Ricardo Guerra - Estadao.com.br
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Como brasileiros devemos defender a nossa rica história no futebol e exigir sempre que os melhores jogadores com maior espírito de equipe sejam convocados para nos representar numa competição internacional. Hoje em dia, um dos maiores desafios para os técnicos de futebol profissional é gerenciar as mais diversas personalidades de uma determinada equipe de jogadores. Desse modo, não há tarefa maior que convencer um atleta superstar, com um enorme ego, a deixar de lado os seus interesses individuais em prol de uma equipe. Tal tarefa pode ser bem desafiadora e difícil em uma sociedade que endeusa celebridades e chega ao ponto de se obcecar com elas. Dessa maneira, os treinadores mais bem sucedidos são aqueles capazes de tirar o melhor proveito desses indivíduos complicados ou de reconhecer que tais “divas” são irremediavelmente irrecuperáveis e devem ser descartadas como mero refugo.

Logo, o treinador deve ser sempre a autoridade final, inspirando respeito a todos os jogadores e praticando a máxima popular da “rapadura”: doce no trato, mas duro na cobrança.

No futebol de hoje em dia não é incomum nos depararmos com jogadores impregnados de personalidades caracterizadas com graus excessivos de vaidade. Desse modo, acreditamos que tais personagens deveriam ser previamente informados sobre a história e a riqueza do nosso futebol e sobre a devoção de gerações anteriores de jogadores, que muito se sacrificaram para representar nosso país. O jogador quando veste as cores da seleção deveria saber que não vai ali atuar para sua autopromoção. Sua postura fora e dentro do campo é vista por todos, inclusive por muitos jovens em plena formação. Jogar na seleção deve ser visto como uma honra e um privilégio. Jogador nenhum, seja ele quem for, deverá achar que o canarinho precisa de seus serviços! A seleção não precisa de ninguém, pois eles, meros jogadores, é que precisam da seleção! Eles devem sempre ter a noção de que se não forem agregar algo ao grupo, aderindo aos objetivos da equipe, os quais devem ser uniformes, eles serão descartados imediatamente.

O nosso grande ex-capitão Lúcio sintetizou bem o significado de jogar na seleção: “O escudo no peito é mais importante do que o nome escrito nas costas. Representamos uma nação”. Assim sendo, por mais talentosos que alguns jogadores possam ser, eles devem sempre estar cientes do risco de serem cortados se os seus interesses conflitarem com os interesses da equipe, pois ninguém é insubstituível. Tais indivíduos, que criam confusão e querem ser o centro das atenções em um esporte coletivo como o futebol, são como células cancerígenas que podem se alastrar eventualmente contaminando todo o organismo. Portanto, quem deixou alguns destes elementos de lado no passado e quem os deixou de fora agora sabia exatamente o que estava fazendo.

Como brasileiros devemos ser gratos e reconhecer a riqueza da nossa herança dentro do futebol e como ela ajudou nosso país no desenvolvimento do conceito de nacionalidade e patriotismo. O sangue, o suor e as lágrimas derramadas no campo por jogadores de gerações anteriores, craques imortais da bola, como Pelé, Garrincha, dentre outros, orgulho de todos os brasileiros, trouxe tanto ou mais reconhecimento ao nosso país quanto às realizações de grandes cientistas, pintores e autores estrangeiros trouxeram para seus países no âmbito mundial.

A fascinação pelo nosso futebol se manifesta no mundo inteiro. Como um cidadão brasileiro, vivendo no estrangeiro durante vários anos, eu fui compreender e valorizar, de maneira profunda, o legado, o significado e a importância do futebol brasileiro, seja através do motorista de táxi em Liverpool, que ao descobrir que sou brasileiro, abriu um sorriso e começou a falar sobre a magia de Pelé e como ele foi caçado dentro do campo no estádio Goodison Park, durante a Copa do Mundo em 1966, seja pelo menino egípcio jogando bola nas poluídas ruas do Cairo com a camisa do Romário, seja pelo velhinho nas ruas caóticas de Cartum fumando chicha e vestindo a camisa pentacampeã que tanto amamos ou pelo árabe do Golfo que ao tomar conhecimento da minha nacionalidade, me convidou para uma refeição em sua casa na companhia de sua família.

Bem, analisando o desempenho das seleções na última Copa América, podemos verificar que a equipe uruguaia era um caso à parte. Naquela ocasião, era um exemplo de união entre indivíduos que tinham os mesmos objetivos. Os jogadores daquele pequeno país (com menos de quatro milhões de habitantes), nos deram uma lição, esbanjando raça, coragem e determinação, além de um forte espírito de equipe baseado no compromisso estabelecido por todos dentro do campo de nunca se entregar, pois desistir é uma palavra que eles pareciam desconhecer. Eles lutaram até o fim fazendo parte de uma equipe com uma mentalidade guerreira, onde todos eram iguais e ninguém era mais importante que o outro. Talvez já seja tempo de nós brasileiros olharmos os nossos vizinhos e absorvemos ou assimilarmos um pouco desses valores e dessa mentalidade no espírito de nossa equipe, que esteve em falta em nossas duas últimas competições internacionais (Copa América e Olimpíadas).

Na ocasião da Copa América, o técnico uruguaio, Óscar Tabárez, fez obrigatória a leitura da biografia do temido e respeitado capitão da celeste, Obdulio Varela, para todos os jogadores. É bem possível que com isso ele procurou apontar a herança do legado do futebol uruguaio para os seus comandados. Assim sendo, os atletas que forem escolhidos para a nossa seleção devem ficar cientes da nossa história dentro do futebol, da mesma forma que os uruguaios têm ciência do passado deles.

Teremos certeza que assim, certos indivíduos na nossa equipe irão se preocupar menos com fatores individuais, supérfluos, ridículos, deixando as vaidades de lado, e consequentemente, desenvolvendo o verdadeiro objetivo do jogador, que é pelejar, estando imbuídos de uma mentalidade de vencer ou morrer pela nossa seleção em busca da vitória. Portanto, representando o nosso país de forma honrosa e fazendo justiça ao verdadeiro significado e a responsabilidade que está vinculada em vestir as cores da camisa da seleção brasileira.

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Após intensas discussões sobre quem seria o melhor candidato para substituir Sir Alex Ferguson no comando do Manchester United, a gestão administrativa da equipe confirmou David Moyes como novo técnico do time na última quinta-feira. O candidato escolhido irá se juntar oficialmente aos Red Devils no dia 1 º de julho, após o término da temporada com o Everton.

É inegável que Alex Ferguson conseguiu alcançar um sucesso extraordinário liderando o Manchester United. O clube continua a ser uma grande potência entre a elite do futebol mundial, e durante a gestão de Ferguson ganhou vários títulos. Entretanto, Ferguson não deve se aposentar sem dar uma explicação sobre um comentário feito recentemente, que envolveu o incidente com o jogador brasileiro do Chelsea que ficou no chão, encolhido e fingindo que estava machucado.

Na semana passada o escocês questionou o profissionalismo do zagueiro do Chelsea, David Luiz, após um incidente em uma partida que levou a um dos jogadores de Ferguson a ser expulso do jogo.

Alex Ferguson não gostou da derrota do United no encontro do domingo passado (0-1) e ainda apreciou menos a atitude de David Luiz. O técnico escocês disse: “O Rafael, jogador do Manchester, levou uma cotovelada e revidou. A sanção mais pesada é para aquele que reage, mas ficou claro que Luiz lhe deu duas cotoveladas. Rafael deu o troco, mas Luiz claramente lhe deu duas cotoveladas e depois rolou no chão, como se fosse um cisne prestes a morrer, e foi isso o que convenceu o árbitro. Ele, Luiz, ficou rindo e isso é mau. Que espécie de profissional é este?”

O técnico do Manchester United rejeitou a afirmação de que a falta de Rafael deveria ser considerada uma conduta violenta. Com base nisso, Ferguson parece ter razão em algumas de suas queixas, mas ele perdeu a credibilidade com a seguinte declaração:

“O árbitro se deixou levar pelo fato de ele estar rolando no chão e duvido que tomaria outra decisão se não tivesse visto aquilo. É algo que vemos nestes jogadores europeus, estrangeiros e sul-americanos”, frisou ainda o treinador do United.

Será que o técnico escocês realmente acha que os únicos jogadores que fingem estar contundidos são estrangeiros, sul-americanos ou europeus? Essa parte da sua afirmação é inquietante, e eu não sei se foi um descuido ao se pronunciar em virtude do calor do momento ou se era realmente uma indicação mais preocupante de algum preconceito da parte de Ferguson.

De acordo com o que ele disse, será que ele está dando a entender que os únicos que não fingem lesões são os jogadores britânicos? Bem, talvez tais atletas simplesmente não tenham tantas oportunidades para dramatizar suas lesões no centro do maior palco do futebol mundial, a Premier League, uma vez que eles são cada vez mais uma raridade entre os titulares das maiores equipes do mundo. E a cada ano que passa, eles parecem ter menos espaço em decorrência de serem substituídos pelo talento estrangeiro – precisamente o mesmo talento estrangeiro cobiçado em muitas ocasiões pelo próprio Ferguson para fazer parte de seu plantel.

Será que Ferguson tem noção da composição internacional de sua própria equipe, e como o seu comentário mina e ataca seus próprios jogadores estrangeiros? Na verdade, é surpreendente como um líder de uma das maiores equipes de futebol do mundo possa fazer comentários tão ofensivos como esses, negligentemente, sem sofrer qualquer tipo de represália. Apenas sob a vigilância de um segmento da imprensa inglesa que parece estar cada vez mais conivente e submissa é que um comentário desses poderia passar despercebido. Se tal comentário tivesse sido feito por um técnico de qualquer equipe esportiva profissional norte-americana, ele teria sido repreendido e, potencialmente, até mesmo forçado a renunciar.

Para um homem que comanda um clube que alega ser o mais popular do mundo, suas declarações foram extremamente insensíveis. O Manchester United não só é um clube popular dentro do futebol Inglês, mais a sua popularidade também é sentida em todos os cantos do mundo. As torcidas organizadas do United estão espalhadas de leste a oeste, de norte a sul, e assim presentes em todos os continentes.

Desse modo, uma pesquisa realizada em todo o mundo pela companhia Kantar, uma empresa de pesquisa de mercado, alega que o Manchester United tem 659 milhões de seguidores em todo o mundo: 71 milhões de fãs na América, 90 milhões na Europa, 173 milhões no Oriente Médio e África, e 325 milhões na Ásia-Pacífico, incluindo 108 milhões na China.

Se a precisão de tal estudo for de fato correta, os números  indicam que o Manchester United tem uma popularidade mundial simplesmente impressionante. Este apoio pressupõe uma grande responsabilidade por parte do clube, que deveria ter o cuidado de não ofender grupos diversificados de adeptos que seguem a equipe por todo mundo. Realmente, talvez já seja tempo de o homem que governou o Manchester United com um punho de ferro por tanto tempo se aposentar. Esperamos que o novo técnico escolhido seja dotado de uma perspectiva mais cosmopolita – uma perspectiva que seja mais sensível com os milhões de “estrangeiros” que sustentam a marca United, dia a dia, em todo o mundo. Isto é o mínimo que os torcedores merecem.

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Na semana passada, o tenista espanhol Rafael Nadal criticou a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) por não fazer o suficiente para proteger a saúde dos jogadores. O atleta de 26 anos afirmou que as quadras exigem demasiado do corpo dos jogadores e é muito complicado evitar lesões durante a carreira.

“As quadras duras são agressivas para nossas articulações, costas, tornozelos e joelhos. Não imagino jogadores de futebol jogando sobre o cimento. O tênis é o único esporte que comete este erro e acho que não vai mudar, pelo menos não na minha geração. A ATP se preocupa muito pouco com os jogadores”, disse o espanhol durante  uma entrevista coletiva que antecedeu sua estréia no Brasil Open, na semana passada, no Ginásio do Ibirapuera.

A questão de como diferentes tipos de piso estão relacionados com o risco de lesões é tema de muito debate no meio esportivo. No passado, vários investigadores examinaram diversos tipos de superfícies desportivas  (grama natural, saibro, acrílico, etc.), a fim de determinarem o risco de contusões decorrentes de cada uma delas. No entanto, a maioria desses estudos foi apenas executada nas modalidades de futebol e de futebol americano.

É importante salientar que o assunto não é tão simples como muitos imaginam. No caso da prática do jogging, por exemplo, seria um grande desafio encontrar evidências científicas claras de que uma superfície menos dura poderia beneficiar mais os corredores. De fato, há uma falta de estudos escrupulosamente controlados, implementados com métodos rigorosos, que observem um número significativo de corredores sobre solos mais e menos rígidos, com o objetivo de constatar e determinar os índices de danos no sistema músculo-esquelético.

Contudo, a situação do tênis pode muito bem ser completamente diferente. Na verdade, as reivindicações de Nadal podem ter algum mérito. O Dr. Benno Nigg, professor de biomecânica, da University of Calgary, mundialmente conhecido, realizou um estudo de referência há quase 30 anos, comparando a frequência de lesões em diferentes tipos de superfícies de quadras de tênis.

“Os resultados do meu estudo demonstraram que, em comparação com o saibro, os pisos de cimento ou de outras superfícies artificiais que não permitem o deslize, ocasionam de 3 a 5 vezes mais contusões… Demonstrando um aumento destas de 300 a 500 por cento”, afirma o Dr. Nigg.

Em entrevista pelo telefone, ele também me disse que um determinado piso artificial utilizado em seu estudo (composto por areia artificial em seu topo e com características semelhantes aos de saibro) apresentou menores índices de lesões, aproximando-se assim dos resultados encontrados nos pisos de saibro convencionais.

“A conclusão principal do meu estudo é que, quando você permite o deslize, você tem uma situação em que a força exercida sobre o corpo humano é reduzida e, portanto, a frequência das lesões diminui”, acrescentou o Dr. Nigg.

Um artigo publicado nos últimos dois anos na revista científica Sports Medicine fez uma revisão da literatura científica sobre o impacto das diversas superfícies, nas quais diferentes esportes são praticados, e sobre os índices de lesão, e concluiu que no tênis o piso de saibro é significativamente mais seguro do que a grama e outros pisos mais duros. Entretanto, os pesquisadores da Stanford University que realizaram tal averiguação advertiram que chegaram a essa conclusão com dados limitados.

Muitos são da opinião que os torneios devem ocorrer com maior frequência em pisos de saibro, a fim de minimizar as possíveis lesões. Alguns argumentam mesmo que as partidas de tênis devem ser proibidas nas quadras de cimento. Outros acreditam ainda que os torneios devem alternar entre as diferentes superfícies, com o intuito de minimizar os riscos de danos no sistema músculo-esquelético .

No entanto, a ideia de alternar os torneios entre as diversas superfícies deve ser examinada com mais atenção. Na verdade, muitos argumentam que qualquer mudança de um piso menos rígido para outro mais duro, ou vice-versa, deve ser feita com muita cautela.

O Dr. Nigg afirma que “sempre que há uma mudança de piso na prática do esporte, há alterações na coordenação motora de um atleta, o que pode aumentar o risco de lesões. Um estudo realizado com jogadores de futebol na Escandinávia demonstrou que a maioria das lesões ocorrem em certas temporadas do ano em que o clima requer a mudança de localização (interior ou exterior), da prática das modalidades esportivas. Assim sendo, é possível que a mudança repentina de piso também possa aumentar os riscos de lesões.”

Deste modo, concluímos que o risco de lesões pode aumentar porque nossos corpos tornam-se biomecanicamente acostumados ao recrutamento de certas unidades motoras e, consequentemente, quando há uma mudança para uma superfície diferente, esses mecanismos são alterados, tendo assim que se adaptar a condições com que temos pouca familiarização neuromuscular.

“Os jogadores e os atletas devem se acostumar gradualmente ao novo piso em que estão jogando”, disse o Dr. Nigg.

Quando lhe perguntei se a ATP deveria minimizar ou banir totalmente a prática do jogo em superfícies rígidas, ele me disse que preferia não especular sobre o que a organização deveria fazer. Ele finalizou sua declaração afirmando que o seu trabalho é apenas o de apresentar os fatos. Assim sendo, será que a ATP continuará a ignorar tais fatos? Tudo indica que sim e tudo indica que Nadal tem toda a razão.

 

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 Acima o Rabino Harold Kushner

O Rabino Harold Kushner é uma das autoridades religiosas mais respeitadas do mundo. Seu best-seller, Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas, já vendeu mais de 4 milhões de cópias. O livro foi escrito após a morte trágica de seu filho, que aos três anos de idade foi diagnosticado com uma doença degenerativa raríssima. A obra trata de assuntos referentes à vida, ao sofrimento humano e à onipotência de Deus. Seus livros têm sido uma fonte de inspiração para milhares de pessoas em todo o mundo. Veja aqui a entrevista que me foi concedida esta semana na qual Kushner fala sobre diversos assuntos, entre eles, a tragédia que atingiu Santa Maria.

Pergunta Blog: O seu best-seller foi uma fonte de inspiração e de consolo para milhões de pessoas que passaram por momentos difíceis em todo o mundo. O que motivou você a escrever este livro com tanta sabedoria e discernimento? Será que foi a experiência trágica que você enfrentou com o seu filho?

Harold Kushner: Foi sim. Sem dúvida.

Pergunta Blog: Você gostaria de comentar sobre essa experiência?

Harold Kushner: Vou contar-lhe toda a história. Eu cresci sempre acreditando em um Deus Todo Poderoso e onipotente. Porém, se não pudéssemos entender porque Deus permitiu o Holocausto e o nascimento de Hitler, ou que pessoas inocentes morressem sofrendo de dores agonizantes por meio de um câncer, então seria a nossa interpretação a respeito da função Dele que seria limitada, pois não foi Deus que permitiu tais coisas. Não podia ser Deus. Ele não faz isso, não escolhe tão arbitrariamente entre uma pessoa e outra. A minha formação como rabino no seminário, foi muito influenciada por essa linha de raciocínio. Quando descobri que meu filho inocente estava condenado a uma vida de sofrimento, ou eu tinha que parar de acreditar em Deus e deixar de ser um rabino, ou eu tinha que passar a entender o papel de Deus, a função dele no mundo de uma forma diferente. E foi aí que vi que Deus estava do meu lado, que Deus não queria que estas coisas acontecessem comigo. O que aconteceu com o meu filho foi uma fatalidade, foi simplesmente uma aberração da genética. Mas uma vez que isso aconteceu e nós soubemos o diagnóstico do nosso filho, minha esposa e eu não sabíamos se íamos ser capazes de lidar com tal desafio e, no entanto, conseguimos. De alguma forma encontramos a força, a sabedoria e a coragem para fazer exatamente o que tinha de ser feito: fomos capazes de criá-lo e de fazer o melhor possível perante uma situação trágica. Ele encontrou os recursos e as forças para lidar com o desafio que estava diante dele. E foi essa experiência que mudou completamente minha visão – eu não estava mais com raiva de Deus, e poderia novamente voltar a contar com Ele e pedir sua ajuda em momentos difíceis. Eu poderia continuar com a minha fé Nele para ajudar outras pessoas com os seus problemas, e isso mudou tudo.

Pergunta Blog: Em seu livro, você argumenta contra a crença de que Deus é uma força onipotente. Você poderia apresentar aos leitores uma introdução a este tema?

Harold Kushner: Algumas pessoas encontram muita dificuldade em aceitar ou lidar com a ideia de que existe aleatoriedade no universo. Elas procuram razões e justificações para tudo o que acontece. No entanto, coisas boas e ruins podem acontecer sem qualquer motivo aparente. Quando um motorista bêbado dirige seu carro sobre a linha central de uma estrada, colidindo com um Chevrolet verde e matando os passageiros daquele carro, em vez do Ford vermelho 50 metros mais distante, não há qualquer razão específica para a perda de uma vida ao invés de outra. Esses eventos não refletem as escolhas de Deus. Deus não escolhe de que forma acabar, tão arbitrariamente, com uma vida em vez de outra. Porém, diante de tal cenário, muitos dos que acabam de sofrer uma tragédia sentem raiva de Deus, porque Lhe atribuem a culpa do acontecido. Ficam convencidos de que Ele é cruel, ou de que são pecadores e responsáveis pelo que aconteceu, ao invés de aceitarem a aleatoriedade que existe no universo. O que eu proponho nos meus livros é que encaremos a posição de Deus em nosso mundo de uma maneira completamente diferente.

Pergunta Blog: Você poderia explicar o assunto com maior profundidade?

Harold Kushner: O psicanalista Carl Jung tem uma teoria de que as crianças sempre procuram acreditar que seus pais são todo-poderosos, isto é, que os pais podem consertar qualquer coisa que estiver errada ou com algum defeito e que eles podem protegê-los de qualquer coisa. E elas ficam completamente desiludidas quando descobrem que eles não possuem a capacidade de protegê-las em todas as circunstâncias. Assim como as crianças, as pessoas direcionam essa crença de um protetor todo poderoso para seus líderes religiosos e políticos: como o rei, o presidente ou o papa. Desse modo, quem quer que seja essa figura, se torna o novo onipotente, o sábio, que irá fazer tudo o que é certo. Quando descobrimos que essa figura também é apenas um ser humano, projetamos esta crença em Deus. Desta forma, nenhum ser humano pode ser todo-poderoso, mas Deus pode! Deus diz: “Espere um minuto! Nunca foi minha ideia ser o Todo-Poderoso. Essa é a sua maneira de evitar suas responsabilidades, depositando-as sobre de mim”. Deus diz: “Meu poder não é controlar o que aconteceu. Meu poder está direcionado para que você tenha as forças necessárias para responder ao que aconteceu. Meu poder é intervir após o fato, após o acontecimento. E ajudá-lo a lidar com o que aconteceu”.  Na minha opinião, é aí que está a força, o poder que Deus tem, não para controlar os fatos, mas para que possamos lidar da melhor forma com o que aconteceu.

Pergunta Blog: Como você sabe, na semana passada uma tragédia atingiu o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, quando mais de 234 vidas foram perdidas em um incêndio em uma boate. Diversas famílias foram destruídas, e os familiares, inconsoláveis, encontram-se na difícil situação de ter que encontrar forças extraordinárias para continuar vivendo sem os seus entes queridos. Como pode alguém, filosófica e teologicamente, começar a tentar lidar com uma tragédia tão terrível como essa?

Harold Kushner: Eu tenho conhecimento do que aconteceu e me solidarizo com os brasileiros neste momento muito difícil. A função de Deus é de nos dar a força de vontade e a coragem para continuar a vida até mesmo diante de um episódio tão trágico como este. Seus entes devem saber que Deus não teve nenhuma responsabilidade em tirar a vida dessas pessoas inocentes, e ele não é responsável pelo que aconteceu. A única coisa que podemos pedir a Deus é para nos guiar e nos dar a força para lidar com essa tragédia terrível. Ele vai estar lá para ajudar e guiar os seus parentes que no momento se encontram inconsoláveis após esta terrível tragédia.

Pergunta Blog: Em diversas ocasiões, usei alguma da sabedoria exposta em seus livros para tentar consolar os inconsoláveis. No entanto, muitas vezes as pessoas que possuem forte fé nas doutrinas de suas religiões se sentem ofendidas quando alguém questiona a onipotência de Deus. O que você tem a dizer sobre isso?

Harold Kushner: Eu entendo o problema e sei que isso às vezes acontece. Se uma pessoa se sente satisfeita com a compreensão tradicional sobre a função de Deus no universo, eu não tenho intenção nenhuma de mudar a crença dela. Eu respeito a posição de cada um e incentivo as pessoas a fazerem ou a acreditarem naquilo que seja mais saudável para elas.

Pergunta Blog: Como pode um devoto judeu, cristão ou muçulmano conciliar sua fé com o conselho que você dá, ou seja, que questiona a onipotência de Deus?

Sim, é necessário certo esforço. Não é uma tarefa completamente fácil. Aquilo em que eu acredito não necessariamente funciona para todos. E eu serei o primeiro a admitir que, se o sistema tradicional funciona para você, então não é necessário buscar outra alternativa. Eu não quero roubar as pessoas das alternativas de pensamento que funcionam para elas. No entanto, para muitos dos que estão confusos e dizem: “Eu quero e gostaria de acreditar em um Deus que escute as minhas orações, mas eu rezo e minhas orações não são respondidas”, eu quero oferecer uma alternativa que torne desnecessário eles terem que parar de acreditar em Deus, ou terem que brigar com Deus. Vou tentar explicar melhor o meu ponto de vista: eu acho que muitas pessoas que são religiosas têm problemas com a oração, porque tendem a confundir a figura de Deus com a do Papai Noel. Nossa compreensão de Deus, ou da função que ele tem, é a seguinte: fazemos uma lista de tudo o que queremos e achamos que merecemos e imploramos para que Deus nos dê tudo o que achamos que merecemos ou que nos faz felizes. No entanto, tais pedidos só poderiam ser correspondidos se Deus fosse Papai Noel. Deus não o é. O que devemos dizer a Deus é: “Eu estou enfrentando uma situação muito difícil. Eu acho que posso lidar com isso se eu tiver certeza de que você está do meu lado, que você não está fazendo isso comigo, mas que você está me apoiando, trabalhando contra o crime, trabalhando contra a injustiça que potencialmente pode vir a me afligir. Se eu souber que você está do meu lado, aí sim, eu posso encontrar forças para continuar no meu caminho”. É desta forma que eu gostaria de encorajar as pessoas a conciliar essa ideia com a relação tradicional das orações.

Pergunta Blog: Há uma justificação teológica dentro dos textos sagrados para apoiar suas posições?

Harold Kushner: Sim, existe. De onde tiramos a ideia de que o poder é a suprema virtude religiosa? Talvez de um mundo onde os imperadores tinham poder sobre a vida e a morte, e tínhamos que acreditar em um Deus que fosse pelo menos tão poderoso quanto o governante humano, ou até mais. Mas no mundo de hoje nós não temos esse problema. Há algo de não-religioso em adorar o poder indiscriminado, em dizer que Deus é grande, porque Ele é tão poderoso. Eu me sinto muito mais confortável acreditando que Deus é grande, porque ele é completamente compassivo e totalmente disponível para ajudar as pessoas.

Pergunta Blog: Mas há alguma justificativa teológica na Bíblia? Será que alguém precisa ter uma interpretação diferente da Bíblia para encontrar apoio ou acreditar na sua posição?

Harold Kushner: Sim, existe uma justificativa na Bíblia. Se há um capítulo de todo o livro que todo o mundo sabe de cor, é o salmo 23: “O Senhor é meu pastor”. Eu não sei se o verso tem a mesma importância na liturgia na América Latina como na liturgia norte-americana, mas é o salmo que ditamos em todos os funerais e em todos os enterros. No salmo 23, o verso mais importante é “Mesmo quando eu andar pelo vale da sombra da morte, não temerei perigo algum, pois Tu estás comigo”. Para o autor deste salmo, o que é reconfortante sobre a função de Deus não é que Ele o tenha levado a passar pelo vale da sombra da morte, não é que Deus tenha atingido alguém que Ele ama, não é que Deus o tenha afligido com uma doença potencialmente mortal, e sim que ele terá o apoio de Deus quando for confrontado com situações difíceis, porque Deus estará com ele: “Tu estás comigo”. Se você ler o salmo 23 com atenção, quando tudo está indo bem para a pessoa que escreveu o salmo, ela se refere a Deus como “Ele”. Somente quando algo terrível lhe acontece é que ela não diz “Ele,” mas “Tu estás comigo,” o “Ele” passa para “Tu”. A religião, ou a crença em Deus, torna-se real quando você tem uma tarefa intransponível pela sua frente e Deus concede a capacidade ou a força para enfrentá-la. Como o exemplo acima demonstra, a teologia é um jogo de palavras, podendo por isso ser considerada um grande desafio intelectual.

Pergunta Blog: Você acha que a sua perspectiva em relação à onipotência de Deus é mais prevalecente dentro do judaísmo, ou acha que também há um grande número de padres católicos, clérigos cristãos ou imãs que compartilham a sua visão?

Harold Kushner: Eu ainda não convenci todos, mas tais ideias não estão somente limitadas ao judaísmo. Já encontrei diversas pessoas no clero católico e protestante que se encontram abertas a essa interpretação. Em relação aos muçulmanos, não muitos. Eu acho que os muçulmanos seriam resistentes a aceitar tal visão. Mas quando eu escrevi o livro, em 1981, a ideia de que Deus estava do nosso lado e não do lado da doença atingiu muitos como herética e louca. Ninguém nunca tinha ouvido falar dela! Agora as pessoas estão se tornando mais abertas para conceber a onipotência de Deus de forma diferente. Há um reconhecimento maior da minha interpretação, e é uma opção viável para aquelas pessoas que têm fé em Deus. Há diversas escolas de pensamento que exploram a ideia de um Deus com poderes limitados. As pessoas podem encontrar tal conceito em livros bíblicos e em escritos medievais. Afinal, é muito mais fácil ter uma admiração saudável por Deus do que relutantemente baixar a cabeça a um Deus que é arbitrariamente cruel.

Pergunta Blog: Sócrates sabiamente disse que aqueles que querem o menor número de coisas estão mais próximos dos deuses. Parece que, como sociedade, nós estamos cada vez mais longe deste conceito. No entanto, os níveis de depressão e infelicidade são os mais altos em alguns dos países mais ricos do mundo. Qual é a sua explicação para tal fenômeno?

Harold Kushner: Deixa eu te dizer uma coisa, essa pergunta me intriga da mesma maneira que provavelmente intriga você. Às vezes eu acho que a culpa é da publicidade que atormenta as pessoas com imagens de diversos bens materiais que não possuímos. O objetivo é o de convencer sutilmente o ser humano de que ele seria mais feliz se tivesse isso ou aquilo. Havia um tempo em que as pessoas eram felizes com um décimo do que uma pessoa em média tem hoje em dia. Assim sendo, eu acho que as expectativas aumentaram e, em consequência disso, eu acho que muitas pessoas estão infelizes consigo mesmas e com o tipo de pessoa que são. Na verdade, elas não têm noção do que verdadeiramente está lhes faltando. Meu sermão durante o Yom Kippur, no ano passado, dizia algo sobre o fato de termos a tendência de invejar todas essas pessoas ricas. Muitas vezes, temos conhecimento dos problemas que muitas famílias famosas e de alto poder aquisitivo têm, como por exemplo, seus filhos que são presos por uso de drogas, seus múltiplos divórcios e suas cirurgias plásticas sucessivas. No entanto, nunca paramos para nos perguntar, porque estamos invejando essas famílias ou pessoas. Na verdade, talvez sejam eles que estejam nos invejando. Portanto, é muito possível que haja milionários que dizem: “Talvez eu pudesse ser mais feliz com um décimo do que eu estou ganhando, se pudesse ter a família e o casamento que eu vejo outras pessoas tendo”.  Assim sendo, nós não damos valor ao que temos. As pessoas seriam muito mais felizes se pudessem focalizar naquilo que elas possuem e terem gratidão por aquilo que têm. E deveriam se sentir abençoadas por isso e satisfeitas com o mundo em que vivem. Vale a pena discutir o assunto um pouco mais a fundo. A pessoa mais pobre na minha comunidade, por exemplo, vive melhor do que o imperador da Rússia vivia, pois ela tem calefação e canalização, tem todos os tipos de dispositivos elétricos para cozinhar seus alimentos, automóveis e entretenimento que o imperador naquela época sequer sonhava ter. Nossas vidas realmente teriam muito a nos oferecer, se tivéssemos a habilidade de focarmos somente naquilo que temos, ao invés de dar importância às coisas que nos faltam.

Pergunta Blog: Há alguns anos atrás, o Papa Bento XVI alertou para os perigos de um mundo caracterizado pelo relativismo moral. Qual é a sua opinião sobre este assunto?

Harold Kushner: O tema do relativismo moral e como ele afeta o mundo em que vivemos faz parte de atuais discussões interessantes no meio acadêmico. Por um lado, eu acho que há princípios ou atitudes que são e devem ser consideradas absolutamente ou universalmente certas ou erradas. No entanto, eu acredito que muitas denominações religiosas taxaram certos valores como sendo absolutistas, quando na verdade muitas pessoas não os veem de tal forma. Eu acho que você poderia provavelmente obter um consenso entre as pessoas de que o assassinato é errado e de que torturar pessoas é igualmente errado, embora recentemente tenha havido casos de governos que tentam justificar a tortura. Desse modo, me parece ser um enorme desafio para as autoridades religiosas fazer com que muitas pessoas concordem com elas, quando esses líderes qualificam os seguintes temas como princípios universais ou absolutos: que o aborto é errado porque é uma forma de assassinato, que a contracepção é errada e que as pessoas que dão dinheiro para aquelas que não trabalham é errado. Assim sendo, fica muito difícil levar as autoridades a sério quando elas opinam sobre tais assuntos desta forma, como se fossem princípios universais. O fato de 70% dos católicos americanos ignorarem os pronunciamentos do Papa em relação à contracepção é simplesmente prova disso. Há uma geração, esta atitude seria inimaginável. No entanto, são estas divergências em relação ao assunto em causa que caracterizam a situação atual, a batalha contra o relativismo moral, porque os diversos porta-vozes que falam em nome de diversas religiões atribuem valores absolutos a coisas que na verdade não carregam esses valores absolutos.

Pergunta Blog: Alguns argumentam que a decadência de valores morais, que em geral aflige o mundo, está de certa forma ligada à ausência da religião na vida das pessoas. O argumento é que as pessoas sem um vínculo com a religião ou sem o medo do castigo divino ou de alguma forma de retribuição tornam-se menos inclinadas a fazer o que é certo. Qual é a sua opinião a respeito deste conceito?

Harold Kushner: Eu não acho que o temor a Deus tenha alguma coisa a ver com isso. Eu acho que uma pessoa tem mais medo da opinião pública. As pessoas sempre fizeram as coisas em segredo, o que significa que Deus vê o que eu estou fazendo, mas os vizinhos não, e por isso eu estou bem. Eu não acho que a religião seja o fator que leva à moralidade. Talvez no início da civilização a religião tenha ajudado a definir questões do certo e do errado. Eu acredito que o sentido do que é certo e errado está imbuído na natureza humana: intuitivamente, sabemos o que está certo ou errado. Por exemplo, quando crianças de três anos de idade veem um colega implicando com outro, elas têm noção de que isso está errado. Essa é a minha interpretação da história do jardim do Éden. Qual foi a fruta que Adão e Eva comeram? Foi a fruta da árvore do conhecimento sobre o que era certo e o que era errado, do bem e do mal. Nós temos um entendimento do que é certo e do que é errado, que nenhum outro ser possui. Um leão, por exemplo, pode sair e matar uma zebra e isso não é crime, é só o jantar. Mas para um ser humano matar outro ser vivo já é um ato imoral. Nós entendemos que tirar as coisas dos outros à força é errado. É por isso que a palavra “racionalização” existe em inglês porque o fazemos. Nós sabemos o que é errado e às vezes tentamos bancar que não está errado. Eu acho que o papel da religião não é para nos dizer o que é certo ou errado. Eu acho que intuitivamente já sabemos disso, e acredito que o papel da religião é o de construir um espírito coletivo, um espírito de comunidade entre as pessoas.

Pergunta Blog: Um dos maiores desafios enfrentados hoje em dia por diversos treinadores no esporte profissional é o de gerenciar os diferentes tipos de personalidades dos jogadores. Em uma sociedade obcecada com o culto de celebridades, que tende a endeusar o indivíduo, talvez não haja maior desafio para um treinador do que o de convencer um atleta com um ego enorme a pôr os seus interesses individuais de lado em prol dos da equipe. De fato, verificamos com frequência que os treinadores mais bem sucedidos são aqueles que são capazes de obter o melhor possível destes indivíduos complicados e problemáticos, com o intuito de promover uma mentalidade coletiva dentro da equipe. Se olharmos para as grandes dinastias esportivas, como o New England Patriots e o New York Giants no futebol americano, ou o Chicago Bulls e o Los Angeles Lakers no basquete, vemos que todas elas foram lideradas por homens de fé e altamente filosóficos, que foram capazes de impregnar esse espírito nessas equipes. Você poderia dar sua opinião sobre este tema?

Harold Kushner: Você está comentando sobre um dos assuntos o qual tenho maior interesse. Religião, ou teologia não significa crença individual. Religião significa comunidade. A religião é algo que conecta as pessoas. Eu acredito que a origem da palavra “religio” está relacionada com a palavra em latim “religare,” que significa “re-ligar,” “reconectar”. O objetivo da religião é colocar-nos em uma comunidade que apoia o compromisso com tais valores, que promove o espírito de comunidade e de equipe e que nos ajuda a pôr em prática esse espírito no dia a dia.

Pergunta Blog: Então, eu presumo que você é da opinião que os treinadores lendários que são influenciados pela religião e pela filosofia, tais como Vince Lombardi, John Wooden e Phil Jackson, possuíam uma maior habilidade de unir e fazer as pessoas lutarem por objetivos comuns.

Harold Kushner: Ah, com certeza. Eu acho que a era dos grandes homens que só dizem “siga-me,” como os Napoleões e os Césares da vida, ficaram para trás. O que faz um líder ser eficiente e bem sucedido na área do esporte, negócios e política, é a habilidade de criar comunidades onde as pessoas estão dispostas a juntar suas forças com as dos outros em prol do grupo. O Phil Jackson que você mencionou falava sobre os cinco jogadores do Chicago Bulls como se fossem os dedos de uma mão. Quando eles estão todos em sintonia, eles formam um punho compacto. Eu acho que é isso que um verdadeiro líder deve propagar nos dias de hoje.

Pergunta Blog: A vida dá muitas voltas, e em várias ocasiões nos pega completamente de surpresa, e o imprevisível às vezes acontece. Como podemos filosoficamente e teologicamente nos preparar para tais acontecimentos inesperados que possam vir a acontecer? E como é que podemos viver em um mundo sem receios e sem medo?

Harold Kushner: Essa é uma pergunta muito boa. Com tudo o que vemos, você tem que estar apreensivo sobre o futuro. Em um programa de TV em que eu estava participando alguns anos atrás, no Canadá, alguém me disse: “Eu estou com medo, porque não consigo enxergar o futuro”. E eu disse-lhe que não deveria saber sobre o futuro. É como assistir a um filme do qual você já sabe o final. A religião não oferece garantias a ninguém de que as coisas vão correr bem e também não promete que se você for uma boa pessoa, as coisas vão correr bem. O que a religião diz é o seguinte: “Sim, é claro que estamos apreensivos sobre o futuro neste mundo muito confuso e incerto”. A promessa da religião não é que as pessoas boas vão ter um final feliz. A promessa da religião é que, aconteça o que acontecer, você terá os recursos para lidar com qualquer situação. Essa é a mensagem que eu passo regularmente à minha congregação. É essa a mensagem que eu gostaria de estender aos seus leitores. Não sabemos se coisas boas irão nos acontecer no próximo ano, mas temos plena confiança de que, para o que mais tememos, Deus nos proporcionará os poderes e a força que nunca imaginaríamos ter para ser capazes de lidar com nossas adversidades, por maiores que elas sejam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A utilização do stent, em certas situações, é até hoje tema de intensas discussões e de muita controvérsia no meio científico. O implante do stent ou a angioplastia (como o procedimento é mais frequentemente referido pela imprensa) é uma forma de Intervenção Coronária Percutânea – ICP, na qual o cirurgião insere um tubo de metal em uma artéria que se encontra obstruída por placa acumulada.

Este minúsculo tubo cilíndrico é inserido através de uma artéria da perna ou do braço e guiado até ao coração no local exato da artéria onde o fluxo sanguíneo se encontra obstruído. O dispositivo então se expande e mantém a artéria desobstruída, dando sustentação à dilatação alcançada no início do procedimento.

A importância do implante do stent na redução do risco de morte de um paciente, quando tal procedimento é realizado dentro dos primeiros 90 minutos de um infarto do miocárdio, é indiscutível. No entanto, este tipo de implante, quando executado fora de uma emergência (num cenário que não seja o de um enfarte agudo do miocárdio), é muitas vezes motivo de debates acirrados.

Na verdade, o fato dos implantes dos stents estarem sendo utilizados desnecessariamente em muitos pacientes é fato bastante divulgado conforme exposto a seguir.

Um artigo recentemente publicado no New York Times revelou que alguns cardiologistas, pertencentes à maior rede de hospitais privados nos Estados Unidos, a Hospital Corporation of America (HCA), vêm realizando procedimentos médicos lucrativos, mas muitas vezes desnecessários, e que em alguns casos colocam até a vida dos pacientes em risco. De acordo com o mesmo artigo, um documento elaborado por analistas independentes revelou que, num dos hospitais da HCA, quase metade das 355 angioplastias executadas estavam fora dos parâmetros médicos considerados normais.

Em meados do ano passado, um estudo marcante foi publicado no Journal of the American College of Cardiology. Tal investigação foi conduzida pelo Doutor Edward Hannan no estado de Nova Iorque, com aproximadamente 25.000 pacientes elegíveis para classificação (com Doença Arterial Coronária estável), que anteriormente haviam sido submetidos às intervenções coronárias percutâneas. O estudo concluiu que apenas 36% dos procedimentos foram considerados adequados.

Aproximadamente dois meses depois, outro estudo semelhante no estado de Washington realizado com pacientes com DAC estável, concluiu que apenas 44% dos procedimentos (ICPs) examinados foram considerados apropriados.

Também, de acordo com um artigo publicado no final do ano passado no China Daily, o ex-presidente da associação de cardiologistas daquele país, Dr. Hu Dayi, afirmou que mais da metade das intervenções coronárias percutâneas lá realizadas eram de fato desnecessárias.

Assim sendo, fica evidente que muitos pacientes estão sendo submetidos a intervenções coronárias percutâneas que não são necessárias.

Quando eu perguntei ao Dr. Hannan, o principal pesquisador do estudo envolvendo os pacientes do estado de Nova Iorque, sobre a gravidade do assunto referente aos procedimentos desnecessários realizados em diversos países, ele me informou que estamos somente vendo a ponta do iceberg e que o problema é muito maior do que temos conhecimento. Na verdade, segundo o Dr. Hannan, a falta de registros mais detalhados e estudos (appropriateness criteria studies) sobre o assunto em vários países impossibilita que possamos visualizar a dimensão global do problema.

 

 

 

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Acima a Dra. Marcia Angell

A Dra. Marcia Angell foi editora-chefe do New England Journal of Medicine, um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo. Atualmente, a Dra. Angell é professora no Departamento de Medicina Social da Harvard Medical School. Sua especialização é em medicina interna  e patologia. Há alguns anos atrás, a revista Time classificou a Dra. Angell como uma das 25 pessoas mais influentes dos Estados Unidos. Ela é uma autoridade reconhecida mundialmente dentro da medicina e defensora de reformas em áreas da saúde em geral e da pesquisa científica. Veja aqui a entrevista que me foi concedida esta semana com exclusividade:

Pergunta Blog: Qual é a função do governo dentro de um sistema de saúde?

Marcia Angell: Eu acredito que qualquer governo decente vê como sua responsabilidade a obrigação de oferecer um sistema de saúde para toda sua população. Em essência, o governo tem a responsabilidade de supervisionar o sistema de saúde. Eu sou a favor de um sistema de saúde sem fins lucrativos, providenciado e administrado pelo governo, que garante tratamento para todos. Eu proibiria o lucro dentro da medicina, pois acredito que este seja o cerne do problema.

Pergunta Blog: Então não haveria um sistema privado que concorresse lado a lado com o sistema governamental que você propõe?

Marcia Angell: Não. Eu não acredito num sistema que tenha dois níveis. Eu acho que um dos pontos fortes do sistema canadense é que todas as pessoas fazem parte daquele sistema. Mesmo com recursos financeiros, o sujeito não tem a opção de um outro sistema de saúde, ou seja, o paciente não encontra uma alternativa para a opção que o governo oferece no Canadá. Eu acredito que nos Estados Unidos todos devem fazer parte de um sistema único incluindo o presidente e os membros do Congresso. Dessa forma, você teria as pessoas mais poderosas certificando-se de que tal sistema fosse adequadamente financiado. Se você permitir que um sistema de saúde tenha dois níveis, o sistema público ficará inevitavelmente cada vez mais enfraquecido e menos financiado… Isso acontece porque pessoas com maior poder aquisitivo podem pagar para obter outro tipo de atendimento.

Pergunta Blog: Em sua opinião, qual país tem um sistema de saúde ideal? Qual o país que tem um sistema que seja exemplo de todos os atributos que você almeja? Você consideraria o Canadá um bom exemplo?

Marcia Angell: Não é o Canadá. O Canadá tem alguns problemas, e as províncias têm muito controle e poder. O sistema canadense não inclui certos serviços que deveria, como, por exemplo, a assistência em longo prazo e nem sempre cobre o custo dos medicamentos prescritos. Embora eu acredite que o sistema canadense seja muito bom porque ninguém é excluído, ele não abrange tudo o que eu acredito que seja importante. Eu simpatizo com o sistema britânico do jeito que era há alguns anos atrás. Ao longo dos últimos anos, no entanto, tem enfraquecido. Mesmo assim, no Reino Unido se gasta um terço do que gastamos por pessoa nos EUA e eles têm uma maior expectativa de vida, menor taxa de mortalidade infantil e um sistema de saúde que é considerado significativamente superior ao nosso em todos os parâmetros. Na verdade, se você olhar para as taxas de mortalidade infantil e de expectativa de vida, nosso desempenho deixa a desejar quando comparado a outros países industrializados. Em termos da satisfação das pessoas, eu diria que os franceses são os que estão mais satisfeitos com o seu sistema de saúde.

Pergunta Blog: O que você acha do sistema britânico ter dois níveis?

Marcia Angell: O fato de ele ter dois níveis é uma fraqueza. É difícil dizer qual sistema é o melhor de todos, mas está claro para mim que o sistema americano é o pior dos países desenvolvidos – o mais caro e o menos adequado.

Pergunta Blog: Você é da opinião que os médicos devem ter um salário tabelado?

Marcia Angell: Eu acredito que médicos deveriam ter um salário fixo. A influência do dinheiro deve ser removida da prática da medicina e ela pode ser vista de duas maneiras diferentes. Se você examinar algumas situações de atendimento médico, você pode se deparar com um cenário no qual quanto menos o médico oferece ao paciente, mais ele é pago. Ele é pago para fazer o menos possível. Por outro lado, existem outras situações nas quais ele é pago para fazer o máximo possível, ou seja, a quanto mais testes ou procedimentos ele submete o paciente, mais ele ganha. As duas situações são injustas. Numa delas, há um incentivo para oferecer o menos possível, e na outra, para fazer o máximo possível. O que eu gostaria de ver é que a boa medicina fosse definida pelo que um médico bem preparado faria se não houvesse nenhum interesse financeiro. A melhor maneira de fazer isso seria através de um salário tabelado, que iria obviamente variar de acordo com a especialidade. Tanto a especialidade médica (algumas requerem maior tempo de treinamento) como os anos de experiência seriam fatores que determinariam qual o salário a pagar. O ponto essencial é que o salário de um médico deve ser tabelado, sem bônus por fazer um procedimento em vez de outro.

Pergunta Blog: Qual é a principal razão para os medicamentos serem muito mais caros nos EUA do que em outros países latinos ou até mesmo no Canadá?

Marcia Angell: Muitos países têm alguma forma de controle nos preços de medicamentos. Tanto o Canadá como o Reino Unido, por exemplo, têm. Eu não sei se o Brasil tem ou não. Nós não temos controle de preços nos EUA. Os medicamentos de marca (não genéricos) são duas vezes mais caros. Nos EUA, as empresas farmacêuticas recebem todo o tipo de favores e privilégios por parte do governo. Ironicamente, estas mesmas companhias afirmam ser adeptas e defensoras da iniciativa privada e do livre mercado. No entanto, tais empresas recebem isenções fiscais e vivem de pesquisas custeadas pelo National Institutes of Health (NIH), que é financiado com fundos públicos.

Nos EUA as empresas farmacêuticas podem cobrar o que quiserem. Durante muitos anos elas têm usado a desculpa do elevado gasto financeiro relacionado com as pesquisas como razão para o preço de medicamentos ser tão altos, mas isso não passa de uma grande mentira. Na verdade, elas estão pouco envolvidas na pesquisa, e de fato, a maior parte de suas despesas são decorrentes de diversas manobras de marketing para atingir os consumidores de forma indiscriminada. Finalmente, o grande objetivo dessas companhias é maximizar o lucro a qualquer custo, ao ponto de serem considerados imorais e de serem até um exemplo grotesco de ganância incontrolável.

Pergunta Blog: Os Estados Unidos e a Nova Zelândia são os dois únicos países do mundo onde quaisquer medicamentos que requerem prescrições médicas são anunciados diretamente aos consumidores na televisão. Qual é a repercussão desse modelo para o paciente?

Marcia Angell: As pessoas mais idosas quando assistem televisão são bombardeadas com propaganda de diversos medicamentos de alto custo para tratar todos os tipos de condições médicas como a disfunção erétil, o colesterol alto, a azia e outros sintomas. Basicamente, é o paciente que tem a iniciativa de procurar o fármaco e de obter a prescrição de um médico na busca de um determinado medicamento. Na verdade, o oposto deveria acontecer. Os médicos, em geral, estão extremamente ocupados nos seus consultórios, não tendo o tempo disponível para submeter o paciente a um exame completo. Assim sendo, muitas vezes é mais fácil ceder ao pedido do paciente receitando o medicamento requerido.

Pergunta Blog: Diversas leis, aprovadas na década de 1980 nos EUA, tiveram um impacto tremendo na medicina em geral. Você poderia comentar especificamente sobre o impacto da lei Bayh-Dole?

Marcia Angell: Basicamente, tal lei garantiu que universidades e pequenas empresas pudessem patentear suas descobertas que estavam diretamente ligadas a recursos públicos do NIH  (National Institutes of Health). Antes da Lei Bayh-Dole, as pesquisas e as descobertas financiadas com o dinheiro do contribuinte eram consideradas de domínio público e estavam disponíveis para qualquer empresa que tivesse interesse em beneficiar delas. Uma das principais consequências desta legislação foi uma crescente parcialidade (falta de objetividade) por parte de muitos pesquisadores acadêmicos em várias de nossas instituições médicas. Estes tendem a favorecer a indústria, tornando-se empreendedores com participação financeira nas empresas nas quais trabalham. Outras leis também aumentaram a vida de patente de vários medicamentos de marca (não genéricos), permitindo assim que as empresas cobrem preços exorbitantes por um determinado medicamento por um longo período de tempo. Parece-me que os maiores perdedores terminam sendo os consumidores.

Pergunta Blog: O que deve fazer um paciente quando ouve falar de um tratamento ou de um medicamento que é apresentado como uma cura para tudo?

Marcia Angell: Eles devem estar sempre cientes de que os interesses comerciais são muito influentes dentro da medicina americana. Desta forma, acredito que os pacientes não devem tomar qualquer medicamento que esteja no mercado por menos de três anos, até que haja tempo suficiente para poder determinar quais são os problemas e os efeitos secundários que estes possam ter. É obvio que há exceções a estes casos, em que o paciente não pode e nem deve esperar para tomar um medicamento. Evidentemente, numa situação de vida ou morte, como por exemplo, no caso de uma infecção que só pode ser tratada com um antibiótico novo, o paciente não deve esperar para tomar o fármaco. De modo geral, em relação à maioria dos medicamentos eu não tomaria nada que tenha entrado no mercado recentemente. Acredito que procederia da mesma forma no que diz respeito aos procedimentos médicos. Sempre que possível, sou a favor da cautela, ou seja, de aguardar por mais provas, pois, se algo parece ser bom de mais para ser verdade, é realmente bom demais para ser verdade. Eu tenho uma maneira muito conservadora de encarar a medicina.

Pergunta Blog: Quais são as especialidades médicas nas quais você vê maior abuso de procedimentos e tratamentos?

Marcia Angell: Esse abuso o qual você se refere pode ser constatado em qualquer especialidade onde há uma utilização maciça de medicamentos e dispositivos médicos como, por exemplo, na cardiologia e na ortopedia. Existem outras áreas como a dermatologia, a endocrinologia e a pediatria, em que a utilização de dispositivos médicos não é tão prevalecente. As áreas que usam alta tecnologia são precisamente aquelas nas quais existem os maiores abusos.

Pergunta Blog: Que regras devem ser adotadas pelos editores de periódicos científicos para que suas publicações tenham maior credibilidade e transparência?

Marcia Angell: Eu realmente acredito que os editores de periódicos científicos devem continuar com as políticas que o New England Journal of Medicine iniciou. Uma delas foi adotada em 1984 e estipulava que todos os autores de pesquisas científicas originais tinham a obrigação de avisar os editores sobre quaisquer vínculos financeiros que tivessem com companhias que poderiam ser afetadas pelas conclusões da pesquisa. O nosso periódico foi o primeiro a adotar essa política e, eventualmente, a maioria das outras publicações de renome na área seguiram o nosso exemplo. A outra política que instituímos em 1990 determinou que a divulgação (dos vínculos financeiros do autor) não era suficiente em alguns casos como, por exemplo, em artigos editoriais e de análise crítica. Em outras palavras, determinamos que pesquisadores que tinham a responsabilidade de escrever editoriais ou artigos de análise crítica para a nossa publicação que envolvessem um alto teor de objetividade e de averiguação dos fatos dentro da literatura, não poderiam ter vínculos financeiros com empresas que pudessem ser diretamente afetadas por tais matérias. Essa política continuou durante todo o meu tempo como editora-chefe, porém, tendo sido abandonada pelo meu sucessor. Nenhuma outra publicação tentou fazer o mesmo. No entanto, eu creio que essa regra era muito importante. Atualmente, eu também estou muito menos otimista (descrente da eficácia) sobre a utilidade de regras que determinem a divulgação destes conflitos de interesses.

Pergunta Blog: Por que o editor que lhe sucedeu não continuou com as mesmas regras que você implementou?

Marcia Angell: Ele deixou claro que encontrar pessoas renomadas sem conflitos de interesse para escrever artigos de revisão e editoriais se tornou muito difícil. Eu acredito que ele deveria se esforçar mais para encontrar essas pessoas mesmo que seja difícil.

Pergunta Blog: O leitor deve olhar com ceticismo para periódicos científicos que não têm regras de divulgação de conflitos de interesses?

Marcia Angell: Claro que sim. Sem dúvida nenhuma. Eu acho que uma política transparente de divulgação seja um critério muito importante quando o leitor for determinar qual periódico científico ele vai dar sua atenção.

Pergunta Blog: Existem muitos periódicos científicos que não têm regras de divulgação de conflitos de interesse?

Marcia Angell: Sim, claro. Existem milhares de periódicos científicos e muitos deles são meras operações de transmissão de anúncios da indústria de medicamentos, de dispositivos médicos e para publicar artigos que são favoráveis aos diversos anunciantes.

Pergunta Blog: Qual é a porcentagem destas publicações que você acha que não tem regras de divulgação de conflitos de interesse?

Marcia Angell: A grande maioria delas.

Pergunta Blog: Existem fontes de informação isentas de interesses financeiros, nos EUA,  a quem os consumidores ou os pacientes possam recorrer com o intuito de obter informações de forma objetiva e imparcial sobre questões relacionadas à medicina?

Marcia Angell: Existem diversas fontes de informação sobre a saúde. Uma delas é o Public Citizen Health Research Group que é dirigido por um médico chamado Sidney Wolfe. Esta organização lançou um livro intitulado Worst Pills, Best Pills. Outra fonte importante é o trabalho desenvolvido pela publicação Consumer Reports, que faz uma avaliação de diversos medicamentos e de outros assuntos relacionados com a medicina e a saúde em geral.

Pergunta Blog: Resumindo, qual é o problema do sistema de saúde norte-americano?

Marcia Angell: É um sistema baseado nas tendências do mercado, que distribui os cuidados de saúde de acordo com a capacidade de pagamento e não de acordo com as necessidades médicas.

 

 

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16.novembro.2012 16:06:05

Carta

“Será que você pode confiar no seu cardiologista?(http://blogs.estadao.com.br/ricardo-guerra/sera-que-voce-pode-confiar-no-seu-cardiologista/), postado neste blog no dia 01 de outubro 2012.

 

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Acima, a Cleveland Clinic, onde todos os médicos tem salários fixos, é um dos centros de

cardiologia mais conceituados do mundo

Na medicina, o campo da cardiologia é um dos mais lucrativos. Na verdade, os lucros provenientes de vários procedimentos médicos relacionados a tal área são, na maioria das vezes, a espinha dorsal que compõe o faturamento de grande parte dos hospitais em todo o mundo.

Ao longo dos últimos anos, muitos pesquisadores e médicos autônomos, que costumam tomar posições arrojadas em prol de seus pacientes, e empresas independentes especializadas na auditoria de procedimentos e práticas médicas, têm feito apelos para a suspensão indiscriminada nas indicações dos procedimentos, tratamentos e testes cardiológicos desnecessários, que são utilizados em circunstâncias sem o respaldo da literatura científica e da medicina praticada e apoiada por comprovação médica.

No entanto, na grande maioria das vezes, as mensagens de tais grupos não têm força suficiente para atingir e chamar a devida atenção da maioria das pessoas.  Falta a tais grupos o poderio financeiro que se encontra por trás de muitos cardiologistas que se utilizam de uma estrutura que disponibiliza, financia e consequentemente promove procedimentos médicos muitas vezes desnecessários e sem o apoio da literatura científica.

De fato, um dispositivo pequenino que até hoje é tema de muita controvérsia é o stent.

O implante do stent

O implante do stent ou a angioplastia  como o procedimento  é mais frequentemente referido pela imprensa, é uma forma de Intervenção Coronária Percutânea – ICP, na qual o cirurgião insere um tubo de metal em uma artéria que se encontra obstruída por placa acumulada.

O minúsculo tubo cilíndrico, o stent, é inserido através de uma artéria da perna ou do braço e guiado até o coração no local exato da artéria onde o fluxo sanguíneo se encontra obstruído. O dispositivo então se expande e mantém a artéria desobstruída, dando sustentação à dilatação alcançada no início do procedimento.

Segundo o Dr. David Brown, um cardiologista de renome mundial e professor de medicina na Stony Brook University, o implante do stent é indispensável no caso de um infarto agudo do miocárdio.

“Os benefícios decorrentes desse tipo de implante quando tal procedimento é realizado dentro dos primeiros 90 minutos de um infarto com o objetivo de desobstruir uma artéria, quase ou totalmente obstruída, reduz o risco de morte e a chance de infartos futuros; a importância desta ação nestes casos é indiscutível dentro da comunidade médica”, diz ele.

No entanto, de acordo com o cardiologista, o implante do stent quando executado fora de uma emergência (fora do cenário de um enfarte agudo do miocárdio), não diminui o risco de morte e tampouco diminui o risco de um infarto no futuro.

“A única função de tal procedimento é o de aliviar os sintomas da angina, que é caracterizada pela dor ou desconforto no peito causado pelo estreitamento das artérias que conduzem sangue ao coração, nos poucos pacientes nos quais os tratamentos farmacológicos (os medicamentos) não são capazes de aliviar tais sintomas. Não devemos nos esquecer dos potenciais riscos à saúde que estão vinculados com o implante de tal dispositivo, incluindo o óbito, o infarto do miocárdio, derrames, sangramentos, perfurações do coração, danos aos rins, entre outros”, acrescentou ele.

COURAGE – Um estudo exemplar

Em 2007, um estudo marcante, mais conhecido como o COURAGE Trial foi publicado no New England Journal of Medicine, e concluiu que o implante dos stents em pacientes com Doença Arterial Coronária (DAC) estável (obstrução em uma ou mais artérias do coração que não estão ocasionando um infarto, nem aumentando seu risco), foi desnecessário na grande maioria dos pacientes. Tal investigação é considerada por muitos como uma das pesquisas mais importantes dentro da área da cardiologia.

A análise pioneira e liderada pelo Dr. William Boden, um cardiologista norte-americano, separou os pacientes de forma randomizada em dois grupos. De acordo com a metodologia do estudo, um grupo recebeu apenas o melhor tratamento farmacológico, enquanto o outro também recebeu o melhor tratamento farmacológico, porém com o implante do stent.

Os pesquisadores, que acompanharam e seguiram minuciosamente os pacientes por vários anos, concluíram que não houve diferença significativa nos resultados. Em outras palavras, não houve diferença na taxa de morte e na taxa de infartos do miocárdio entre os dois grupos.

Portanto, a pesquisa concluiu que em pacientes que sofreram de DAC estável o implante não proporcionou benefícios adicionais, ou seja, benefícios maiores em relação ao grupo que somente utilizou o tratamento farmacológico.

O estudo COURAGE desempenhou um papel fundamental no direcionamento das atuais diretrizes, orientações e critérios de adequação do American College of Cardiology (ACC) e da American Heart Association (AHA).

No entanto, a investigação infelizmente não influenciou de forma significativa a maneira pela qual os médicos lidam e tratam os pacientes que sofrem de DAC estável. Na verdade, mesmo após o estudo, o percentual de pacientes que sofrem desse tipo de doença e são submetidos aos procedimentos de implante do stent sem serem primeiramente tratados com tratamento farmacológico permaneceu inalterado.

Segundo o Dr. Boden, há uma falsa concepção de que os procedimentos relacionados a ICP constituem um tratamento superior em comparação às terapias farmacológicas intensivas, e assim sendo o tratamento ideal nos pacientes estáveis.

“E muitos cardiologistas propagam tais mitos, enquanto os pacientes por falta de informação ficam à mercê de tal argumento”, acrescentou o cardiologista.

“A ICP é na melhor das hipóteses um procedimento paliativo em pacientes estáveis. Tal procedimento não cura absolutamente nada, não reduz a incidência de morte ou infarto do miocárdio, não proporciona ​​benefícios clínicos que são duradouros e não proporciona o alívio duradouro dos sintomas vinculados à angina que, na sua maior parte, podem ser controlados através da utilização de tratamentos farmacológicos intensivos e intervenções benéficas relacionadas ao bem-estar”, diz ele.

Opinião de um expert

Segundo o Dr. Steven Nissen, chefe do Departamento de Medicina Cardiovascular da Cleveland Clinic em Ohio, há muitas razões para acreditar que o implante dos stents não melhora o estado clínico dos pacientes que sofrem de DAC estável.

“A maior razão é que a doença é caracterizada por uma acumulação de placas nas artérias coronárias, que é generalizada (ou espalhada ao longo das artérias), e não somente limitada a um único local. Os bloqueios que tratamos com stents são apenas a ponta do iceberg, e o resto da geleira são todas as outras placas menores nas artérias coronárias que podem se romper causando coágulos de sangue, interrompendo o fluxo sanguíneo e ocasionando infarto do miocárdio. Quando é feito um implante do stent numa artéria, não se trata outros depósitos menores de placas existentes… Somente os medicamentos são capazes de atacá-los e tratá-los”, disse ele.

Na verdade, de acordo com o Dr. Nissen, a maioria dos infartos do miocárdio é provocada pela ruptura dessas placas menores que aparentam ser menos ameaçadoras e que podem se romper a qualquer momento, e não pelos depósitos de placas maiores, criando bloqueios que cortam o oxigênio para o coração.

“Os implantes dos stents tratam somente da anormalidade localizada… não a doença espalhada ou alastrada,” ele concluiu.

Mesmo assim, muitos cardiologistas incessantemente continuam tentando encontrar qualquer justificativa para submeter os seus pacientes que sofrem de DAC estável aos implantes de stents desnecessários sem inicialmente tentar lidar com o problema por meio de tratamento farmacológico.

Justificativas sobre o uso do procedimento

Realmente, qual é a justificativa do número excessivo de tais procedimentos em pessoas que sofrem de DAC estável? Qual é a necessidade dessas intervenções quando na grande maioria das vezes não é apoiada nem por dados científicos e nem com base nas evidências das pesquisas médicas ou na prática?

O maior artifício dos cardiologistas intervencionistas é tentar justificar o uso desses dispositivos a qualquer custo em pacientes que sofrem dos sintomas relacionados à angina.

No entanto, de acordo com o Dr. Brown, “os sintomas da angina podem ser perfeitamente tratados de forma eficaz com medicamentos, e a evidência científica mostra que o implante do stent em pacientes com DAC estável, não faz nenhuma diferença significativa, mesmo que eles tenham tais sintomas”.

“Além disso, a evidência científica para justificar o implante em pacientes com DAC estável com o intuito de aliviar as manifestações da angina dura por tempo limitado. A ICP não proporciona alívio dos sintomas da angina a longo prazo em comparação com a terapia farmacológica ideal,” acrescentou o Dr. Boden.

De acordo com o cardiologista, 30% dos pacientes que se submetem ao procedimento de implante do stent para aliviar os sintomas da angina sentirão novamente as mesmas dores após um ano, e a maioria deles serão novamente submetidos a outro procedimento de ICP.

O Dr. Boden disse que no estudo COURAGE, dois terços dos pacientes que receberam apenas a terapia farmacológica para tratar da DAC estável foram capazes de controlar eficientemente os sintomas, e nunca necessitaram da ICP uma única vez durante o período de sete anos de estudo.

“Um plano mais conservador usando tratamento farmacológico mais intensivo é comprovado mediante provas e apoiado pelas diretrizes clínicas das nossas sociedades profissionais e deve ser a primeira opção para pacientes que sofrem de doença arterial coronária estável. Entretanto, nos dias de hoje, a maioria dos cardiologistas ignora e desconsidera tal opção e, em vez disso, opta por procedimentos mais invasivos e mais caros”, conclui o Dr. Boden.

Segundo o Dr. Brown, cerca de 800.000 ICPs são realizadas anualmente nos EUA, dentre as quais 400.000 são feitas em pessoas que são portadoras de DAC estável. Dentro desse grupo, dois terços dos procedimentos são considerados desnecessários.

“É simplesmente injustificável expor os pacientes nesta situação aos riscos do implante do stent quando não existe qualquer benefício que esteja documentado”, disse o Dr. Brown.

Cardiologistas intervencionistas querendo fazer dinheiro a qualquer custo

“Na verdade, o fato de médicos exporem pacientes com doença arterial coronária estável aos riscos de um implante do stent, seja em pacientes que não possuem sintomas relacionados com a angina no peito, ou aqueles que de fato sofrem de sintomas de dores no peito e que não foram tratados com os devidos medicamentos (como acontece em 60% dos casos), me leva a crer que isso é um dos maiores absurdos da medicina moderna. A principal razão pela qual os médicos nos Estados Unidos não seguem as diretrizes da AHA é o dinheiro… o incentivo financeiro. Tenho certeza de que no Brasil a situação é bem semelhante,” acrescentou o Dr. Brown.

“De fato existe o mesmo exagero nas indicações dos stents aqui no Brasil no setor privado. O problema só ainda não tomou as mesmas proporções no setor público porque o SUS ainda não liberou a utilização do procedimento”, diz o Dr. Bráulio Luna Filho, primeiro secretário do Cremesp (conselho regional de medicina paulista).

“O preço do stent no Brasil é quase quatro vezes mais caro do que nos EUA. Existe um incentivo financeiro e com isso a implementação do stent, em geral, é fomentada internamente nos hospitais privados e por alguns grupos médicos”, diz ele.

“Tem hospital aqui em São Paulo onde os médicos fazem o uso dos stents em 90% dos pacientes que entram pela porta. Na verdade, isto é um absurdo, pois a evidência na literatura científica e as diretrizes das sociedades especialistas não apoiariam a grande maioria desses casos”, finaliza o cardiologista.

De acordo com o Dr. Brown, os implantes dos stents são grandes negócios e uma indústria que gera bilhões de dólares nos Estados Unidos.

“Como os médicos são muito bem reembolsados para fazer essas indicações, há uma tendência em querer fazer maior uso desses procedimentos”, acrescentou o Dr. Nissen.

Amedrontando os pacientes

O Dr. Stefano De Servi, um renomado cardiologista italiano, disse que muitos pacientes vêm a ele com graus muito leves de estreitamento nas artérias e que não necessitam de um implante.

“Às vezes, uma artéria se encontra estreita, mas o fluxo sanguíneo não é afetado. No entanto, se um paciente for procurar um médico, ele vai sempre encontrar alguém que está disposto a realizar um procedimento de implante do stent. O incentivo financeiro para fazê-lo é muito alto”, acrescentou o cardiologista.

“Com frequência, eu recuso tratar muitos desses casos, e digo aos pacientes que eles não precisam de qualquer tratamento. Porém, alguns meses depois, eu venho tomar conhecimento de que os mesmos pacientes foram tratados em outro hospital, e isso ocorre com muita frequência,” diz ele.

“Os pacientes morrem de medo quando ouvem falar a respeito de um estreitamento das artérias. Muitos cardiologistas intervencionistas tiram vantagem desse medo e realizam intervenções em pessoas que não precisam delas,” concluiu o médico italiano.

O Dr. Brown disse que não podemos esperar que as pessoas sempre venham a fazer a coisa certa quando, infelizmente, há um incentivo monetário para fazer a coisa errada.

Hospitais viciados em lucro

“Os hospitais são totalmente dependentes dos lucros gerados pelo volume de procedimentos na área de cardiologia e o implante do stent é um dos procedimentos que mais contribui para tal faturamento,” acrescentou o Dr. Brown.

Um artigo recentemente publicado no New York Times revelou que alguns cardiologistas, pertencentes à maior rede de hospitais privados, a Hospital Corporation of America nos Estados Unidos, vêm realizando procedimentos médicos lucrativos, mas muitas vezes desnecessários, e que em alguns casos colocam a vida dos pacientes em risco.

De acordo com o New York Times, um documento elaborado por analistas independentes descobriram que num dos hospitais da HCA, quase metade das 355 angioplastias executadas estavam fora dos parâmetros médicos considerados normais.

Segundo o Dr. Brown, os procedimentos médicos relacionados à área de cardiologia representam até 40% do faturamento total de muitos hospitais nos EUA.

“A última coisa que os hospitais querem é que um fármaco seja inventado e que ele possa realmente prevenir a doença arterial coronária porque consequentemente, todos eles iriam falir”, acrescentou o cardiologista.

Observa-se que o problema com os procedimentos desnecessários ocorrem com menor frequência quando o lucro deixa de ser o fator primordial. Na verdade, a maioria dos países que possuem sistemas de saúde socializados tende a fazer o uso de procedimentos médicos com menos frequencia.

Segundo o cardiologista Bráulio Luna Filho, existe de fato um controle maior na utilização dos stents no setor público, pois os médicos tendem a seguir os protocolos de recomendações das sociedades profissionais e especialistas.

O Dr. Nissen diz que todos os cardiologistas da Cleveland Clinic recebem salários fixos.

“Ao contrário de muitos hospitais de todo o país, tentamos focalizar e recompensar o serviço de alta qualidade que é oferecido pela nossa equipe, em vez da quantidade de procedimentos que um médico possa executar”, acrescentou ele.

Um médico colocando os interesses financeiros de lado

O Dr. Brown é altamente respeitado pelos seus companheiros de profissão e mantém uma coerência tão grande e íntegra em suas opiniões que, em certo momento da nossa conversa, ele fez forte crítica ao próprio hospital no qual trabalha.

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Acima o cardiologista David Brown da Stony Brook University

“Fui chamado para uma reunião e informado de que nossos salários iriam ser calculados com base no número de procedimentos realizados, em vez de serem baseados na qualidade do bom cuidado dado às pessoas, na prevenção das doenças e na habilidade de evitar os procedimentos desnecessários,” disse ele.

“Eu já observei um aumento no número de indicações inadequadas de implante do stent e outros testes de estresse desnecessários; isso é realmente preocupante, deprimente e frustrante. Na verdade, os pacientes são vítimas de tudo isso.”

O Dr. Brown disse que no mês passado deparou-se com um paciente de 40 anos que havia desmaiado após ter ficado desidratado enquanto trabalhava ao ar livre num dia muito quente. O paciente foi levado para o hospital e os médicos que o atenderam acharam uma obstrução numa das artérias coronárias. Consequentemente, o paciente recebeu um implante do stent, apesar de nunca ter tido sintomas de dor no peito ou de ter recebido qualquer tipo de tratamento farmacológico para tratar de tal obstrução.

“O fato de ele ter desmaiado novamente após o procedimento quando a artéria já não estava obstruída foi a prova que o implante do stent não surtiu efeito algum. Os médicos disseram a ele e a sua esposa que o implante era necessário para impedir um infarto, um novo desmaio ou até mesmo o óbito. Infelizmente, nada disso era verdade”, acrescentou o cardiologista.

Assim sendo, com toda informação acima, simplesmente temos que concluir que os médicos que realizam tais procedimentos desnecessários ou são extremamente incompetentes ou completamente ignorantes no que diz respeito aos estudos científicamente independentes e idôneos. Ou talvez eles simplesmente ignorem tais estudos em razão dos interesses financeiros que os levam a submeter pacientes diversos a indicações completamente incabíveis.

Praticando a medicina de forma íntegra

Mesmo assim, devemos dizer que há milhares de médicos com integridade no Brasil, nos EUA e em todo o mundo. Profissionais que amam a profissão e que humildemente exercem suas funções, todos os dias, tentando oferecer o melhor atendimento possível aos seus pacientes. Além disso, alguns destes médicos exercem tais funções muitas vezes em localidades de difícil acesso e rodeados de condições precárias e desafiadoras.

Portanto, ainda há muitos médicos como os doutores David Brown, Bráulio Luna Filho, Stefano De Servi, Steven Nissen, e William Boden por todos os lados. Profissionais que carregam o juramento de Hipócrates no coração e estão dispostos a defendê-lo diante de qualquer desafío, que não se corrompem pelo dinheiro, e que de fato sacrificam o ganho financeiro em prol dos interesses de seus pacientes. Estes médicos exemplares não tentam justificar o injustificável, não tentam colocar em prática o que suas próprias organizações médicas profissionais mal apoiam. São profissionais que realmente praticam a medicina baseada em evidências e provas científicas e que não tentam se esconder atrás de justificativas médicas contaminadas por interesses financeiros.

No entanto, vale a pena dizer que cada dia que passa fica mais difícil encontrar cardiologistas intervencionistas (hemodinamicistas) que exerçam a profissão de forma totalmente íntegra. Hoje em dia, é comum que pacientes indefesos se tornem vítimas e fiquem à mercê de muitos hemodinamicistas que atuam de forma inescrupulosa, que olham para cada paciente como se o indivíduo fosse o próximo cheque a ser potencialmente engavetado ou depositado em uma conta bancária.

Colocando os cardiologistas contra a parede

Portanto, se você é portador de DAC estável, sem histórico de infarto ou sintomas relacionados à angina, ou tem sintomas que nunca foram tratados com medicamentos, e mesmo assim o seu cardiologista continua dizendo que você é um candidato a um implante do stent, então siga o conselho do Dr. Brown e diga a seu médico que você vai buscar uma segunda opinião.

Pergunte se ele estaria disposto a abrir seu consultório para uma auditoria completa a ser executada por revisores independentes com o intuito de averiguar todos os procedimentos que ele tem realizado. Ou melhor, pergunte a ele se o seu salário aumenta de acordo com o número de procedimentos que ele executa.

Durante as suas visitas ao cardiologista, apodere-se de toda a informação disponível sobre a sua condição médica. Coloque-o contra a parede e faça todas as perguntas que lhe convém! Tome notas! Não sucumba às pressões ou a timidez! Lembre-se que você é o seu próprio e melhor defensor ou advogado!

Com tudo isso, se ele ainda estiver de nariz empinado e não estiver disposto a responder todas suas perguntas com o respeito que você merece, então o demita, pois tal cidadão não possui as qualificações necessárias para ser o seu médico.

 

 

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Recentemente, em consequência das acusações feitas pela agência antidoping dos EUA (USADA) contra o ciclista norte-americano Lance Armstrong, o assunto do doping no esporte ressurgiu. Na verdade, muitos atletas profissionais estão constantemente à procura de qualquer recurso que possa proporcionar vantagens para melhoria do desempenho nas atividades esportivas.

Consequentemente, não é mais chocante ouvir falar que tais esportistas de elite, com o apoio de um grupo de técnicos e outros especialistas, fazem uso de certos medicamentos ou substâncias, para obter vantagens nas competições. No entanto, o público em geral ficaria surpreso ao descobrir exatamente quais fármacos esses atletas estariam usando para melhorar suas performances.

Assim sendo, a Agência Mundial de Antidoping (WADA), a qual possui vínculos muito próximos com pesquisadores no mundo inteiro, está sempre à procura de qualquer substância que possa ser usada como auxílio ergogênico. Uma pílula azulzinha, muito conhecida, que não tem recebido muita atenção ultimamente da mídia, vem sendo investigada pela organização durante os últimos anos.

No momento, a consideração de incluir a “azulzinha”, ou não, na lista de substâncias proibidas ainda é tema de discussão no campo da fisiologia do exercício.

O Citrato de sildenafila, popularmente conhecido como Viagra (a azulzinha), é fabricado pela gigante Pfizer. De fato, inicialmente, a substância foi desenvolvida para tratamento da angina (dor no peito). No entanto, os pesquisadores logo observaram que o fármaco não era eficiente para tratar tais sintomas, e mais tarde descobriram que a droga tinha um efeito potente sobre o tecido pulmonar e genital.

Dessa maneira, o Viagra aumenta os efeitos do óxido nítrico, uma molécula que induz a expansão (vasodilatação) dos vasos sanguíneos, e assim facilita um influxo sanguíneo maior para o órgão sexual masculino de homens que sofrem de impotência. Hoje em dia, uma grande parte dos homens que sofrem de disfunção erétil utiliza medicamentos como o Viagra para tratar desse problema.

Porém, ao longo dos últimos anos, a pílula azul tem encontrado espaço em meios esportivos profissionais onde muitos atletas nas modalidades de resistência, (maratonas, ultramaratonas, triatlons, cross-country skiing, ciclismo, etc.), acreditam que a substância possa conferir vantagens nas competições.

De fato, tais vantagens podem estar potencialmente ligadas apenas às competições que ocorrem em altitudes mais elevadas e aos esportes que exigem grandes esforços do sistema cardiovascular, como nas modalidades mencionados acima.

Portanto, o uso do Viagra causa a dilatação ou expansão dos vasos sanguíneos e facilita o fluxo do sangue e do oxigênio para os pulmões, o que, consequentemente, aumenta a distribuição do oxigênio aos diversos tecidos do organismo, incluindo os músculos esqueléticos.

Segundo Kevin Jacobs, respeitado fisiologista do exercício da University of Miami, o medicamento (Citrato de sildenafila) quando administrado em grandes altitudes, pode realmente aliviar os sintomas induzidos pela hipóxia (a deficiência de oxigênio em tecidos do corpo humano), que causa a redução da capacidade de atividade física.

Sabe-se que com o aumento da altitude, o teor de oxigênio no sangue diminui, porque a quantidade de moléculas disponíveis de oxigênio é menor. Além disso, em áreas ainda mais elevadas, os vasos sanguíneos dos pulmões vão se estreitando, o que impõe limitações na saturação de oxigênio. De fato, é em tais circunstâncias que o Viagra, com seus poderes vasodilatadores, possui os maiores efeitos na reversão ou mitigação de alguns desses problemas.

“Em altitudes simuladas de até 3900 metros, verificamos que o Citrato de sildenafila não obteve nenhum efeito significativo sobre a capacidade de exercício ou no desempenho de ciclistas do sexo masculino e feminino que treinam habitualmente”, salientou o Dr. Jacobs.

“No entanto, em elevações que variam de 4350 a 5800 metros, a maioria dos atletas, porém nem todos, podem realmente se beneficiar do uso terapêutico do medicamento”, completou o fisiologista.

Desse modo, é muito provável que, em grandes altitudes, certos esportistas possam também se beneficiar do uso do Viagra ao participar de esportes praticados de forma intermitente, como, por exemplo, o futebol, pois a capacidade de se recuperar rapidamente durante o decorrer de uma partida e a habilidade de participar de múltiplos e subsequentes movimentos curtos de alta intensidade é decorrente de uma capacidade aeróbica avantajada.

Assim sendo, mencionamos ao Dr. Jacobs que muitas equipes brasileiras encontram dificuldades quando elas viajam para jogar em cidades localizadas em tais circunstâncias como, por exemplo, em La Paz e em Quito.

“Se há jogadores no plantel que encontram maiores dificuldades do que outros, em decorrência de jogarem partidas em grandes altitudes, seria aconselhável encaminhá-los ao médico responsável pela equipe, que em caso de necessidade poderia optar pelo uso terapêutico do Viagra”, acrescentou o Dr. Jacobs, que completa dizendo que, “No entanto, um plano de aclimatação à altitude é sempre a melhor estratégia para qualquer atleta que irá competir em altitudes mais elevadas”.

“Porém, em elevações acima de 4350 metros, até mesmo para aqueles que já foram aclimatados, o fármaco pode potencialmente conferir benefícios fisiológicos”.

Além disso, alguns esportistas possuem condições médicas legítimas que só podem ser tratadas com medicamentos. O Viagra, por exemplo, é utilizado com frequência por atletas paralímpicos, pois indivíduos com lesões graves da coluna vertebral sofrem de um grau significativamente maior de disfunção erétil quando comparados com o resto da população. E com isso a decisão de proibir o uso de qualquer substância é complicada, pois o uso clínico de qualquer medicamento precisa sempre ser levado em consideração.

Segundo Claudio Perret, um fisiologista do exercício que já desenvolveu diversos estudos com atletas paralímpicos, a qualidade de vida desses esportistas seria afetada negativamente se o Viagra fosse colocado na lista de substâncias proibidas.

“Alguém poderia até argumentar que a decisão de colocar ou não o medicamento na lista de banidos é uma questão de ética levando-se em consideração a necessidade médica do indivíduo,” acrescentou o Dr. Perret.

Na verdade, até este momento, a organização não decidiu colocar o Viagra na lista de substâncias proibidas.

De acordo com o médico sueco Arne Ljungqvist, presidente da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) e vice-presidente da Agência Mundial de Antidoping (WADA), “O Viagra não deve ser colocado na lista de substâncias banidas, já que ele está sendo utilizado para fins médicos e sociais que são mais importantes do que quaisquer vantagens que possam ser proporcionadas aos atletas com funções pulmonares reduzidas competindo em grandes altitudes”.

“Estou convicto de que, por enquanto, o Viagra não será colocado na lista de substâncias proibidas para o ano de 2013… Não seria justificável”, acrescentou o médico que completa dizendo que, “No entanto, é importante notar que a lista é atualizada anualmente e as coisas podem sempre mudar”.

Até agora, diversos esportistas ainda podem fazer o uso do Viagra, e muitos provavelmente usaram a substância nos dois últimos jogos olímpicos. Infelizmente, é muito difícil saber exatamente quantos fizeram uso do produto nas últimas olimpíadas e com qual intuito.

No entanto, se alguns desses atletas ficaram à espera de um melhor desempenho em suas modalidades desportivas ao nível do mar, eles podem ter ficado desapontados e terão que esperar até que as olimpíadas sejam realizadas em altitudes mais elevadas. Entretanto, é bem possível que muitos, mesmo sem nenhuma melhoria no desempenho desportivo, possam ter ficado bem satisfeitos na vila olímpica, na privacidade de seus quartos…

 

 

Nota: Não aconselhamos o uso de qualquer medicamento. O Viagra como qualquer outro fármaco que requer receita médica, somente deve ser utilizado após a consulta e avaliação minuciosa de um médico, pois cabe exclusivamente a ele decidir sobre o uso de qualquer medicamento.

 

 

 

 

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Nos últimos Jogos Olímpicos de Londres, atletas do sexo feminino desempenharam performances incríveis e fizeram parte de momentos marcantes cada qual em seu esporte. Na verdade, a participação das mulheres em modalidades esportivas vem aumentando significativamente nas últimas décadas em todo o mundo. Durante o mesmo período, o número de atletas incorporando exercícios aeróbicos durante a gravidez também tem crescido de forma expressiva.

Assim sendo, mais recentemente surgiram importantes investigações científicas examinando o impacto fisiológico de tais atividades durante a gestação. Um número crescente de pesquisadores internacionais na cadeira da fisiologia do exercício vem obtendo conhecimentos e dados pertinentes sobre o assunto. De fato, as conclusões e provas de tais investigações não deixam dúvidas que a prática física moderada desempenhada ao longo da gestação acarreta importantes benefícios em prol da saúde.

Em conversa por telefone, o Dr. Gregory Davies, professor da Divisão de Medicina Materno-Fetal e da Faculdade de Motricidade Humana da Queen’s University no Canadá, destacou os riscos à saúde associados com a falta de atividade física durante a gravidez, que incluem a perda de condicionamento físico, o ganho excessivo de peso materno, um maior risco de diabetes gestacional, a hipertensão induzida pela gestação, o desenvolvimento de outras doenças circulatórias, dores lombares e a deterioração do bem-estar psicológico.

No entanto, a questão do exercício aeróbico praticado com cargas de alta intensidade, ou seja, frequências cardíacas mais elevadas ao longo da gestação, ainda é tema de debate e muita discussão dentro do âmbito da fisiologia do exercício. Muitas atletas de alto rendimento, assim como outras mulheres em geral, optam por continuarem a praticar as atividades físicas durante a gravidez com cargas excessivas. Consequentemente, é muito importante determinar quando tais protocolos se tornam nocivos, potencialmente predispondo o feto a riscos.

A atividade física com programas de alta intensidade pode precipitar alterações cardiovasculares que potencialmente podem comprometer o bem-estar do feto. A hipótese levantada por muitos especialistas, é que o exercício praticado com uma frequência cardíaca elevada durante este período poderia causar uma drástica redistribuição do débito cardíaco (um redirecionamento do fluxo sanguíneo dos órgãos viscerais para a musculatura esquelética), em detrimento das necessidades fisiológicas do feto, ocasionando a hipóxia fetal.

Infelizmente, notamos que há uma falta de estudos que investigam de forma rigorosa o impacto fisiológico da prática do exercício aeróbico com cargas de alta intensidade neste caso específico. Além disso, quase não há estudos examinando o assunto por um período maior. Assim sendo, a informação que temos sobre o tema é de certa forma limitada e pouco conclusiva para que os pesquisadores da área cheguem a um consenso definitivo, sobre exatamente quais devem ser as diretrizes a serem adotadas.

Mesmo assim, em um estudo recente, examinando atletas de alto rendimento durante a gravidez, pesquisadores noruegueses concluiram que o bem-estar fetal pode ser comprometido quando o exercício é praticado de forma extenuante.

Kjell Salvesen, o professor que liderou o estudo, advertiu para não tirarmos conclusões precipitadas sobre os resultados da investigação, pois poucos participantes fizeram parte da mesma.

“No entanto, acredito que as observações constatadas em nosso laboratório são suficientemente alarmantes e merecedoras de pesquisas mais aprofundadas no futuro, com o intuito de averiguar o assunto mais a fundo, não somente em atletas de alto nível, como foi feito em nosso estudo, mas também em outras mulheres que almejam se exercitar durante a gravidez com cargas caracterizadas por intensidades mais altas,” disse ele.

“Assim sendo, durante a gestação as mulheres devem ter cautela quando adotarem cargas mais intensas e não devem se submeter a nenhum protocolo de exercício, cuja intensidade da atividade física ultrapasse 90% da frequência cardíaca máxima maternal,” acrescentou o Dr. Salvesen.

Quando perguntei ao doutor sobre a quantidade de exercício considerada apropriada para as mulheres praticarem durante a gestação, ele afirmou que, “A prática física composta por uma caminhada ou jogging de 4 a 5 dias por semana durante 30 a 45 minutos, caracterizada por uma intensidade durante a qual um bate papo seja possível, é considerada segura e recomendável para todas as gestantes saudáveis.”

Entretanto, é importante notar, que a caminhada e o jogging não são as únicas modalidades disponíveis para aquelas mulheres que procuram os benefícios fisiológicos do exercício ao longo do período de gestação.

Robert McMurray, um renomado fisiologista da University of North Carolina, me disse que durante a gravidez a prática de certos esportes pode ser mais apropriada que outras.

“Eu ainda acredito que a natação é a melhor modalidade esportiva durante esse período por diversas razões: ela é benéfica para o sistema cardiovascular, ela mantém e desenvolve o tônus ​​muscular, ela facilita a fluidez do fluxo sanguíneo materno-fetal, e causa menos problemas relacionados ao equilíbrio. A natação também ocasiona uma menor sobrecarga sobre as articulações, e menos riscos relacionados à elevação da temperatura corporal, pois, a água ajuda a dissipar o calor com maior eficiência do que o ar,” afirmou o Dr. McMurray.

Em suma é sempre aconselhável que as mulheres discutam suas práticas físicas e cargas de exercícios com seus médicos. No entanto, para aquelas sem nenhum risco adicional na gestação, um regime de exercícios de intensidade moderada deve fazer parte do seu cotidiano.

Consequentemente, elas devem sempre desempenhar atividades físicas durante a gravidez e se preparar fisicamente para o nascimento do bebê.

“Elas deveriam treinar para tal dia como se fosse as ‘Olimpíadas do Nascimento’, incorporando o exercício em suas rotinas diárias até mesmo durante todo o terceiro trimestre caso seja tolerável,” afirmou o Dr. Davies, que completa dizendo que, “Elas também deveriam seguir os seus programas físicos específicos às necessidades da gravidez da mesma forma que os atletas olímpicos se dedicam para a preparação de uma competição.”

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Guerra

    Ricardo Guerra é mestre em ciência da fisiologia do esporte pela Liverpool John Moores University. Trabalhou em diversos clubes no Oriente Médio e na Europa e nas seleções nacionais do Egito e do Catar

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