Felipe Werneck – O Estado de S. Paulo
Em meio a muitas críticas de delegações e organizações não governamentais ao texto aprovado em plenária por volta das 13h desta terça-feira, 19, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, chefe da delegação brasileira na Rio+20, afirmou ao Estado, ao deixar a sala da conferência, que a negociação foi um “grande êxito” e classificou o documento como “estupendo”.
“Foi maravilhoso, todos gostaram do texto e apoiaram. Foi um grande êxito, você deve ter ouvido as palmas.” Ele afirmou que as resistências da delegação da União Europeia, que defendia um documento mais ambicioso, foram contornadas com “muito trabalho, muita negociação e muito esforço, buscando sempre um equilíbrio entre as posições e deu certo”.
“Isso é negociação, todos ganham, todos perdem. Encontramos um equilíbrio que foi suficiente para todo mundo”, concluiu.
De acordo com Rubens Harry Born, da organização Vitae Civilis, a delegação americana afirmou, nas considerações finais da plenária, que não aceitaria que nenhum ponto do texto negociado fosse aberto. Se algum item fosse modificado, principalmente à mudança em relação ao status do Pnuma, todo o documento teria de ser rediscutido.

Giovana Girardi, enviada especial ao Rio
As equipes de negociação finalmente aprovaram o documento oficial da Rio+20 que será enviado aos chefes de governo e Estado na quarta-feira, 20. O conteúdo do texto se manteve como o finalizado nesta madrugada pela delegação brasileira e entregue nest amanhã às demais delegações.
“É o melhor que conseguimos”, afirmou o secretário-geral da Rio+20, o chinês Sha Zukang, quando questionado se o documento tem força o suficiente para atingir os objetivos aos quais a Conferência da ONU para o Meio Ambiente se propõe.
De acordo com Nikhil Chandavarkar, chefe de comunicação do secretariado da ONU para a Rio+20, houve descontentamento de todos os lados. Ele, porém, disse “Habemus papa”, em alusão à famosa frase latina proferida quando um novo pontífice é escolhido – o que leva tempo e é basante esperado, como foi com o documento.
Segundo ele, isso significa que provavelmente não se mexerá mais no conteúdo. É assim que ele será encaminhando para os chefes de Estado na cúpula de alto nível, onde então será oficialmente aprovado.
Os líderes têm a prerrogativa de fazer alguma alteração se quiserem, mas o porta-voz estimou que isso talvez não aconteça. Os delegados dos países estão neste momento ainda em plenária, expressando as suas opiniões, insatisfações, quais pontos não gostaram, “mas ninguém quebrou o consenso”.
“Ao aceitar o documento, o país tem o direito de dizer em que ponto ficou decepcionado. Alguns, como os africanos e os europeus, disseram que queriam ver o apoio de um organismo mundial do meio ambiente, que o texto não tem. Mas os Estados Unidos apoiam o texto exatamente como está. Todo mundo aceita, mas num consenso sempre há infelicidade. Todo mundo está um pouco infeliz, mas aceita como está”, concluiu.
Segundo informações da Agência Brasil, no documento há claras recomendações para o fortalecimento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) citado por Chandavarkar, mas não se trata de indicações para que seja criado um órgão independente.
O ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que “todos estão igualmente insatisfeitos”, mas diz entender que este “é o único caminho para o acordo.”
Descontentamento
Para Marcelo Furtado, secretário-executivo do Greenpeace, o resultado foi “assustador” e traz retrocesso com relação às conquistas de 20 anos atrás. “Perdemos avanços que já tínhamos conquistado. Estamos assassinando o futuro das próximas gerações”, prevê.
O texto final gerou reações pouco positivas entre outras ONGs de defesa do meio ambiente, que consideram o documento fraco e incapaz de estabelecer compromissos concretos, segundo reportagem do Estado.
Herton Escobar, Giovana Girardi e Marta Salomon, do Rio
Reações iniciais ao texto apresentado na manhã desta terça-feira, 19, pelo Brasil como proposta para resultado da Rio+20 foram pouco positivas. “As únicas pessoas que estão felizes com essa conferência são os taxistas”, disse ao Estado a secretária-geral do WWF Brasil, Maria Cecília Wey de Brito. “Todo mundo está assumindo compromissos, menos os países que deveria assumi-los.”
O texto foi avaliado como mais fraco ainda do que o anterior. “Falta ambição em tudo”, disse o observador Carlos Rittl, também do WWF, que vem acompanhando as negociações desde o início. Segundo ele, na busca de um consenso, o Brasil optou pelo “mínimo denominador comum”, retirando todos os pontos de conflito do texto – e, com eles, todos os compromissos mais ambiciosos que havia dentro dele. “O único compromisso é o de continuar discutindo no futuro”, disse ao Estado.
“Todos estão igualmente insatisfeitos, mas entendendo que é o único caminho para o acordo”, afirmou ao Estado o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que prevê a aprovação do texto.
O documento, que o Brasil quer aprovar em definitivo ainda nesta terça, não traz nenhuma obrigação concreta de ação em favor do desenvolvimento sustentável. Neste momento está ocorrendo uma reunião plenária, fechada para a imprensa, em que os países estão manifestando suas opiniões sobre o texto. Segundo o relato de pessoas que estão dentro da sala, a União Europeia está extremamente insatisfeita, enquanto que um negociador americano disse para um diplomata brasileiro “good job” (bom trabalho).
Questões como a reafirmação dos princípios do Rio, ponto considerado crucial pelo governo brasileiro, tiveram o tom mais atenuado. Se antes se afirmava em reafirmar todos os princípios, inclusive o da Responsabilidade Comum, porém Diferenciada, agora ele é incluído “inter alia” ou entre outras coisas. Foi retirado também que a equidade serviria como a base de cooperação.
Um dos pontos mais criticados por ONGs que acompanham as discussões é a mudança das definições sobre as águas internacionais. “A única coisa sensata que estava na mesa de negociações até ontem à noite foi o lançamento de um Plano de Resgate dos Oceanos para as águas em alto mar”, disse Daniel Mittler, diretor de Políticas Públicas do Greenpeace Internacional, que acompanha os trabalhos no Riocentro. Para ele, a “a Rio+20 se transformou em um fracasso épico”, falhando nos “termos de equidade, de ecologia e de economia. Prometeram-nos ‘o futuro que queremos’, mas agora seremos unicamente uma máquina poluidora que vai cozinhar o planeta, esvaziar os oceanos e destruir as florestas tropicais.”
“A impressão é que o Brasil aceitou tudo que os Estados Unidos queriam”, disse ao Estado Matt Gianni, conselheiro politico da ONG Deep Sea Conservation Coalition.
Liana Leite, do Rio de Janeiro
Amanhã à noite o Brasil pode passar de anfitrião para dirigente da Rio + 20. O fato, segundo um porta-voz das Nações Unidas, acontecerá se os negociadores dos 193 países membros da ONU não concluírem o documento final com as metas do desenvolvimento sustentável até esta sexta-feira. Neste caso, as discussões continuarão sob o comando brasileiro. O fato, ainda segundo o porta-voz da ONU, tornará os diálogos mais políticos.
Com relação à visão da sociedade sobre a conferência, os organizadores dizem que uma das principais dificuldades é que as pessoas ainda veem a Rio+20 como um evento apenas de meio ambiente, quando na verdade, a reunião engloba também discussões políticas, sociais e econômicas.
Um outro entrave que a cidade fluminense enfrenta são os grande engarrafamentos para chegar e sair do Riocentro, o principal local de negociações da conferência. Para se ter uma ideia, da Zona Sul até os pavilhões, leva-se cerca de duas horas de carro.
Mas apesar da desorganização do tráfego, 20 anos depois da Eco-92, a população carioca e também os turistas voltaram a respirar a economia verde. Por todos os lados é possível escutar sotaques carregados e ver estrangeiros interessados em se interar mais sobre os eventos da Conferência.
2012