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Vampirismo econômico

16 de maio de 2012 | 10h43

Bianca Pinto Lima

Quatro países sul-americanos cresceram bem mais que o Brasil, no ano passado, com taxas de inflação muito menores. Resultados melhores que os brasileiros foram alcançados também por economias emergentes da Europa. No Brasil, empresários desconhecem ou menosprezam esses dados e se mostram dispostos, mais uma vez, a embarcar na aventura de “um pouco mais de inflação” para conseguir um pouco mais de crescimento – como se prosperidade e estabilidade fossem objetivos incompatíveis. Segundo um representante da indústria, o governo tem de bancar o risco inflacionário gerado pela alta do dólar para garantir mais atividade e preservar a produção nacional. Opiniões desse tipo têm aparecido com frequência e são um complemento previsível dos apelos por mais protecionismo e mais intervenções paternalistas (ou maternalistas) do governo. O filme é conhecido: a história inclui produtos vagabundos e caros para consumidores desprotegidos, inflação alta, desemprego estrutural e crises periódicas de balanço de pagamentos. A segurança criada pelas barreiras é tão enganadora quanto injusta.

Em 2011, a inflação média do Brasil chegou a 6,6%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7%. Estes são os números de alguns latino-americanos administrados com maturidade: Colômbia, 3,4% de inflação e 5,9% de crescimento; Peru, 3,4% e 6,9%; Chile, 3,3% e 5,9%; Equador, 4,5% e 7,8%. Alguns europeus conseguiram, apesar da crise regional, combinar expansão e estabilidade: Polônia, 4,3% de inflação e 4,3% de aumento do PIB; Lituânia, 4,1% e 5,9%; Turquia, 6,5% e 8,5%.

A conversa sobre inflação intensificou-se nos últimos dias, quando o dólar passou de R$ 1,90 e rapidamente se aproximou de R$ 2,00. Alguns economistas logo chamaram a atenção para o possível efeito inflacionário do câmbio desvalorizado. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou pouca ou nenhuma preocupação com esse risco e preferiu dar ênfase ao efeito benéfico da variação cambial. Dólar mais caro significa maior poder de competição para o produtor brasileiro. A discussão é um tanto vaga, neste momento, porque ninguém pode dizer com segurança como será o câmbio dentro de alguns meses, se a crise europeia amainar, os investidores se acalmarem e a procura de ativos em dólares ficar menos intensa. Falta saber, além disso, como estará a relação entre os juros brasileiros e os ganhos proporcionados por outras aplicações. Vários analistas mantêm a aposta numa acomodação do câmbio em cerca de R$ 1,85 por dólar.

Enquanto os especialistas tentam projetar a cotação da moeda americana, empresários festejam a depreciação do real, em coro com o ministro Mantega e sua chefe. Segundo o ministro, ele, “a torcida do Flamengo e a do Fluminense” estão satisfeitos com o câmbio atual. Além disso, a presidente Dilma Rousseff mostra-se preocupada com a competitividade da indústria, não com o dólar mais caro, acrescentou.

Mas a pressão inflacionária é apenas um dos possíveis efeitos indesejáveis da depreciação cambial. Pode-se atenuar esse efeito com a moderação do gasto público e uma gestão prudente do crédito. Surto inflacionário por causa do câmbio não é fatalidade, exceto em ambiente de tolerância. É o risco brasileiro.

A depreciação do real pode ser acompanhada também de efeitos perigosos na gestão da economia. Durante décadas, no Brasil, o câmbio desvalorizado serviu para disfarçar uma porção de ineficiências tanto das empresas quanto do ambiente econômico. As exportações avançavam muito devagar e o Brasil era insignificante no mercado internacional. Mas o câmbio depreciado funcionava como um energético, a indústria era protegida por enormes barreiras e os consumidores eram explorados sem perceber claramente a patifaria. O controle represava os preços internos e a indexação enganava assalariados e pequenos poupadores. Pouca gente contestava a aliança entre o governo voluntarista e balofo e os favoritos da corte.

Alguns itens desse roteiro talvez estejam descartados, mas o voluntarismo, o protecionismo, a ineficiência do governo, o intervencionismo e a engorda do setor público são cada vez mais sensíveis. Sem compromisso com a reforma do péssimo sistema tributário, o governo se limita a remendos. Sua incompetência gerencial se reflete na incapacidade de conduzir programas e projetos para o aumento da produtividade geral do País. De vez em quando, empresários cobram reformas relevantes. Mas brigam a maior parte do tempo pela redução dos juros e pela correção do câmbio, como se isso resolvesse os problemas de competitividade. Obviamente não resolve. Quanto ao voluntarismo, será bem-vindo enquanto resultar em domesticação do Banco Central, reserva de mercado e formas variadas de protecionismo. O passado, em alguns países, é tão difícil de enterrar quanto um vampiro.

Dólar é só um dos problemas

20 de outubro de 2010 | 8h55

Rolf Kuntz

Enquanto o governo tenta conter a inundação de moeda estrangeira, as contas externas continuam piorando. A nova alta do imposto sobre o capital especulativo poderá, durante algum tempo, frear a valorização do real. Mas será insuficiente para mudar a tendência do comércio. Até a terceira semana de outubro, a receita de exportação, US$ 154,1 bilhões, foi 28,9% maior que a de um ano antes. A despesa com importações, US$ 139,9 bilhões, foi 44,2% superior à de igual período de 2009. O saldo comercial, US$ 14,2 bilhões, foi 36,9% menor. Este é, neste momento, o ponto importante para a saúde da economia, isto é, para o crescimento da produção e para a criação de empregos a médio prazo. O grande influxo de capitais tem barateado o dólar, encarecendo o produto nacional em comparação com o estrangeiro, e seu impacto negativo está concentrado no comércio exterior. Não há sinal de formação de bolha no mercado de ações ou em qualquer outro.

O impacto inicial da elevação do IOF, o Imposto sobre Operações Financeiras, correspondeu à intenção do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Às 11 horas da manhã, ontem, o dólar havia batido em R$ 1,70, com valorização de 2,16%. No fechamento, estava em R$ 1,68, na BM&F, ainda com alta de 1,06%. Durante o dia, um novo fator, a elevação de juros na China, complicou os cálculos do mercado. Falta saber se esse aumento afetará o crescimento chinês, os preços das matérias-primas e, talvez, a cotação do yuan.

As expectativas também poderão ser afetadas se o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar os juros básicos na reunião de hoje. A maioria dos analistas continuava, ontem, prevendo a manutenção da taxa de 10,75%. Raros economistas admitiam a hipótese de um corte de pelo menos 0,25 ponto. Diante dos novos dados de inflação, seria difícil apostar numa redução da taxa básica. Em São Paulo, os preços ao consumidor subiram 0,96% na segunda quadrissemana de outubro, informou a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Fipe). Na segunda quadrissemana de setembro haviam aumentado 0,21%. O IGP-10 (coletado até o dia 10 de outubro) variou 1,51%, segundo a Fundação Getúlio Vargas. A tendência de alta não é só dos preços de alimentos. Além disso, o câmbio tem amortecido a inflação, como comentou na segunda-feira o coordenador da pesquisa de preços da FGV, Salomão Quadros.

O efeito benigno do câmbio sobre os preços é parte do nó. A Fazenda tem concentrado a atenção no excesso de dólares, como se o único motivo importante de preocupação fosse a valorização do real, com seus efeitos indesejáveis nas contas externas. Mas o desajuste cambial é parte de um quadro muito mais complexo.

O descompasso entre importações e exportações explica-se apenas parcialmente pela valorização do real e, portanto, pela mudança da relação entre preços internos e externos. Outro fator é o aumento da demanda interna, principalmente de consumo. A demanda tem sido alimentada pela expansão do emprego, do bolo de rendimentos e do crédito, mas isso também não é tudo.

O gasto do governo continua crescendo bem mais velozmente que o Produto Interno Bruto (PIB). O déficit nominal, 3,4% do PIB nos 12 meses até agosto, é muito menor que os buracos fiscais do mundo desenvolvido, mas não deixa de ser déficit. O resultado só não é pior graças aos dividendos pagos ao Tesouro por algumas estatais.

Um quinto dos bens consumidos no terceiro trimestre veio do exterior, segundo pesquisa da consultoria LCA. No começo do ano passado, essa parcela correspondia a 14,3% do consumo. Parte dessa variação é explicável pelo câmbio. Sem a contribuição dos importados, a inflação seria maior e o Banco Central manteria juros mais elevados. Se o governo apenas contiver a depreciação do dólar, atenuará parcialmente o problema. Se o dólar subir e a demanda interna continuar aquecida, a inflação ganhará impulso. Há maneiras mais eficientes e mais indolores de arrumar esse quadro.

Se o governo tiver disposição para uma política mais equilibrada e mais ampla, conterá a expansão do gasto público, preservando, é claro, as ações econômica e socialmente mais produtivas. Mas terá de cuidar seriamente das condições de competitividade, para impulsionar as exportações e manter em expansão a corrente de comércio. Todas as demais soluções serão menos eficientes e menos duradouras e terão custos mais altos.

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