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Ricardo Lombardi

Circular: “Por que passei tantos anos sem escrever literatura? Por uma questão hormonal, talvez. Houve uma época em que, quando tinha uma ideia, saía correndo para os bares comemorar que tinha tido uma ideia. Hoje, quando tenho uma ideia, corro para o computador e escrevo. Os hormônios me incomodam menos agora, não me chamam tanto para o crime. Escrever é uma coisa muito física, muito ligada à vida concreta. Você precisa de condições mínimas: solidão, silêncio. Você não pode ter o coração aos pulos porque os credores estão dando picaretadas nas paredes ou porque sua mulher está transando com o vizinho. A realidade não pode morder sua canela o tempo todo. Você precisa botá-la ali, num cantinho. Tem que ter uma torre de marfim. Escritores descobrem a torre de marfim em diversos lugares. Cervantes, por exemplo, a descobriu na prisão de Madri, que não devia ser exatamente o Hilton Bangkok. O escritor necessita desse recolhimento. Precisa ter disponibilidade _e dinheiro, claro. Outro negócio que é bom para escrever é estar vivo. Tem de contar com isso. Na hora que não tiver mais, fica difícil. Quer dizer, depende de uma psicógrafa.”

Reinaldo Moraes, autor de “Pornopopéia“, em entrevista ao jornal Cândido. (Via Armando Antenore).

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“(…) Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.(…)”

David Foster Wallace

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“A internet encontra-se ligada à questão de estar só. Torna-se cada vez mais difícil uma pessoa ficar sozinha com seus pensamentos, articulando suas ideias independentes. Antigamente, quando anoitecia ou escurecia, o mundo se recolhia consigo mesmo e suas ruminações. Hoje temos a eletricidade, a televisão, saímos de casa etc. Assim, podemos estar o tempo todo com outras pessoas, com outras coisas acontecendo. Suspeito de que todo esse frenesi pode nos impedir de desenvolvermos a nós próprios e a nossas ideias. Somos permanentemente bombardeados pelas opiniões alheias. E a internet é mais um passo naquela direção: tudo e todos estão lá. É como agora os aviões incluírem pequenas televisões em cada cadeira — já não podemos ficar com as nossas divagações ou simplesmente contemplando a paisagem. Há sempre alguém por perto.” Alain de Botton, na @revistapiaui de setembro, página 13.

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30 de novembro

“O maior obstáculo do casamento: queremos trepar com um corpo feminino disposto, cooperativo e favorável. E na verdade nos vemos obrigados a trepar com uma sócia contábil, uma parceira de negócios, uma consultora associada em matéria de pedagogia infantil, uma co-eleitora – e é bem possível que, numa dessas muitas capacidades, a mulher discorde energicamente do marido. Ainda assim, ela continua esperando uma trepada adequada. Eis o círculo vicioso do casamento entre autênticos parceiros: quanto mais o marido e a mulher compartilham todas as responsabilidades da vida, mais se vêem envolvidos em disputas em torno de questões não-sexuais, e são menos – como devia ser a condição básica dos amantes – simples pau e boceta. Quanto mais “moderno” o casamento, quanto mais abrangente o entendimento, menos provável será a união sexual. Ninguém sente uma inclinação irresistível de foder com o seu advogado, o seu gerente do banco ou o filósofo sempre disponível da vizinhança – especialmente quando, nessas três encarnações, a mulher tende a discordar das nossas atividades.”

Extraído dos “Diários de Kenneth Tynan“, livro ainda sem edição em português, mas que teve alguns de seus trechos (como o transcrito acima) publicados pela revista Piauí. Na foto, Kenneth Tynan.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Lombardi

    Ricardo Lombardi é Diretor de Redação da revista VIP, publicação da Editora Abril -- @ricardolombardi

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