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Olimpíadas e Copa do Mundo: O que estão fazendo com o dinheiro dos brasileiros?

Ricardo Guerra

05 junho 2014 | 10:00

Nestas duas entrevistas, os professores Andrew Zimbalist e Robert Baade, respectivamente, falam em detalhe sobre o real impacto econômico das Olimpíadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos países que já foram sede destes eventos.

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O Professor Andrew Zimbalist trabalha no Departamento de Economia do Smith College, em Massachussets, nos Estados Unidos. Ele é uma autoridade reconhecida mundialmente na área da economia esportiva e um especialista independente que analisa o impacto econômico do turismo esportivo em geral, do sediamento de mega-eventos esportivos e da construção de diversos tipos de infra-estruturas esportivas. O economista tem mais de vinte livros publicados e já contribuiu para inúmeras publicações acadêmicas, com artigos e estudos nas áreas de sistemas econômicos comparativos, desenvolvimento econômico e economia de esportes. O professor Zimbalist faz parte do conselho editorial de diversas publicações científicas dentro da área da economia. Seus artigos e opiniões também já foram publicados em alguns dos meios de comunicação mais importantes, reconhecidos em todo o mundo, incluindo o New York Times, o Washington Post e o jornal USA Today. O economista já testemunhou para várias comissões governamentais sobre diversos temas, tais como o impacto econômico dos subsídios públicos nas construções de infra-estruturas esportivas. Em inúmeras ocasiões, testemunhou para o congresso norte-americano. Nesta entrevista, o Dr. Zimbalist fala em detalhe de muitas destas questões, incluindo o real impacto econômico das Olimpíadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos países que já foram sede destes eventos.

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O economista Robert Baade é professor de Economia e Finanças na Lake Forest University (estado de Illinois, nos Estados Unidos). Ele é reconhecido internacionalmente na área da economia esportiva. Sua pesquisa tem como foco uma variedade de temas relacionados com as finanças públicas, com as consequências econômicas do sediamento de megaeventos esportivos, bem como a economia referente ao esporte profissional. Seus estudos podem ser encontrados em diversas publicações academicas na área da economia. Baade também já foi citado extensivamente por diversas fontes de notícias de renome, incluindo o New York Times, o Huffington Post  e o canal de notícias NBC. Seu artigo “The Quest for the Cup: Assessing the Economic Impact of the World Cup” vai ser publicado no livro Megaproject Planning and Management: Essential Readings.

Pergunta Blog: Eventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas são taxados como chamarizes para milhares de turistas, e se os visitantes têm experiências positivas, a tendência continua no futuro. O que a pesquisa realmente demonstra em relação às cidades que já sediaram esses eventos?

 Andrew Zimbalist: O que acontece com frequência durante os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo é que os turistas regulares, que viriam visitar o país num ano em que tais eventos esportivos não estivessem ocorrendo, acabam evitando ir para aquele lugar. Na realidade, os turistas das Olimpíadas e da Copa do Mundo muitas vezes substituem e interrompem os fluxos turísticos habituais de uma localidade. Além disso, em muitas cidades, um número significativo de residentes locais acaba se deslocando para outros lugares, para não lidar com o incômodo ocasionado pelo evento. O número de turistas que saíram da China em 2008, por exemplo, aumentou significativamente. Muitos turistas e moradores locais não querem lidar com o trânsito, com áreas congestionadas, com as questões relacionadas com a segurança e com os preços elevados. Portanto, não é incomum que o montante total do turismo tenda a diminuir durante os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo. Em geral, se observarmos exemplos recentes, é difícil esperar um aumento real no número de visitantes em um país durante a Copa do Mundo ou as Olimpíadas. O número de turistas que se encontrava em Londres durante os Jogos Olímpicos em julho e agosto de 2012, por exemplo, foi menor do que o que se encontrava no ano anterior, quando não houve nenhum mega-evento esportivo. E a mesma tendência vem sendo observada em vários outros países e cidades que foram sedes. Existem alguns exemplos de um pequeno aumento de turismo, mas é insignificante. O ponto mais importante é que um aumento significativo do turismo na verdade não ocorre.

Pergunta Blog: Quando Atlanta sediou os Jogos Olímpicos em 1996, a cidade fez algumas mudanças importantes na infraestrutura do seu sistema de transporte regional e também construiu a Vila Olímpica, que eventualmente foi utilizada como dormitório para estudantes de uma universidade local. Durante o mesmo período, o reconhecido Centennial Park, um grande espaço público, também se tornou um legado duradouro para a população daquela cidade. O Brasil tem exemplos de projetos de infraestrutura que poderiam ter um legado duradouro e de importância para os seus cidadãos após o término destes eventos esportivos?

 Andrew Zimbalist: Estou seguro de que alguns dos investimentos feitos nas áreas do transporte, do desenvolvimento de estradas e na expansão dos aeroportos terão certa utilidade, mas apenas uma pequena parcela deles! Seria importante lembrar que estamos falando aqui de gastar uma soma que pode rondar uns 15 a 20 bilhões de dólares por cada um desses eventos, e isso é um dispêndio impressionante de recursos. A questão não é realmente se um país consegue 15 bilhões de dólares em melhorias a longo prazo nas diversas infraestruturas que estão sendo construídas, porque eu duvido muito que isso ocorra. Na verdade, a questão mais importante é o quanto se estará desperdiçando ao gastar essa quantia exorbitante. Por que alguém precisa gastar 40 bilhões na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos, a fim de obter 15 bilhões em melhorias de infraestruturas em um país que é afligido por escassez de recursos, poluição, pobreza e níveis grotescos de desigualdade? Por que estamos desperdiçando cerca de 10 a 15 bilhões de dólares na construção de infraestruturas esportivas para esses eventos que, no final das contas, não serão produtivas ou não terão qualquer utilidade para a maioria da população e para o desenvolvimento do país? Por que um país precisa gastar entre 15 a 20 bilhões em cada um desses eventos para obter um parque público ou um calçadão para as pessoas caminharem no seu dia de lazer? De fato, essas sim são as grandes e verdadeiras questões que devem ser abordadas.

 Pergunta Blog: Em sua opinião, quais serão as consequências econômicas para o Brasil ao sediar estes eventos?

 Andrew Zimbalist: Em geral, a pesquisa sobre esta questão indica que é muito difícil obter benefícios econômicos com esse tipo de investimentos. A única chance de obter algum retorno financeiro que possa cobrir as despesas ocorre quando o país que sedia tais atividades tem a capacidade de planejar adequadamente. Ao mesmo tempo, isso significa começar com um plano de desenvolvimento que venha de fato a ser implantado, independente da possibilidade de o país sediar o evento ou não. É muito importante que os organizadores tenham esse conceito imbuído desde o começo, e esse deve ser o ponto de partida. Desta forma, o país escolhido deve determinar até que ponto sediar a Copa do Mundo ou as Olimpíadas pode complementar e apoiar o plano de desenvolvimento original que já estava em curso. De fato, a maioria dos países não tem feito isso e, por conseguinte, está condenada a fracassar. Na verdade, muitos destes países não têm um plano de desenvolvimento que tenha sido elaborado antes de serem escolhidos para sediar estas competições. Em contrapartida, meramente almejam promover estes eventos a qualquer custo e estão dispostos a seguir quase todas as diretrizes que são impostas. Em consequência disso, ao serem escolhidos para assumir tais responsabilidades, ficam à mercê do que o COI e a FIFA lhes ditem. Perante tal situação de subserviência, o país acaba gastando bilhões de dólares que são completamente desperdiçados e que, na verdade, poderiam ser de extrema importância para muitos destes  países que têm dificuldades econômicas e problemas sociais. Acredito que o Brasil é mais uma nação que se encontra à mercê deste tipo de relacionamento prejudicial com essas duas entidades muito poderosas.

Pergunta Blog: Você poderia explicar as razões pelas quais você acredita que o Brasil se enquadra nessa categoria?

 Andrew Zimbalist: Fico perplexo quando tomo conhecimento de que alguns dos planejamentos de transporte público envolvem, a título de exemplo, uma rota de ônibus rápida percorrendo o trajeto de Ipanema até a Barra. Qual é o propósito dessa rota? Fica claro que essa rota visa meramente o transporte dos turistas da praia de Ipanema para a Vila Olímpica. E com o exemplo descrito, é evidente que a principal prioridade deste projeto é atender os turistas que estarão no país por um tempo muito curto durante este evento esportivo específico. Assim sendo, é um total desperdício de recursos. Qualquer plano a longo prazo que tenha maior importância para o desenvolvimento das necessidades de transporte dos cidadãos brasileiros não é uma prioridade. Eu acredito que o Brasil possui muitos problemas sociais que ainda não receberam a atenção devida. Além disso, os turistas estrangeiros estão cada vez mais conscientes da violência e da repressão que ocorrem em muitas das grandes cidades brasileiras. Os mesmos também ficaram muito mais a par da ineficiência e da corrupção em diversos setores governamentais, e eu não vejo como todos estes elementos possam gerar uma imagem positiva do país perante a comunidade internacional. E ainda, além de todas estas questões, há greves que estão ocorrendo, bem como um movimento forte de protestos populares contra os gastos extravagantes resultantes de o Brasil sediar esses eventos. Portanto, eu tenho uma visão pessimista e não acredito que haja qualquer chance de que o sediamento desses eventos venha a afetar o Brasil de forma positiva. Nenhuma parte do processo de planejamento foi executada de forma eficaz, como se constata com os atrasos dos diversos projetos ainda em construção. Existe a crença entre os países dos BRICS de que, ao sediar estes megaeventos esportivos, o seu status de potência mundial será confirmado. De fato, não temos nenhuma prova de que isso tenha ocorrido com qualquer um dos países que sediaram tais eventos, e a verdade é que esta crença é um pouco ridícula e até mesmo patética.

Pergunta Blog: Muitos dos governos que sediam megaeventos esportivos geralmente contratam instituições específicas, públicas e privadas, para difundir pesquisas que apresentam um quadro favorável em relação aos benefícios econômicos trazidos para o país. Qual é a sua opinião sobre esses estudos e sobre a validade dos trabalhos produzidos por essas entidades?

Andrew Zimbalist: Desde o começo, já se estabelece um acordo problemático quando a agência que sedia os eventos emprega uma empresa de consultoria para fazer um estudo que não possui qualquer fundamento objetivo. Em tais casos, a maior parte desses estudos está sendo financiada para chegar a uma determinada conclusão, que é a promoção do evento. Fica, portanto, muito claro que os países que sediam estes eventos empregam diversas pessoas para realizar estudos que demonstrem seus benefícios econômicos. Na verdade, as conclusões dessas pesquisas são demasiadamente otimistas e irreais. Houve até um caso em Londres onde um conhecido meu, que é economista, recebeu, antes das Olimpíadas, uma proposta da comissão organizadora de Londres para fazer um estudo sobre o impacto econômico do evento. O comitê havia afirmado que antecipava severas críticas da opinião pública aos gastos econômicos que poderiam decorrer dos jogos e que, portanto, queria ter a capacidade de responder a tais críticas com um estudo que mostrasse seus benefícios econômicos. Na verdade, esse exemplo que acabei de dar é muito comum nos diversos locais que sediaram estes eventos esportivos.

Pergunta Blog: Quais são alguns dos problemas da metodologia empregada por parte dos estudos feitos por economistas contratados para apontar quadros econômicos favoráveis decorrentes da responsabilidade de sediar tais eventos?  Você poderia apontar alguns artifícios ou técnicas utilizadas por eles a fim de projetar um quadro econômico favorável?

Andrew Zimbalist: Estes pesquisadores fazem projeções com um número excessivo de turistas frequentando tais eventos esportivos, que estão fora da realidade. Também estimam que os mesmos turistas gastarão muito mais dinheiro do que de fato ocorre, e depois empregam um multiplicador inflado irreal. Desta forma, eles acabam obtendo resultados que apontam para um maior impacto econômico, mas que não são reais.

Pergunta Blog: Quais são os incentivos que estão por trás da pesquisa conduzida por alguns economistas como você?

Andrew Zimbalist: O nosso maior objetivo e incentivo é simplesmente descobrir qual é o impacto econômico de tais eventos, seja ele positivo ou negativo, em vez de tentar incutir um resultado qualquer. Estamos apenas tentando entender a dinâmica da situação. Nós não estamos sendo pagos por nenhum lado para chegar a uma conclusão especifica.

Pergunta Blog: Novos estádios foram construídos em Brasília, Cuiabá e Manaus. Algumas destas cidades não possuem grande tradição futebolística e sequer têm equipes na primeira divisão ou uma base significativa de torcedores. Estes fatos aumentam a preocupação de que algumas dessas construções se tornem elefantes brancos. Você poderia comentar sobre esta questão?

Andrew Zimbalist: Sim. Estou ciente de que algumas dessas cidades não têm sequer uma equipe na primeira ou na segunda divisão. Eu realmente não entendo por que alguém iria construir um estádio com capacidade para 42.000 espectadores em uma cidade onde não há grandes times de futebol e que, para começo de história, ao longo de um determinado ano não irá nem mesmo atrair 1.000 ou 2.000 espectadores por cada jogo. Por que esses estádios ultramodernos estão sendo construídos com cadeiras cativas, camarotes, espaços excessivos para publicidade e vestiários luxuosos? Não há nenhuma justificativa e não faz sentido gastar centenas de milhões de dólares em alguns desses estádios, quando durante a maior parte do tempo ninguém vai fazer uso deles. O contribuinte terá de arcar por vários anos com os custos desses megaprojetos e com os custos operacionais envolvidos em manter esses estádios funcionando no seu dia-a-dia, após o término das Olimpíadas e da Copa do Mundo. E esse dinheiro nunca mais será recuperado. Eu acredito que isso será um problema que muitas cidades, como Cuiabá, Manaus, Brasília, e outras terão de enfrentar. Às vezes, confuso e sem entender, fico tentando compreender o que alguns desses planejadores estavam pensando quando esses projetos começaram a vir à tona.

Pergunta Blog: Muitos jogos acontecerão em localidades distantes e o custo de viajar dentro do Brasil é alto. Qual será o impacto disso para o turismo e para essas cidades?

Andrew Zimbalist: Viajar pelo Brasil é muito caro. Eu suponho que muitos dos turistas vão viajar e se concentrar somente na região sudeste do país, Rio e São Paulo. Eu não acho que eles vão viajar por todo o país. Mesmo que esses turistas visitem outras localidades, não está claro se eles ajudarão o turismo a longo prazo. De certa forma, os turistas de esportes são um grupo peculiar, que realmente não presta muita atenção às atrações arquitetônicas ou culturais, e geralmente se concentra exclusivamente nos seus eventos esportivos preferidos. A construção dos estádios em alguns desses lugares foi uma estratégia mal concebida. Se o país tivesse realmente um plano sólido para a Copa do Mundo e se estivesse interessado em reduzir custos, deveria ter se focado em fazer melhorias em estádios já existentes nos mercados de esportes de maior importância do país. Além disso, se tivessem limitado os jogos da Copa dentro dessa região, o custo de viajar pelo país ficaria muito mais em conta e o clima seria certamente mais favorável para as partidas de futebol.

Pergunta Blog: Quem realmente se beneficia com o sediamento desses megaeventos esportivos?

Andrew Zimbalist: Eu acho que as empresas de construção e seus aliados são os principais beneficiados. Outros elementos que se beneficiam destes megaeventos são alguns bancos de investimento que flutuam os títulos para financiar esses projetos e, é claro, os burocratas que lidam com muitos dos contratos.

Pergunta Blog: E o que você tem a dizer sobre o exemplo dos Estados Unidos e da Alemanha, que sediaram megaeventos esportivos bem-sucedidos?

Andrew Zimbalist: No caso de Los Angeles, as Olimpíadas não foram muito dispendiosas. Eles só tiveram que construir algumas instalações, e o diretor das Olimpíadas de Los Angeles, Peter Ueberroth, obteve das empresas privadas o dinheiro para construir as instalações, e com isso não tiveram que usar dinheiro público. Peter Ueberroth também introduziu um novo modelo para adquirir recursos dos setores privados para patrocínios, que foi considerado muito bem-sucedido, e acho que a combinação desses fatores fez com que eles fossem capazes de gerar um pequeno excedente, algo em torno de 215 milhões de dólares decorrentes dos jogos de 1984. Quanto à Copa do Mundo na Alemanha, pode ter havido um pequeno efeito positivo em determinadas regiões que sediaram as partidas, principalmente no que diz respeito ao emprego, mas não no que diz respeito ao valor da massa salarial. E isso se deu principalmente pelo fato de eles terem feito uso de instalações que já existiam. Assim sendo, não foi necessário fazer quaisquer investimentos significativos em termos de infraestrutura.

Pergunta Blog: Qual é a sua opinião sobre o caso de Barcelona, que é apontado por muitos como um exemplo de sucesso e de como tais eventos podem trazer benefícios econômicos para uma cidade?

Andrew Zimbalist: As Olimpíadas tiveram uma pequena contribuição para o desenvolvimento de Barcelona, porém de nenhuma maneira podemos dizer que a contribuição foi significativa ou que o renascimento da cidade foi ocasionado por ter recebido tal evento. Uma série de outros fatores, tais como a entrada da Espanha no mercado comum da União Europeia e a desregulamentação do setor aéreo, também contribuíram para o progresso da cidade. Também é importante observar que o crescimento econômico de Barcelona foi semelhante ao de outras cidades europeias durante o período posterior às Olimpíadas. Além disso, Barcelona já tinha algumas “cartas na manga” que não haviam sido exploradas pelo turismo, mas que estariam prontas depois de um pouco de trabalho. Devemos também levar em consideração alguns fatos históricos sobre a cidade. Por exemplo, Barcelona, bem como toda a área da Catalunha, havia sido amplamente negligenciada durante a ditadura de Franco, e a região estava pronta para conseguir alguma espécie de desenvolvimento após a sua morte, especialmente a parte da cidade que se encontrava separada do mar por uma área de armazéns, fábricas e ferrovias. De fato, entre muitas iniciativas no grande plano para mudar Barcelona, que teve início no final dos anos 70, havia o projeto de abri-la para o mar. Esse plano já tinha sido traçado antes das Olimpíadas, e quando a cidade ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos, os planejadores fizeram as necessidades do evento olímpico complementarem as necessidades do plano que já estava em curso. Assim sendo, os Jogos Olímpicos foram feitos para cooperar com esse plano e trazer benefícios para a cidade, e não para a cidade cooperar com as Olimpíadas. Portanto, a dinâmica dessa relação, caracterizada pelo fato de Barcelona já ter um plano de desenvolvimento anos antes de ter sido escolhida para sediar os Jogos Olímpicos, foi de extrema importância para seu progresso. Na verdade, poucas cidades que sediam esses eventos têm um plano de desenvolvimento preexistente, como o que foi exibido lá.

Pergunta Blog: Em um de seus artigos, você mencionou que os organizadores brasileiros haviam desistido da ideia da criação de um novo terminal no aeroporto internacional de São Paulo antes da Copa do Mundo e que, como alternativa, iriam contar com módulos temporários para lidar com um maior número de turistas. Você advertiu que tais ações eram exatamente o que os países que sediam tais eventos precisavam evitar. Você poderia explicar sua opinião sobre esta questão para os nossos leitores?

Andrew Zimbalist: O ponto crucial nesta questão é que quando se estão gastando centenas de milhões ou bilhões de dólares para construir uma infraestrutura para tais eventos, deseja-se que ela seja duradoura e que tenha utilidade após o término dos mesmos. Se forem construídos módulos temporários, então eles não vão ter qualquer utilidade após a conclusão dos eventos e serão removidos. Portanto, tem-se a despesa de montá-los, a despesa do material envolvido na construção dos módulos e o custo para desmontá-los, e no final não se fica com nada. É um exemplo nítido do desperdício dos recursos públicos e um grande exemplo da falta de planejamento adequado. Acredito que deveria haver um planejamento prévio e com prazo suficiente para que as coisas pudessem ser feitas da maneira certa, evitando assim uma situação em que se tenha de arquitetar módulos provisórios que eventualmente não terão qualquer utilidade. Em suma, toda a infraestrutura de transporte que está sendo construída deveria ter utilidade a longo prazo, para as próximas décadas. Módulos temporários economizam recursos a curto prazo, porque não se estão edificando estruturas permanentes, mas o investimento financeiro para construí-los é completamente desperdiçado.

Pergunta Blog: Segundo o Professor Zimbalist, quando Atenas ganhou, em 1997, o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2004, seu orçamento foi estimado em cerca de 1,6 bilhão de dólares e o custo público final foi calculado em torno de 16 bilhões (aproximadamente dez vezes mais do que o número original). Podemos observar esta mesma tendência em relação às projeções orçamentárias em outros locais que já sediaram esses eventos?

Robert Baade: Sim, em todos os lugares. Os jogos de Atenas seguiram a norma, sendo este, de fato, o exemplo mais típico do que acontece com esses eventos. As projeções imprecisas relacionadas ao custo de sediar megaeventos esportivos são endêmicas, e as estimativas dos custos iniciais são lamentavelmente subestimadas na maioria das vezes. Quando eu comecei a estudar as Olimpíadas de Atenas, o orçamento para a segurança estava em torno de 400 milhões de dólares. No momento em que paramos de acompanhar o orçamento, ele chegou a cerca de 1,9 bilhão de dólares, e isso era apenas para a segurança. O Brasil vai enfrentar situação parecida. O país tem trabalhadores em greve, vários atrasos nas construções de infraestruturas, transtornos judiciais, entre outros problemas que irão aumentar significativamente os custos. Parafraseando um famoso filósofo, eu diria que a única coisa imutável dentro deste universo dos megaeventos é a ausência de mudança. Essas mudanças resultam invariavelmente em custos mais elevados do que os estimados pelas previsões iniciais. Se a experiência no Brasil seguir a norma, haverá uma grande probabilidade de que o custo financeiro para sediar estes eventos venha a ser muito maior e mais duradouro do que o que foi inicialmente previsto.

Pergunta Blog: Existe o risco de um país ter sua imagem afetada ou desgastada internacionalmente ao sediar tais eventos?

Robert Baade: Sim. E essa possibilidade é real para qualquer país que decida sediar tais atividades. Um devido país tanto pode ser identificado como eficiente e capaz ou como desorganizado e ineficiente. Tudo depende de como as coisas irão fluir durante os eventos. No entanto, se as coisas não acontecerem como foram planejadas e se ocorrências negativas ou lamentáveis se tornarem frequentes e divulgadas pela imprensa, então a imagem do país poderá realmente ser afetada de forma negativa, em vez de ser fortalecida.

Pergunta Blog: E na sua opinião, isso representa um risco para o Brasil?

Robert Baade: Sim. A situação brasileira, com todos os seus atrasos no acabamento de diversas obras, me faz lembrar do que aconteceu nas Olimpíadas de Atenas.

Pergunta Blog: Foi divulgado pela imprensa internacional que 21 das 22 estruturas construídas para as Olimpíadas de Atenas encontram-se numa situação extremamente precária e não têm qualquer utilidade. Fazendo uma retrospectiva da história, qual é o destino mais provável para as diversas estruturas esportivas  construídas em outras cidades que sediaram megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas? Será que o exemplo do que ocorreu em Atenas é o mais comum?

Robert Baade: Sim. De fato, algumas das estruturas esportivas em Atenas se encontram em ruínas, de modo que grande parte das  instalações esportivas são pouco utilizadas após os eventos. Assim sendo, o potencial para se tornarem elefantes brancos é um risco grande e real. Antes de serem escolhidas para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo, Los Angeles e a Alemanha não tiveram que lidar com esse problema porque já tinham a maior parte destas estruturas prontas para sediar tais eventos. Atenas se encontra na pior situação possível, pois tiveram que construir estádios nos quais os gregos tinham pouco ou nenhum interesse, e os custos para que a Grécia possa manter tais estruturas ainda são significativos. O estádio Birds Nest em Beijing também está perto de se tornar um elefante branco. A construção do estádio Olímpico de Montreal é um exemplo clássico de uma estrutura que não foi utilizada adequadamente após os jogos. Além disso, levou 30 anos para os canadenses pagarem a dívida que acumularam em decorrência de terem sediado as Olimpíadas. Na verdade, uma das maiores consequências desses megaeventos esportivos são os estádios e as arenas que foram construídas com um alto custo e que têm pouca utilidade.

Pergunta Blog: E o problema dos elefantes brancos na África do Sul?

Robert Baade: O sediamento da Copa do Mundo na África do Sul seguiu um caminho já muito conhecido. A liga premier de futebol daquele país tem por média 7,500 espectadores por partida. Assim sendo, não havia nenhuma necessidade de se ter construído estádios com as capacidades que foram determinadas pela FIFA. Os cinco novos estádios construídos para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul custaram cerca de 1 bilhão de dólares. Os estádios Peter Mokaba e Nelson Mandela foram construídos com cerca de 150 e 140 milhões de dólares respectivamente. Eles são utilizados esporadicamente para jogos de futebol e de rúgbi. O estádio Mandela, por exemplo, acolheu 12 partidas em 2013, com uma média de 7,606 espectadores (o que representa 16.5% da capacidade do estádio). Paralelamente, o estádio Mokaba não possui nenhum inquilino ou seja, ninguém se interessou em arrendar tal estádio. Será que faz algum sentido construir um estádio de 150 milhões de dólares num lugar em que não existe sequer um time de futebol para fazer uso de tal infraestrutura após o término da Copa? Exemplos parecidos com estes existem em toda a parte.

Pergunta Blog: Você acredita ser provável que o problema dos elefantes brancos na África do Sul e na Grécia possa vir a acontecer no Brasil?

Robert Baade: Eu acho que o que está acontecendo no Brasil faz lembrar muito a situação da Grécia e da África do Sul, onde a síndrome do elefante branco é clara e real. Chegou ao meu conhecimento que o Brasil construiu estádios de futebol em algumas cidades que não possuem equipes nem na primeira, nem na segunda divisão de futebol do país. Construir estádios novos em Cuiabá, Manaus e Brasília, ou seja, em cidades que possuem um papel insignificante dentro do contexto futebolístico nacional, não faz sentido nenhum. O mais provável é que estes estádios não tenham grande utilidade após o término da Copa e que possivelmente estejam a caminho de se tornarem elefantes brancos após o evento.

Pergunta Blog: Em suma, qual será o legado econômico ou as consequências para o Brasil por sediar estes eventos?

Robert Baade: Estou esperançoso que o povo brasileiro possa se beneficiar ao sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. No entanto, após fazer uma avaliação cautelosa sobre a situação, não estou muito otimista que haja um legado positivo decorrente destas atividades. Na verdade, existe o risco de haver um balanço negativo no final. De fato, observamos que a coesão social do país tem sido desgastada por fatores econômicos relacionados com os eventos. Além disso, fica claro que existe uma enorme pressão nos jogadores da seleção nacional. Se a equipe não for bem ou não corresponder às expectativas, a chance de um legado negativo ocorrer aumentará. Dificilmente tais eventos acarretarão algum tipo de benefícios econômicos para o Brasil e estou muito preocupado com a forma como o país irá utilizar essas estruturas esportivas construídas para receber esses eventos. Eu creio que a desconfiança dos brasileiros em relação aos seus governantes só irá aumentar ao chegarem à conclusão de que estas atividades beneficiarão apenas uma parcela muito pequeno da população. Este é um risco real e espero que o Brasil possa passar por este momento sem problemas. Portanto, eu torço pelo Brasil e pela seleção nacional.