por Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
A Rio+20 terminou ontem marcada por um abismo entre as expectativas da sociedade civil e o que os governos e seus diplomatas foram capaz de produzir politicamente. O documento final da conferência, batizado oficialmente de O Futuro que Queremos – e apelidado de O Futuro que Não Queremos – foi aprovado às 19h20, em sessão plenária, sem objeções por parte dos delegados presentes.
A aprovação foi aplaudida de forma protocolar. Apenas uma parte dos presentes se levantou para aplaudir. O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, que presidia a mesa, abriu um largo sorriso e levantou as mãos em comemoração com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, sentado ao seu lado.
“Lançamos a base de uma agenda para o século 21”, disse a presidente Dilma Rousseff, que encerrou a conferência com um discurso por volta das 20h30. “Um passo foi dado no sentido de um mundo mais justo.” Ela disse que a conferência era um “ponto de partida” e que cabia a cada país, agora, implementar ações e ir além do que está previsto no documento. Aproveitou para anunciar – sem maiores detalhes – que o Brasil dará US$ 6 milhões para países em desenvolvimento e US$ 10 milhões para o “enfrentamento das mudanças climáticas em países pobres da África e pequenas ilhas”.
A falta de compromissos financeiros foi um dos pontos mais criticados do documento, descrito como fraco e pouco ambicioso pela sociedade civil e até por várias das delegações que concordaram com o texto final, costurado pela diplomacia brasileira na madrugada de terça-feira, após um longa sequência de negociações pouco produtivas. “Foi o texto possível”, foi a frase mais usada nos últimos dias. Os negociadores brasileiros tiveram sucesso em produzir um texto de consenso, mas para isso tiraram do documento vários pontos polêmicos que eram considerados essenciais para dar significado prático às decisões.
O documento final, com 49 páginas e 283 parágrafos, levanta uma série de problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável e aponta caminhos para solucioná-los, mas carece de medidas práticas de implementação. A maioria das decisões efetivas são postergadas para 2015 (mais informações na pág. 2). “Agora começa o trabalho”, disse Ban Ki-moon. “O caminho a frente é longo e difícil.”
A aprovação já era esperada. O Brasil pressionou fortemente para que o texto fosse “fechado” já na terça-feira, antes da chegada dos chefes de Estado ao Rio. Nesse sentido, os três dias da reunião de alta cúpula serviram apenas como um palanque de discursos, em que representantes dos 193 países-membros da ONU falaram (muito além do limite de cinco minutos) sobre o comprometimento de seus países com o desenvolvimento sustentável. Na prática, não havia mais nada para ser decidido.
Só depois que Figueiredo bateu o martelo, adotando oficialmente o documento, alguns países pediram a palavra para expressar suas opiniões. “Apoiamos a adoção deste documento”, disse o comissário da União Europeia para o Meio Ambiente, Janez Potocnik, que ainda na madrugada de terça-feira mostrava indignação com a pressa do Brasil em fechar um documento que ele considerava fraco. “Todos sabem que há muitas áreas nas quais gostaríamos de ter atingido resultados mais ambiciosos”, disse. Em seguida, apontou alguns pontos positivos do texto, como o reconhecimento da economia verde como um componente essencial do desenvolvimento sustentável. “É um passo na direção certa”, disse. “Agora precisamos transformar nossas palavras em ações.”
A definição de economia verde foi um dos pontos mais polêmicos da conferência. Vários países em desenvolvimento temem que o conceito seja usado como uma camisa de força econômica por parte dos países ricos, para controlar o desenvolvimento dos pobres. “A Bolívia rechaça a economia verde”, disse o representante da Bolívia. Outros países ditos “bolivarianos”, como Cuba e Venezuela, chegaram a classificar a economia verde como uma forma de “ecocolonialismo” e “capitalismo ambiental”.
Um representante da Argélia, falando em nome do Grupo dos 77 + China (que representa mais de 130 países em desenvolvimento, incluindo o Brasil), fez discurso semelhante ao dos europeus. “Ainda que algumas propostas do grupo não tenham sido mantidas, o caráter balanceado do documento abre novos caminhos para chegar a um consenso sobre certas áreas”, disse. “A maior conquista é a reafirmação da diplomacia multilateral como melhor caminho para conquistar o futuro que queremos.”
Para representantes da sociedade civil, os resultados ficaram muito abaixo do esperado. “Nós cobramos compromissos e ações urgentes. Eles nos entregaram omissão e inércia. Deram as costas para os problemas do mundo e principalmente das populações mais vulneráveis”, disse Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace Brasil, e nota divulgada ao fim da conferência. “Nossos líderes se mostraram menores do que os problemas que temos de enfrentar.”
“Frustração”, foi o que Carlos Rittl, do WWF Brasil, me disse estar sentindo logo após Figueiredo bater o martelo. “A distância entre o que eles discursam e o que eles fazem na prática é gigantesca”, disse. “Todos os discursos falam da urgência da situação, da necessidade de ouvir a ciência. Mas o documento, na prática, não contém nada disso. A urgência não existe, e a ciência não é ouvida.”
Bruno Deiro, do Rio de Janeiro
Em meio às manifestações ambientais, um grupo de quatro participantes paraguaios subiu ao palco principal da Cúpula dos Povos para protestar contra a ameaça de impeachmant do presidente Fernando Lugo.
“Estão pondo em risco um processo democrático que iniciou em 2008, com a saída do Partido Colorado do poder. É um golpe de Estado, não queremos mais ditaduras na América do Sul”, afirmou um dos manifestantes. “Fazemos um chamado a todo o mundo para o momento de incertezas que vive nosso país.”
Daniella Gemignani, Natália Picanço e Pedro Corralles*, especial para o estadao.com.br
Na Cúpula dos Povos, não são apenas ONGs e movimentos que encontram meios de protestar. Alguns usam arte e vestimentas como maneira de demonstrar seus ideais a favor do meio ambiente. Esses artistas não se limitam apenas à Conferência. Todos passam suas mensagens no dia a dia entre ruas, escolas ou qualquer outro lugar onde há espaço para falarem sobre suas causas.
Mulher Bambu e Preto de Linha
Por meio do funk, o casal compõe letras educativas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. A atriz Cláudia Lomeu, que representa a Mulher Bambu, e seu marido, o autor Preto de Linha, acreditam que esse tipo de música é uma forma de chamar a atenção dos jovens para os problemas atuais. A divulgação acontece, principalmente, pelo canal do YouTube e em eventos escolares. “As músicas são sobre conscientização e meio ambiente, pois as crianças de hoje em dia estão carentes de músicas com letras decentes e o funk é uma maneira de chamar a atenção delas,“ comenta a atriz.
Poeta
O ator Nélio Fernando utilizou a poesia para se expressar. Por meio de um “Cardápio de Poesias”, todas escolhidas em função de seus conteúdos sociais, ambientais e psicológicos, o ator as declama para os passantes da Cúpula dos Povos. “Em todos os poemas quero ressaltar as relações humanas,” diz o poeta.
Estátua Viva
Denis Ribeiro de Oliveira é o personagem há oito anos “O Moço da Floresta”, uma estátua que recolhe o papel jogado nas ruas e na floresta e o transforma em flores. “Represento a natureza aqui na Rio+20, e também a levo para as ruas, no meio da cidade, para lembrar às pessoas a importância do meio ambiente“, Denis comenta.
Homem Planta
José Geraldo da Silva encarna a Amazônia em suas roupas, que além de plantas, conta com brinquedos para completar sua vestimenta. Para ele, devemos proteger a floresta como se estivéssemos protegendo nossa própria vida.
“Estou querendo mostrar o meu carinho pela natureza, pois acredito que amá-la faz bem ao coração,” são palavras de José Geraldo.
Etiqueta Bioagradável
A personagem, também conhecida por “Clemetida Bioagradável”, protesta junto com o grupo IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), contra a ausência de etiquetas veiculares de eficiência energética. “Essas etiquetas estão presentes em geladeiras e ar condicionados, e os carros precisam ser etiquetados para mostrar o quanto gases poluentes emitem”, comenta. Assim, os consumidores poderiam escolher seus carros de maneira mais ecológica. “Clemetida” contracena com um homem vestido de carro que interpreta seu parceiro amoroso. A história é de um relacionamento complicado do casal, pois o veículo não quer se comprometer com a etiqueta.
*Alunos do curso de Jornalismo da ESPM-SP que participam da cobertura da Rio+20
Nicole Coimbra, Gabriel Garcia e Daniella Gemignani*, especial para o estadao.com.br
A desigualdade entre homens e mulheres na América Latina foi tema de um debate na última terça-feira, 20, na Arena Socioambiental no MAM. “Sem relações solidárias entre raças e gêneros, não há sustentabilidade. É necessário haver um esforço de emancipação”, afirmou Sueli Carneiro, ativista anti-racismo do movimento social negro brasileiro.
Estudos mostram que a mulher trabalha mais e ganha menos, como revela uma pesquisa sobre a desigualdade no mercado de trabalho, apresentada pelo representante da Comissão Econômica da América Latina e do Caribe (CEPAL), Antonio Prado. Os dados apontam que as horas remuneradas das mulheres são menores que as dos homens e os números de horas não remuneradas são maiores do que a dos homens. Isso mostra que a mulher trabalha mais do que o homem, chegando a 86 horas semanais em alguns países. Além disso, as mulheres têm mais anos de estudo do que os homens, mas ganham, geralmente, menos do que eles. Prado deu relevância à necessidade da atuação do Estado: “O indivíduo não pode sair sozinho do círculo de pobreza. Políticas sociais fortes devem agir para isso acontecer”.
A discussão começou por skype, com Roselita da Costa, agricultora e dirigente sindical de Borborema, Paraíba. Ela ressaltou que o assunto não pode ser discutido sem citar “a violência contra a mulher”.
Sueli Carneiro lemboru que as mulheres negras e indígenas são duplamente discriminadas enfrentando exclusão social, racial e sexual. De acordo com a ativista, a melhor formas de reduzir a desigualdade é por meio de políticas públicas de promoção social e da rigorosa punição do racismo.
Posteriormente, Sonia Malheiros, da Secretaria de Política para as Mulheres, destacou a importância do “Draft Zero” aprovado na Rio+20. Segundo ela, o documento, apesar de não ter satisfeito todos os países signatários, é importante por ser um grande passo na luta contra a desigualdade. Também comentou sobre a relevância da discussão interna do assunto. “É muito importante que essas questões sociais sejam fortalecidas dentro dos países para que cheguem às conferências internacionais. Isso porque, países antidemocráticos não vão levar, ou entender, o racismo e a desigualdade como assuntos importantes para serem trazidos nesse tipo de discussão”, enfatizou.
Já Maria de Rocio García Gaitan, presidente da Comissão Interamericana da Mulher, falou sobre a importância cada vez maior do desenvolvimento sustentável na América Latina. Para a mexicana, a economia verde é um elemento impulsionador da economia mundial e as mulheres devem participar dele com condições de igualdade. “Hoje nos encontramos diante do desafio de arranjar soluções para o desenvolvimento humano. Não devemos ver isso como um problema, mas como uma oportunidade de alavancar o emprego e a autonomia das mulheres”, propõe Maria Gaitan.
A última convidada foi Rebeca Tavares, da ONU Mulheres, Brasil, que se dedica há mais de 20 anos ao tema “justiça social”. Para ela, o fechamento da lacuna entre homens e mulheres no mercado de trabalho aumentaria inclusive o PIB do país, chegando a 13% de elevação nos países da Europa. Para Rebeca, “a questão da igualdade de gêneros faz parte do tema do Desenvolvimento Sustentável. As mulheres são um novo paradigma para a sustentabilidade. Elas são imprescindíveis para gerar um mundo sustentável”.
*Alunos do curso de Jornalismo da ESPM-SP que participam da cobertura da Rio+20
Herton Escobar, enviado especial ao Rio
O fracasso da Rio+20 não pode ser atribuído exclusivamente ao Brasil nem à ONU. Mas a postura “desesperada” do Brasil de “fechar um documento a qualquer custo” colocou a conferência no rumo do “menor denominador comum”, na opinião do sul-africano Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional.
Ele foi um dos 36 representantes da Cúpula dos Povos (evento paralelo à Rio+20 que ocorre no Aterro do Flamengo) que se encontrou com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, nesta sexta-feira, 22, de manhã no Riocentro. A ONU vetou a entrada de jornalistas e fiz um cordão de isolamento na frente da sala, para evitar que Ban fosse abordado na saída. Ele saiu sem falar com a imprensa.
Segundo relatos de Naidoo e outras pessoas que estavam na sala, Ban ouviu as preocupações com o “fracasso” da conferência, mas manteve o discurso de que os resultados da Rio+20 são significativos e ambiciosos. Anteontem, Ban havia dito em entrevista coletiva que concordava com a percepção geral de que o documento final da conferência poderia ser mais ambicioso. Ontem, porém, voltou atrás e mudou o discurso, após ser pressionado pelo Brasil.
Sharan Burrow, secretária-geral da International Trade Union Confederation, se mostrou indignada com a “falta de coragem” dos chefes de Estado de negociar um documento mais ambicioso, aceitando o texto “sem conteúdo” produzido pelos “burocratas”. “Sinto-me profundamente irritada e frustrada”, disse.
Desde quarta-feira, chefes de Estado dos 193 países-membros da ONU se revezam num pódio do Riocentro, um após o outro, para discursar sobre o que o seu país pensa do desenvolvimento sustentável. Na maioria dos casos, falam para uma plenária quase que vazia, discursando apenas para a televisão e para os arquivos da ONU. Como o documento final da Rio+20 já está fechado desde terça-feira, a conferência ficou quase que sem nada para resolver nesses últimos três dias.
“Os líderes chegam aqui para uma cúpula de três dias, com um texto sobre a mesa que não tem ambição nenhuma, e não passam nem uma hora que seja discutindo o texto”, criticou Naidoo, lembrando que as viagens das comitivas são pagas com dinheiro público.
A conferência está agendada para terminar esta tarde, com uma sessão plenária na qual serão aprovados (ou não) os documentos negociados nos últimos dias. O principal deles, chamado O Futuro que Queremos, criticado pelas ONGs, foi costurado pela diplomacia brasileira. Ele poderia ter sido negociado até o último minuto da conferência, mas o Brasil pressionou para que o documento fosse fechado na terça-feira, antes da chegada dos chefes de Estado.

Herton Escobar, enviado especial ao Ri
A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, classificou o documento final da Rio+20 como “um grande avanço na direção do desenvolvimento sustentável”, mas criticou o fato de ele não fazer uma referência explícita aos direitos reprodutivos das mulheres. Discursando para uma plenária lotada, ela foi aplaudida ao dizer que as mulheres precisam ter assegurado o direito de escolher quando ter filhos.
“Ainda que eu esteja muito satisfeita com o fato de que o documento endossa a saúde sexual e reprodutiva, e o acesso universal ao planejamento familiar, para alcançar nossos objetivos de desenvolvimento sustentável precisamos garantir também o direito reprodutivo”, afirmou Hillary. “Temos de fortalecer o direito das mulheres de decidir se querem ter filhos e quando.”
O conceito de direito reprodutivo refere-se principalmente ao acesso a métodos anticoncepcionais e ao direito de escolher quando ter filhos – algo que não é garantido em todos os países e culturas, em que mulheres são obrigadas a casar e engravidar. O documento final da Rio+20, que deverá se aprovado hoje à tarde na plenária que encerra a conferência, não faz nenhuma menção específica aos direitos reprodutivos das mulheres. A menção fazia parte dos rascunhos iniciais do capítulo que trata de “Saúde e População”, mas foi retirada por pressão do Vaticano e de alguns países países católicos e muçulmanos.
Representantes da diplomacia brasileira que coordenaram as negociações também lamentaram a retirada do termo, logo após o fechamento do documento, mas ressaltaram que o texto faz menção a outros acordos internacionais nos quais esse direito é assegurado, como o Plano de Ação da Conferência Internacional sobre Populações e Desenvolvimento. Foi o único ponto fraco do documento admitido publicamente pelo Brasil. “É algo que gostaríamos de ter incluído”, disse, na ocasião, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. “Há uma divisão profunda entre os participantes sobre esse tema, infelizmente.”
RESPONSABILIDADES
Outro ponto considerado fraco do documento é o fato de ele não garantir novos investimentos de países ricos para ajudar no desenvolvimento sustentável de países pobres. O que remete também ao princípio das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas” (RCPD), firmado na Rio-92, segundo o qual os países desenvolvidos têm maior responsabilidade sobre os problemas ambientais do planeta. Fazer ou não uma reafirmação explícita do RCPD no documento final foi um dos temas mais polêmicos nas negociações da Rio+20. O termo acabou sendo mencionado em alguns parágrafos, mas não em outros.
Mesmo sem citar o RCPD especificamente em seu discurso, Hillary enviou algumas mensagens “veladas” de que os governos de países em desenvolvimento e o setor privado também precisam ajudar a pagar a conta da sustentabilidade. “Não podemos nos deixar encurralar pelas ortodoxias do passado”, disse ela. “Deveríamos e precisamos tomar decisões baseadas em pesquisa e evidências científicas sobre o que funciona; e, acima de tudo, precisamos de parcerias novas, ágeis e direcionadas para ações, capazes de produzir resultados ano após ano após ano.”
“Ainda que o documento final adotado aqui tenha vários princípios e propostas importantes, os produtos mais inspiradores dessa conferência são os exemplos de novas maneiras de pensar, que podem nos fornecer modelos para ações futuras”, afirmou Hillary.
Ela salientou a necessidade de “explorar o poder do mercado”, transferindo parte (potencialmente grande) da responsabilidade de financiar o desenvolvimento sustentável para as empresas. “Acreditamos que as soluções exigem esforços de todos nós”, disse a secretárias de Estado, citando governos, empresas e sociedade civil.
Como exemplo desse tipo de parceria, Hillary anunciou um projeto americano de US$ 20 milhões (em verbas federais) para apoiar projetos de energia limpa na África.
Luciana Nunes Leal, do Rio
A morte de um líder indígena da aldeia Karajá interrompeu as cerimônias festivas que marcariam o último dia da Kari-Oca, onde estão reunidos 420 índios que participaram da Rio+20. Ismael Karajá, de 48 anos, passou mal ontem e foi medicado no posto de saúde da Kari-Oca depois se queixar de dores no peito e na cabeça e apresentar vômito, febre e rigidez na nuca.
O líder foi encontrado morto na rede onde dormia na manhã de hoje pelo cacique karajá e o mais provável é que ele tenha tido um ataque cardíaco. Segundo Marcos Terena, um guerreiro da aldeia levará o corpo de volta para a Aldeia Santa Izabel, em São Felix do Araguaia, na divisa entre Mato Grosso e Tocantins.
“Em solidariedade ao parente que faleceu, todos as etnias resolveram ir embora mais cedo. A cerimônia do fogo, de despedida, está mantida mas não será festiva. Estão todos muito tristes”, disse Terena.
Até o início da tarde, todos os indígenas que participaram da Rio+20 pela Aldeia Kari-Oca, em Jacarepaguá, deverão ter embarcado nos ônibus de volta para as suas aldeias.
O tom de crítica deve predominar nesta sexta-feira, pois as organizações não governamentais (ONGs) que promoveram vários protestos durante a conferência prometem uma manifestação para hoje. Nela, será apresentado um balanço das discussões e recomendações apresentadas no texto final a ser aprovado pelos chefes de Estado e Governo.
O chefe da delegação do Brasil na Rio+20, embaixador André Corrêa do Lago, reiterou que o saldo da conferência é positivo. “O principal saldo foi fazer com que o desenvolvimento sustentável se transforme em paradigma em todos seus aspectos – social, ambiental e econômico”, disse.
Porém, para as ONGs, faltou ousadia por parte das autoridades na exigência de definições claras sobre responsabilidades específicas, repasses financeiros, discriminação de prazos para a adoção de medidas e a ampliação de poderes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
No Riocentro, local das discussões políticas, os protestos foram mais discretos do que os que dominaram as ruas do Rio de Janeiro. No entanto, houve uma exceção. Em frente ao Pavilhão 5, destinado às reuniões dos chefes de Estado e Governo, além dos ministros, o gaúcho Aristide Souza Maltoni Júnior fez uma manifestação solitária ontem em protesto ao que chamou de “metas pouco concretas” da Rio+20. O manifestante gritava palavras de ordem para chamar a atenção das autoridades.
As discussões mostraram ainda que as divergências econômicas estão presentes também nos debates polítcos e ambientais. Os negociadores dos países desenvolvidos e em desenvolvimento entraram em vários conflitos, principalmente os que envolviam recursos. A União Africana (formada por 54 países) foi um dos blocos que mais reagiram às restrições impostas pelos países desenvolvidos.
“Não há um grupo de negociadores que tenha admitido ganhar em tudo. O Brasil conduziu muito bem os temas divergentes. Depois, chegamos a um acordo e agora temos um caminho. Mas o documento ainda é muito grande”, disse o ministro do Desenvolvimento, Economia Florestal e Meio Ambiente do Congo, Henri Djombo.
Paralelamente, os líderes políticos estrangeiros discursavam na sessão plenária e debatiam o conteúdo do documento final. O texto ratifica que os temas polêmicos e sem consenso ficarão para uma próxima cúpula. Os aspectos sociais são destacados, ressaltando o esforço conjunto para a erradicação da pobreza, a melhoria na qualidade de vida e o homem no centro das preocupações.
O documento tem 49 páginas, menos uma em relação à versão anterior, sendo que inicialmente o texto chegou a ter 200 páginas. O documento está dividido em seis capítulos e 283 itens. Os capítulos mais relevantes são os que tratam de financiamentos e meios de implementação (relacionados às metas e compromissos que devem ser cumpridos).
Agência Brasil
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, participa nesta sexta-feira, 22, do encerramento da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. A ideia é mostrar que os Estados Unidos estão dispostos a investir nos instrumentos que viabilizam o desenvolvimento sustentável. Ela discursará por cerca de dez minutos na sessão plenária da conferência e concederá entrevista coletiva.
No discurso, Hillary deve anunciar o lançamento de novo mecanismo de financiamento para a energia limpa e defender as medidas que levam ao desenvolvimento sustentável com inclusão social. O mecanismo anunciado por ela alinhava diferentes tipos de apoio para atrair investimentos do setor privado a projetos de energia limpa, principalmente na África.
Hillary deverá fazer o anúncio acompanhada pela presidenta da Overseas Private Investment Corporation (Opic), Elizabeth Littlefield. A Opic é uma espécie de agência reguladora para o setor energético norte-americano.
Como exemplo de uso sustentável de combustíveis no Brasil, os assessores norte-americanos mencionam o Programa Nacional do Álcool (Proalcool), criado em 1975, que substituiu os combustíveis fósseis. Os especialistas norte-americanos também acompanharam as pesquisas e os avanços no Brasil da introdução do etanol obtido da cana-de-açúcar para mover automóveis. Nos Estados Unidos, a produção de etanol foi incrementada e atualmente há pesquisas com a utilização de resíduos de cultivos agrícolas.
Nos últimos meses, foram intensificadas as negociações para uma parceria entre os dois países. Os pesquisadores brasileiros testam a produção de etanol a partir de resíduos na planta norte-americana. As pesquisas são conduzidas, no Brasil, pela Petrobras, que lançou recentemente esse produto denominado etanol de segunda geração.
Agência Brasil
Os cinco principais temas em discussão nas plenárias da Cúpula dos Povos estão sendo compilados e serão sintetizados em um documento único que deverá ser encaminhado ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, em encontro nesta sexta-feira (22).
A informação foi dada à Agência Brasil pela ativista Lúcia Ortiz, uma das organizadoras da plenária final e que pertence à organização Amigos da Terra Internacional.
Durante a reunião da Cúpula dos Povos, que aconteceu paralelamente à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, foram realizadas cinco plenárias: Direito, Justiça Social e Ambiental; Defesa dos bens comuns contra a mercantilização; Soberania Alimentar; Energia e Industrias Extrativas.
“Nestas plenárias nós procuramos trabalhar na construção de uma outra economia e de novos paradigmas para os povos. Discutimos as causas estruturais e as falsas soluções apresentadas como salvação para as crises vividas hoje por alguns dos principais países do mundo. Discutimos também as soluções apresentadas e o que elas têm em comum”, disse Lúcia.
Ao falar sobre a mobilização da sociedade civil, traduzida na reunião das diversidades culturais, étnicas e raciais que ocorre no Aterro do Flamengo, Lúcia destacou diversas manifestações, como a marcha de milhares de pessoas pelo centro do Rio de Janeiro realizada ontem (20) em protesto contra posições constantes do documento oficial da Rio+20 e contra o novo Código Florestal.
“Mais do que isto: nós estaremos elaborando na assembleia desta sexta, 22, uma declaração contextualizada das falhas do sistema internacional das Nações Unidas, que se mostrou um verdadeiro fracasso tanto em dar conta do reconhecimento das causas da degradação do meio ambiente como da apresentação de soluções concretas para o problema”.
Lúcia disse que a decisão de entregar o documento com a síntese das plenárias ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na reunião de amanhã ainda não foi tomada. “A gente tem uma reunião agendada com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-mon, mas o nosso processo não tem essa entrega como objetivo final”.
Na avaliação da ativista do Amigos da Terra Internacional, mais importante do que a entrega a Ban Ki-moon, é o destino que cada governo dará a esse documento. “Essa síntese é uma consequência do processo de articulação, mobilização e construção da luta que estamos travando. Mas, mais importante para a gente é concluir a leitura dessa síntese. O que os governantes vão fazer com o documento vai depender de cada governo. Se eles vão ouvir o povo ou continuar capturados pelos interesses das grandes corporações é uma decisão que só a eles compete”, avalia.
Lúcia Ortiz também deixou em aberto a possibilidade de que a Cúpula dos Povos opte por divulgar o documento através da imprensa, “que é quem vem de fato dando apoio e divulgando os nossos eventos”.
2012