
Muito tem sido comentado ao longo dos últimos anos sobre a natureza exaustiva do calendário anual de futebol ao redor do mundo. Os campeonatos foram ampliados ocasionando um número maior de equipes. Consequentemente, os atletas jogam cada vez mais a cada ano. Alguns times disputam duas ou até mesmo três competições ao mesmo tempo. Em tais circunstâncias, alguns jogadores podem jogar duas partidas por semana durante várias fases da temporada. Assim sendo, esses atletas certamente encontram dificuldades na capacidade de se recuperarem totalmente entre um jogo e outro.
A pesquisa envolvendo a busca de um marcador sanguíneo único, que possa servir como modelo padrão com o intuito de medir a recuperação dos atletas após o exercício exaustivo, está em pleno curso, sendo tema de muito debate dentro do campo da fisiologia do exercício. Além disso, em torno da literatura científica, há muita informação sobre o tempo necessário para a reposição do glicogênio – combustível armazenado nas células dos músculos esqueléticos, que serve como fonte de energia para tais, durante o esforço físico intenso, como por exemplo, durante uma partida de futebol.
Dessa maneira, é possível fazer com que os níveis de glicogênio voltem ao normal dentro das 36 horas após uma partida, se os jogadores seguirem um regime apropriado de alimentação, se tomarem os suplementos ergogênicos adequados e se tiverem tempo suficiente de repouso. No entanto, a reposição dos níveis de glicogênio é um dos muitos elementos dentro do processo de recuperação de um jogador.
Desse modo, vários outros elementos fisiológicos desempenham papel vital no sistema de recuperação, e alguns deles podem levar uma semana ou até mais tempo para serem normalizados, dependendo da carga de esforço físico. Após o exercício exaustivo, por exemplo, o sistema imunológico é severamente deprimido. Além disso, vários mecanismos neurológicos sofrem alterações que não são totalmente compreendidas, e que também levam tempo para serem totalmente restauradas. Ainda mais, em uma competição onde os jogos são disputados com grande frequência, os jogadores podem sofrer efeitos debilitantes por vários dias ou até mesmo por uma semana, incluindo micro-rupturas e dores musculares.
Tomemos como exemplo, o calendário da Eurocopa 2012. Na primeira fase da competição, as diversas seleções jogaram uma média de três jogos em menos de dez dias. Sobre este fato, na conversa que mantive pelo telefone com o Dr. John Ivy, fisiologista de renome mundial da University of Texas, ele me disse que duvidava muito que um jogador seria capaz de ter uma recuperação completa, com tantos jogos em um período tão curto de tempo.
Assim sendo, o planejamento da tabela da Eurocopa atual é tão absurdo, que a seleção de Portugal tendo jogado sua partida de quarta de final antes da Espanha, que foi sua adversária ontem na semifinal, teve aproxidamente 48 horas a mais para se preparar para esta partida. A mesma vantagem terá a Alemanha ao enfrentrar a Itália hoje nas semifinais. Com base nisso, como alguém poderia justificar uma vantagem tão grotesca entre os adversários? Isso não faz sentido e é simplesmente uma vergonha!
Em meio a tal situação, fica evidente que quem organizou esse calendário não tem a menor idéia sobre os conceitos mais rudimentares da fisiologia do exercício. Os organizadores do evento, certamente, mostraram um conhecimento zero sobre a dinâmica do processo de preparação, recuperação e certamente não dão a mínima sobre o bem-estar fisiológico dos jogadores.
Dessa forma, é desumano exigir mais desses jogadores na atual competição, pois muitos certamente encontram-se esgotados, além do que, não devemos nos esquecer que eles acabaram de participar de uma temporada inteira em seus clubes.
Segundo o Dr. Ivy, “O processo de recuperação está interligado e é significativamente mais complexo do que as pessoas imaginam. Eu duvido que a maioria desses jogadores que estejam jogando na Eurocopa deste ano, se encontra fisicamente e mentalmente em sua melhor forma, depois de virem de uma temporada tão desgastante”.
Na verdade, um estudo realizado por pesquisadores suecos da Linkoping University examinou a correlação entre a quantidade de partidas que alguns jogadores europeus haviam disputado nos meses que antecederam a Copa de 2002, e o número de lesões, assim como o nível do desempenho desses durante aquele evento. Os pesquisadores observaram que os jogadores que tiveram atuação inferior na Copa do Mundo, de fato tinham jogado mais partidas nas semanas que antecederam a competição, em comparação com aqueles que tiveram uma performance melhor do que o esperado.
Os pesquisadores também observaram, que quase dois terços dos jogadores que jogaram mais de uma partida por semana durante as últimas 10 semanas da temporada, ora sofreram contusões, ora tiveram um desempenho inferior durante a Copa. É bem possível que a origem do problema possa estar diretamente ligada ou relacionada à comercialização grotesca e a quantidade de dinheiro exorbitante que gira em torno do futebol.
Em entrevista pelo telefone, o Dr. Tobias Moskowitz, professor de economia da University of Chicago e autor do livro best-seller Scorecasting, alertou-me sobre os fatores econômicos que estão desafiando os limites dos jogadores.
De acordo com o Dr. Moskowitz, “O retorno econômico acaba por promover mais jogos, proporcionando um calendário congestionado. Os torcedores querem assistir o maior número de partidas possíveis, gerando, desse modo, maiores bilheterias. Sem contar o maior número de propagandas de TV. E tudo isso vai se acumulando, e os jogadores não são pagos por partida”.
Na verdade, para os cartolas não importa se os jogadores se sacrificam, jogando uma quantidade excessiva de partidas. O único objetivo é o lucro desenfreado, custe o que custar.
“É bem provável que os cartolas e os jogadores tenham que estar dispostos a aceitar menores recompensas financeiras, para a obtenção de um calendário mais humano”, completou o Dr. Moskowitz.
No entanto, a ganância é tanta, que a troco de qualquer dinheiro, os cartolas que comandam o jogo mais bonito do mundo chegam a tropeçar nos seus próprios erros, a ponto de botarem em curso um calendário patético para uma das competições mais importantes (Eurocopa 2012), chegando a ser motivo de chacota. A incompetência e o descaso desses individuos é alarmante. Entretanto, a paixão das massas pelo futebol mexe com os corações, arranca lágrimas, dando muitas vezes alegria para aqueles que não têm nada, porém, permite que os erros escabrosos desses “organizadores”, passem muitas vezes despercebidos e que eles continuem impunes.
Infelizmente, tais dirigentes ainda têm a audácia de chegar no nosso país para nos dar aula de como organizar uma Copa do Mundo! E com isso, eles continuam denegrindo e desrespeitando a imagem do jogo e tirando vantagem da boa vontade dos torcedores. Está na hora dos jogadores virarem a mesa! Os jogadores unidos jamais serão vencidos!

A participação em esportes como a maratona tem aumentado nas últimas décadas de maneira significativa. Muitos dos atletas participantes neste tipo de competição aderem aos regimes e protocolos intensos de treinamento visando obter uma preparação adequada para o dia da prova. Alguns até chegam a viajar mundo afora, com o objetivo de competir em diferentes eventos.
Em uma série de estudos recentemente publicados no Clinical Journal of Sports Medicine, pesquisadores do Hartford Hospital examinaram a influência que as viagens aéreas exercem sobre o processo de coagulação e fibrinólise (quebra do coágulo), que é induzido pela atividade física em maratonistas. O estudo chegou à conclusão que pode não ser a melhor opção para os praticantes de uma maratona, que eles passem muitas horas sentados em aviões.
A explicação para tal é que, durante o processo de coagulação (parte importante do mecanismo de homeostase, ou seja, equilíbrio fisiológico do corpo), o sangue se torna mais viscoso. Assim sendo, a coagulação impede o sangramento excessivo no caso de uma ferida ou corte profundo. Nas pessoas saudáveis, os coágulos são constantemente renovados e destruídos durante o processo com o intuito de manter o equilíbrio hemostático. Para tanto, sabe-se que a atividade física, tal como a maratona, promove a ativação do sistema coagulatório. No entanto, tal aumento da coagulação é geralmente acompanhado concomitantemente pelo desencadeamento da fibrinólise.
Porém, as viagens aéreas estimulam de forma ainda maior o sistema coagulatório. Na verdade, qualquer viagem de 04 ou mais horas (seja de ônibus, trem, carro ou avião), a qual existe grande nível de imobilidade, em virtude das pessoas ficarem sentadas por longo tempo, aumenta o risco de coágulos em quase duas vezes mais. Portanto, é possível que o excesso de carga física tal como a participação em uma maratona, juntamente com viagens prolongadas, possam vir a aumentar o risco da formação de coágulos no sangue. De fato, vários casos documentados de Trombose Venosa Profunda – TVP (coagulação de sangue nas veias profundas das pernas), e a Embolia Pulmonar – PE (coagulação de sangue nos pulmões), condições que são relacionadas com a formação patológica de coágulos, foram relatadas em corredores saudáveis, que fazem viagens aéreas constantes para as competições.
Em outras palavras, o sangue precisa passar de forma não interrompida através das artérias e veias, a fim de cumprir com as funções básicas do organismo. Poderíamos comparar o sistema circulatório a um agrupamento de mangueiras múltiplas interconectadas (como se fossem rodovias interligadas), que necessitam estar prontamente livres de qualquer obstáculo para proporcionar um fluxo livre de trânsito. Uma interrupção em tal fluxo, causado por um coágulo de sangue nas pernas, por exemplo, poderia causar à inflamação e o inchaço impedindo que o sangue retorne para o coração. Assim, de forma semelhante, um coágulo nos pulmões impossibilitaria que o sangue obtenha a oxigenação necessária durante a respiração.
Um estudo conduzido pela Dra. Beth Parker examinou 41 adultos que participaram da 114ª Maratona de Boston, incluindo um grupo que voou mais de quatro horas e outro que vivia próximo daquela localidade. Os resultados do estudo mostraram que viagens aéreas aliadas à participação numa corrida de maratona induzem um estado agudo hipercoagulante. Foi constatado que tal desequilíbrio hemostático é agravado com a idade. Além disso, alguns dos atletas participantes no estudo conduzido pela Dra. Parker obtiveram índices elevados de um marcador sanguíneo valioso (D-Dímero), que é utilizado para excluir o diagnóstico de trombose venosa profunda.
Os resultados do estudo têm importantes implicações práticas para determinados grupos de corredores.
Em uma conversa ao telefone, a Dra. Parker explicou as principais aplicações práticas de seu estudo e pesquisa ao dizer que: “Maratonistas com uma história familiar de TVP e EP, e aqueles com problemas patológicos relacionados à coagulação, assim como corredores mais velhos e mulheres usando contraceptivos à base de estrogênio, deveriam optar por tomar certas medidas de precaução quando estiverem fazendo uma viagem para as maratonas”, a Dra. Parker ainda afirmou que: “Evitar ficar parado por um longo tempo, não vestir roupas apertadas em torno da coxa, manter-se bem hidratado e utilizar meias elásticas com a devida compressão que ajudem a circulação sanguínea das pernas, evitando assim o refluxo sanguíneo, são algumas das precauções aconselháveis. “
Quando lhe perguntei se seria aconselhável estender essas medidas de precaução para outros grupos de corredores, ela disse que tais procedimentos não seriam necessários e nem justificáveis. Mesmo assim, alguns maratonistas poderiam optar por seguir algumas das medidas de precaução da Dra. Parker a caminho de uma corrida, mesmo que estes corredores não fizessem parte dos grupos de risco. Enquanto que outros poderiam optar por utilizar todas essas informações como pretexto para não ter que fazer longas viagens, e apenas participar das provas de maratonas locais.

Ao longo das últimas três décadas o número de participantes nas maratonas e outros eventos de ultra-resistência têm aumentado significativamente. A maratona de Nova Iorque, por exemplo, uma das mais respeitadas no mundo, em 2011 teve aproximadamente 47.000 participantes. Além disso, anualmente ocorrem mais de 500 corridas deste tipo pelo mundo inteiro. Nos últimos dois artigos publicados neste blog abordamos o impacto das atividades de ultra-resistência sobre os sistemas imunológico e endócrino.
Em revisão científica publicada esta semana na revista médica Mayo Clinic Proceedings foram examinados diversos estudos que quantificaram os potenciais efeitos nocivos ao sistema cardiovascular que decorrem da prática excessiva das atividades de ultra-resistência (maratonas, ultra-maratonas, triátlons, Ironman e provas prolongadas de ciclismo). Os investigadores examinaram vários estudos de atletas que treinaram e participaram de tais provas. O estudo liderado pelo Dr. James O’Keefe concluiu que em alguns indivíduos, os treinamentos e as práticas excessivas a longo prazo podem provocar a remodelação patológica estrutural e eletrofisiológica do coração, incluindo a fibrose, o enrijecimento dos átrios, do ventrículo direito e das grandes artérias. Assim sendo, potencialmente predispondo algumas pessoas às arritmias diversas e aumentando riscos cardíacos.
No entanto, os pesquisadores fizeram questão de enfatizar que os dados científicos demonstram os mais que reconhecidos benefícios dos exercícios físicos praticados diariamente de maneira moderada e que, aqueles que se exercitam aumentam sua expectativa de vida em média de sete anos em relação às pessoas que são fisicamente inativas.
Um dos coautores do novo estudo, o Dr. Carl Lavie, diretor médico de reabilitação cardíaca e prevenção do John Ochsner Heart and Vascular Institute de Nova Orleans, me disse em entrevista pelo telefone, que alguém que almeja obter simplesmente os benefícios fisiológicos à saúde, decorrentes das atividades físicas moderadas, não tem nenhuma razão para participar das maratonas ou dos outros eventos de ultra-resistência.
“Se o objetivo da prática do exercício fisico é o bem estar e a saúde em geral, a pessoa provavelmente acarretará todos os benefícios fisiológicos nos primeiros 30 a 55 minutos. Ao ultrapassar este tempo, talvez seja um desperdício. Em contrapartida, se o indivíduo realmente extrapolar com cargas excessivas compatíveis a uma maratona e outras provas de ultra-resistência, então é possível que o impacto seja negativo para a saúde”, acrescentou o Dr. Lavie.
Concluindo, o cardiologista fez questão de frisar que precisamos de mais estudos para investigar o tema em pauta, para compreendermos de modo mais profundo, o impacto a longo prazo no sistema cardiovascular.
2013
2012