
Sugestão de leitura: o texto “Gênios que nunca escreveram“, do jornalista e escritor Michel Laub, publicado no blog da editora Companhia das Letras. Um trecho:
“‘Nesta geração, é visível que as gentes que escrevem melhor não escrevem livros. Escrevem blogues durante uma época, fazem umas graças, depois talvez twitter. Depois param de escrever, ou gastam o talento em jornalismo ou outras coisas abaixo deles”. A opinião é de Alexandre Soares Silva, ele mesmo um escritor muito bom e engraçado, e segue num tom talvez a sério, talvez não, provavelmente as duas coisas: “Entendi que sempre deve ter sido assim: que no mundo sempre houve Goethes que escreveram um soneto ou dois, que mostraram para os amigos e depois foram fazer outra coisa (…). Flauberts que não se deram ao trabalho de escrever um livro, porque acharam a busca pela glória uma boçalidade.”
Desde o início do ano estou tentando iniciar um romance, e ao menos numa coisa concordo com os tipos descritos por Alexandre: o universo se expande, o tempo é ilusório e tudo é triste, e diante disso é penoso se dedicar a uma luta que sempre tem algo de ridículo. (…)”
“10 conselhos de Carlos Drummond de Andrade a um escritor iniciante“
Por Michel Laub
Trechos (editados) da crônica A um jovem, publicada em A bolsa e a vida (1962):
1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
2. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom. Mas se disserem que seu livro é pior que o anterior, pode ser que falem verdade.
3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito à presunção de genialidade exclusiva.
4. Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo, poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.
6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.
7. Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos, se ficar famoso; se não ficar, não terá valido a pena.
8. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
9. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
10. Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
Circular: “Por que passei tantos anos sem escrever literatura? Por uma questão hormonal, talvez. Houve uma época em que, quando tinha uma ideia, saía correndo para os bares comemorar que tinha tido uma ideia. Hoje, quando tenho uma ideia, corro para o computador e escrevo. Os hormônios me incomodam menos agora, não me chamam tanto para o crime. Escrever é uma coisa muito física, muito ligada à vida concreta. Você precisa de condições mínimas: solidão, silêncio. Você não pode ter o coração aos pulos porque os credores estão dando picaretadas nas paredes ou porque sua mulher está transando com o vizinho. A realidade não pode morder sua canela o tempo todo. Você precisa botá-la ali, num cantinho. Tem que ter uma torre de marfim. Escritores descobrem a torre de marfim em diversos lugares. Cervantes, por exemplo, a descobriu na prisão de Madri, que não devia ser exatamente o Hilton Bangkok. O escritor necessita desse recolhimento. Precisa ter disponibilidade _e dinheiro, claro. Outro negócio que é bom para escrever é estar vivo. Tem de contar com isso. Na hora que não tiver mais, fica difícil. Quer dizer, depende de uma psicógrafa.”
Reinaldo Moraes, autor de “Pornopopéia“, em entrevista ao jornal Cândido. (Via Armando Antenore).

Sugestão de leitura: o perfil do escritor Haruki Murakami publicado pela revista do New York Times. “The Fierce Imagination of Haruki Murakami“, escrita por Sam Anderson, vem acompanhado de uma matéria interativa sobre a “Tóquio de Murakami“. Vale a leitura.

Sugestão de leitura: uma entrevista com o escritor Bret Easton Ellis no Sabotage Times (em inglês). Ellis fala sobre sexo, drogas, homossexualismo, “O Psicopata Americano” e sobre seu novo livro, “Imperial Bedrooms“.

Vale a pena conhecer a Emília, uma nova revista digital voltada para a promoção da leitura e da literatura para crianças e jovens. Segundo os editores, a publicação “dialoga com todos aqueles que se interessam pela formação de leitores e que são mediadores de leitura: pais, professores, educadores, bibliotecários, promotores de leitura e especialistas. EMÍLIA também se destina àqueles que tornam possível a criação, produção e divulgação dos livros para crianças e jovens: autores, ilustradores, editores, livreiros, jornalistas, críticos e estudiosos”. Para os jovens pais, sugiro a entrevista com colombiano Evélio Cabrejo-Parra, especialista em leitura na primeira infância. (Dica do Heitor Ferraz).

Sugestão de leitura: a matéria “Why did Rimbaud stop writing?“, de Daniel Mendelsohn (em inglês), que está na mais recente edição da New Yorker.

Uma sugestão de leitura (do baú) para o fim de semana: um perfil de Ernest Hemingway escrito pela jornalista Lilian Ross, da New Yorker, publicado em 1950. Ross visita Hemingway no hotel, passeia com ele pelo Metropolitan Museum e o acompanha na Abercrombie & Fitch. O texto “How do you like it now, gentlemen” (em inglês) está neste link. Entre e clique no fac-símile da página.

O novo livro de Nicholson Baker, “House of Holes” (Casa dos Buracos), que será lançado neste mês nos Estados Unidos, é mais sujo que “Vox” e “The Fermata” juntos, diz esta matéria de Charles McGrath publicada pelo New York Times. “It’s a series of loosely linked vignettes set in a sexual theme park where the attractions include Masturboats; the Porndecahedron, a 12-screen planetarium showing nonstop blue movies; and the Velvet Room, where the Russian composers Borodin and Rimsky-Korsakov use their genitals to give foot massages”, informa McGrath. Nós gostamos. Espero que esteja nos planos da Companhia das Letras, que lançou os outros títulos de Baker no Brasil.
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