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19.março.2012 06:10:16

Sexo antes da partida prejudica os jogadores?

Ha várias décadas, técnicos de futebol defendem a ideia de que a atividade sexual antes de um jogo ou evento esportivo é prejudical ao desempenho do atleta no dia da competição. Essa velha teoria, promovida e defendida principalmente por técnicos de boxe, dizia que o sexo na véspera da luta enfraqueceria as pernas dos lutadores. Inclusive, o maior lutador de todos os tempos, Muhammad Ali, era conhecido por se abster de atividade sexual por várias semanas antes de uma luta.

Treinadores em diversas modalidades esportivas, não só no futebol e no boxe, continuam a difundir algumas dessas ideias. No entanto, essas alegações nunca foram comprovadas cientificamente.

Por que é que a atividade sexual antes de um jogo ou evento esportivo pode prejudicar o desempenho do atleta? Por um lado, afirma-se que, após a relação sexual, os níveis de testosterona diminuem, prejudicando o desempenho. O argumento é que níveis mais elevados de testosterona contribuem para um maior nível de agressividade e vitalidade que, por sua vez, poderiam melhorar o desempenho do atleta no dia do jogo.

Presente em ambos os sexos, a testosterona é um hormônio que tem um papel fundamental na promoção de várias funções corporais como, por exemplo, no aumento da massa muscular, no aumento da densidade óssea, na diminuição da gordura corporal, no poder de recuperação após a atividade física e no desempenho sexual normal. Esse hormônio é essencial para a saúde e o bem estar geral.

Assim sendo, seria interessante examinar mais a fundo a ideia muito comum de que a redução de testosterona ocorre após a atividade sexual. Um estudo diferenciado, conduzido recentemente, obteve resultados conclusivos. Pesquisadores da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, mostraram que os níveis de testosterona em participantes do sexo masculino tiveram um aumento significativo após a atividade sexual, contrariando tal conceito. Portanto, então, ao contrário de suposições anteriores, poderíamos até levantar a hipótese de que a atividade sexual alguns minutos antes da competição poderia conferir benefícios, com um aumento de agressividade ou vitalidade provocado pelos níveis mais elevados de testosterona. Deve-se notar, no entanto, que até hoje essa ligação não foi testada nem comprovada no meio científico.

Uma outra crença popular, defendida por muitos técnicos da velha guarda, é que o sexo causa demasiado dispêndio energético, podendo causar fatiga antes de um jogo e afetando a capacidade fisiológica ou o desempenho esportivo de forma negativa. Seria importante notar que a quantidade de estudos examinando este assunto é muito limitado. Não existem estudos conduzidos, em situações fora do laboratório, ou seja, examinando como a atividade sexual afeta o desempenho de um atleta diretamente em uma partida de futebol ou outro evento esportivo.

No entanto, pelos os estudos que foram feitos e pela informação disponível, somos capazes de chegar a conclusões convincentes. Uma pesquisa realizada pelo fisiologista do exercício, Dr. Tommy Boone, em 1995, mostrou que o desempenho em um teste de esteira foi igual entre os participantes, tanto após a relação sexual, como quando estes se abstiveram. Um outro estudo mais recente, conduzido por pesquisadores da Suíça, encontrou resultados semelhantes em indivíduos que foram testados em bicicletas ergométricas.

Seria interessante também examinar o dispêndio energético (calórico), em média, de uma relação sexual (sexo com penetração). Dados demonstram que uma relação sexual contínua, sem intervalos, até ao orgasmo pode custar cerca de 250 calorias por hora, ou seja, cerca de 4 calorias por minuto. Mas isso pressupõe uma taxa constante de consumo, ou perda, de calorias, durante um período fixo de uma hora. É pouco provável que meros mortais tenham a habilidade de proceder de tal forma, continuamente, sem intervalos, durante todo esse tempo. Para se ter uma ideia, numa relação sexual um homem leva, em média, entre cinco a dez minutos para atingir o orgasmo. Nesse caso gastaria entre 20 a 40 calorias, o que seria equivalente a subir e descer alguns lances de escadas. É muito improvável que tais dispêndios energéticos, que são insignificantes, possam diminuir o desempenho de um atleta no dia da competição.

Talvez não seja o sexo em si que representa um problema, mas sim todas as atividades sociais que podem acompanhá-lo, como o uso, e muitas vezes o abuso, do álcool, um ambiente de festa, e assim por diante. Em tais circunstâncias, um atleta poderia copular de forma intermitente durante toda a noite, além de beber e consequentemente não ter o tempo suficiente para dormir ou descansar. Tal cenário não é improvável, especialmente para os jogadores que têm fama de ser festeiros e de gostar de uma boa farra. Em tal situação, a atividade sexual, unida às variáveis ​​acima mencionadas, pode tornar-se um fator que prejudica o desempenho do atleta no dia do jogo.

Um técnico de futebol, obviamente, não tem controle sobre a vida de seus jogadores fora das instalações do clube. O assunto em discussão, na maioria das vezes, vem à tona quando uma equipe está alojada na concentração. Dentro dessas circunstâncias, alguns jogadores querem muitas vezes ir para a farra. Uma solução viável para os treinadores seguirem, sempre que uma equipe esteja concentrada durante dias ou semanas em um centro de treinamento ou em um hotel em preparação para um jogo importante, poderia ser a de permitir que os jogadores recebam a visita de suas esposas ou namoradas por um tempo pré-determinado. Diversas seleções nacionais e clubes já utilizam esse modelo. Quando uma partida é disputada fora de casa ou em caso de uma viagem longa, muitas equipes dão até permissão para que as esposas dos jogadores viajem com o time.

O poder que os treinadores têm de gratificar seus jogadores com certas regalias, permitindo, por exemplo, a visita de esposas e namoradas, poderia ser um instrumento poderoso, de barganha, para tirar o melhor proveito desses atletas, nos dias de treino e no dia do jogo. Porém, sujeitar jogadores a um longo período de tempo dentro de uma concentração, longe de familiares e amigos, pode ser uma experiência torturante. Essa ideia já é tão ultrapassada como a crença de que a relação sexual moderada, na noite que antecede o jogo, pode vir a prejudicar o desempenho físico ou esportivo.

 

 

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    Ricardo Guerra

    Ricardo Guerra é mestre em ciência da fisiologia do esporte pela Liverpool John Moores University. Trabalhou em diversos clubes no Oriente Médio e na Europa e nas seleções nacionais do Egito e do Catar

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