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A evasão: causa ou consequência?

Estadão.edu

27 janeiro 2014 | 11:58

Com muita propriedade o novo reitor da USP, professor Marco Antonio Zago, declarou em seu discurso de posse que uma de suas preocupações era o nível de evasão elevado que se observa nos cursos de graduação da USP.

A evasão tem sido objeto de estudo e publicações há mais de uma década pelo Instituto Lobo.

Como contribuição ao debate, reproduzo abaixo algumas observações muito pertinentes de especialistas no assunto. São pontos que temos defendido, mas que, sendo muito bem colocados por especialistas estrangeiros, ganham mais sabor. Voltaremos a comentar sobre esse tema tão importante.

1- Observações de Vincent Tinto professor da Universidade de Syracuse e especialista em estudos sobre a evasão:

 • “Temos observado o crescimento da indústria do combate à evasão para conseguir rápidos resultados para o problema. Embora este trabalho possa ter algum valor, é no trabalho dos professores e na capacidade da IES de construir uma comunidade educacional – que envolva ativamente o estudante na tarefa de aprender que deve nortear a ação das IES. O foco deve ser a educação dos estudantes não a redução da evasão em si. Um programa bem sucedido de educação é o segredo. É preciso dar ênfase na construção de um apoio social e educacional da comunidade que envolva os estudantes nas ações de aprender;

• Os docentes de nossas IES são os únicos professores, do jardim da infância para cima, que não foram treinados para ensinar; as pesquisas mostram que a frequência e a qualidade das interações dos estudantes com professores, funcionários e colegas é um dos principais indicadores não só da permanência, mas também do aprendizado estudantil; 

• Mais de metade das evasões têm origem real no primeiro ano de curso; 

• É preciso trabalhar para que nenhum estudante comece as aulas regulares tão atrasado em relação aos demais que sua integração no programa acadêmico regular seja impossível; 

• As IES deveriam considerar, seriamente, o estabelecimento de programas especiais para os novos alunos que sejam sob medida para atender às necessidades específicas desses ingressantes; 

• Os alunos devem estar envolvidos não só no seu aprendizado, mas no aprendizado dos colegas; Embora os estudantes citem freqüentemente razões financeiras para a evasão, estas, na verdade, refletem o produto final e não a origem da decisão de sair. Esta decisão decorre das prioridades conflitantes do estudante”.


2- Observações de Randi Levitz e Lee Noel, consultores em educação, que instituíram um prêmio para as melhores práticas de combate à evasão:

 • “Uma revolução está em ação em todas as IES – independentemente se são públicas ou privadas, universidades ou faculdades, na capital ou no interior – baseada no seguinte lema: o sucesso de uma IES e o sucesso de seus estudantes são inseparáveis;

• Outro lema atual: a persistência dos estudantes para completar seus cursos é um indicador fundamental para demonstrar a satisfação e o sucesso da IES. Não quer dizer que a persistência ou a permanência em si garantam o sucesso de um estudante, mas ela é o melhor indicador de que a IES está atingindo as metas de proporcionar a satisfação e o sucesso na educação de seus estudantes;

• A diminuição da evasão não é uma meta em si, mas é como a felicidade, em que não basta querer ser feliz, é preciso criar motivos para que a felicidade seja atingida. Quando os estudantes sentem que aprendem e estão felizes no campus, eles permanecem;

• A IES deve se programar para surpreender os estudantes em suas expectativas: estudantes não podem ser encarados como uma necessidade para exercer nosso trabalho, mas como o propósito dele;

• A adaptação às individualidades, em contraposição à padronização do início do século 20, é a característica de nossa época e não é diferente nas IES. É preciso, por isso, conhecer o estudante que está entrando na IES para prever a possibilidade de evasão antes que ela ocorra, as dificuldades acadêmicas antes delas ocorrerem e o estresse educacional preventivamente. Isto não significa levar eternamente o estudante pela mão, mas colocá-lo numa pista de aceleração;

• Além disso, é essencial reconhecer e incentivar a qualidade do ensino e os professores mais bem sucedidos”.