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A musculação ajuda o cérebro?

Ricardo Guerra

27 agosto 2013 | 07:00

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Ao longo dos anos, muitas pesquisas têm examinado o papel da musculação em alguns quadros clínicos. Tal modalidade física vem sendo considerada um artifício crucial na luta contra a perda de massa muscular que acompanha o processo de envelhecimento. Por vezes, a musculação tem também sido utilizada para diminuir os efeitos debilitantes de determinados tratamentos médicos, tais como a terapia de privação de andrógeno para os indivíduos que sofrem de câncer metastático da próstata.

Na última década, os pesquisadores começaram a examinar como os efeitos da prática da musculação afetam certas funções cerebrais. Muitos vêm apoiando a ideia de que o exercício físico pode ser uma medida eficaz para preservar certos elementos da função cognitiva (processos e capacidades mentais relacionados com a memória, a aprendizagem, o pensamento, o raciocínio, entre outros).

Paralelamente, vários estudos que examinam o tema sustentam conclusões promissoras que eventualmente podem vir a influenciar e a ganhar um maior espaço dentro dos recursos atuais utilizados para tratar do declínio cognitivo que afeta os idosos. Esta é uma preocupação da área da saúde que tem recebido maior atenção nos últimos anos e que consequentemente levou alguns grupos de pesquisadores a investigar a relação entre os diferentes índices cognitivos e os efeitos da prática de musculação.

Diversos mecanismos fisiológicos têm sido propostos para explicar os efeitos benéficos do exercício na função cognitiva. No caso da musculação, por exemplo, uma explicação plausível está relacionada com o aumento dos níveis circulantes do fator de crescimento insulínico tipo 1, ou seja, IGF-1 (um hormônio importante para o crescimento e desenvolvimento), que são observados após o cumprimento de um programa de musculação. O aumento dos níveis de IGF-1 tem sido apontado em certos estudos como responsável por influenciar favoravelmente diversos processos neurofisiológicos.

Embora muitos estudos tenham demonstrado que a musculação possa ter efeitos benéficos sobre certos índices cognitivos, alguns destes têm dado origem a resultados conflitantes. Assim sendo, nem todos na comunidade científica acreditam que as provas dos efeitos da musculação sobre a função cognitiva sejam conclusivas, pelo menos até ao presente momento, apesar de muitos resultados serem promissores. Desta forma, muitos crêem que as conclusões dos estudos existentes não são consideradas irrefutáveis.

Dessa maneira, solicitei ao Dr. Claude Messier, um pesquisador da University of Ottawa, e que possui vasta experiência na análise de questões metodológicas relacionadas aos estudos do exercício e do envelhecimento cognitivo, para comentar as inconsistências nos resultados das diversas pesquisas sobre os efeitos da musculação na função cognitiva.

De acordo com ele, mesmo havendo investigações muito interessantes sobre o papel da musculação na função cognitiva, tais estudos têm ainda algumas questões metodológicas que precisam ser abordadas e resolvidas antes que possamos dizer definitivamente que esta atividade física pode acarretar benefícios ao combate do declínio cognitivo.

“Além disso, se de fato encontrarmos a existência de uma relação causal entre o treinamento de força (musculação) e da cognição e das habilidades cognitivas preservadas no envelhecimento, devemos nos perguntar se estamos presenciando uma verdadeira relação causal ou se foi precipitada por outros fatores (como, por exemplo, por fatores dietéticos, pelos exercícios cognitivos, pelo engajamento social e pelo exercício físico), que são difíceis de controlar, compreender ou separar nestes tipos de estudos”, concluiu o Dr. Messier.

Portanto, com o envelhecimento da população, há uma pressão maior sobre a comunidade científica para encontrar formas de ajudar a preservar a função cognitiva, que é notoriamente afetada pelo processo de envelhecimento, pois a preservação desta  função é considerada crucial na manutenção de uma melhor qualidade de vida para os idosos.

Deste modo, devemos notar que os dados existentes sobre o papel da musculação como forma de lidar com quadros clínicos específicos podem ser mais robustos em alguns casos do que em outros. No entanto, as pessoas não devem deixar esta atividade de lado, pois há muitos outros benefícios fisiológicos que estão relacionados com esta prática. Além disso, devemos esperar que mais estudos venham à tona, antes de chegarmos a opiniões conclusivas sobre a influência da musculação na função cognitiva.