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Rio+20

A presidente Dilma Rousseff dá continuidade à série reuniões bilaterais iniciada na quarta-feira, 20, durante o primeiro dia da cúpula de chefes de Estado e governo da Rio+20. Nesta quinta, 21, ela se encontra com o presidente do Congo, Denis Sassou-Nguesso, e os primeiros-ministros da Austrália, Julia Gillard, da China, Wen Jiabao, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Na quarta, Dilma de reuniu com os presidentes François Hollande, da França; Macky Sall, do Senegal; e Goodluck Jonathan, da Nigéria. Ela recebeu 57 pedidos de encontro, mas apenas esses foram atendidos.

Estavam previstos também encontros com o presidente de El Salvador, Mauricio Funes, que é casado com a brasileira Vanda Pignato, ligada ao Partido dos Trabalhadores, com cerca de 50 representantes da União Africana, mas os compromissos não foram incluídos na primeira agenda de Dilma, que ainda pode ser alterada.

Dilma quer assegurar aos africanos que, assim como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quer manter uma relação privilegiada com a África, que está entre as prioridades da política externa brasileira. Desde que assumiu o governo, ela visitou Angola e Moçambique, mas pretende ampliar as viagens para outros países da região.

Os líderes africanos reiteram que pretendem fortalecer as relações com o Brasil e a América Latina, pois acreditam que os continentes têm semelhanças. Para os africanos, a globalização aproxima os países de tal maneira que há uma tendência também à ampliação da classe média na África, como ocorre no Brasil.

Uma das preocupações dos africanos é com o crescimento populacional, pois a estimativa é que em breve a África tenha 2 bilhões de habitantes. Eles querem desenvolver parcerias para implementar a agricultura tropical, aproveitando a geologia da região que é semelhante à do Brasil, e trocar experiências para a transferência de tecnologias.

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foto: Divers for Sharks

Paulina Chamorro, do Rio de Janeiro

A inclusão no rascunho zero do tema ‘Oceanos’, que vinha sendo comemorado por vários segmentos da sociedade, acabou ficando (assim como  outros temas), sem metas e com protocolares frases de intenções.

A presidente Dilma Roussef se referiu ao tema em seu discurso na abertura da Confêrencia das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável:

“Os oceanos requerem crescente atenção. A população de diversos países dependem de seus resursos. Devemos cuidar da biodiversidade marinha em alto –mar, dos estoques pesqueiros e dos impactos do clima sobre os oceanos.”

Mas a partir de quando, e como, não foi citado.

Conversei com José Truda Palazzo Jr., observador na Comissão Baleeira Internacional, que ajudou a criar a APA da Baleia Franca  no  sul do país e hoje está na coordenação da Divers For Sharks, no Brasil.

De língua afiada, Truda afirma que falta coragem ao governo para “para bater na mesa e exigir que sejam protegidos os oceanos”

Como você acha que ficou o  tema ‘Oceanos’ no rascunho  zero da Rio+20?

Como diria o Barão de Itararé, ‘de onde menos se espera, daí é que não sai nada’. Esperar que saia alguma coisa de bom na área ambiental deste desgoverno do Brasil é uma ilusão. Tivemos até uma ilusão que nossa delegação, que possui diplomatas muito competentes, pudesse fazer um trabalho melhor na área de oceanos, mas no final do dia o que conta é não fazer política ambiental neste país e muito menos uma orientação para que a gente se lute pela conservação marinha.

Nós temos uma ministra do Meio Ambiente que mentiu para sociedade civil que se ampliaria a conservação do Banco dos Abrolhos, que é o nosso maior patrimônio de biodiversidade marinha. Aqui dentro nós  estamos vendo se repetir uma falta de vértebra, uma falta de coragem de nosso governo para bater na mesa e exigir que sejam protegidos os oceanos, que são fundamentais para sobrevivência do planeta. Agora cabe a sociedade civil continuar brigando e denunciar esta bandalha que é a Rio+20, um desperdício de milhões, um desperdício de energia vergonhoso.

Colocaram ar condicionado para tendas abertas no Riocentro e de cada cimco pessoas, uma é segurança para impedir que sociedade civil possa se manifestar contra este crime que é essa reunião inútil, sem resultados. Cabe a gente continuar lutando.

 No Brasil temos pouquíssimas Unidades de Conservação Marinhas. Porque é difícil seguir exemplos?

A Austrália anunciou um plano  para deixar protegido um terço  de suas águas juridiscionais, sob alguma forma de Unidade de Conservação. Infelizmente nossos governantes não conseguem entender que países modernos, com economia forte, como é o caso da Austrália, querem e devem ter mais áreas de proteção para sustentar essa economia forte.

Nós continuamos destruindo nosso capital natural com uma mentalidade de desenvolvimento da União Soviética dos anos 50, tentando acabar com a pobreza acabando com o  país. Isso não vai dar certo. Nós temos que nos espelhar em exemplos como a Australia, deixar de olhar para países falidos e olhar para países do hemisfério sul, como a África do sul e outros que aprenderam a crescer preservando o meio ambiente.

 

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Herton Escobar, enviado especial ao Rio

“Quem exige ambição de ação e não põe dinheiro na mesa está sendo no mínimo incoerente”, disse agora há pouco o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, que chefiou as negociações diplomáticas do Brasil na Rio+20. Foi uma resposta, em entrevista coletiva, às críticas feitas por representantes de vários países, que classificaram o documento aprovado ontem para a conferência de pouco ambicioso – apesar de terem concordado com ele no final. “Não se pode exigir ambição de ação se não houver ambição de financiamento”, disse Figueiredo. A falta de exigência de novos recursos financeiros para o desenvolvimento sustentável é apontada como um dos pontos mais fracos do documento.

Algumas horas antes, também em entrevista coletiva, até o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, disse que gostaria de ter visto um documento mais ambicioso.

Diante de tantas expressões de descontentamento, a principal dúvida no Riocentro hoje era se o documento ainda poderia ser reaberto para mais negociações e eventuais modificações antes do fim da conferência. Figueiredo disse, enfaticamente, que não há essa possibilidade – apesar de ela existir “teoricamente”, já que o documento só será adotado formalmente na plenária final de sexta-feira. “Esse é o texto”, decretou Figueiredo. “Já foi negociado, já está fechado.”

Ban Ki-Moon não foi tão enfático em sua entrevista, dizendo que a decisão final sobre o documento seria dos países. “Essa é a resposta natural dele”, argumentou Figueiredo. “Ele é o secretário-geral da ONU. O papel dele é dizer que o que os países querem vai ser feito.”

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que também participou da coletiva, defendeu o documento, listando várias conquistas presentes no texto. Entre elas, o início do processo que levará à criação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a reafirmação dos princípios da Rio-92, em especial o das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. “Muitos países queriam rever legados de 1992”, afirmou. A Rio+20, segundo ela, é “uma conferência de partida, que define novos caminhos” para o desenvolvimento sustentável.

ABROLHOS. Izabella ressaltou também a atenção dada no texto ao tema dos oceanos. Em relação a isso, a reportagem do Estado questionou porque o Brasil não criava mais áreas de conservação marinha no País. Havia uma grande expectativa antes da conferência, por exemplo, de que novas áreas protegidas seriam criadas no Banco dos Abrolhos, entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo. Semanas antes da Rio+20, audiências públicas foram convocadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para debater um projeto de criação de uma rede de áreas protegidas na região, mas houve confusão e as audiências foram suspensas.

Izabella se irritou com a pergunta e disse que unidades marinhas serão criadas quando tiverem “estudos bem feitos” para justificá-las. “Projeto ruim não passa mais”, disse. Especificamente sobre Abrolhos, disse que os governos estaduais e outras instituições pediram estudos mais detalhados sobre os projetos.

“O Brasil se dedicou muito para ter uma referência a oceanos no documento”, defendeu a ministra. “Foi uma prioridade do Brasil (nas negociações).”

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Sergio Torres, do Rio

O presidente da Coreia, Lee Myung-bak, em rápido pronunciamento na sessão plenária dos chefes de Estado na Conferência Rio+20, disse que seu país busca “um novo caminho” , que propicie “um modelo de desenvolvimento” centrado em sustentabilidade e “crescimento verde”.

Esse novo modelo faz parte de um plano de cinco anos, que inclui a indústria coreana, o setor financeiro, a agricultura, a ciência e a tecnologia, anunciou o presidente no discurso.

O emprego de energia renovável, “nosso foco e alvo”, é um dos destaques do plano, afirmou Myung-bak. O objetivo, acrescentou, é preparar a Coreia para o período de mudanças climáticas que o planeta enfrentará nos próximos 200 anos.

“A política verde que estamos implantando impulsiona a geração de empregos e desenvolve a infraestrutura. É uma estratégia inclusiva, e tem o apoio da sociedade internacional. O desenvolvimento sustentável da Coreia se dará pelo crescimento verde. Isso nos move para o futuro que queremos”, concluiu ele.

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Herton Escobar e Giovana Girardi, enviados especiais ao Rio

A presidente Dilma Rousseff abriu oficialmente há pouco a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, pedindo audácia e coragem aos representantes dos 193 países presentes à cúpula para conduzir o mundo para as mudanças necessárias para atingir o desenvolvimento sustentável.

Dilma reforçou a posição brasileira desde o início das negociações de que o foco tem de ser no ser humano e na manutenção em especial do princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. E mais uma vez ressaltou que o mais importante passo dessa mudança será a erradicação da pobreza.

A presidente lamentou que no processo final de negociação do documento “O Futuro que Queremos”, que durou do dia 13 até ontem de madrugada, não foi possível determinar novos recursos para isso. “A promessa de financiamento do mundo desenvolvido para o mundo em desenvolvimento com vistas à adaptação e mitigação ainda não se materializou, apesar do esforço de algumas nações. Os compromisso de Kyoto não foram atingidos. O princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, consagrado na Rio-92, tem sido recusado na prática, sem ele não há consenso possível sobre mundo mais justo e possível.”

Dilma disse ainda que “o Brasil reconhece que há várias conquistas de 92 que ainda permanecem no papel”. E pediu aos presentes: “Temos responsabilidades para mudar esse quadro”. A crise financeira e as “incertezas que pairam sobre futuro”, afirma a presidente, “dão significação especial para a Rio+20”, uma vez que os modelos de desenvolvimento atuais “esgotaram a capacidade de responder aos desafios contemporâneos”.

Ela admitiu que neste cenário “é forte a tentação de tornar absolutos os interesses nacional”, mas também clamou aos líderes para que isso não aconteça.

“Sabemos que o desenvolvimento sustentável é a melhor resposta para a mudança de clima. Implica crescimento da economia para que se possa reduzir pobreza, significa criação de emprego, distribuição de renda, significa garantir acesso à educação, saúde, significa tornar nossas cidades cada vez mais sustentáveis, reduzir desmatamento, usar de modo sustentável a biodiversidade, proteger rios e florestas, gerar energia limpa.”

Disse que a conferência tem de gerar compromissos firmes para o desenvolvimento sustentável e que os líderes têm de ser ambiciosos.

O texto aprovado ontem pelos delegados, disse, acima de tudo traz a decisão de não retroceder de nenhuma forma os compromissos assumidos em 92, mas que também consagra avanços importantes, como o objetivo de erradicação da pobreza, a adotação dos objetivos do desenvolvimento sustentável, “que darão foco e orientação aos nossos esforços coletivos”. Mencionou ainda a criação do fórum de alto nível, de caráter universal, para acompanhar implementação dos ODS, o fortalecimento do Pnuma, “que sai da Rio+20 dotado de melhores condições para exercer sua função”, e o programação de 10 anos para promoção de padrões sustentáveis de produção e consumo.

“O Futuro que Queremos não se construirá por si mesmo, estamos no limiar de um momento, que exigirá mais dedicação, mais responsabilidade. Caberá a nós demostramos capacidade de liderar e agir. Temos plena consciência que o futuro das próximas geração depende de nossas decisões.”

Logo depois de Dilma, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, elogiou o documento produzido pelos diplomatas na Rio+20. “Fizemos história esta semana”, disse. “As negociações foram longas e duras, muito difíceis, mas fizemos progressos significativos, especialmente nos estágios finais.”

Ao mesmo tempo, Moon cobrou  urgência dos governantes. “Não podemos esquecer que tempo é o recurso mais escasso de todos. Estamos ficando sem tempo”, disse. “Agora é a hora de tomar o grande passe final. Temos de dar sequência à Rio+20 com compromissos e ações fortes. Agora é a hora de agir.”

 

 

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Emanuel Bomfim, do Rio

Em entrevista coletiva após abertura da Rio+20, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban ki-moon, afirmou que esperava um documento final mais ambicioso. “Vocês precisam levar em conta que as negociações foram muito difíceis e demoradas. O documento serve para reafirmar as políticas dos líderes mundiais. O mais importante é que o documento tenha recomendações que sejam colocadas em prática por eles. Tenho dito que este não é o fim, mas o início de muitos processos que ainda virão”, destacou.

Ban Ki-moon ainda ressaltou a importância dos líderes assumirem compromissos firmes com uma política ambiental a partir de agora e alertou sobre a necessidade de tomar medidas emergenciais. “Estamos em um caminho perigoso. A natureza não negocia com os seres humanos. Nós temos recursos limitados em nosso planeta.”

Para secretário da ONU, um dos legados da Rio+20 será seu potencial catalisador de mudanças globais. Ban ainda parabenizou o Brasil na condução das negociacões e acordo no texto final entregue a todos os chefes de Estado, mas lamentou os poucos avanços na área ambiental nos últimos vinte anos.

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Estrela do ecoativismo, Vandana Shiva critica Rio+20

Roberta Pennafort/RIO

A física indiana Vandana Shiva é uma estrela global do ecoativismo. Autora de mais de 20 livros e de 500 publicações acadêmicas, fundadora de um movimento feminino para a proteção da biodiversidade, ela viaja o mundo pregando contra a exploração do homem pelo homem e o patenteamento de recursos da natureza, em especial as sementes.

Vandana está no Rio depois de 20 anos para mais uma tentativa de ajudar a salvar o planeta. Mas não é nas mesas de negociação que deposita suas esperanças, e sim na força da solidariedade humana.

Ontem à tarde, fez um discurso contundente criticando a Rio+20 ao participar damesa “Mulheres e o Desenvolvimento Sustentável – Liderando o Caminho”, organizada pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade em evento paralelo à conferência.

A senhora fica desanimada quando vê que questões como agricultura familiar e erradicação da pobreza extrema provavelmente ficarão de fora do documento final da Rio+20?
Vim sem grande expectativa com relação à conferência formal. Não é por que o documento não vai falar dessas causas que a luta das pessoas vai diminuir. Não vim atrás de um texto, e sim atrás da solidariedade. A vida não é um documento, é a preservação dos nossos rios e sementes; verde não é a cor do dinheiro, é a cor da vida. Confio muito mais na força das pessoas do que nas negociações, que são influenciadas pelas grandes corporações. Existe uma grande reunião de quem está preocupado com a paz e a justiça, o que nos permite pensar estratégias juntos. Em 92, podíamos entrar nos corredores e interferir, por isso chegamos a compromissos sobre o clima. Retrocedemos. Assim como as corporações
estão comprando nossos governos, estão comprando a ONU. A Rio+20 será lembrada como a última tentativa das grandes corporações de desfazer as obrigações legais estabelecidas na Eco 92.

O que o cidadão comum pode fazer?
Todo mundo tem que declarar que o patenteamento das sementes é ilegal e imoral. A Monsanto (gigante da agroindústria, produtora líder de sementes geneticamente modificadas) não inventou as sementes, e patentes são dadas a invenções. Como governos deixam que eles cobrem royalties de fazendeiros, levando-os ao suicídio? O meu chamado às pessoas em todo o mundo é para o dia 2 de outubro, aniversário de Gandhi: Diga não ao patenteamento. Comecem a guardar sementes. Não importa se você não é um fazendeiro, faça em casa, na escola.

A senhora costuma ser criticada por defender metas consideradas inatingíveis, desconectadas da realidade capitalista. Como responde a isso?
É porque estou conectada com a realidade que ajo assim. Se não fosse, investiria em Wall Street enquanto eles quebram, acharia que as sementes foram criadas por uma empresa. Estamos vivendo num mundo em que os poderosos acham que a alucinação deles é a realidade. Para mim, a realidade é a da criança que morre de fome.

A senhora critica o crescimento econômico da Índia, por excluir 95% da população, mas crescimento econômico é o que todos os países perseguem. O que está errado?
Crescimento econômico é um indicador de quanto a natureza foi destruída. Nós temos que priorizar o bem-estar, e não o crescimento. Existe um ditado antigo que diz que quem tem o ouro escreve as regras, e quem escreve as regras recebe mais ouro. Meu país, em 1992, não tinha um problema grave de fome. Hoje, uma a cada duas crianças procura
comida no lixo. Por quê? Porque comida se transformou numa commodity. A sociedade era muito mais igualitária antes do crescimento econômico, que só serviu para criar dez bilionários. Dizem que existe uma classe média em países como Índia e Brasil, mas para mim existe uma elite e uma grande parcela da população que acaba despossuída de seus recursos
naturais.

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Fernando Dantas, do Rio

Diversos chefes de Estado (ou seus representantes) iniciaram na manhã desta quarta-feira, 20, a maratona de discursos da Cúpula de Alto Nível da Rio+20. Um destaque polêmico foram as palavras de Robert Mugabe, 88 anos, presidente do Zimbabwe, cuja governo iniciado em 1980 é amplamente considerado como um dos regimes mais despóticos e desastrosos do mundo.

Em seu discurso, Mugabe pediu a reforma da arquitetura financeira internacional na esteira da grande crise global de 2008 e 2009, queixou-se do protecionismo e demandou mais recursos aos países ricos para viabilizar o cumprimento dos Objetivos do Milênio até 2015.

“Não podemos deixar esta conferência entrar para história como uma das que prometem muito e entregam pouco”, disse o presidente do Zimbabwe.

Outros discursos já realizados são os do Sri Lanka, Sudão, Argélia, Tuvalu e Nepal. Como são todos países em desenvolvimento, um tema constante dos pronunciamentos foi o da cobrança do cumprimento pelos países ricos dos compromissos assumidos desde a  Rio 92 em termos de suporte financeiro e transferência de tecnologia.

 

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Tânia Monteiro – O Estado de S. Paulo

No discurso que irá proferir na tarde desta quarta-feira, 20, na abertura protocolar da Rio+20, no Riocentro, a presidente Dilma Rousseff vai destacar a necessidade de planejamento de longo prazo e da união de esforços para que se possa assegurar um planeta mais sustentável.

Na avaliação da presidente Dilma, as crises têm tirado a capacidade de planejamentos de longo prazo dos governos, já que todos acabam obrigados a tentar resolver os problemas imediatos, deixando o futuro de lado.

Em sua fala, Dilma vai aproveitar para comemorar os avanços obtidos com o texto, considerado o possível. Ao destacar estes avanços no texto, a presidente ela pretende repetir o seu discurso de que o desenvolvimento sustentável se faz por meio da erradição da miséria e da inclusão social. A ideia da presidente em sua fala na abertura oficial do encontro é usar um tom conciliador, com objetivo de acabar com as polêmicas que prevaleceram durante a elaboração do documento final, sugerindo que seria impossível se chegar a um acordo em relação aos principais temas. Por isso a presidenta pretende falar em consenso possível e ressaltar que ele representa um avanço e uma vitória para o grupo.

Dilma, que chegou ao Brasil, na madrugada desta quarta-feira, proveniente do México, onde participou da reunião do G-20, demonstrou grande cansaço com a viagem, mas fez questão de participar da cerimônia de abertura oficial da Rio +20, no Riocentro, na manha de hoje, quando foi eleita para presidir a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Depois de fazer um breve discurso aos representantes da reunião, agradecendo a sua eleição, quando disse estar certa de que a Rio+20 atingirá seus objetivos, a presidente Dilma voltou para o hotel Windsor, onde está hospedada.

Agenda

Às 13 horas, a presidente brasileira tem um almoço com o presidente da República da França, Françoise Hollande. Mas Hollande não será o único presidente a ter reunião bilateral com ela. Após a fotografia oficial do encontro e a cerimônia de abertura protocolar do encontro, a presidente Dilma terá mais duas bilaterais: com o presidente do Senegal, Macky Sall e com o da Nigéria, Goodluck Jonathan, ambas em seu gabinete, no Riocentro.

Com estes encontros com os africanos, que inclusive participarão de um jantar com Dilma e o ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva amanhã e os representantes dos países africanos, ela quer sinalizar que o governo continua atento às necessidades daquela região e que pretende continuar com a proximidade iniciada por Lula.

Quase 60 países pediram para realizar reuniões bilaterais com Dilma. Mas, como não há tempo hábil, a presidente vai se reunir com pouco menos de dez deles. Ainda entrará na agenda El Salvador e Turquia. Não há previsão de a presidente Dilma se encontrar reservadamente com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que chegou ao Rio na terça-feira, sob forte esquema de segurança.

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Herton Escobar – O Estado de S. Paulo

Organizações não-governamentais (ONGs), descontentes com o resultados da Rio+20 até agora, querem que a expressão “com plena participação da sociedade civil” seja removida do parágrafo introdutório do documento-base da conferência, aprovado na terça-feira, 19, por diplomatas. “As ONGs não apoiam esse texto de maneira nenhuma”, disse Wael Hmaidan, da Climate Action Network International, que discursou em nome do chamado Major Group de organizações sociais na abertura da sessão de alto nível da conferência.

O documento aprovado, intitulado O Futuro que Queremos, está “totalmente fora de contato com a realidade”, segundo ele. “Exigimos que as palavras ‘com plena participação da sociedade civil’ sejam removidas do texto”, disse Hmaidan, para uma audiência que incluía vários ministros, presidentes e outros chefes de Estado. Uma petição online, até agora assinada por mais de 35 ONGs (incluindo duas brasileiras: Vitae Civilis e Idec), critica o processo de negociação da ONU e pede mais participação da sociedade civil nas decisões.

“Queremos que os governos forneçam ao povo sua legítima agenda e a realização dos seus direitos, da democracia e da sustentabilidade, bem como o respeito pela transparência, responsabilidade e que honrem as promessas e progressos feitos até hoje. Infelizmente, o tempo está se esgotando. Um acordo apressado e ineficiente não será aceitável para nós, nem representará o futuro que todos queremos”, diz a petição, que pode ser acessada no site http://www.ipetitions.com/petition/the-future-we-dont-want.

A frase que as ONGs querem alterar é o primeiro parágrafo do documento que descreverá os resultados da Rio+20, se aprovado formalmente pelos chefes de Estado ao final da conferência, na sexta-feira. Ele diz: “Nós, chefes de Estado e de Governos e representantes de alto escalão, tendo nos reunido no Rio de Janeiro, Brasil, de 20 a 22 de junho de 2012, com plena participação da sociedade civil, renovamos nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável e com assegurar a promoção de um futuro economicamente, socialmente e ambientalmente sustentável para o nosso planeta e para as gerações presentes e futuras” (tradução livre).

Aron Belinky, coordenador de processos internacionais da ONG Vitae Civilis, que acompanha as negociações da Rio+20 desde o início, concorda com a posição de Hmaidan. “A sociedade teve alguma participação, mas muito longe do necessário, no sentido de trazer as expectativas da sociedade para dentro das discussões da ONU”, disse ele ao Estado. “Basta ver a distância enorme que existe entre as demandas da Cúpula dos Povos e o que está escrito no documento final. Basta ver que a última rodada de negociações ocorreu a portas fechadas”, completou Belinky.

Normalmente, observadores credenciados da sociedade civil podem entrar nas salas de negociação – que são fechadas, inclusive, para a imprensa. Mas isso não ocorreu na etapa final de negociação, coordenada pelo Brasil, que ocorreu em caráter “informal”, após o encerramento das negociações formais. “Dizer que a sociedade teve participação plena na formulação do documento é uma mentira”, afirma Belinky.

Procurado pelo Estado, o Ministério de Relações Exteriores avaliou que, apesar da manifestação de descontentamento com o resultado final da conferência, é difícil negar que a sociedade civil tenha participado nas negociações da declaração final da Rio+20. O Itamaraty, por meio do porta-voz, reiterou que houve um esforço dos negociadores de abrir espaço à participação da sociedade civil, desde as consultas públicas.

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