
Ator Marcos Palmeira em gravação pata TV Globo (Divulgação)
Emanuel Bomfim, no Rio
Na imensidão do Aterro do Flamengo, onde ocorre a Cúpula dos Povos na Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, a oferta por debates é impressionante. A cada tenda – ao todo são 50 – instituições, ONGs e setores da sociedade civil se organizam para ecoar reivindicações das mais diversas. Muitos dos espaços sofrem da falta da participação efetiva do público, em parte pela falta de clareza dos horários e assuntos das mesas ou mesmo pela incompatibilidade com temas tão áridos.
Este não foi um problema para tenda dedicada à causa dos índios Xavantes. Afinal, um dos palestrantes era o ator Marcos Palmeira. Quem passava pelo local, no mínimo, parava para tirar uma foto. Dezenas de jovens meninas se aglomeraram no entorno da arena para ver de perto o galã global.
Ele não estava ali por acaso, nem para benefício da própria imagem. Palmeira luta pela causa indígena há muitos anos, além de gerenciar uma fazenda de produtos orgânicos no interior do Rio de Janeiro com processos produtivos totalmente sustentáveis. “Quando é um problema dos índios demoram-se anos para resolver, já quando é dos fazendeiros, do agronegócio, é rapidinho”, esbravejou à reportagem do Estado.
Os índios Xavantes brigam para ter direito pleno à terra de origem, chamada Marãiwatsédé. É uma área de 165 mil hectares, localizada no município de Alto da Boa Vista, no Mato Grosso. Nos anos 60, eles foram retirados de lá pelo governo federal e “realocados” a 400 quilômetros ao sul de seu território. A mudança contribui para dizimar o povo Xavante em um terço. Pior: a região foi tomada por fazendeiros, grileiros e usineiros. Madeireiras ilegais também se instalaram, aumentando brutalmente o desmatamento na região amazônica.
Há vinte anos, justamente na Eco 92, representantes da multinacional italiana Agip Petroli, detentora de uma fazendas, se comprometeu verbalmente a devolver a terra aos Xavante. Seis anos mais tarde, um decreto presidencial homologou o território indígena. Ainda assim, nada de prático foi feito para que os índios pudessem reocupar a região. Em 2004, cerca de 500 deles ficaram acampados na BR-158 para reivindicar seus direitos, assegurados posteriormente em decisões do STF e da Justiça Federal. A ação mais recente é de dezembro de 2010.
“Eles não estão pedindo nada, só querem que a lei seja cumprida”, explicou o ator. Na Rio+20, os xavantes cobram da Funai e do governo do Mato Grosso a efetivação da saída dos posseiros ilegais.
Xingu

Cena de Xingu, do diretor Cao Hamburguer (Foto: Divulgação)
Questionado sobre a fraca recepção do longa Xingu, do diretor Cao Hamburguer, nos cinemas, Palmeira foi taxativo: “O filme tem um problema de roteiro. Não existe um conflito.” A opinião contrasta com a do produtor do filme, Fernando Meirelles. Para ele, a baixa bilheteria tinha uma origem endêmica e cultural. “Brasileiro não gosta de índio”, afirmou na época.
Palmeira, autor do documentário “Expedição A’Uwe, a Volta de Tsiwari”, discorda: “Eu acho que você não pode culpar as pessoas por não se interessar pelo filme, tem que refletir: ‘Será que realmente é um filme bom?’”.
“A gente perdeu espaço de contar uma bela história dos Villas-Boas e de entender um pouco mais deste universo do que são os índios brasileiros. É um filme que acaba dizendo que o parque está preservado, mas o Xingu está sendo totalmente destruído, oprimido. Parece meio para inglês ver.”
Ouça abaixo entrevista com ator:
Agência Brasil
Paralelamente à Rio+20, cerca de mil índios de várias etnias e países estarão reunidos para debater as questões que angustiam os chamados povos originais. Confirmaram presença representantes da Nigéria, do Japão e do Canadá, além dos brasileiros. Os índios ficarão em uma aldeia urbana denominada Kari-Oca, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio.
ESPECIAL: A cobertura da Rio+20
ARQUIVO: A Eco-92 nas páginas do ‘Estado’
Até o dia 22, os líderes indígenas deverão debater questões relativas ao meio ambiente e ao combate à pobreza. A Kari-Oca é formada por alojamentos, refeitório e cinco tendas para a discussão de temas e atividades culturais, além de duas ocas tradicionais de povos do Alto Xingu – erguidas com vigas de madeira levadas pelos índios.
A ideia é fazer uma reedição da Kari-Oca, como a que houve na Rio92. O objetivo é permitir que as sugestões apresentadas pelos líderes indígenas sejam analisadas pelos chefes de Estado e de Governo que se reunirão entre os dias 20 e 22. O documento final, a ser elaborado pelos índios, se baseará em três eixos: a cultura como parte essencial da economia verde, a soberania alimentar no mundo moderno e a sustentabilidade.
Em vários países latino-americanos, como o Equador e a Bolívia, os povos indígenas exercem forte influência nas decisões políticas e econômicas. Na Bolívia, por exemplo, é comum que os discursos públicos sejam feitos em espanhol e no idioma indígena predominante. O presidente boliviano, Evo Morales, sempre se dirige com destaque aos que chama de “povos originais”, em referência aos índios.
2012