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As concussões cerebrais decorrentes da prática do futebol americano e os riscos que elas representam para a saúde dos jogadores fazem atualmente parte de um debate acirrado nos Estados Unidos. Durante anos, a National Football League (NFL), tentou desqualificar e minimizar as conclusões e os resultados dos estudos científicos, que eram considerados também naquela ocasião de alta credibilidade pelos especialistas, e que apontavam para os riscos das concussões decorrentes do jogo.

Na verdade, a liga norte-americana até mesmo apoiou estudos com metodologias questionáveis, que audaciosamente chegaram a pôr em cheque as conclusões e os resultados obtidos em pesquisas científicas idôneas e independentes. Só depois da publicação de vários outros estudos confirmando os riscos decorrentes das concussões, a organização de modo a preservar sua reputação, tentou reverter à situação e começou a reconhecer o problema. No entanto, naquele momento, as provas já eram tão concretas e evidentes que a liga não tinha como manter sua posição inicial. Como resultado, até o presente momento, existem mais de 2000 ex-jogadores que já processaram a liga de futebol americano por não ter feito o suficiente para protegê-los dos riscos associados às concussões.

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Da mesma forma que os problemas decorrentes das concussões no futebol americano foram inicialmente menosprezados, o impacto fisiológico que resulta das participações em eventos de ultra-resistência tais como, as maratonas, as ultra-maratonas, os triatlos e as competições Ironman, tem sido também, na maioria das vezes, ignorado apesar das conclusões alarmantes das pesquisas. De fato, os efeitos prejudiciais ao sistema reprodutor (testículos/gônadas) decorrentes das competições de ultra-resistência e treinamentos excessivos já são do conhecimento de fisiologistas do exercício desde as últimas décadas.

As gônadas que também fazem parte do sistema endócrino são responsáveis pela produção de vários hormônios, incluindo a testosterona. Presente em ambos os sexos, a testosterona é um hormônio que tem papel fundamental na promoção de várias funções corporais como, por exemplo, o aumento da massa muscular, o aumento da densidade óssea, a diminuição da gordura corporal, a integridade do sistema imunológico, o poder de recuperação após a atividade física e o desempenho sexual normal. Esse hormônio é essencial para a saúde e para o bem-estar geral.

Os atletas que participam desses desafios de ultra-resistência realizam uma grande carga de treinamento. Não é incomum que os participantes de tais eventos agreguem mais de 200 quilômetros de corrida semanalmente visando à preparação para o dia da competição. Tal rotina rigorosa de treinamento físico tem um impacto fisiológico significativo sobre o organismo (em nosso último artigo publicado neste bloghttp://quando-o-exercicio-vira-risco-para-a-saude/—abordamos o tema de maneira profunda). Assim sendo, existem muitos relatos dos baixos níveis de testosterona em homens que se submetem excessivamente ao estresse físico e aos esportes como a maratona e outras modalidades de ultra-resistência.

Em entrevista pelo telefone perguntei ao Dr. William Kraemer, renomado professor fisiologista do exercício da Universidade de Connecticut, sobre o problema enfrentado por estes atletas. Ele afirmou que, em um de seus estudos, que até mesmo antes do início das provas a maioria dos corredores de ultra-resistência se encontrava em estado hipogonodal (condição na qual a diminuição da atividade funcional das gônadas ocorre, resultando assim, em quantidades mais baixas de testosterona). O fisiologista ainda complementou que: “O nível de testosterona na maioria dos corredores após a corrida se encontrava perto de níveis pré-púberes”.

No momento, a causa exata dos baixos níveis de testosterona não é completamente compreendida e permanece um tópico de muita especulação. Assim sendo, diversas teorias têm sido argumentadas por diferentes pesquisadores. Uma teoria envolve a atividade do eixo HPG (hipotalâmico – hipofisário – gonadal), que é a designação dada às glândulas endócrinas, que agem muitas vezes em cooperação e funcionam como se fossem um sistema único. Diversos fisiologistas do exercício acreditam que algum mecanismo fisiológico dentro do eixo HPG seja responsável pelos níveis mais baixos de testosterona nos homens.

Quando perguntei ao Dr. Ira Sharlip, urologista reconhecido mundialmente e professor da Universidade da Califórnia em São Francisco, sobre as consequências a longo prazo dos baixos níveis de testosterona, ele afirmou que “Diversos sistemas do organismo podem ser afetados. Os atletas que sofrem cronicamente de baixos níveis de testosterona (aqueles que são hipogonadais), potencialmente, a longo prazo, correm o risco  de uma diminuição da densidade mineral óssea e da força muscular, do aumento da gordura corporal, e dos níveis reduzidos da vitalidade, da energia e da libido”.  O urologista também salientou a importância do apoio de pesquisas mais aprofundadas no futuro com o intuito de obtermos maiores informações sobre o assunto.

Assim sendo, atualmente, é bem provável que estejamos diante de uma situação, nas modalidades de ultra-resistência, comparável ou análoga ao problema das concussões que o futebol americano inicialmente enfrentou vários anos atrás quando os riscos eram conhecidos e reconhecidos por uma minoria (alguns pesquisadores e algumas pessoas ligadas ao esporte). Num futuro próximo, com as conclusões de investigações mais aprofundadas e abrangentes, talvez possamos chegar a um ponto, o qual o público tomara ciência das adversidades fisiológicas que possam decorrer da participação em esportes de ultra-resistência, da mesma forma, que diversos estudos apontaram para os riscos das concussões no futebol americano e alertaram o público.

 

Nota:  Não queremos e não devemos dissuadir as pessoas da prática das atividades físicas diárias, pois o exercício praticado de forma sensata traz benefícios comprovados à saúde.

 

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A participação em esportes de ultra-resistência como a maratona, o triátlon e Ironman tem aumentado nos últimos anos de maneira significativa. Muitos dos atletas participantes nestes tipos de competições aderem a regimes e protocolos intensos de treinamento visando obter uma preparação adequada para o dia da prova. Alguns até chegam a viajar para o outro lado do mundo, com o objetivo de competir em diferentes eventos. E para muitos destes atletas, a preparação árdua e dedicada se torna uma prioridade às vezes, até em detrimento da vida familiar que pode ser sacrificada por completo. Portanto, conjugar o trabalho, a vida em família e um horário de treinamento religioso pode se tornar um desafio monumental, porém a grande maioria acredita estar acumulando importantes benefícios em prol da saúde na participação desses tipos de modalidades esportivas.

Muitas vezes, a crença popular é que toda atividade física é boa para a saúde e para o bem-estar geral do indivíduo, e que na verdade, a carga envolvida, a qual uma pessoa se sujeita não tem importância, já que a pratica do exercício só pode trazer benefícios. Porém, essa é uma maneira muito simplista de encarar tal assunto. E talvez, seja hora de examinarmos a prática dos esportes e das atividades físicas, que trazem tantas alegrias e gratificações às nossas vidas, de uma forma mais aprofundada e metódica. Sem contar que os benefícios psicológicos e fisiológicos de uma programação sensata e regular diária são primordiais. Além disso, vários estudos demonstram que a movimentação física moderada pode conferir diversos benefícios à saúde, como o fortalecimento do sistema imunológico, das funções do cérebro e até mesmo a redução dos riscos de doenças cardiovasculares e certos tipos de cânceres.

Mas e se a participação nestes eventos altamente prolongados de ultra-resistência não corresponde com os benefícios em prol da saúde que muitos almejam? Além disso, e se o treinamento rigoroso (muitas vezes até mesmo prescrito por um indivíduo sem formação específica da disciplina de fisiologia do exercício e de educação física) estiver lentamente comprometendo a função imunológica do organismo de forma acentuada?

É bem possível que em algum momento a atividade física praticada de forma extrema, passe a se tornar um risco para a saúde. Esses atletas profissionais e amadores, muitas vezes desconhecem o mal causado aos seus organismos. E com muita frequência, milhares de pessoas em todo o mundo, com o apoio de um grupo de “treinadores” e outros indivíduos que se auto-proclamam “especialistas”, estão se sujeitando às metodologias de treinamento com cargas esdrúxulas, que podem sistematicamente estar minando as suas defesas imunitárias.

O nosso sistema imunológico é constantemente desafiado por uma série de micróbios patogênicos. Diversos fatores como, por exemplo, a nossa predisposição genética, o meio ambiente, os níveis de estresse em nossas vidas, a nossa alimentação, a falta de sono, o envelhecimento e as cargas de atividades físicas, as quais nos submetemos, influenciam a robustez e a integridade desse sistema. Quadros clínicos patológicos e hábitos nocivos como a dependência química, tal como o uso de drogas, do tabaco e das bebidas, também contribuem com a supressão da resistência imunológica.

Também é muito comum atletas sucumbirem às infecções de trato respiratório superior como resfriados, dores de garganta, e sinusites nos dias e semanas após uma prova importante. Tais ocorrências estão mais do que relatadas dentro da literatura científica. Na verdade, estudos demonstram que o risco de sofrer infecções de trato respiratório superior aumentam de 2 a 6 vezes nas semanas após a participação em uma maratona de 42 km, ou em ultra-maratonas de 90. Estados gripais também aumentam durante as fases de treinamentos excessivos.

Em entrevista pelo telefone perguntei ao Dr. Michael Gleeson, um renomado investigador da Loughborough University e especialista no assunto, em que momento, os exercícios prolongados passam a tornar-se nocivos. Ele afirmou que diversos componentes do sistema imunológico começam a ser suprimidos após uma corrida intensa e contínua com duração de mais de 90 minutos. No entanto, vale a pena lembrar, que o curso de uma maratona para muitos acarreta mais de cinco horas de exercício contínuo e um Ironman pode chegar a ter uma duração de até 17 horas.

A supressão imunológica que ocorre após o exercício prolongado está relacionada à elevação dos níveis dos hormônios de estresse, adrenalina e cortisol provenientes das atividades físicas. Tais níveis elevados desses hormônios deprimem importantes células sanguíneas, neste caso os glóbulos brancos (neutrófilos e linfócitos), que desempenham um papel vital na integridade do sistema imunológico. Os neutrófilos no corpo humano são análogos e comparáveis ao icônico Pac-Man (protagonista do famoso videogame dos anos 80, que obstinadamente devorava os pequenos detritos, e que poderiam equivaler-se aos microrganismos nocivos em nosso organismo). Desta maneira, os níveis mais baixos dessas células nos tornam suscetíveis às infecções. E as atividades físicas praticadas de forma demasiada, ou prolongadas, também afetam negativamente outros mecanismos mais complexos da defesa imunitária.

O comprometimento da função imunológica que ocorre após uma corrida de ultra-resistência é, na grande maioria das pessoas, reversível. Porém, o problema enfrentado por esses entusiastas obstinados não é apenas a agressão fisiológica, que eles encaram durante uma competição como uma maratona ou Ironman, mas também o enfraquecimento constante de seus sistemas imunológicos, que ocorre no dia a dia de suas vidas em consequência das metodologias excessivas de treinamentos que antecedem o dia da competição. Desta forma, agridem as suas integridades físicas de forma constante, pois as rotinas de treinamento e as provas múltiplas são incessantes.

O que ocorre é curioso. Imaginemos que o sistema imunológico esteja tomando uma série de socos várias vezes por semana durante os dias de treinamento e, finalmente, tome um nocaute no dia da prova ou da competição. Seria interessante averiguar qual é o resultado do sistema imunológico a longo prazo de uma pessoa, que esteja constantemente participando de diversas maratonas ao ano e, além disso, se submetendo no dia a dia a programas de treinamentos excessivos e sem base nos conhecimentos da área de fisiologia do exercício.

Vale a pena fazer uma observação sobre a carga de exercício que é considerada apropriada para estimular adaptações imunológicas benéficas. Quando perguntei ao Dr. Gleeson sobre a quantidade de exercício ideal para se alcançar este objetivo, ele afirmou que “a atividade física moderada de 30 a 45 minutos composta por uma caminhada rápida, de 5 dias por semana, é recomendável para promover a saúde, o bem-estar geral e as adaptações fisiológicas que de fato fortalecem o sistema imunológico.” Com base em sua afirmação, fica claro que a medida ideal de atividade física para o bem viver está bem longe de ser a de um treinamento para o dia da prova, de uma maratona ou de um Ironman.

Por outro lado, não queremos e não devemos dissuadir as pessoas de usufruirem dos mais que reconhecidos benefícios das atividades físicas diárias, tanto que enfatizamos os benefícios psicológicos e fisiológicos das programações sensatas e regulares. No entanto, correr durante quatro ou mais horas, como muitos fazem numa maratona, ou nadar, pedalar e correr durante dez horas ou mais, como fazem participantes de um Ironman, fica bem longe de ser consideradas cargas de exercícios que almejam fortalecer o sistema imunológico de quem quer que seja.

Em caso de insistência na participação dessas competições de ultra resistência, recomendamos que os partipantes dentro dessas modalidades procurem sempre a assistência de um fisiologista ou outro profissional da área, para uma opinião individualizada de forma a minimizarem riscos desnecessários à saúde e que decorram de tais modalidades. Eventualmente, outra saída é que estas pessoas busquem formas mais sensatas de praticar atividades físicas.

 

 

 

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A morte do jogador italiano da equipe do Livorno, Piermario Morosini, em decorrência de uma parada cardíaca que aconteceu durante o jogo contra o Pescara, apenas algumas semanas após o episódio dramático com Fabrice Muamba chocou a Itália.

Nossas dúvidas quanto ao devido uso do desfibrilador levantadas neste blog, e naquela ocasião, baseada unicamente pelas imagens do incidente proporcionadas pela televisão, vieram a ser confirmadas pelo testemunho de vários membros do corpo médico que estavam no local onde o jogador foi atendido.

Sabemos agora, que os três desfibriladores que estavam disponíveis no campo e na ambulância nunca foram utilizados. Tal fato é muito estranho, e na verdade vai contra as normas básicas dos procedimentos de ressuscitação cardiopulmonar (RCP).

De acordo com o depoimento de Marco Di Francesco, um dos enfermeiros no campo, o desfibrilador nunca foi usado, apesar do fato que ele havia pleiteado em vão o uso do mesmo com um dos médicos, que naquela ocasião havia atendido Morosini.

Outros comentários feitos por membros da equipe médica que participaram da operação de resgate, após o incidente, são também muito esclarecedores e devem ser analisados minuciosamente pelos investigadores. Algumas dessas declarações são importantes, pois são capazes de nos dar uma boa idéia sobre a mentalidade e o conhecimento desses indivíduos, em relação aos procedimentos básicos das técnicas de ressuscitação cardiopulmonar.

O Doutor Leonardo Palloscia, um dos médicos que estava assistindo a partida e veio ao campo prestar atendimento, disse à imprensa italiana que ele não tinha certeza de qual seria a importância que os desfibriladores poderiam ter dentro da ambulância no caso do atleta, pois o percurso até o hospital foi muito curto – sendo de apenas três minutos. Na verdade, o comentário do Dr. Palloscia é suspeito, pois qualquer cardiologista ou membro de uma equipe de resgate poderia afirmar, que três minutos em um incidente envolvendo uma parada cardíaca é uma eternidade e pode de fato fazer a diferença entre vida e a morte. Assim sendo, parece que alguns indivíduos responsáveis pelos procedimentos de resgate não estavam cientes sobre tal fato.

Em recente entrevista, ao perguntar ao Dr. Stefano De Servi, renomado cardiologista italiano e autor de diversos estudos científicos, sobre o fato de que o jogador não estava conectado a um desfibrilador, ele afirmou que “conectar um paciente que está sob suspeita de sofrer uma parada cardíaca a um desfibrilador e monitorar o seu eletrocardiograma (ECG), é um conceito elementar e uma das primeiras coisas que alguém deve fazer em uma situação como a qual se encontrava Morosini.” O cardiologista ainda complementou, “Este é um conceito básico que é sabido por todos e até mesmo do conhecimento de uma pessoa, que acabou de concluir um simples curso de 3 horas sobre ressuscitação cardiopulmonar.”

Segundo, o Dr. Ernesto Sabatini, integrante da comissão técnica da equipe do Pescara em afirmação à imprensa italiana após o incidente, “a presença de um desfibrilador não teria contribuído de forma alguma para salvar a vida do jogador.” Tal declaração só poderia ser levada a sério se o Dr. Sabatini possuísse poderes paranormais, ou seja, uma habilidade inédita de saber qual o ritmo, que o coração de um ser humano se encontra em qualquer momento. Infelizmente, ninguém possui esta capacidade. Assim sendo, o Dr. Sabatini só poderia afirmar com certeza, que o desfibrilador não poderia ter salvo Morosini, se o jogador tivesse de fato sido conectado ao aparelho eletrônico.

O fato de Morosini não ter sido conectado ao desfibrilador é lamentável, pois seria muito provável que em algum momento durante o incidente que ele sofreu, o jogador poderia ter tido um ritmo cardíaco que fosse propício à desfibrilação.

Desta maneira, em esclarecimento, o médico legista Dr. Cristian D ‘Oviedo determinou que Morosini não morreu instantaneamente, o que leva a acreditar, que ele poderia ter tido a chance de sobreviver se ele estivesse conectado ao desfibrilador. Por essa razão, passamos a crer ser bem provável que o coração do jogador entrou em fibrilação ventricular – um tipo de ritmo cardíaco que possibilita a desfibrilação logo depois de ter sofrido a parada cardíaca.

Deste modo, fica cada vez mais claro que os procedimentos básicos das técnicas de ressuscitação cardiopulmonar não foram seguidos à risca, pois não havia nenhum plano para atender às necessidades de um jogador na eventualidade de uma dramática circunstância como a que afligiu Morosini.

Em consequência disso, é bem possível que todos os fatos e afirmações pertencentes ao caso, levarão a procuradora geral Valentina D’ Agostino à averiguação dos mesmos, em busca de provas suficientes para montar um processo de negligência médica contra os envolvidos. Eventualmente, responsabilizando-os pelos erros cometidos durante o atendimento, os quais podem ter eliminado as chances de sobrevivência do jogador.

 

 

 

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O meio-campista da equipe do Livorno, Piermario Morosini, morreu no sábado (passado) após sofrer uma parada cardíaca durante uma partida de sua equipe pela Série B do campeonato italiano em Pescara. A morte do jovem jogador chocou o mundo que apenas algumas semanas atrás havia testemunhado outro incidente dramático envolvendo a parada cardíaca do meio-campista do Bolton, Fabrice Muamba.

As comparações relacionadas aos procedimentos de resgate que estavam em vigor tanto no incidente envolvendo Muamba como Morosini são inevitáveis ​​e já é tema de discussão e debate. A atuação eficiente da equipe de resgate na Inglaterra é considerada um caso à parte e louvada pelo mundo inteiro. Muitas perguntas já estão sendo levantadas sobre os mesmos procedimentos de emergência na cidade de Pescara que atenderam a condição clínica do jogador italiano.

Após a análise cuidadosa das imagens proporcionadas pela televisão sobre o episódio envolvendo Morosini na Itália, pode-se ver claramente que a confusão era geral. Parecia que os procedimentos de emergência no campo foram repentinamente improvisados para lidar com a situação dramática do jovem jogador. Ficou nítida a falta de liderança. A ambulância, por exemplo, foi impedida de entrar no estádio em decorrência de um carro da polícia local estar estacionado no portão de acesso ao campo. Uma investigação promovida pelo Ministério Público de Pescara e liderada pela procuradora geral Valentina D’ Agostino, já se encontra em andamento e tem o intuito de determinar se o atraso pode ter custado a vida de Morosini.

Imagens da televisão mostram um número de pessoas, caoticamente, prestando os primeiros socorros ao jogador. Ao examinarmos as mesmas imagens de vídeo envolvendo a parada cardíaca de Fabrice Muamba na Inglaterra, temos a sensação de que os procedimentos de emergência postos em prática ali foram executados com um nível superior de organização, profissionalismo e serenidade que não se encontrava ao redor de Morosini.

Em recente entrevista, perguntei ao Dr. Stefano De Servi, renomado cardiologista italiano, autor de diversos estudos científicos, se ele acreditava que havia  um plano de emergência em vigor no estádio de Pescara para auxiliar os jogadores na eventualidade de uma parada cardíaca. O respeitado cardiologista afirmou que através das imagens, segundo sua observação, o acontecimento inesperado gerou pânico no campo, comprometendo potencialmente o trabalho de resgate. Também existem questões importantes que precisam ser abordadas especificamente quanto aos procedimentos de emergência que estavam em vigor naquele estádio.

No presente momento, há muita confusão e especulação sobre quando exatamente Morosini foi conectado a um desfibrilador. O aparelho é utilizado na parada cardiorespiratória com objetivo de restabelecer ou reorganizar o ritmo cardíaco. Não sabemos ao certo se o jogador foi conectado ao aparelho no campo ou apenas quando já estava na ambulância. Quando levantei essa possibilidade numa entrevista por telefone com o cardiologista De Servi, ele me disse que se tratava de uma questão relevante ao caso e que as imagens da televisão nao deixam claro se o desfibrilador foi utilizado ou não. “Me parece que a atividade elétrica (ECG) do coração do jogador não foi devidamente monitorada quando ele foi retirado do campo”,disse ele.

A partir da análise cuidadosa das imagens proporcionadas pela TV, observamos que, quando Morosini foi levado de maca em direção à ambulância, ele estava vestido com a sua camisa, que parecia estar intacta, o que nos leva a crer que, possivelmente, ele não foi conectado ao desfibrilador ainda em campo. Normalmente em uma situação de emergência envolvendo uma parada cardíaca, cada segundo é precioso. Assim sendo, consequentemente, membros de uma equipe de resgate têm o costume de cortar a camisa ou qualquer outra roupa que esteja encobrindo a área do tronco da pessoa. Eles procuram o acesso imediato a esta região, a fim de colocar os eletrodos do desfibrilador em contato direto com o tórax desnudo. Não é eficaz desfibrilar quando os eletrodos não estão posicionados de tal forma, uma vez que a condutividade é significativamente diminuída. Também, durante todo o incidente, aparentemente, não houve um só momento em que membros da equipe de resgate se afastaram da vítima para que ela pudesse ser desfibrilada (há um enorme risco de choque elétrico). Isto é outo  indício que, provavelmente, o jogador não foi conectado ao desfibrilador no campo.

E se logo em seguida a parada cardíaca o coração do jogador ainda tivesse mostrado atividade elétrica, ou seja, um ritmo cardíaco propício a desfibrilação? Nesse caso, não estando conectado ao desfibrilador imediatamente após a parada cardíaca, o jogador pode ter perdido uma grande chance de recuperar o batimento cardíaco normal.

Ernesto Sabatini, um dos médicos que atendeu o jogador, afirmou à imprensa italiana que, após uma parada cardíaca, como no caso de Morosini, o tratamento clínico nos primeiros minutos deve ser composto por manobras (massagens cardíacas) de ressuscitação cardiopulomonar (RCP). Na verdade, esse só é o caso quando a parada cardíaca ocorre fora do hospital e não é testemunhada por profissionais da área de resgate. No entanto, em situações em que uma parada cardíaca é testemunhada e o desfibrilador se encontra disponível, tal como foi o caso envolvendo Morosini, não há necessidade das manobras de RCP serem realizadas, em vez da desfibrilação, por alguns minutos antes. Em tal situação quando existe a disponibilidade do desfibrilador ele deve ser acionado imediatamente.

Nessas circunstancias, as diretrizes da American Heart Association, respeitadas em todo o mundo, afirmam que o uso do desfibrilador deve ser feito de imediato, ou seja, assim que este estiver disponível. Morosini deveria ter sido conectado a esse equipamento disponível imediatamente ao cair e ser determinado que houvesse tido uma parada cardíaca.   

Se ele iria receber desfibrilação seria outra questão a ser determinada de acordo com a informação. Estar conectado a um desfibrilador não significa que a vítima imediatamente receberá choques ou será desfibrilada. Tal fato só aconteceria de acordo com a recomendação recebida e detectada pelos eletrodos os quais recebem ou detectam, informação de que há atividade elétrica no coração que seja propícia à desfibrilação.

O caso envolvendo Piermario Morosini e Fabrice Muamba podem oferecer informações vitais a respeito de como uma operação de resgate de emergência envolvendo uma parada cardíaca deve ser realizada. Muamba foi estabilizado ainda em campo, por vários minutos, antes de ser levado para a ambulância. Em contrapartida, Morosini foi caoticamente levado às pressas para a ambulância, provavelmente sem ter sido conectado a um desfibrilador. Além disso, é também bem conhecido que é consideravelmente mais difícil estabilizar a vítima num veículo em rápido movimento do que sobre o solo em terreno sólido.  O jogador também pode ter perdido preciosos segundos, quando teve suas massagens cardíacas interrompidas, ao ser removido para ambulância. Nessas horas, cada segundo  que passa, pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Ainda há muitas perguntas que merecem uma resposta na morte do jogador Morosini. O Ministério Público de Pescara já abriu uma investigação sobre o incidente envolvendo a ambulância que foi impedida de entrar no estádio. Essa investigação deve ser estendida ao exame de outros detalhes dentro dos procedimentos de emergência que atenderam o jogador. Só assim poderemos obter informações valiosas que nos permitam colocar em prática protocolos de emergência em todos os estádios que sejam eficientes e uniformes. O fato da FIFA não ter adotado ou não ter em vigor diretivas e protocolos mandatórios uniformes de emergência seguidos por todos os países sob sua jurisdição, é simplesmente uma vergonha. Na eventualidade de uma parada cardíaca todo jogador merece a mesma chance de sobreviver.

 

 

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O meio-campista Piermario Morosini, da equipe do Livorno, da série B do campeonato italiano morreu após sofrer uma parada cardíaca durante uma partida contra o Pescara, neste sábado. O falecimento de Morosini foi confirmado pelo Dr. Edoardo De Blasio, cardiologista do hospital Santo Spirito em Pescara, que disse: “Infelizmente ele já estava morto quando chegou ao hospital. Ele não recuperou a consciência.”

Todas as partidas do campeonato de futebol italiano neste fim de semana foram suspensas. Morosini, que tinha 25 anos, recebeu assistência médica urgente em campo depois de desmaiar após 31 minutos de partida. Um desfibrilador foi usado antes de Morosini ter sido levado para o hospital Santo Spirito em Pescara. O desfibrilador é utilizado na parada cardiorespiratória com objetivo de restabelecer ou reorganizar o ritmo cardíaco. Porém, não sabemos exatamente se ele recebeu a desfibrilação imediata, que é de extrema importância nestas situações. Na verdade, menos de 10% das pessoas que sofrem uma parada cardíaca tem acesso a um desfibrilador.

A Associated Press informou que o jogador estava consciente quando foi levado de maca para fora do campo. Também foi relatado que um carro que pertencia à polícia de trânsito bloqueou o caminho da ambulância ao estádio e uma janela teve de ser quebrada para que o veículo pudesse ser removido. É sabido que os primeiros dez minutos após uma parada cardíaca são extremamente críticos para a sobrevivência do paciente e da mais alta importância para seu tratamento clínico. Na verdade, as chances de sobrevivência da vítima após uma parada cardíaca diminuem 10% para cada minuto que as massagens cardíacas forem retardadas.

A eficiência dos procedimentos em curso na Itália para o diagnóstico preventivo em diversos atletas também será alvo dos críticos. O uso do eletrocardiograma (ECG) naquele país é muito comum nestes casos. A Itália, inclusive, tem leis em vigor que tornam obrigatório o diagnóstico preventivo de todos os atletas com um ECG. Porém, resultados falso-negativos em um eletrocardiograma não são incomuns e tais procedimentos, quando administrados sem o acompanhamento de um ecocardiograma, às vezes, podem proporcionar diagnósticos incompletos ou imprecisos.

Neste momento é difícil saber exatamente o que ocorreu nos minutos após o jogador ter caído em campo. O retardamento da entrada da ambulância no estádio para o atendimento do jogador é mal sinal. Inevitavelmente, comparações serão feitas entre o atendimento de emergência que Morosini recebeu e o tratamento altamente eficaz que Fabrice Muamba teve a sua disposição. No entanto, nos próximos dias vamos ter mais informações sobre o caso da parada cardíaca fatal que o jogador Morosini sofreu. Porém, vale a pena ressaltar que o atendimento imediato nestes casos é da maior importância. Todo segundo é precioso.  

 

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Até agora não temos informações precisas sobre a causa da parada cardíaca, que o meio campista Fabrice Muamba do Bolton sofreu no meio de uma partida de futebol. Embora tenha sido relatado que o jogador no presente momento já esteja falando, comendo e até mesmo dando passos ao redor do centro de terapia intensiva da London Chest Clinic, ele, provavelmente, ainda terá um longo caminho a percorrer rumo à recuperação completa. Se ele algum dia vai poder voltar a jogar futebol ou não é ainda uma grande incógnita.

Sobreviver a uma parada cardíaca após 78 minutos de esforços de ressuscitação é caso raro. A imagem do jovem jogador imóvel em campo rodeado por um batalhão de médicos e especialistas em primeiros socorros é dramática e impossível de esquecer. Apesar de muitas vezes, inicialmente, não conseguirmos antever os efeitos psicológicos que tais episódios acarretarão no longo prazo, eles existirão e serão marcantes e duradouros.

São episódios trágicos como a parada cardíaca do Muamba ou outros dramas parecidos, como morte e doença, que nos levam a uma reflexão mais profunda, introspectiva e filosófica sobre o significado de nossas vidas, obrigando-nos a refletir sobre o que é realmente importante e o que tem, verdadeiramente, significado nelas. Em tais situações nos deparamos com a fragilidade da vida humana e, consequentemente, com a nossa própria mortalidade. Ante ao fato acontecido com o Muamba, podemos até mesmo ser induzidos a acreditar que o impossível pode acontecer…

Mas, e se a sobrevivência do Muamba não foi um produto do acaso, ou uma intervenção divina, ou seja, um milagre mesmo? Podemos supor que ele realmente foi salvo por procedimentos de resgate, altamente eficientes, que estavam disponíveis no estádio especificamente para socorros em eventualidades como a sua, em que ele se encontrava entre a vida e a morte.

A quase totalidade das pessoas que sofrem uma parada cardíaca encontra-se em um local sem qualquer infraestrutura disponível de resgate ou atendimento para a execução dos primeiros socorros. Não há nem mesmo alguém com a capacidade de executar os procedimentos mais elementares dentro do protocolo de ressuscitação cardio pulmonar (RCP), ainda menos, com a capacidade de reconhecer os sintomas que afligem a vítima.

Muamba, por outro lado, encontrou-se diante de um verdadeiro “hospital móvel” a poucos metros de onde sofreu a parada cardíaca. Quantas pessoas ao sofrerem uma parada cardíaca poderiam, possivelmente, ser salvas pelo mesmo “milagre”, se tivessem a sua disposição a mesma infraestrutura de resgate que foi dispensada ao Muamba?

O lado mais fascinante do caso envolvendo o jogador foram os mais atualizados recursos da área “Ciência da Ressuscitação” que, provavelmente, foram utilizados e que contribuíram decisivamente para sua sobrevivência.

Nada é mais importante, num episódio envolvendo uma parada cardíaca, que o reconhecimento imediato do que está acontecendo com a vítima. Não é possível iniciar qualquer tipo de tratamento médico, sem a noção do que está afligindo o paciente. A equipe de resgate que atendeu as necessidades de Muamba foi capaz de diagnosticar imediatamente o mal que sofria o jogador. Assim sendo, não perdeu tempo em prestar-lhe os primeiros socorros.

É sabido que os primeiros dez minutos após uma parada cardíaca são extremamente críticos para a sobrevivência do paciente e da mais alta importância para seu tratamento clínico. Comilla Sasson, conhecida especialista em medicina de emergência, professora da Universidade de Denver e responsável pelo desenvolvimento de programas de ensino do RCP, disse em entrevista por telefone, que as chances de sobrevivência da vítima após uma parada cardíaca diminuem 10% para cada minuto que as manobras (RCP) forem retardadas.

A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) é um conjunto de manobras, envolvendo suporte ventilatório e compressões (massagens cardíacas) no peito da vítima, destinadas a garantir a oxigenação dos órgãos quando a circulação do sangue de uma pessoa está interrompida, em decorrência de uma uma parada cardiorrespiratória. Nesta situação, se o sangue não é bombeado para os órgãos vitais, como o cérebro e o coração, esses órgãos acabam por entrar em necrose, pondo em risco a vida da pessoa.

Um dos aspectos mais importante na implementação das técnicas de ressuscitação é a eficiência da execução da massagem cardíaca, além da utilização do desfibrilador, que deve ser imediata se disponível no momento. O desfibrilador é um aparelho portátil encontrado em ambulâncias e muitos outros locais públicos. O aparelho é utilizado na parada cardiorespiratória com objetivo de restabelecer ou reorganizar o ritmo cardíaco. As chances são mínimas de uma pessoa sobreviver a uma parada cardíaca quando ela não tem acesso imediato a um desfibrilador. “Menos de 10 % das pessoas que sofrem uma parada cardíaca tem acesso a um desfibrilador”, disse a Dra. Sasson

É evidente que, durante a parada cardíaca que Muamba sofreu, ele teve acesso imediato a um desfibrilador e também recebeu massagens cardíacas altamente eficientes. Os médicos e os membros da equipe de resgate que atenderam o jogador provavelmente executaram as manobras do RCP (suporte ventilatório e massagens cardíacas) com perfeição. A técnica apurada exercida de forma correta com as mãos sobre o peito da vítima, no local exato, com a pressão rítmica apropriada, é fundamental e muitas vezes só praticada com perfeição por um profissional da área.

Existe uma grande diferença em receber massagens cardíacas de uma pessoa no meio da rua com pouca experiência e o mesmo tratamento através de um cardiologista ou membro de uma equipe de resgate. A implementação das massagens cardíacas por alguns minutos é fisicamente desgastante. No caso envolvendo o jogador, observou-se que havia mais de um profissional com habilidade para executar os movimentos. Assim sendo, as massagens cardíacas foram contínuas e eficientes, graças ao revezamento desses profissionais.

Também foi relatado que, quando Muamba estava na ambulância a caminho da London Chest Clinic, o cardiologista Andrew Deaner, que havia tratado o jogador no campo, administrou medicamentos importantes ao jogador. Fármacos como a epinefrina e vasopressina para tratar de paradas cardíacas são rotineiramente utilizados em ambulâncias pelo mundo inteiro.

Segundo Clifton Callaway, respeitado médico de emergência da University of Pittsburgh e especialista em medicina de ressuscitação, tais medicamentos são conhecidos por melhorarem a circulação sanguínea, redirecionando o fluxo de áreas menos vitais para o coração e o cérebro. “As pessoas que não recebem tais medicamentos são as que, geralmente, respondem imediatamente à desfibrilação ou tratamento do RCP”, disse ele.

Outro procedimento, a hipotermia terapêutica, pode muito bem ter desempenhado um papel muito importante na preservação da função neurológica do jogador Fabrice Muamba.  Este procedimento, já faz parte dos serviços de ambulância em muitas regiões dos Estados Unidos e Reino Unido. A hipotermia terapêutica empregada após uma parada cardíaca induz à redução da temperatura corporal para cerca de 32 a 34 graus Celsius, por um período de 24 horas. Romergryko Geocadin, renomado médico de terapia neuro-intensiva e pesquisador da Universidade John Hopkins, disse-me que o procedimento reduz a inchação e a inflamação que degradam e prejudicam a função neurológica normal.

É difícil saber exatamente em que condição neurológica Muamba se encontra no momento. No entanto, o fato dele estar vivo e de termos informações que ele está lentamente se restabelecendo é extraordinário. Porém, isto, não aconteceu por acaso.

Milagres acontecem, eu acredito neles, e vale a pena dizer que sou um homen de fé. No entanto, ao referirmo-nos à sobrevivência e a recuperação de Muamba como milagrosa, corremos o risco de menosprezar os recursos impressionantes da medicina de ressuscitação, que há mais de cinquenta anos vêm sendo minuciosamente pesquisados​​, testados e aperfeiçoados. Seria um ato de grande irresponsabilidade de nossa parte designar tais eventos dessa forma.

Seria, também, uma grande injustiça contra a obstinada e motivada equipe de resgate que, naquele dia fatídico, lutou incessantemente pela vida do jogador, executando tais procedimentos de forma perfeita, sem vacilar. Esses, profissionais, sim, foram os verdadeiros heróis daquele dia, por quem Muamba deverá ser eternamente grato.

 

 

 

 

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Nas duas últimas semanas, o mundo inteiro vem acompanhando a recuperação do jogador Fabrice Muamba, meio-campista do Bolton Wanderers, equipe da Premier League do futebol inglês, que sofreu parada cardíaca durante o jogo contra o Tottenham, dia 17 de março passado. O fato de Muamba ter sobrevivido a tal incidente, em que a equipe médica precisou usar o desfibrilador mais de 15 vezes para reanimá-lo durante os 78 minutos em que esteve “efetivamente morto”, é  simplesmente impressionante, pois, muito poucas pessoas são capazes de resisitir a um episódio como esse. Para se ter uma ideia, de cada dez pessoas que sofrem uma parada cardíaca fora de um hospital, nove morrem.

No momento, os fatores e as anormalidades (patologias) cardiovasculares que levaram Muamba a sofrer tal parada cardíaca, são totalmente desconhecidos pelo público. Essa informação, provavelmente, só é do conhecimento dos médicos e familiares do jogador. Até a publicação deste artigo, foram feitas várias tentativas para contatar os médicos responsáveis pelo tratamento e a recuperação do jogador. O cardiologista da London Chest Clinic, Dr. Sam Mohiddin, que está liderando a equipe no tratamento do atleta, recusou ser entrevistado, respondendo por sua secretária a um pedido feito pela reportagem.

As informações sobre o estado clínico do jogador e as causas que podem ter provocado a parada cardíaca, divulgadas pelo hospital nos boletins médicos, são escassas. Sanjay Sharma, conhecido cardiologista entre os atletas britânicos, que poderia ter informações sobre o caso, mas que não tratou do jogador, também não retornou meus pedidos de entrevista.

No entanto, segundo o cardiologista Barry J. Maron, do Minneapolis Heart Institute, renomado internacionalmente, autor de mais de 800 artigos científicos e uma das maiores autoridades na área da cardiomiopatia hipertrófica (CH), existem cerca de 20 patologias que podem ter desencadeado os eventos que levaram à parada cardíaca do jogador, sendo a mais provável a CH.

A CH é uma doença genética que provoca hipertrofia em partes do miocárdio (músculo do coração), o que dificulta a saída do sangue e força, consequentemente, o coração a trabalhar mais para bombear o sangue.

O fato ocorrido no estádio do Tottenham lembra outros casos parecidos, como os do camaronês Marc Vivien-Foé, que morreu durante um jogo da Copa das Confederações de 2003, do Húngaro Feher Miklos, que morreu depois de passar mal durante uma partida em Portugal, e do zagueiro Serginho, do São Caetano, que também teve morte súbita num jogo contra o São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro. Em todos esses casos, a morte foi atribuída a cardiomiopatia hipertrófica.

Todos os fatos envolvendo o episódio que Muamba sofreu fazem parte de uma história dramática. Porém, existe um outro lado dessa narrativa, que tem sido completamente ignorado pela imprensa mundial. Mesmo não havendo atualmente nenhuma informação sobre os exames aos quais o jogador foi submetido, existem relatos que dão conta que Muamba havia sido previamente examinado de forma preventiva contra problemas cardíacos.

Supondo que o jogador tenha sido submetido a alguma bateria de testes no passado, seria interessante saber que tipo de exames foram realizados e, se ele era portador de uma anormalidade cardíaca, por que ela não foi constatada. É muito provável que em algun momento ele deva ter sido submetido a um ou mais eletrocardiogramas (ECG). O ECG é um exame não invasivo, que utiliza a colocação de eletrodos no peito tornando possível gravar as variações de ondas elétricas emitidas pelas contrações do coração durante um período de tempo. Tal exame oferece inúmeras informações sobre a presença de diversos problemas cardíacos.

O uso do eletrocardiograma para o diagnóstico preventivo em diversos atletas, no Reino Unido, é muito comum. Países, por exemplo, como a Itália e Israel têm leis em vigor que torna obrigatório o diagnóstico preventivo de todos os atletas com um ECG. É bem possível que Fabrice Muamba possa ter tido resultados completamente normais, sem patologias, portanto, em todos os exames cardiovasculares a que tenha sido submetido ao longo de sua carreira, incluindo um ou mais ECG.

Se alguém acredita que o eletrocardiograma é infalível e que diz tudo, entre os diversos métodos existentes para o diagnóstico de anomalidades cardiovasculares, então pode ter que se preparar para uma grande surpresa. Resultados falsos negativos em um eletrocardiograma não são incomuns e tais procedimentos, quando administrados sem o acompanhamento de um ecocardiograma, às vezes podem proporcionar diagnóstico incompleto ou impreciso.

Na verdade, 10% dos pacientes que sofrem de cardiomiopatia hipertrófica podem ter um eletrocardiograma normal ou quase normal. A parada cardíaca que Muamba sofreu, supostamente, também poderia estar mais relacionada a outros raríssimos problemas genéticos de difícil diagnóstico.

Mas…e se em algum momento, nas vezes em que o jogador foi examinado, alguma anormalidade cardíaca foi intencionalmente ignorada? Quando levantei essa possibilidade em uma entrevista por telefone com o cardiologista Maron, ele me disse que se tratava de uma questão relevante ao caso e que deveria ser considerada.

“Não é incomum que o julgamento de um médico possa ser prejudicado ou afetado por pressões externas de pessoas que têm um interesse na carreira de um jogador”, disse ele. Muitas vezes alguns jogadores quando se deparam com um diagnóstico que não lhes convém, vão à procura de laudos que não vão representar uma ameaça às suas carreiras. No entanto, Maron faz questão de dizer que não se sabe exatamente se esse é o caso de Muamba.

“Nós não devemos chegar a conclusões precipitadas”, adverte. “Nós não temos os resultados dos testes cardiovasculares que este jogador pode ter realizado no passado e, no momento, também não temos nenhuma prova de negligência médica ou de conduta suspeita”, diz o cardiologista, que completa dizendo que, “algumas destas questões levantadas são importantes e devem ser averiguadas.”

O que não devemos esquecer  é que Fabrice Muamba, um jogador profissional com elevados níveis de aptidão física, e querido por todos os seus companheiros, quase perdeu a vida, apesar de ser um atleta que certamente havia sido submetido em mais de uma ocasião a exames para a detecção de problemas cardíacos. O fato de ele estar vivo é extraordinário e atribuído ao atendimento de emergência, eficiente e imediato, que ele recebeu ainda no campo.

Mas, neste momento, não sabemos ainda se ele vai se recuperar totalmente. Ele pode ou não ter sofrido danos neurológicos irreversíveis. Não devemos sucumbir à timidez, mas sim prosseguir na busca de esclarecimentos sobre qual era a condição médica do jogador antes dele ter sofrido aquela dramática parada cardíaca, pois poderia fornecer-nos informações importantes sobre assuntos ligados à medicina que são do interesse público em geral e da comunidade esportiva em particular. Até agora, a informação exata sobre os exames que haviam sido feitos e os resultados dos mesmos não foram divulgados.

Embora Muamba tenha o direito à confidencialidade da sua informação médica, este caso levanta questões de saúde de alta importância, tanto dentro como fora do jogo. Portanto, é desejável que Muamba torne essa informação imediatamente acessível, caso esteja em condições de o fazer. Assim sendo, seria possível desvendar esse mistério.

 

 

 

 

 

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Ha várias décadas, técnicos de futebol defendem a ideia de que a atividade sexual antes de um jogo ou evento esportivo é prejudical ao desempenho do atleta no dia da competição. Essa velha teoria, promovida e defendida principalmente por técnicos de boxe, dizia que o sexo na véspera da luta enfraqueceria as pernas dos lutadores. Inclusive, o maior lutador de todos os tempos, Muhammad Ali, era conhecido por se abster de atividade sexual por várias semanas antes de uma luta.

Treinadores em diversas modalidades esportivas, não só no futebol e no boxe, continuam a difundir algumas dessas ideias. No entanto, essas alegações nunca foram comprovadas cientificamente.

Por que é que a atividade sexual antes de um jogo ou evento esportivo pode prejudicar o desempenho do atleta? Por um lado, afirma-se que, após a relação sexual, os níveis de testosterona diminuem, prejudicando o desempenho. O argumento é que níveis mais elevados de testosterona contribuem para um maior nível de agressividade e vitalidade que, por sua vez, poderiam melhorar o desempenho do atleta no dia do jogo.

Presente em ambos os sexos, a testosterona é um hormônio que tem um papel fundamental na promoção de várias funções corporais como, por exemplo, no aumento da massa muscular, no aumento da densidade óssea, na diminuição da gordura corporal, no poder de recuperação após a atividade física e no desempenho sexual normal. Esse hormônio é essencial para a saúde e o bem estar geral.

Assim sendo, seria interessante examinar mais a fundo a ideia muito comum de que a redução de testosterona ocorre após a atividade sexual. Um estudo diferenciado, conduzido recentemente, obteve resultados conclusivos. Pesquisadores da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, mostraram que os níveis de testosterona em participantes do sexo masculino tiveram um aumento significativo após a atividade sexual, contrariando tal conceito. Portanto, então, ao contrário de suposições anteriores, poderíamos até levantar a hipótese de que a atividade sexual alguns minutos antes da competição poderia conferir benefícios, com um aumento de agressividade ou vitalidade provocado pelos níveis mais elevados de testosterona. Deve-se notar, no entanto, que até hoje essa ligação não foi testada nem comprovada no meio científico.

Uma outra crença popular, defendida por muitos técnicos da velha guarda, é que o sexo causa demasiado dispêndio energético, podendo causar fatiga antes de um jogo e afetando a capacidade fisiológica ou o desempenho esportivo de forma negativa. Seria importante notar que a quantidade de estudos examinando este assunto é muito limitado. Não existem estudos conduzidos, em situações fora do laboratório, ou seja, examinando como a atividade sexual afeta o desempenho de um atleta diretamente em uma partida de futebol ou outro evento esportivo.

No entanto, pelos os estudos que foram feitos e pela informação disponível, somos capazes de chegar a conclusões convincentes. Uma pesquisa realizada pelo fisiologista do exercício, Dr. Tommy Boone, em 1995, mostrou que o desempenho em um teste de esteira foi igual entre os participantes, tanto após a relação sexual, como quando estes se abstiveram. Um outro estudo mais recente, conduzido por pesquisadores da Suíça, encontrou resultados semelhantes em indivíduos que foram testados em bicicletas ergométricas.

Seria interessante também examinar o dispêndio energético (calórico), em média, de uma relação sexual (sexo com penetração). Dados demonstram que uma relação sexual contínua, sem intervalos, até ao orgasmo pode custar cerca de 250 calorias por hora, ou seja, cerca de 4 calorias por minuto. Mas isso pressupõe uma taxa constante de consumo, ou perda, de calorias, durante um período fixo de uma hora. É pouco provável que meros mortais tenham a habilidade de proceder de tal forma, continuamente, sem intervalos, durante todo esse tempo. Para se ter uma ideia, numa relação sexual um homem leva, em média, entre cinco a dez minutos para atingir o orgasmo. Nesse caso gastaria entre 20 a 40 calorias, o que seria equivalente a subir e descer alguns lances de escadas. É muito improvável que tais dispêndios energéticos, que são insignificantes, possam diminuir o desempenho de um atleta no dia da competição.

Talvez não seja o sexo em si que representa um problema, mas sim todas as atividades sociais que podem acompanhá-lo, como o uso, e muitas vezes o abuso, do álcool, um ambiente de festa, e assim por diante. Em tais circunstâncias, um atleta poderia copular de forma intermitente durante toda a noite, além de beber e consequentemente não ter o tempo suficiente para dormir ou descansar. Tal cenário não é improvável, especialmente para os jogadores que têm fama de ser festeiros e de gostar de uma boa farra. Em tal situação, a atividade sexual, unida às variáveis ​​acima mencionadas, pode tornar-se um fator que prejudica o desempenho do atleta no dia do jogo.

Um técnico de futebol, obviamente, não tem controle sobre a vida de seus jogadores fora das instalações do clube. O assunto em discussão, na maioria das vezes, vem à tona quando uma equipe está alojada na concentração. Dentro dessas circunstâncias, alguns jogadores querem muitas vezes ir para a farra. Uma solução viável para os treinadores seguirem, sempre que uma equipe esteja concentrada durante dias ou semanas em um centro de treinamento ou em um hotel em preparação para um jogo importante, poderia ser a de permitir que os jogadores recebam a visita de suas esposas ou namoradas por um tempo pré-determinado. Diversas seleções nacionais e clubes já utilizam esse modelo. Quando uma partida é disputada fora de casa ou em caso de uma viagem longa, muitas equipes dão até permissão para que as esposas dos jogadores viajem com o time.

O poder que os treinadores têm de gratificar seus jogadores com certas regalias, permitindo, por exemplo, a visita de esposas e namoradas, poderia ser um instrumento poderoso, de barganha, para tirar o melhor proveito desses atletas, nos dias de treino e no dia do jogo. Porém, sujeitar jogadores a um longo período de tempo dentro de uma concentração, longe de familiares e amigos, pode ser uma experiência torturante. Essa ideia já é tão ultrapassada como a crença de que a relação sexual moderada, na noite que antecede o jogo, pode vir a prejudicar o desempenho físico ou esportivo.

 

 

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LONDRES — O norte-americano Dan Pfaff dirige, atualmente, o mais importante centro de treinamento de atletismo do Reino Unido. Foi técnico do ex-recordista mundial e ex-campeão olímpico dos 100 metros rasos, o Canadense Donovan Bailey. Por suas mãos já passaram quatro recordistas mundiais e mais de quarenta atletas olímpicos. Muitos destes, além de outros atletas por ele treinados, disputaram campeonatos mundiais (mais de cinquenta). Veja aqui a entrevista que me foi concedida esta semana com exclusividade:

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Donovan Bailey, à esquerda com Dan Pfaff

 

RICARDO GUERRA: Você acha que o Brasil está preparado para sediar os Jogos Olímpicos de 2016? 

DAN PFAFF: Sempre houve uma tentativa dos países do hemisfério norte em promover e passar a idéia de que países em desenvolvimento não têm a capacidade de sediar esses eventos. É uma mentalidade e atitude colonialista e que vai contra o verdadeiro espírito olímpico. O Brasil é uma das maiores economias do mundo, além de aumentar sua influência política progressivamente no contexto das nações. Tenho ouvido falar muitas coisas boas sobre a presidente Dilma Rousseff e seus objetivos. Eu sinceramente acredito que o Brasil vai conseguir unir as forças necessárias para poder promover esse evento com sucesso.

RICARDO GUERRA: Em que situação se encontra hoje o atletismo brasileiro?

DAN PFAFF: Eu acredito que é um momento muito interessante e eletrizante para todo o país. O Brasil vem construindo uma tradição significativa na história do atletismo mundial, através de momentos marcantes nas principais competições deste esporte. Como poderia alguém esquecer a conquista da medalha de ouro de Joaquim Cruz na Olimpíada de Los Angeles em 1984 ou da quebra do recorde mundial do João Carlos de Oliveira (João do Pulo) no Pan Americano da Cidade do México em 1975? Atualmente, existem alguns atletas em diferentes modalidades que potencialmente podem ganhar medalha na próxima Olimpíada. Muitos desses novos atletas poderão também participar nas Olimpíadas de 2016. O país tem também técnicos de renome no atletismo como Luiz de Oliveira, Elson Miranda de Souza e Nélio Moura.

RICARDO GUERRA: Quais os pontos fortes e fracos do atletismo brasileiro?

DAN PFAFF: O Brasil tem uma vasta população heterogênea, diversificada que poderia ser garimpada e transformada numa geração de atletas de alto nível nas diversas provas do esporte. Na verdade, o país é um celeiro de talentos olímpicos ainda não descobertos. É uma pena que pouco tenha sido feito para achar e desenvolver esses talentos. É realmente lamentável. Uma das razões para isso estar acontecendo é a falta de centros de treinamento de alto nível e de um sistema de apoio necessário para o desenvolvimento de atletas no Brasil. Muitos deles treinam fora do país. Além disso, muitos desses centros de treinamento se encontram em lugares distantes da periferia, dificultando o acesso dessa população. O país também não tem um projeto eficiente nas categorias de base, que seja empenhado no desenvolvimento do esporte nas camadas mais desfavorecidas. As autoridades que comandam o esporte têm que investir mais na formação dos técnicos de atletismo dentro do país, com o objetivo de melhorar as diversas metodologias de treinamento que são utilizadas. Os desafios financeiros para tudo isso poder ser feito são enormes. Tem que haver um entendimento harmonioso entre o setor privado e as forças do governo federal para que os objetivos traçados possam ser alcançados.

RICARDO GUERRA: Que tipo de apoio um atleta de nível internacional necessita para ser bem sucedido?

DAN PFAFF: Um atleta precisa de um técnico competente, com conhecimento profundo das ciências do esporte e que não tenha medo de unir a sua experiencia com a dos fisiologistas do exercício, dos psicólogos do esporte, dos médicos, dos fisioterapeutas e de outros profissionais da medicina esportiva, em prol do desenvolvimento do seu atleta. Boas condições climáticas unidas a excelentes instalações de treinamento também fazem uma enorme diferença. Por fim, acho que um atleta precisa de um grande apoio familiar e de amigos próximos, com o intuito de mantê-lo centrado nos seus objetivos.

RICARDO GUERRA: Na sua opinião, que modalidade faz a integração dos conhecimentos da área da ciência do esporte com mais eficiência?

DAN PFAFF: Eu acho que modalidades onde os resultados são medidos em centésimos de unidades fazem uso da ciência do desporto com mais frequência. Eu diria que o atletismo e a natação são os dois esportes que estão na vanguarda desta prática. Medalhas são obtidas com resultados que diferem, na maioria das vezes, em frações de segundo. Portanto, qualquer vantagem, por menor que seja, pode fazer uma grande diferença. Outros esportes, como o ciclismo, o futebol americano, o levantamento de peso e o remo são conhecidos por assimilarem os conhecimentos dessa área com grande eficiência também. Ser tecnico é arte e ciência ao mesmo tempo. Aqueles que não conseguem entender esse conceito básico vão pagar um alto preço.

RICARDO GUERRA: Atualmente, como você vê as chances do Reino Unido nas próximas Olimpíadas?

DAN PFAFF: Todo o país se encontra muito entusiasmado. O nível de instrução dos diversos técnicos envolvidos na nossa organização é muito elevado. Temos muitos recursos financeiros para poder alcançar os nossos objetivos. O país fez muito nos últimos quatro anos para traçar novas metas e mudar a cultura do atletismo.

RICARDO GUERRA: Quais foram os seus maiores feitos dentro de sua carreira como técnico?

DAN PFAFF: Minha carreira tem sido bem longa e tenho muitas recordações especiais de tudo o que passei. Sou abençoado por todas as experiências que tive, pelos amigos que tenho, pelos atletas com quem tive a oportunidade de trabalhar e por todos os contatos que fiz através do atletismo. Não acho que o ponto mais alto de minha carreira tenha sido quando um atleta meu ganhou uma medalha olímpica ou quando quebrou um recorde mundial. Muitos dos atletas e técnicos com quem trabalhei até hoje, já conseguiram alcançar feitos muitos maiores do que os meus. Quando recebo um cartão de natal de um desses amigos me contando sobre seus sucessos, aí sim recebo o maior presente de todos.

 

 

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Nos últimos 20 anos, o campo da fisiologia do exercício tem avançado significativamente e tem sido capaz de gerar pesquisas importantes relacionadas com o alto desempenho desportivo. Os treinadores de futebol, muitas vezes, quando comparados com técnicos de outros esportes, como o atletismo, o ciclismo ou o futebol americano, não fazem uso dos conhecimentos da fisiologia do exercício com a mesma frequência.

No entanto, seria difícil encontrar uma equipe no Campeonato Inglês, a vitrine do futebol internacional, em que a presença de um fisiologista do exercício ao lado do técnico não seja um fato constante. Muitas seleções internacionais, como as dos Estados Unidos, Austrália, Holanda e Alemanha, conhecidas por um elevado índice de preparação física, dão grande ênfase ao campo da fisiologia do exercício e às mais recentes pesquisas que saem desta disciplina, com a intenção de melhorarem o seu desempenho. Essas equipes, muitas vezes, são conhecidas por jogarem um futebol mais físico, que pressiona os adversários de forma constante.

Fisiologistas do exercício têm um papel muito importante na metodologia de treinamento de um time de futebol e no controle e aumento da capacidade fisiológica dos jogadores através de diversos métodos. Uma das mais importantes armas à disposição de um fisiologista é o conhecimento de como acelerar a recuperação dos jogadores entre as partidas.

Em uma competição como a Copa América, os jogos são disputados um após o outro e a capacidade de recuperação dos jogadores entre uma partida e outra torna-se um fator fundamental para a sobrevivência e sucesso dentro da competição. Este curto espaço de tempo entre as partidas representa um grande problema para seleções que dão pouca atenção ao campo da fisiologia do exercício e, assim sendo, encontram dificuldades com a recuperação entre partidas. Algumas equipes brasileiras que disputam dois campeonatos ao mesmo tempo, como por exemplo a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro, também se deparam com tal situação.

As várias técnicas utilizadas por um fisiologista, com o intuito de acelerar o processo de recuperação dos jogadores, tornam-se ainda mais importantes dentro dessas competições. Está mais do que bem estabelecido que os 50 minutos depois de um jogo são fundamentais para o processo de recuperação dos jogadores. Durante esse período há uma rara oportunidade em que as células dos músculos esqueléticos estão mais sensíveis e suscetíveis a receberem nutrientes vitais que abastecem significativamente os estoques de glicogênio, o combustível armazenado nos músculos. É possível fazer com que os níveis de glicogênio voltem ao normal dentro das 36 horas após uma partida se os jogadores seguirem um regime apropriado de alimentação, se tomarem os suplementos ergogênicos adequados e se tiverem tempo suficiente de repouso.

Podemos traçar um paralelo entre a forma como funcionam os níveis de glicogênio em nossas células musculares e o nível de gasolina em um tanque de um veículo, sendo o glicogênio o equivalente à gasolina de um carro, que fornece a energia necessária para as contrações musculares. 

Picture_Gas_Pump_Ferrari.jpg 

Você pode ter uma Ferrari na garagem de sua casa, mas ela passa a ser inútil como meio de transporte se estiver com o tanque vazio. Do mesmo modo, uma equipe poderia até possuir onze jogadores com as habilidades de um Pelé dentro do campo, mas eles todos passariam a ser inúteis se tivessem baixos níveis de glicogênio em suas células musculares, pois não teriam a energia necessária para se locomoverem com a intensidade devida.

Assim sendo, qualquer equipe que não esteja utilizando essas técnicas estará certamente entrando em campo com uma grande desvantagem. Hoje em dia, no estado acirrado em que o futebol se encontra, são estes pequenos detalhes que fazem a diferença entre uma vitória e uma derrota. A equipe que faz uso de todas as armas disponíveis é possivelmente aquela que irá vencer.

 

 

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Guerra

    Ricardo Guerra é mestre em ciência da fisiologia do esporte pela Liverpool John Moores University. Trabalhou em diversos clubes no Oriente Médio e na Europa e nas seleções nacionais do Egito e do Catar

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