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24.fevereiro.2014 23:24:17

Há 40 anos, Iara busca a verdade sobre a morte dos irmãos e do companheiro

Iara Xavier Pereira, seus irmãos Iuri e Alex e o companheiro dela, Arnaldo Cardoso Rocha, foram todos militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) – organização de esquerda que, no começo da década de 70, sob a liderança de Carlos Marighella, pegou em armas contra a ditadura militar. Dos quatro, só Iara sobreviveu. Os irmãos e o marido foram mortos pela repressão, entre 1972 e 1973.

De acordo com as autoridades da época, tombaram durante troca de tiros com agentes policiais. Segundo Iara, porém, cada um à sua vez, eles foram capturados, torturados e executados. Ela trabalha há quarenta anos para provar isso.

Ontem, a pedido de Iara, representantes da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, reuniram-se em São Paulo para uma audiência pública. Foram examinados na ocasião os casos de Iuri, Alex e outros três militantes da organização a que pertenciam.

Iuri tinha 24 anos quando foi morto, no dia 14 de junho de 1972, em São Paulo. Estava acompanhado por Ana Maria Nacinovic Correa e Marcos Nonato da Fonseca, também ligados à organização de Marighella.

Eles almoçavam num restaurante no bairro da Mooca, quando o proprietário telefonou para a polícia e denunciou a presença de três pessoas que apareciam nos cartazes, fartamente distribuídos na época, com imagens de “terroristas procurados”. Montou-se então um enorme cerco policial. Os militantes teriam resistido à prisão e morrido no tiroteio, segundo a versão oficial.

Os corpos de Ana Maria e Marcos foram entregues às suas famílias, em caixões lacrados. Iuri, no entanto, foi enterrado como indigente e com nome falso.

Iara passou dez anos procurando o corpo. Só localizou os restos mortais em 1982, no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, na periferia da capital paulista, obtendo em seguida seu traslado para o Rio.

Passaram-se mais 15 anos até outra importante conquista: em 1997 conseguiu a exumação e a análise pericial dos restos mortais de Iuri, com o apoio da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. O médico legista Nelson Massini, que reexaminou a ossada e as fotos do cadáver feitas em 1972, constatou que o militante da ALN fora atingido por pelo menos seis projéteis de armas de fogo e não três, como indicou o laudo inicial, assinado por Isaac Abramovitc.

O novo exame também mostrou que Iuri foi espancado ainda com vida e que os dois tiros que atingiram seu crânio foram dados de cima para baixo. A indicação é de que já estaria no chão, dominado, quando teriam decidido executá-lo. O perito Luís Fondebrider, do Grupo Argentino de Antropologia Forense, também examinou o material na ocasião e fez constatações semelhantes.

Ontem, Mauro Yared, perito da Polícia Civil de Brasília que colabora com a Comissão Nacional, disse durante a audiência pública que não há como dizer se as lesões encontradas no corpo de Iuri foram causadas por tortura. Mas ressalvou, repetindo o que já tinha sido dito em 1997, que não são características de troca de tiros.

Segundo Yared, as análises já feitas demonstram que não houve conflito e que os três mortos não tinham condições para um enfrentamento. “Todos sofreram disparos paralisantes. Têm lesões diversas. As coincidências são muito grandes para que o evento da morte tenha ocorrido em situação de conflito.”

A história de Alex é semelhante à do irmão. Segundo a versão oficial, teria sido morto durante tiroteio, em confronto com a polícia. Estava a bordo de um Fusca, na Avenida República do Líbano, no dia 20 de janeiro de 1972, quando foi parado e tentou escapar. Morreu ao lado de outro militante, Gelson Reicher.

Os dois tinham 22 anos e também foram enterrados como indigentes e com nomes falsos em Perus.

De acordo com pesquisas realizadas posteriormente pela Comissão de Mortos e Desaparecidos, Alex e Gelson foram vítimas de uma emboscada. Gelson recebeu dez tiros, três deles na cabeça. No caso de Alex, o médico legista Nelson Massini disse haver sinais de que foi preso com vida, torturado e morto.

O corpo de Alex foi foi trasladado para o Rio, juntamente com o irmão, em 1982.

O caso de Arnaldo, o marido de Iara, demorou mais. Seus restos mortais só foram exumados e examinados no ano passado por peritos da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, com o apoio da Comissão Nacional da Verdade. O novo laudo também indica que estava imobilizado e sem condições de oferecer resistência quando foi executado.

Iara ainda não pretende parar. Ela quer a mudança no registro das mortes e a punição dos agentes de Estado que teriam torturado seus familiares. “É importante identificar e punir os possíveis autores dos assassinatos”, disse ontem.

Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda

 

 

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    Roldão Arruda

    Roldão Arruda é jornalista e repórter da editoria de política do Estadão. Dedica-se sobretudo à cobertura de temas relacionados a direitos humanos e questões de movimentos sociais. Já trabalhou nos jornais Movimento e Folha de S. Paulo e na revista Veja. É autor do livro 'Dias de Ira'.

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