e isso não é nada perto do que enfrentarei pela frente. Como canta o rap, “o bonde não para”.
Bianca estudou por conta própria para entrar em Letras
E o Enem nos dá mais uma surpresa desta vez. Agora com a ajuda do “leilão” do Sistema de Seleção Unificada, o Sisu. Desde domingo não consigo acessar o site. Assim como a página que dá acesso às notas das prova, o Sisu me informou que minha senha está “inválida”. Solicitei a recuperação da senha, mas até hoje não recebi o e-mail.
Também tentei o 0800 do Inep, que, – adivinhem! – não funciona. Na primeira tentativa, todos os atendentes estavam ocupados. Não pude fazer outras tentativas, pois já haviam se esgotado. O link “Fale com a gente” também não funcionou. Logo me lembrei daqueles call-centers embromadores, onde o cancelamento de uma linha telefônica ou de um cartão de crédito demora cerca de um mês para ser efetuado. Isso quando a ligação não “cai”.
Resultado: Não consegui me inscrever nos cursos de Letras e Linguística da UFSCar. Sorte minha não depender do Sisu. Mas, e para quem depende? O Enem em si já é desgastante, sem contar os inúmeros imprevistos que ocorrem antes, depois, – e até durante – o exame. Erros de impressão, locais de prova errados, fiscais mal orientados, etc. Espero que o mesmo não ocorra com o ProUni. Senão, será duplamente frustrante.
Bianca estudou por conta própria para entrar em Letras
Tantas vezes eu disse aqui que estávamos na “véspera” e, mais uma vez, repito a frase: agora, sim, estamos realmente a poucos dias do vestibular.
Ansiedade? Nem um pouco. Acredito já ter vivido toda a angústia que um vestibulando é capaz de suportar. O que me resta é o alívio. Faltam poucos meses para eu me livrar totalmente da física e da matemática!
Mesmo não dominando 100% do conteúdo dos exames – o que julgo impossível para qualquer um – estou confiante. Dediquei-me muito esse ano, fiz o possível para estudar de forma interdisciplinar, enfrentei o “monstro” das Exatas, e melhorei bastante nas redações. Estou feliz e não me arrependo de ter escolhido estudar por conta própria.
Nesse meio tempo, estou revisando algumas matérias e lendo muito. Mês passado, li Pergunte ao pó, de John Fante, que já virou um dos meus romances preferidos. Em seguida, partirei para Charles Bukowski e, finalmente, Jack Kerouac. Acho que acaba de nascer uma ávida leitora da geração beat e de seus precursores.
Resta-me agora esperar pelas provas. A primeira parada é o Enem. Depois, a tão esperada e recém-formulada Unicamp.
Bianca estuda por conta própria para entrar em Letras
No primeiro turno das eleições, a educação – junto com a saúde e a segurança – ocupava destaque entre os temas mais abordados. Agora, no segundo turno (e com as velhas promessas de sempre), o tema em questão é traduzido em dados – alguns duvidosos – que só aparecem nos debates como forma de “enfeitar” gestões passadas. Porém, não precisa ser estudante para conhecer a realidade: a prova do Enem é mal estruturada e as escolas públicas do estado de São Paulo não são “referências de ensino para o país”.
Mas o maior problema está por vir. Questões primárias, como a qualidade do ensino público, estão dando lugar a temas sensacionalistas que envolvem calorosos debates envolvendo padres, pastores e afins. Ou seja, além de esquecer o princípio básico do laicismo do Estado, a população também é levada a refletir sobre assuntos que não passam de um segmento populista das propagandas eleitoreiras.
Ora, como podemos discutir assuntos complexos, como a legalização do aborto e da maconha, se nem sequer temos educação de qualidade? Como é possível discutir tais temas, se ainda temos analfabetos, crianças fora da escola, cidades sem biblioteca?
Do que mais se precisa? Que os problemas gerados pelo nosso péssimo sistema educacional tornam-se mais visíveis? E não estão? A violência não é uma delas?
Espero que as minhas perguntas não ecoem no departamento oficial do descaso.
Bianca estuda por conta própria para entrar em Letras
Uma das minhas metas para o vestibular é tirar uma boa nota, próxima da máxima, nas redações. Para cumprir minha meta, selecionei vários livros para estudar, e escolhi, por curiosidade, apostilas de cursinho. Após estudá-las, percebi que não havia nada novo. Todas elas seguem o mesmo padrão de conteúdo: macetes gramaticais, modelos de confecção de texto, etc.
A redação é exceção no vestibular. Enquanto a prova inteira pede a aquisição de “conhecimento-decoreba”, a redação pede criatividade. Não existe “macete” para escrever uma boa redação. O estudante precisa, além de dominar a linguagem, saber traduzir seu conhecimento “além-ensino médio” num texto escrito. E é nessa hora que muitos encalham. Apostila de cursinho não fornece esse tipo de conhecimento.
O vestibular da Unicamp, que é o meu foco, inovou nas propostas esse ano. Sem o padronizado texto dissertativo-argumentativo, agora são três redações de gêneros diferentes. Enxerguei o modelo novo como uma oportunidade de ir além do didatismo chato dos livros. Ao invés de ficar só no cronograma, eu mesma crio as propostas. Pego um filme, um texto lieterário, ou jornalístico e deixo a rotina mais interessante.
Tento fazer do meu estudo o mais criativo possível. Se eu seguisse um cronograma de cursinho, com certeza ficaria entediada. Ou louca.
Bianca estuda por conta própria para entrar em Letras
Acho que a coisa mais chata – e desnecessária – na preparação pro vestibular é ter de estudar as matérias não-prioritárias; ou seja, as disciplinas cujo conhecimento só é útil para passar no exame. Por que um futuro médico precisa conhecer as escolas literárias? Por que um aspirante a advogado deve aprender a balancear uma equação química?
Li certa vez que de cada cinco alunos do Ensino Médio, um abandona a escola. É muito provável que esse desinteresse venha da falta de flexibilidade do currículo. A maneira generalizada de absolver conteúdos se repete no vestibular, o que estraga a propensão de qualquer estudante talentoso.
No início do ano, comecei a estudar francês, mas tive de parar devido ao vestibular. O mesmo aconteceu com um livro de J.D. Salinger. Não consegui lê-lo por causa das matérias não-prioritárias.
O descaso pela Educação gera uma verdadeira bola de neve. Se tivéssemos um sistema de ensino mais realista, provavelmente a fase pré-universitária seria menos desgastante. A evasão escolar diminuiria, o magistério não seria uma carreira marginalizada e eu teria mais tempo pra literatura.
Mas enquanto nada muda, vou manter o foco: concentrar nas matérias de maior dificuldade para ficar tranquila na 2a fase. Salinger vai ter que esperar mais um pouco.
Bianca Gonçalves estuda por conta própria para entrar em Letras
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